sexta-feira, 16 de maio de 2025

16.05.2025 | Discurso ao Colégio Cardinalício

Eminentíssimos senhores cardeais, não poderia eu, no crepúsculo deste pontificado, às vésperas de encerrar o meu ministério petrino, deixar de me despedir de cada um dos senhores. Faço isso com grande espírito de ação de graças, em primeiro lugar, a Deus. Como aquela jornalista publicou na noite de ontem, é o final do meu décimo pontificado. Não posso deixar de ver nisso um grande sinal da ação de Deus. A ação de Deus na nossa Igreja do Habbo Hotel, mas que também se volta para a minha vida na realidade. Porque, se aqui por tanto tempo pude presidir esta Igreja, como repito ao final de todos os meus pontificados, é para mim também sinal do chamado de Deus a presidir a comunidade cristã na realidade. O ministério presbiteral, para o qual me sinto chamado na realidade e para o qual caminho cada vez mais apressadamente, não será a mesma coisa se não fosse por esta Igreja. Sou grato a Deus, porque aqui posso sempre desenvolver os meus dons no serviço e no espírito de caridade, lidando também com as minhas próprias dificuldades e misérias. Com a nossa Igreja, posso sempre crescer. Assim, também sinto que, em todos estes momentos, e de modo especial neste nosso pontificado de Paulo VI, pude crescer e ajudar a Igreja em seu crescimento. É claro que o conclave na vida real teve uma grande responsabilidade na agitação existente neste momento de nossa Igreja. Por isso, para mim, também foi um momento propício para renunciar. Celebrar convosco a despedida do nosso amado Papa Francisco, para depois passarmos ao início deste grandioso pontificado que será o de Leão XIV. Diante do desânimo, fiz questão de estar o mais presente possível, de acordo com as minhas dificuldades, para caminhar com a Igreja. Dificuldades de tempo, estas que bem sabiam Vossas Eminências no dia em que me elegeram ao Sumo Pontificado. Não posso deixar de dizer, porém, que esse desânimo eclesial também, em diversos momentos, se abateu sobre mim. Para mim, a principal missão deste pontificado era reanimar a Igreja no espírito de Cristo Ressuscitado. E, graças ao laborioso trabalho de Vossas Eminências, isso foi possível. Como dizem os jornais a meu respeito, sou marcado como um homem de estabilidade. E apesar desta estabilidade, se conseguimos promover uma ação evangelizadora melhor, se conseguimos retornar antigos clérigos e, assim, animar a Igreja, promovendo nestes últimos tempos também novas vocações, o caminho sinodal já iniciado tende a ser um grande momento na vida da Igreja. Portanto, desde já, peço ao meu sucessor, que está entre vós, cardeais da Santa Igreja Romana, que tenha uma especial atenção com este Sínodo. Não é o meu nome que será feito a partir deste Sínodo. Pelo contrário, é a própria Igreja que quer crescer a partir do silencioso grito dos seus bispos e cardeais. É a Igreja que quer ouvir aqueles que a presidem, mas também ouvir aqueles que não a presidem e aqueles que dela estão fora. Tenho a firme convicção de que, se bem realizado, este Sínodo pode dar um novo ânimo, sangue novo às veias da nossa Igreja. Por isso, também é momento de valorizar esse sangue novo. Valorizar as novas ideias, as novas iniciativas, repensar tantas coisas que outrora não seriam aceitas. Sei também que não poderia ser eu a fazer isto. Mas há sentimentos, do mais profundo do meu coração, que gostaria que se realizassem e se concretizassem a partir do próximo Sínodo. E, se for para isso acontecer, será pela graça de Deus, na ação do Espírito Santo. Confiemos, portanto, o governo da Igreja ao Divino Espírito, e Ele não nos deixará desamparados. Neste Jubileu da Esperança, enchamos o nosso coração de esperança, reconhecendo que, sim, nossa Igreja tem um jeito. Há um futuro. Este não é o final. Há ainda uma grande trajetória a ser feita phor nós, pelos nossos membros, pelos nossos atuais e futuros clérigos. Nunca será momento de desistir da nossa Igreja,até o dia em que o Habbo Hotel deixar de existir. Até lá, sempre haverá uma Igreja: uma Igreja que ora se reduzirá a poucos, ora será uma grande Igreja; uma Igreja que ora será fiel, ora será infiel à missão dada pelo Divino Redentor; uma Igreja, ora animada, ora fechada à ação de Deus; uma Igreja, enfim, que ora amará, ora não amará. Mas uma Igreja que não deixará de existir.

Caros Dom N., N., 

muito obrigado, porque, se não desistimos da Igreja, também é por obra vossa. Muito obrigado, porque sem o vosso trabalho nada teria sido possível. Obrigado por fazerem valer cada puxão de orelha — e por me darem puxões de orelha. Obrigado pela vossa amizade. Obrigado, não apenas por me permitirem presidir mais uma vez esta Igreja, mas por me fazerem viver, neste pontificado, a intensidade do amor a Deus e aos irmãos e irmãs. Muito, muito, muito obrigado.

quinta-feira, 15 de maio de 2025

15.05.2025 | Ação de graças pelo Pontificado

Amados irmãos e irmãs, estamos celebrando esta Celebração Eucarística em ação de graças por este nosso pontificado que se concluirá no sábado. Nesta Eucaristia, faço da minha voz um brado de gratidão ao Senhor, que nos permitiu chegar até aqui; das minhas mãos erguidas, um louvor ao eterno Deus; do meu coração, mais uma vez inflamado de amor por voz, um sacrifício de ação de graças. No Evangelho que acabamos de ouvir, Jesus nos recorda que o servo é menor que o senhor, o mensageiro, menor do que quem o enviou. Todos nós somos enviados por Jesus. Somos menores do que ele, mas, ao mesmo tempo, quem nos recebe, recebe o próprio Cristo. Mas, como nos ensinou o Divino Redentor, somos felizes se em nossa vida soubermos por em prática a nossa pequenez, se soubermos sermos os menores. Enquanto muitas vezes tendemos a nos gloriarmos por sermos enviados por Deus, por sermos discípulos, apóstolos de Cristo, na verdade, deveríamos encontrar nisso o motivo da nossa diminuição. Quando São Francisco e Frei Leão conversavam sobre a perfeita alegria, o pobrezinho de Assis reconhece que a perfeita alegria não está na pregação realizada, nem em levar por obras os outros a Jesus, nem em realizar curas, milagres ou ressurreições, nem em falar todas as línguas, mesmo a dos anjos. E se em uma noite de neve chegarem ao mosteiro e o porteiro não acreditar que eles eram Francisco e Leão e recusar sua entrada, e, diante de sua insistência de entrar, o porteiro sair para fora e espancá-los e deixá-los lá, abandonados na neve, depois de apanhar, com frio e fome e eles reconhecerem que estão unidos ao Cristo sofredor, vencerem a si mesmos e mantiverem a paz e a alegria diante disso tudo, esta é a perfeita alegria. Que alegria, que felicidade tão diferente daquela que nossa lógica está habituada. Que felicidade é esta que não vem da glória, mas, da diminuição, da dor? Amados irmãos e irmãs, Jesus nos dá este conselho depois de lavar os pés dos discípulos. Ele próprio tinha feito sua diminuição, seu rebaixamento, sua Kenosis que culminaria na Cruz. O evangelista João precisava ter colocado ali esta fala de Jesus, pois apenas ali ela faz sentido. Mesmo com todas as dificuldades, com o medo, sentindo nossas dores, Cristo se fez o servo obediente, e nos enviou para sermos servos. No final deste meu pontificado, preciso eu mesmo bater no peito e reconhecer a minha culpa por tantas vezes não ter sido o servo dos servos de Deus que deveria ter sido. Devo me fazer, também, grato. Grato a todos aqueles que de um modo ou de outro colaboraram com meu ministério e com toda a Igreja seja pela realização dos próprios ofícios ou pela corresponsabilidade assumida e vivida para que nossa Igreja seja a Igreja semper reformanda que tanto desejamos. Quando iniciamos este pontificado, o Colégio Cardinalício me entregou algumas situações especiais que sinto que conseguimos dar passos significativos. Passos estes que não me gloriam, mas, glorificam a Deus e que são de responsabilidade de todos aqueles que comigo assumiram a necessária ministerialidade da Igreja com a maturidade que nos era necessária. Decidi escolher o nome de Paulo VI por causa do grande São Paulo VI, o papa que concluiu o Concílio Vaticano II e o levou a cabo, aplicando-o na Igreja. Mas, na figura de Paulo VI, algo que também me marca profundamente: o amor pela Igreja. Amados irmãos e irmãs, membros desta nossa Igreja Habbiana, precisamos ser homens e mulheres apaixonados pela Igreja. Enquanto há os grandes críticos, que só aparecem para causar confusão, existem no nosso meio grandes pessoas que fazem da sua paixão pela nossa comunidade virtual um dom para o crescimento do nosso apostolado, e pelas quais devemos louvar a Deus. Acredito que os processos iniciados neste período continuarão com afinco, de modo especial o Sínodo para os Bispos, que pretende ser um profundo momento de mudança de paradigmas para nossa Igreja. Não tenho medo de deixar ao meu sucessor a presidência deste sínodo, pois sei que os apelos que crescem dentro da nossa comunidade não serão de modo algum abafados e que é necessário escutar a voz do Espírito, os sinais dos tempos, que urgem na Igreja. Confio, acima de tudo, que tudo o que fizemos e tudo aquilo que se realizará, a obra de Deus, não me pertence. Fui apenas um enviado, um apóstolo, para uma missão petrina na Igreja por este período que pude exercê-lo convosco. Com todo o meu amor por esta Igreja e reconhecimento da minha pequenez diante da grande missão que me foi confiada, não posso deixar de parafrasear Jó e dizer: enhor, meus ouvidos tinham ouvido falar de vós, mas, pela vossa generosa ação na minha vida, e, por minha vida, na vossa Igreja, meus olhos podem te ver! Obrigado, Senhor! Muito, muito obrigado, Senhor! Muito obrigado a todos!

quarta-feira, 14 de maio de 2025

14.05.2025 | Festa de São Matias

Amados irmãos e irmãs, estamos celebrando a festa de São Matias, Apóstolo. São Matias fala muito a todos nós, pois não era do colégio primordial dos doze, mas pela graça de Deus, foi inserido neste. Era um daqueles que acompanhava Jesus pelos caminhos, era discípulo. E, de discípulo, torna-se, um dos doze, no lugar de Judas Iscariotes. Sua escolha acontece após uma oração e um sorteio. José, o que, digamos, concorria com Matias, era chamado de justo. Mas, Matias, era apenas Matias. Com certeza, tinha ele suas qualidades para estar neste lugar de poder ser um dos escolhidos. Mas, importa-nos aqui este sentido da eleição de Deus, que tantas vezes escolhe aquilo que não somos capazes de compreender. Quantas vezes em nossas vidas, iniciamos uma oração já cientes exatamente do que queremos que Deus faça e não permitimos que ele faça a vontade dele. E, se somos assim na oração, muito mais o somos no discernimento da própria vocacional. O último domingo foi o dia mundial de oração pelas vocações. Quando entendemos vocação apenas como um chamado de Deus para um ministério específico, esvaziamos o seu significado. A vocação é eleição de Deus e é também resposta nossa. É nossa resposta generosa ao chamado de Deus, que vem de um processo de discernimento e amadurecimento, processo feito de sins e de nãos. O primeiro chamado de Deus é ao amor. A amarmos e permanecermos no seu amor, vivendo no amor. Ele que nos chama de amigos e não de servos, nos chama ao amor. Ele nos escolheu, nos elegeu, em primeiro lugar, para amar. Nosso fruto é fruto de amor. Amor que é em primeiro lugar a Ele; amor a nós próprios; amor aos irmãos e irmãs. Amor, depois, que pode ser ou esponsal, ou sacerdotal, ou na vida religiosa, ou nas mais diversas consagrações. O que mais importa não é onde e como viveremos este amor, mas, que vivamos este amor, que nossa resposta vocacional seja um transbordamento de amor. São Matias, uma vez associado ao colégio apostólico fez da sua vida um dom de amor para todos os outros. A vocação não é simplesmente discernir onde Deus nos quer. Ele nos quer amando. Nos quer felizes e realizados. Para discernir a própria vocação nós cada um de nós deve se perguntar: onde melhor correspondo ou corresponderei ao amor de Deus?

terça-feira, 13 de maio de 2025

13.05.2025 | Nossa Senhora de Fátima

Amados irmãos e irmãs, estamos celebrando nesta Basílica a Solenidade de sua padroeira, a Bem-Aventurada Virgem Maria de Fátima. Quero saudar o eminentíssimo reitor, Dom Raul Gabriel Cardeal Steiner e em seu nome saudar a todos os que estão aqui presentes. A Santíssima Virgem de Fátima é uma das aparições marianas que mais atraiu devoções ao longo do último século. Atraiu nossos olhares porque está envolta por uma dinâmica de revelação, aparição, mistério e segredos. Mistério este, revelado aos pequeninos, aos pastorinhos, e hoje revelado a todos os que se fazem como crianças, que se colocam com um coração pequeno e humilde diante da grandeza dos mistérios de Deus. Aquela Senhora, vestida de branco, radiante de luz, está preocupada com o gênero humano e trás uma mensagem ao mesmo tempo de dor e de esperança. E, se logo todos queriam ver e contemplar esta Senhora que as crianças falavam, e iam com elas até o encontro de Maria, Maria lhes dá um sinal. Mas, o maior sinal que dá não é aquele realizado nos fenômenos como a dança do sol. Este sinal era para apontar para um outro sinal: "Eu sou a Senhora do Rosário". O sinal, a contemplação a ser feita deste Deus que se revela, se faz por meio da oração. O rosário ou o terço, são orações singulares de contemplação da Igreja latina. Não podem ser diminuídos como mera expressão de uma comunidade de analfabetos que não podiam rezar os salmos, mas, torna-se verdadeiro ato contemplativo do mistério de Deus por meio da suave repetição de Aves-Marias. E o pedido da Virgem Maria continua desde aqueles tempos até hoje para nós: rezai, rezai pela humanidade. Amados irmãos e irmãs, é de muitíssimo valor a vida ativa, a ação social, pastoral, evangelizadora. Mas, se nossa prática cristã não for embasada numa vida de profunda oração, torna-se outra coisa, e não vida cristã. Cristo antecedia sua ação ministerial por momentos de oração. E, na sua despedida, rezou por todos os seus discípulos e por cada um de nós, na grande oração sacerdotal. Do mesmo modo, se vivermos uma vida de oração que não se resulta na prática do Evangelho no dia a dia, temos uma fé morta, falsa, fingida. Amados irmãos e irmãs, olhemos à Virgem do Rosário de Fátima, em sua serena preocupação, e aprendamos dela a fazermos da nossa vida uma oração e da nossa oração uma intercessão por toda a humanidade, que ainda se recusa a conhecer a Deus, que não entende a obra de Cristo, que não permite que o Espírito Santo transforme o nosso mundo num reino de paz.

domingo, 11 de maio de 2025

11.05.2025 | IV Domingo da Páscoa

Amados irmãos e irmãs, estamos celebrando o Quarto Domingo da Páscoa, o Domingo do Bom Pastor. A cada ano a Igreja nos convida a refletirmos uma parte do décimo capítulo do Evangelho de São João. Neste ano, especificadamente, ouvimos a última parte, sobre ouvir a voz do Bom Pastor e a relação de Jesus com o Pai. Interessante percebermos que a Liturgia deste domingo vive uma tensão entre Jesus como o Bom Pastor e Jesus como o Cordeiro. Justamente, a segunda leitura, do livro do Apocalipse, trata Jesus como o Cordeiro sentado no Trono. Então somos capazes de compreender que Ele só é o Bom Pastor, porque antes foi o Cordeiro. Só é o Bom Pastor porque antes soube ouvir e confiar-se nas mãos do Pai. Seguiu de tal modo a voz do Pai, a bondade do Pai em sua vida, que foi obediente até a morte e morte de cruz. E, por isso, também, ressuscitou no Pai e no Espírito Santo. Assim, Cristo se fez o Bom Pastor, porque ele próprio soube ser ovelha. Porque foi ovelha, cordeiro, de tal modo, que atingiu a plenitude de ser o nosso Bom Pastor. É o nosso exemplo. Jesus Cristo é o paradigma para todo ser humano. Portanto, também nós somos convidados nesta noite a sermos ovelhas e pastores. Ovelhas na medida em que ouvimos a voz do Bom Pastor. Ouvimos sua voz na Palavra proclamada, nos irmãos e irmãs e na voz da nossa consciência. O problema, é que muitas vezes a voz do Bom Pastor é silenciada em nosso coração pelas nossas vontades, pela nossa própria voz, que deseja algo diferente do que deseja para nós o Bom Pastor. Aí, precisamos saber discernir o que é voz de Deus e o que é nossa voz, a voz das nossas paixões, a voz dos nossos desejos mais íntimos. Se não quisermos ouvir a voz de Deus, acontecerá conosco como com a comunidade dos judeus da primeira leitura, nos Atos dos Apóstolos. De tal modo eles se fecharam a ouvir a voz de Deus por meio dos Apóstolos que lhes anunciava Jesus Cristo, que este anúncio passou a ser feito aos pagãos. E, os pagãos, acolheram com alegria da Palavra de Deus. Se não ouvirmos, se abafarmos a voz de Deus, chegará um ponto que não mais escutaremos. Amados irmãos e irmãs, ouvir a voz de Deus nas nossas vidas é chave para que, a exemplo do Bom Pastor, sejamos pastores para os irmãos e irmãs. Pastores como facilitares do caminho para Deus. Não pastores por conta de um ministério ordenado. Mas, pastores pelo compromisso cristão, de sermos protagonistas de Jesus Cristo no mundo que vivemos e que tantas vezes se recusa a ouvir Deus que fala. Sejamos, pois, ovelhas e pastores, à imagem de Cristo, o Cordeiro de Deus, o Bom e Belo Pastor que nos precede na eternidade e para lá nos conduz: a vida eterna.

quinta-feira, 8 de maio de 2025

08.05.2025 | Santa Missa pelo Papa Leão XIV

Amados irmãos e irmãs, hoje, Pedro se levantou novamente para governar a sua Igreja, com docilidade e amor, sob o nome de Leão. Um papa ainda jovem que na sacada de São Pedro se emociona para nos desejar a paz. A paz como dom do Ressuscitado, "desarmada e desarmante, humilde e perseverante". É Cristo que faz da sua Igreja um dom da paz, da caridade, em espírito sinodal e de proximidade com os sofredores. É Cristo que hoje entrega a Leão as chaves de sua Igreja, para que, sucessor de Pedro, possa presidir a Igreja na caridade. Hoje, amados irmãos e irmãs, Leão mostrou que a força que carrega este nome não é símbolo apenas de firmeza, mas, também,  de sensibilidade. Sensibilidade num pastor emocionado. Sensibilidade social, abertura ao mundo e fidelidade à tradição, parecem já ser para nós alguns dos traços do nosso já amado Papa Leão. Nós, como Igreja do Habbo Hotel, somos muito mais, fora de nossas telas, membros da Igreja de Cristo que subsiste na Igreja Católica. Por isso, como Igreja do Habbo Hotel, também, celebramos e nos rejubilamos com a eleição daquele que será para nós o doce Cristo na Terra, o Vigário de Cristo, nosso papa Leão XIV. Que ele seja o sinal de comunhão que nossa Igreja tanto necessita, como arauto da paz e construtor de pontes, inclusive dentro da Igreja. Que Leão XIV viva tanto ou mais que Pedro!

quarta-feira, 7 de maio de 2025

07.05.2025 | Declaratio

Fratres dilectissimi, hac nocte vos convocavi ut quaedam negotia ordinaria ad vitam cleri nostri pertinentia tractaremus. Sed etiam volo vobis nuntiare consilium magni ponderis ad prosecutionem missionis nostrae ecclesialis spectans. Cum eminentiae vestrae mihi imposuerint munus Summi Pontificis die decimo septimo mensis Martii, recusare non potui. In voluntate eminentissimorum mihi clare apparuit quid agere deberem: Ecclesiam scilicet dirigere et adiuvare ut animum suum, fortitudinem, voluntatem exsistendi, spem suam, in Christo Iesu rursus inveniret. Hac mente, hoc munus cum responsabilitate et liberalitate suscepi. Tamen, ab initio conscius eram limitum virium mearum. Hae vires ita in me decrescentes sunt hisce temporibus, ut iam non liceat mihi navem Sancti Petri gubernare. Quam ob rem, bene conscius gravitatis actus mei, et post accuratam conscientiae meae considerationem, voluntarie declaro me renuntiare Cathedrae Sancti Petri, oneri successoris Gregorii XVII, officio Episcopi Romae, ita ut Sedes vacet die decimo septimo huius mensis Maii anni Iubilaris bis millesimi vicesimi quinti, hora nona ante meridiem, atque conclave a competenti auctoritate convocandum sit. Exspectavi nonnullos dies, ne Sedes nostra vacaret simul cum Vacantia Sede in rerum veritate; attamen intellexi tempus iam esse opportunum ad hoc faciendum. Quod ad me attinet, finito hoc pontificatu, redibo in Collegium Cardinalitium secundum iuris normas. Gratias ago omnibus qui me per hos hebdomades ministerii Petrini consiliis et operibus suis adiuvaverunt, ut novum impulsum nostrae actioni ecclesiali dare possemus. Deum Bonum rogo ut semper in infirmitatibus nostris adesse dignetur, ut opus quod ipsius est prosequi possimus. Ipsi laus et gloria in saecula saeculorum. Amen.

Amados irmãos, nesta noite que vos convoquei para tratarmos sobre algumas questões ordinárias para a vida do nosso clero, quero também anunciar-vos uma decisão de suma importância para o prosseguimento de nossa missão eclesial. Quando vossas eminências me impuseram a missão de ser o Sumo Pontífice em dezessete de março não podia recusar. No desejo dos ementíssimos tornou-se claro para mim o que eu deveria fazer, isto é, guiar a Igreja e ajuda-la a reencontrar seu ânimo, sua força e vontade de existir, sua esperança, isso tudo em Cristo Jesus. Assim, abracei com responsabilidade e generosidade essa missão. Porém, desde o primeiro momento soube os limites de minhas forças. São estas que vem diminuido em mim de tal modo nos últimos tempos, que não permitem mais que seja eu a presidir a barca de São Pedro. Por isso, bem consciente da gravidade do meu ato, e após analisar a minha consciência, de livre vontade, declaro que renuncio a Cátedra de São Pedro, o encargo de sucessor de Gregório XVII, o ofício de Bispo de Roma, de modo que a Sé ficará vacante aos dezessete dias do corrente mês de maio deste ano Jubilar de dois mil e vinte e cinco às nove horas da manhã e um conclave deverá ser convocado pelas autoridades competentes. Aguardei alguns dias, para que nossa sé não ficasse vacante durante a Sé Vacante da realidade, porém, entendo que o tempo já é suficiente para que possa realizar este ato. Quanto a mim, quando findar este pontificado, reingresso ao Colégio Cardinalício de acordo com as normas do direito. Agradeço a todos aqueles que me auxiliaram ao longo destas semanas de ministério petrino, com os conselhos e o próprio serviço, possibilitaram que pudessemos dar um novo impulso à nossa ação eclesial. Peço ao Bom Deus que sempre venha em socorro da nossa fraqueza humana para continuar esta obra que lhe pertence. A Ele, louvor e glória pelos séculos dos séculos. Amém.

terça-feira, 6 de maio de 2025

06.05.2025 | Missa Tradicional

Amados irmãos e irmãs, no dia de ontem, a liturgia tradicional da Igreja celebrou São Pio V. Por isso, quisemos neste dia celebrar, conforme a liturgia tradicional, a sua memória. Este momento é um momento de singular comunhão da Igreja, uma Igreja que manifesta, na variedade de suas formas, a grande riqueza do seu tesouro. De fato, Pio V muitas vezes é associado ao Concílio de Trento, mas o Concílio encerrou-se antes do início de seu pontificado. Pio V, na verdade, foi o Papa que fez com que o Concílio fosse aplicado. Num contexto de muita dificuldade para a Igreja, foi ele quem, por meio de muita oração e jejum, conseguiu a graça de levar adiante a obra de Cristo em sua Igreja. Não obstante, Pio V foi um homem de seu tempo. Julgá-lo a partir de nossos critérios é um anacronismo totalmente equivocado. Na verdade, o que destaca para nós hoje a figura de São Pio V é a de um homem humilde. E para nós, esta celebração é momento de refletirmos também sobre o futuro da nossa Igreja Católica. Neste dia, rezamos para que o partidarismo dentro da Igreja, que tantas vezes volta a ideologias, não seja o fator que defina a escolha sobre o nosso futuro Romano Pontífice. Pelo contrário, que, independente de quem for eleito, nós tenhamos um bom Papa, imagem do Cristo, Bom Pastor, que deu a sua vida pelas ovelhas. O novo Papa carregará não apenas a missão de ser sucessor de Francisco, mas, muito maior do que esta, a missão de ser sucessor de Pedro. E, como sucessor de Pedro, deverá ligar e desligar conforme for necessário, atento aos sinais dos nossos tempos. Que seja um homem de comunhão: que esteja em comunhão com Deus e que gere comunhão entre nós. Numa Igreja tantas vezes marcada pela mazela da divisão, que o nosso novo Pontífice seja sinal da unidade sob Pedro e com Pedro.

domingo, 4 de maio de 2025

04.05.2025 | III Domingo da Páscoa

Amados irmãos e irmãs, estamos celebrando o Terceiro Domingo da Páscoa. Este Tempo Pascal é um tempo de vivenciarmos a nossa renovação espiritual, vivenciarmos o encontro com o Ressuscitado. O vigésimo primeiro capítulo de São João que hoje ouvimos é um apêndice à obra joanina, que destaca a experiência da comunidade de João com Jesus Cristo. Experiência esta que se dá na pesca. O chamado de Pedro a seguir Jesus no Evangelho de São Lucas havia sido uma pesca milagrosa. Hoje, Jesus leva Pedro de volta a esta cena original. Pedro que o havia negado três vezes, voltara a pescar. Ele estava despido e reconhece o Senhor. Colocar novamente a roupa é preparar-se de novo para seguir a Jesus. Pedro que estava despido das vestes de discípulos, atira-se no mar. Pedro faz a experiência de um novo batismo nas águas do Tiberíades. E, logo sai purificado dessas águas, é chamado a cear com Jesus, que repete os gestos Eucarísticos com o pão e o peixe, que no tempo da escrita deste Evangelho já era o símbolo de Jesus Cristo. Mas, São João não cessa aí a narrativa. Se, depois da Última Ceia, Pedro negou Jesus, agora, Pedro reconciliado, professa mais uma vez o seu amor por Jesus. Mas, há uma consequência deste amor: deixar que outros te cinjam e te levem para onde não queres ir. Seguir a Jesus Cristo, amados irmãos e irmãs, é uma experiência sempre pascal. Nossa vida é vivida na tensão das nossas fidelidades e infidelidades, dos nossos pecados e dos nossos acertos, dos nossos "nem conheço este homem" e nossos "Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que eu te amo.". Esta experiência verdadeira com Jesus levou os apóstolos recebessem os açoites por falarem de Jesus e se felicitarem por isso, por terem sido injuriados. Não felizes num masoquismo, mas, felizes, porque viram frutificar em sua vida o testemunho do amor do Senhor. Viveremos, amados irmãos e irmãs, nesta tensão que eu dizia até o dia que fizermos parte daqueles milhões que proclamam na Eternidade a glória do Cordeiro de Deus. A vida do cristão precisa ser sempre renovada espiritualmente na experiência Pascal de Cristo Ressuscitado, senão esmoreceremos na fé. Com a celebração anual da Páscoa, queremos fazer os nossos corações arderem neste desejo de transformar cada "não" a Deus em "sim", com a firme convicção de que com sua graça Ele nos livrará de todo mal, de todo pecado, de toda infidelidade e de todo desamor. Atiremo-nos, pois, irmãos e irmãs, no mar da vida, e diante de todos os riscos que nos são impostos, possamos ir até o Senhor que hoje nos alcança com seu amor.

domingo, 27 de abril de 2025

27.04.2025 | II Domingo da Páscoa em Sufrágio do Papa Francisco

Eminentíssimo Dom Gregório D'Aniello Cardeal Baldisseri, Arcipreste desta Basílica Liberiana, amados irmãos e irmãs, estamos celebrando o segundo domingo da Páscoa, festa da Divina Misericórdia, encerrando a Oitava Pascal com esta Santa Missa em sufrágio do nosso amado Papa Francisco. Oprimeiro dom dado pelo Ressuscitado aos seus é o dom da paz. No Evangelho que ouvimos, devemos ter uma clara imagem do que acontecia com os apóstolos: na mente deles permanecia a imagem de Jesus crucificado. Por isso, eles tinham medo, medo de que o mesmo acontecesse com eles. Mas Jesus ressuscitado entra no meio deles e lhes dá a paz. Como é difícil, em nossos tempos, onde vivemos sempre na ansiedade, na pressa, na autocobrança, vivermos a paz! O mundo parece querer viver numa velocidade muito rápida, na qual nós não damos conta de acompanhar. Por isso, Jesus nos deixa a paz. Mas só quem faz a experiência de Jesus ressuscitado consegue viver esta paz de Jesus. Quando Tomé faz a experiência do Ressuscitado, é capaz de fazer sua profissão de fé: "Meu Senhor e meu Deus." Não foi Tomé quem precisou tocar em Jesus, foi Jesus quem precisou tocar em Tomé. O toque de Jesus na vida de Tomé foi a paz. Se não aprendermos a ter momentos de intimidade, de paz com o Senhor, de fecharmos os olhos e nos colocarmos na presença dele, viveremos uma vida de muita correria, em busca de algo que nunca encontraremos. Porque a alegria que procuramos está dada como dom na paz do Ressuscitado.
Nestes dias, um dos grandes símbolos da paz em nossos tempos fez a sua Páscoa com Cristo. Hoje, nós o colocamos nas mãos de Deus, com a firme convicção de que Jesus Cristo, que tem a chave da morte e que vive para sempre, acolhe também o seu servo Papa Francisco nas moradas eternas. Papa Francisco foi um grande construtor da paz. Ele nos ensinou que a paz é um processo artesanal. Ensinou-nos que as grandes coisas não acontecem de um dia para o outro, mas a partir de processos que devem ser iniciados. Mostrou-nos que o rosto de Deus é misericórdia. Fez a Igreja refletir sobre as fragilidades do próprio corpo eclesial. O caminho aberto por Bento XVI, que desejava uma reforma na Igreja, pôde ser trilhado pelo Papa Francisco. Mas, como sempre, onde há movimentação do Espírito Santo, gera-se certa desarmonia. Nem todos estavam prontos, ou melhor, muito poucos estavam prontos para o que Francisco foi na nossa Igreja. Enquanto para muitos Papa Francisco simbolizava a destruição do símbolo do papado, na verdade ele nos mostra que há muitos modos de ser Igreja. Não podemos, amados irmãos e irmãs, neste momento de dor e sofrimento, querer ficar colocando na balança este ou aquele Papa. Devemos rezar com convicção por este nosso Papa Francisco, que passa para junto do Pai. Sem dúvidas, muito em breve a Igreja verá também Papa Francisco sendo venerado sobre os altares. Sim, porque em nossos tempos, se era verdade o que dizia Karl Rahner, que no século XXI o cristão ou seria místico ou não seria cristão, também é verdade que, em nossos tempos, o Papa ou será santo ou não conseguirá guiar a Igreja. Ao mesmo tempo em que pedimos que Deus acolha o seu servo Francisco, pedimos humildemente que nos conceda outro homem de coração disponível e aberto, que guie, na realidade, a Igreja de Cristo rumo à Pátria definitiva, onde todos os santos Papas e toda a Igreja celeste nos encontraremos no Senhor Jesus, vencedor da morte.

quinta-feira, 24 de abril de 2025

24.04.2025 | Abertura do Caminho Sinodal

Eminentíssimos Dom Raul Gabriel Cardeal Steiner, Secretário geral do sínodo dos Bispos, Dom Felipe Cardeal Sampaio, Relator geral do sínodo, eminetíssimos senhores cardeais, excelentíssimos senhores bispos, amados irmãos e irmãs, nós estamos aqui reunidos nesta Quinta-feira da Oitava da Páscoa para iniciarmos nosso caminho sinodal rumo ao décimo terceiro sínodo geral dos Bispos, que se realizará em julho deste ano. Quis convocar para o sínodo deste ano um caminho preparatório. A imagem da Igreja da realidade e do sínodo dos últimos anos, quis que fossemos capazes de realizar um longo processo de escuta e de diálogo, para chegarmos a decisões maduras sobre o futuro de nossa Igreja. Mas, nenhum futuro ocorre sem base num passado. Diante do Ressuscitado, os discípulos do Evangelho de Lucas que acabamos de ouvir sentem medo. O medo é algo que nos estagna, nos torna inertes mediante a nova realidade que se impõe diante dos nossos olhos. Nossa Igreja não pode, amados irmãos, permanecer presa pelo medo. Não podemos deixar de correr riscos olhando para os fantasmas do passado. Precisamos ter coragem de correr os mesmos riscos, talvez até cometer os mesmos erros. E, quando Jesus Ressuscitado se revela aos discípulos os convida a olhar suas mãos e seus pés. Nas marcas do sofrimento e da cruz, Jesus revela que era ele mesmo. Porque, por mais que não possamos nos apegar ao passado, não podemos esquecê-lo. O Ressuscitado trás as marcas da cruz, porque são marcas de uma história de amor. Amor, amados irmãos, não é meramente um tema para quando não temos o que falar. Deus é amor. O amor deixa marcas profundas. O amor precisa marcar profundamente a nossa Igreja. As chagas da nossa história, precisam ser vistas phor nós como marcas de amor. O sofrimento e a dor do presente momento, onde lidamos com a baixa do Hotel, não pode ser motivo do nosso desânimo definitivo. Por isso este sínodo. Porque não é momento de desistir, mas, sim, de encontrar um novo jeito de ser Igreja. Diante de uma tendência que cresce dentro de nossa Igreja, quero conclama-los a amar a Igreja e persistirem nela. Enquanto alguns cismáticos já anunciam o fim da Igreja, eu vos anuncio diferente: persistiremos em Cristo Jesus, trazendo as marcas da Paixão na Ressurreição, mesmo que nos reduzamos aos poucos. E mesmo se nos reduzirmos a quase ninguém, amados irmãos, tenho certeza que seremos muito maiores do que qualquer outros pela qualidade e comprometimento dos nossos membros. É hora de abrirmos os nossos olhos para reconhecermos o futuro que está diante dos nossos olhos, que é momento de continuarmos no testemunho de Jesus. O reconhecimento de sermos povo sacerdotal neste sínodo será para todos nós um especial momento de reencontrarmos nossa vocação como oferecedores do sacrifício de louvor da nossa própria vida, como pregadores da Palavra de Deus e anunciadores de um amor capaz de vencer a própria morte. Enquanto há dois anos e meio, no último sínodo, falávamos de renovação eclesial, parece que esta renovação ainda não aconteceu. O tempo passado desde então trouxe-nos novos desafios que precisam ser refletidos. Mas, este sínodo também terá de ter os pés no chão. Ele exigirá de nós propormos algo que teremos o compromisso de concretizar logo. Tenho consciência, amados irmãos, que dado o tempo que levará até a realização deste sínodo provavelmente não serei eu a presidi-lo. Porém, permaneço convicto e cheio de esperança de que nele nós todos poderemos nos renovar como povo sacerdotal e fazer da nossa Igreja um reino de sacerdotes capazes de exercer verdadeiramente o próprio ministério. Confio que o Divino Espírito Santo, sob a intercessão da Bem-Aventurada Virgem Maria, de São José, dos Apóstolos Pedro e Paulo, de Santa Maria Madalena, nossa padroeira, conduzirá nosso caminho sinodal rumo a consciência da nossa missão sacerdotal e eclesial, no testemunho de Jesus Cristo, atentos aos sinais dos tempos, rumo a um novo tempo na nossa comunidade do Habbo Hotel.

quarta-feira, 23 de abril de 2025

23.04.2025 | Consistório Ordinário Público

Amados irmãos e irmãs, nós estamos reunidos nesta Quarta-feira da Oitava da Páscoa para este Consistório no qual iremos promover Dom Felipe Sampaio ao cardinalato. O Evangelho que ouvimos, próprio deste dia, coloca-nos na perspectiva do encontro com o Ressuscitado. Nesta noite, parece-nos oportuno meditar sobre estes dois discípulos de Emaús, que falam a Dom Felipe e a todos nós aqui reunidos. Porque não é possível seguir a Jesus Cristo sem antes fazer um encontro com ele Ressuscitado. Os discípulos caminham na tristeza e na desesperança mesmo diante do túmulo vazio. Falam de modo especial a todos nós que sabemos e até cremos na Ressurreição de Cristo, e mesmo assim deixamos que nosso coração se encha de desesperança. A desesperança, caros irmãos e irmãs, mata qualquer discipulado e apostolado. Vivemos em tempos inevitavelmente difíceis para a Igreja. Mas, uma Igreja que diante destes desafios permite que vaze a esperança e permaneça a ausência, na verdade revela que ainda estamos presos na visão do sepulcro. E, sequer o sepulcro vazio, mas, talvez, dele fechado. Os discípulos ficam sabendo do que estavam acontecendo, mas possivelmente não foram lá pessoalmente ver o que estava acontecendo. Não foram, talvez, por preguiça. Não foram, talvez, porque não estavam prontos. E, no caminho, deparam-se com Jesus, mas, não conseguem vê-lo. Este episódio é incrivelmente eclesiástico. Porque os cristãos eram chamados como aqueles que pertenciam ao Caminho. E é no caminho que o encontro acontece. Acontece quando os discípulos estão ali, quase desistindo. Jesus vem, explica a Palavra e ceia com eles. Jesus os dá novamente a esperança, a força e a coragem de voltar para onde estão os outros membros da comunidade. Amados irmãos e irmãs, amado Dom Felipe, quando pensarmos em desistir, quando não vermos mais sentido para nada, olhemos para Jesus. Olhemos e vejamos nele, de fato, o sentido do que realizamos. Quando aprendermos a fazer isso, não haverá desesperança, medo ou falta de coragem de continuar o discipulado, o apostolado. Aprendamos a no caminho, mesmo nos momentos difíceis e dolorosos do caminho, e reconhecermos Jesus Ressuscitado que caminha conosco e nos faz comunidade pascal, sempre viva nele. 

terça-feira, 22 de abril de 2025

22.04.2025 | Terça-feira da Oitava Pascal

Eminentíssimo Dom Erlei Cardeal Forgione, arcebispo metropolitano desta Arquidiocese de Aparecida, amados irmãos e irmãs, estamos reunidos nesta terça-feira da Oitava da Páscoa para celebrarmos a elevação desta Igreja à categoria de Arquidiocese Metropolitana. "Transborda em toda a terra a bondade do Senhor." Diante deste canto do salmista, podemos refletir toda a liturgia desta terça-feira. O transbordamento da graça de Deus aconteceu na vida de Maria Madalena, quando ela foi a primeira a ver Jesus ressuscitado. O transbordamento da bondade de Deus acontece em nossas vidas pelo batismo. Pedro, na primeira leitura, está anunciando Jesus Cristo e, diante da conversão daqueles que queriam seguir a Jesus Cristo, propõe-lhes o batismo. De fato, este tempo pascal é profundamente batismal, porque no batismo nós somos mergulhados na morte com Cristo, para vivermos com Ele uma vida nova. Algo muito importante do nosso batismo é o nosso nome. No batismo, nós inscrevemos os nossos nomes nas fileiras dos membros da Igreja. No Evangelho que ouvimos, o próprio Ressuscitado chama Maria pelo nome. Ela, que olhava para o vazio do sepulcro, chorando, pensa estar falando com o jardineiro. Quando Jesus a chama de "mulher", ela não o reconhece. Mas o reconhece logo que Ele a chama: "Maria". Ali, ela entende que Ele era o Mestre Ressuscitado. Ao chamar-lhe pelo nome, Jesus lembra a Maria que ela é filha amada. Deus não nos vê como uma massa de pessoas, de filhos e filhas. Nos vê, a cada um, como pessoas. Nos chama pelo nome e nos dá dignidade. Não somos desconhecidos para Deus. Lhe pertencemos. Fomos adquiridos pelo sangue precioso de Jesus Cristo. Amados irmãos e irmãs, quantas vezes nós também não ficamos parados, olhando para o túmulo? Este túmulo, que muitas vezes é o nosso passado, com tantas situações desastrosas? Que nós aprendamos com Maria Madalena a ouvir a voz de Deus que nos chama. E que, ao nos chamar, nos propõe um novo caminhar com Ele: o caminhar daqueles que se encontraram com o Ressuscitado, a vida nova que brota no coração do discípulo e da discípula que aprendeu a seguir Jesus Cristo.

domingo, 20 de abril de 2025

20.04.2025 | Domingo da Páscoa na Ressurreição do Senhor

Amados irmãos e irmãs estamos reunidos para celebrar o Domingo da Páscoa na Ressurreição do Senhor. Nesta, que é a principal solenidade do ano litúrgico, ouvimos não um relato de como foi a Ressurreição de Jesus, mas, os testemunhos de sua Ressurreição. Testemunho de Maria Madalena, a Apóstola dos Apóstolos, testemunho de João e de Pedro. Mesmo antes de verem o Ressuscitado, já acreditaram. Viram apenas os sinais, ouviram os sinais e acreditaram na Ressurreição. O seu Mestre não foi consumido pela morte, mas, mostrou a sua vitória. Nenhum de nós estava presente e ninguém viu como foi a Ressurreição do Senhor. Porque a Ressurreição aconteceu não na história, mas, para além da história. Cristo ultrapassa as barreiras do espaço e do tempo, e leva a nossa humanidade em seu Corpo glorioso. Se estivessemos dentro do sepulcro, algumas vertentes teológicas dizem que veríamos o lençol abaixar sobre um corpo que deixou de viver nesta realidade. Por isso, os discípulos de Jesus encontraram o sepulcro vazio e não o Cristo Ressuscitado ali dentro. O vazio do sepulcro, porém, já foi o suficiente para que eles professassem sua fé no grande mistério da Ressurreição. E, quando se encontram com o Ressuscitado, tornam-se ainda mais corajosos no testemunho de sua Ressurreição, como ouvimos na pregação de Pedro. Foi esta a verdade professada que levou os mártires a serem batizados no próprio sangue. Agora, pois, vivamos como testemunhas da Ressurreição, capazes de professar esta verdade, e experimentemos em nossas vidas os frutos da Ressurreição de Cristo, isto é, a vida nova e a proximidade com o Pai. Cristo Ressuscitou, aleluia, aleluia! Verdadeiramente Ressuscitou, aleluia, aleluia!

sábado, 19 de abril de 2025

19.04.2025 | Vigília Pascal na Noite Santa

Amados irmãos e irmãs, estamos reunidos nesta Noite Santa para celebrar a Vigília Pascal. Iniciamos com esta celebração o Domingo da Páscoa na Ressurreição do Senhor. Este é o ponto alto do nosso Tríduo Pascal, pois marca a confirmação de toda a obra redentora de Jesus Cristo. Sua morte reconciliou-nos com o Pai e sua Ressurreição nos abre a possibilidade de uma vida nova neste mundo e da eternidade na vida futura. O céu está novamente aberto para nós, pois todas as coisas foram renovadas na Páscoa de Cristo. A criação foi re-criada; nós fomos poupados da morte; fizemos novamente a experiência de passar pelo Mar no Batismo, pois fomos libertados da escravidão do pecado; vivemos na Jerusalém reconstruída, que é a Igreja, o novo povo de Deus, e viveremos na nova Jerusalém, a celeste. Ninguém sabe a exata hora, mas, no meio da escuridão e da frieza desta noite, as trevas são rompidas pela luz do Cristo Ressuscitado que ilumina a Terra inteira, com seu fogo, que arde no coração de cada discípulo e discípula que aguardava ansioso pela sua vitória final sobre o pecado e a morte. Jesus Cristo, que morto desce à mansão dos mortos para resgatar Adão e Eva e toda a sua descendência, cativa pelo pecado, levando consigo a Cruz gloriosa, agora ressuscita e restaura a nossa dignidade de filhos e filhas de Deus. Pelo Batismo, nós também somos mergulhados na morte de Cristo e vivemos a vida nova Nele. Por isso, nesta noite luminosa, renovemos o nosso Batismo não apenas em ritos, mas, sobretudo nos nossos corações. Abramo-nos e permitamos que a vida nova garantida para nós pelo mistério do Cristo Ressuscitado, nos torne sempre renovados no amor que foi a ruína da morte, no amor que é vitorioso para sempre. Cristo Ressuscitou, aleluia, aleluia! Verdadeiramente Ressuscitou, aleluia, aleluia!

quinta-feira, 17 de abril de 2025

17.04.2025 | Missa Vespertina da Ceia do Senhor

Amados irmãos e irmãs, estamos iniciando o Tríduo Pascal com a Missa Vespertina da Ceia do Senhor. O Tríduo está divido em três momentos: Cristo que se oferta, na Ceia e na Paixão e Morte; Cristo que entra na morte, no Sábado Santo; Cristo que Ressuscita, na Noite Santa e no Domingo da Páscoa. Com esta Missa Vespertina, iniciamos a celebração da Páscoa do Senhor, isto é, sua passagem. Vemos plenamente cumprida na Páscoa de Cristo a celebração litúrgica da Páscoa dos judeus. Cristo é o verdadeiro cordeiro, perfeito, oferecido em lugar de nossos pecados. Assim como os judeus celebravam a Páscoa com uma liturgia, neste dia Jesus instituí uma liturgia para a celebração de sua Páscoa, com o Sacramento da Eucaristia. Se a ceia dos judeus os levava a sentirem-se presentes no evento pascal do Êxodo, muito mais a Ceia do Senhor nos transporta para aqueles sacrossantos momentos de sua Paixão, Morte e Ressurreição a cada vez que celebramos a Eucaristia. No mais antigo relato da instituição da Eucaristia, narrado por Paulo que como nós não esteve na Ceia, mas a recebe da Igreja, vemos a instituição de um memorial. O memorial é instituído para ser experimentado phor nós. Por isso, a Eucaristia é o sacramento do amor. Amor de um Deus que tanto nos amou que se fez carne, e feito carne se fez pão, feito carne se fez sacrifício de amor, feito amor, amou-nos até o fim. O Senhor Jesus deixou-se a si mesmo sob os véus do Sacramento. Ele, que se derramou aos pés dos Apóstolos ao lavar os seus pés e os ensinou a fazer o mesmo, mostrou-nos que o verdadeiro serviço é amar. No Mandamento do amor, instituído nesta tarde, Jesus supera toda a lei da antiga aliança, firmando a nova aliança no seu sangue, ensina-nos que a medida do amor é amar sem medidas. Jesus nos dá como mandamento, não a observância de uma lei, mas, amar como Ele próprio amou. Que Eucaristizados, sejamos capazes de amar até o próprio de servir aos outros com a nossa própria vida, a exemplo de Cristo, nosso Senhor.

quarta-feira, 16 de abril de 2025

16.04.2025 | Missa do Crisma

Amados irmãos e irmãs, antecipando a celebração matinal da Quinta-feira Santa, estamos reunidos para a Missa do Crisma, na qual consagramos o Santo Crisma, abençoamos os óleos dos enfermos e dos catecúmenos e renovamos as promessas dos sacerdotes, comemorando a instituição do sacerdócio na Última Ceia de Jesus. Cristo é o único, verdadeiro, sumo e eterno sacerdote. Ele é o Messias, isto é, o Ungido. Todas as unções do Antigo Testamento preparam e prefiguram a unção real de Jesus Cristo, realizada não com o óleo, mas, com o próprio Espírito Santo. Por isso, na sinagoga de Nazaré, Jesus é capaz de pronunciar as palavras do profeta Isaías com tamanha autoridade, porque, como ele próprio diz, nele se cumpre a profecia. A unção é símbolo da fortaleza de Deus, da eleição, marca o escolhido. Jesus Cristo é, de fato, o ungido. Nele está toda a força de Deus, que nestes dias mostra-se para nós como fraqueza diante da Cruz. A pessoa do Filho, a segunda pessoa da Santíssima Trindade, desde toda a eternidade já planejava sua encarnação, pois Deus cria salvando e salva criando. A salvação não é determinada pelo pecado, mas, pela graça. Ele já era o escolhido, o ungido, que vem ao nosso encontro. E, como exerceu seu sacerdócio por meio do pão e do vinho, transformando-os em seu Corpo e Sangue pela força do sacramento e depois ofereceu este mesmo sacrifício na cruz, para que fosse perpetuado para toda a eternidade, tornou-se o único sacerdote. A função sacerdotal de oferecer sacrifícios é tomada para si por Cristo, quando ele torna-se sacerdote, altar e cordeiro. Ele é o único sacerdote capaz de oferecer sua vida como sacrifício agradável a Deus. Ele nos unge para sermos seus sacerdotes, para participarmos de seu sacerdócio. Os sacerdotes ministeriais, por meio do mesmo sacrifício do Corpo e Sangue de Cristo, oferecido pela salvação do mundo inteiro. Mas, nos unge também pelo batismo como povo sacerdotal, fazendo de todos nós, capazes de oferecermos a Deus o nosso próprio ser. Para renovarmos a nossa unção e nosso ministério, decidi convocar um caminho sinodal a ser vivido por toda a Igreja, a partir da próxima Quarta-feira, na Oitava Pascal. Com consultas a todas as instâncias da nossa Igreja, com o objetivo de escutar para renovar a nossa Igreja, nos prepararemos para o Sínodo dos Bispos, que se realizará entre 11 e 22 de julho deste Jubileu de 2025. Mas, agora, irmãos, renovemos as promessas sacerdotais dos nossos sacerdotes ministeriais, para depois, abençoarmos os óleos e consagrarmos o Crisma que nos ungem e nos marcam como partícipes do sacerdócio de Cristo. 

segunda-feira, 14 de abril de 2025

14.04.2025 | Segunda-feira Santa

Eminentíssimo Dom Raul Gabriel Cardeal Steiner, amados irmãos e irmãs, um gesto marca esta Segunda-feira da Semana Santa: seis dias antes da Páscoa, na casa de seus amigos, Jesus recebe a unção dos seus pés com perfumes de sua amiga Maria. Gesto que o próprio Jesus interpreta para nós, dizendo que ela fez isso em vista de sua sepultura. Um gesto ao mesmo tempo tão simples e tão nobre. Simples, porque aponta a acolhida a Jesus. Nobre, porque o perfume era caríssimo, porque era o reconhecimento dela da glória de Cristo. Um diálogo é colocado diante de nós, entre Jesus e Judas. Judas Iscariotes, incapaz de reconhecer a grandeza deste gesto, querendo embolsar e roubar o dinheiro deste perfume, diz que o dinheiro seria usado melhor para os pobres. Realidade esta que reflete uma infeliz parcela dos ministros de Deus, que utilizam-se dos pobres e do seu serviço caritativo para a auto-promoção. A caridade não deve ser mostrada, deve ser vivida. A resposta de Jesus - "pobres, sempre o tereis" - não deve ser interpretada como uma negativa de Jesus a ajuda econômica a estes. É, por outro lado, uma recordação de que a Igreja sempre deve cuidar dos pobres. E, neste momento, devemos cuidar do Corpo dele no altar e do Corpo dele nos pobres. Se fizermos isso, a fragância do perfume de Cristo será capaz de inebriar o mundo inteiro com o suave odor do amor, vindo de cada cristão e de cada cristã. Esta Segunda-feira Santa evoca para nós o nosso compromisso de ser a fragância do nosso Divino Redentor, o cheiro do Cristo Morto e Ressuscitado.

domingo, 13 de abril de 2025

13.04.2025 | Domingo de Ramos da Paixão do Senhor

Amados irmãos e irmãs, estamos celebrando o Domingo de Ramos da Paixão do Senhor, que une, numa só celebração, dois grandes mistérios: o da entrada do Senhor em Jerusalém para aquela Páscoa que Ele adotou como sua, e o da sua morte na cruz. O Evangelho de São Lucas, que escutamos no início da nossa procissão, nos dá a tônica da nossa Semana Santa. Enquanto Jesus entrava naquele jumentinho - bem diferente do esperado, pois muitos pensavam que o Messias viria montado num glorioso cavalo -, o povo o aclamava como o Rei que vem em nome do Senhor. Os fariseus, no entanto, pedem a Jesus que repreenda seus discípulos. Mas Jesus lhes responde com firmeza: "Eu vos declaro: se eles se calarem, as pedras gritarão." Essa frase, por si só, deve dar a tônica da nossa Semana Santa: nós temos a missão de anunciar Jesus Cristo, morto e ressuscitado. Essa é a glória de Deus: o Cristo que glorifica o Pai com a própria vida. Nossa missão é proclamar este Jesus, a partir da nossa própria experiência com Ele - como Mestre, como Servo, como o Cordeiro que passa pela cruz. A narrativa da Paixão do Senhor que ouvimos hoje coloca diante de nós vários personagens e diversos modos de proclamar Jesus Cristo: Há o povo, manipulado pelos mestres da Lei e pelos fariseus, que fala de Jesus como um malfeitor. Há Pôncio Pilatos, que fala de Jesus, mas com omissão. Há os soldados, que zombam e insultam. Há o mau ladrão, que também zomba. Mas há também o bom ladrão, que defende Jesus e lhe pede que se lembre dele. A este, Jesus promete: “Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso.” E há, ainda, o oficial romano, que proclama: “Este homem era justo.” Diante de tantos personagens, com quem nós nos identificamos? Qual é o nosso modo de falar de Jesus Cristo? Qual seria o nosso ideal? Amados irmãos e irmãs, se nós não falarmos de Jesus Cristo, morto e ressuscitado, as pedras falarão. Que Deus nos dê a coragem de proclamá-Lo com a nossa vida, o mistério pascal de sua paixão e vitória sobre o pecado e a morte. Num mundo de tantas omissões, de tantas mentiras, num mundo em que muitos pensam ter encontrado um sentido, mas permanecem no vazio, que nós tenhamos sempre a coragem de olhar para Jesus, pedir perdão e comprometer-nos com o anúncio do seu Evangelho, palavra de libertação e vida eterna.

quinta-feira, 10 de abril de 2025

10.04.2025 | Celebração Penitencial

Amados irmãos e irmãs,
Nós nos reunimos para a celebração penitencial nestes dias em que nos aproximamos da conclusão da Quaresma. Trilhados quase quarenta dias de penitência, oração e jejum, agora voltamos o nosso olhar para o interior, a fim de percebermos quais foram os efeitos da Quaresma em nós. Por vezes, fazemos uma Quaresma de práticas exteriores, mas, na verdade, todo o exercício quaresmal deve voltar-se ao nosso interior. Hoje é o dia de examinarmos os nossos corações para sabermos se, dentro de nós, a conversão de fato está acontecendo. Percebam que não digo que a conversão aconteceu em nós. Digo que a conversão está acontecendo. Por vezes, queremos que a conversão ocorra de um dia para o outro, como num estalar de dedos. Mas não é assim que acontece a conversão. Se analisarmos os três últimos domingos da Quaresma, veremos a importância da nossa decisão pela conversão. No terceiro domingo, não ouvimos se a figueira cresceu e deu frutos ou não. No quarto domingo, quando ouvimos a parábola do pai misericordioso, não sabemos - e continuamos sem saber - se o filho entrou ou não para a festa. No quinto domingo, não sabemos se a mulher perdoada voltou ou não a pecar. De fato, porque a nossa Quaresma nos encaminhou, não há respostas prontas, mas um caminho de sincera conversão e de conhecimento de Jesus Cristo. Se considerarmos que a figueira deu frutos, que o filho entrou para a festa e que a mulher não voltou a pecar, é porque nossa visão é a de quem confia na graça da misericórdia de Deus. A misericórdia de Deus é a sua ação. Se tudo aconteceu de modo bom, é sinal de que ali operou a graça de Deus. Insisto muito em falar da graça, porque o grande perigo é confiarmos mais em nós mesmos do que na graça e na ação de Deus. Sem a graça de Deus, a figueira morre. Sem a graça de Deus, o filho não entra para a festa. Sem a graça de Deus, a mulher volta a pecar. Sem a graça de Deus, podemos começar qualquer projeto, propósito ou processo de conversão — que ele não resultará em nada. Agora, se fizermos esse processo confiando na graça de Deus, saberemos que, mesmo caindo no meio do caminho, seremos resgatados. Se confiamos em Deus, sabemos que Ele continuará nos adubando. Se confiamos em Deus, sabemos que Ele nos colocará para dentro da festa. Se confiamos em Deus, sabemos que Aquele que não permitiu que fôssemos apedrejados nos sustentará no caminho. Hoje, somos nós, esses filhos que dizem: "Já não merecemos ser chamados, ó Deus, vossos filhos e filhas". Ainda assim, nos aproximamos de Deus, cheios de esperança de que a sua misericórdia será muito maior do que a nossa miséria, que o seu perdão será muito maior do que a nossa capacidade de perdoar, que o seu amor é muito maior do que a nossa incapacidade de corresponder ao seu amor. Amados irmãos e irmãs, não tenhamos medo, neste momento, de nos aproximar do Senhor, bater no peito e reconhecer a nossa miséria. Porque Ele virá ao nosso encontro com a sua misericórdia. Ele virá. O nosso encontro, nem tanto. Precisamos ir a Ele, porque Ele sempre vem, nos pega pela mão e nos conduz. No Mistério Pascal que celebraremos é o próprio Deus que pega em nossas mãos para nos ensinar o caminho do céu. Sigamos a Cristo no caminho da cruz e da ressurreição, e tenhamos a firme certeza de que, reconciliados com o Pai, faremos o mesmo caminho de Jesus.

quarta-feira, 9 de abril de 2025

09.04.2025 | Sermão das 7 palavras

1. Lc 23,34: “Pai, perdoa-lhes! Eles não sabem o que fazem!”

Amados irmãos e irmãs, reunimo-nos para este chamado sermão das sete palavras, que na verdade é uma meditação sobre as sete frases que os evangelistas expressam de Jesus Crucificado. Esta primeira frase é uma das três orações feitas por Jesus na cruz. Jesus que já havia assumido para si toda a culpa da humanidade para poder reconciliar-nos com o Pai, agora evoca nossa ignorância. Cristo só é capaz de pedir perdão ao Pai pelos seus algozes, porque antes, em seu coração, ele já os perdoou. E nós? Quantas vezes somos relutantes em perdoar. Fechamos o nosso coração e queremos, sempre, retribuir o mal com o mal. O caminho do Senhor Jesus não é este. Sua mensagem, mesmo no final da vida precisava ser confirmada. Andou pelos caminhos de Nazaré, da Galileia, da Judeia e por caminhos onde não era querido, como a Samaria e a região do outro lado do mar, junto aos pagãos, sempre demonstrando a misericórdia divina. Como poderá Jesus, agora desdizer essa verdade que Deus é misericordioso? Ele, que conhecia a intimidade do Pai e sabia que o Pai os perdoaria, ora pelos que o desprezavam. Jesus mesmo na eternidade continua a pedir ao Pai por todos nós. Jesus é o intercessor pelos que creem e pelos que ainda não chegaram a fé. Ele conhece o coração de cada homem e de cada mulher. Ele não se esquece de ninguém. 

2. Lc 23, 43: “Em verdade eu te digo: ainda hoje estarás comigo no Paraíso”.

Ao meu ver, esta é a mais bela destas frases. Na verdade, o diálogo como um todo expressa a ternura de Jesus. O chamado Bom Ladrão, Dimas, acabara de professar sua fé em Jesus: “Lembra-te de mim quando entrares no teu Reino.”. Provavelmente tinha ouvido falar desse tal de Jesus de Nazaré pelos caminhos, mas, agora o experimentava. O próprio Deus Santíssimo e Perfeitíssimo estava crucificado ao seu lado. Ele reconhece seu crime, mas quem disse que Jesus se importava com isso? Quem disse que Deus está com uma caneta na mão contando cada um de nossos pecados num pergaminho, para no momento do juízo nos condenar ou salvar? Já fomos salvos. O Paraíso já foi aberto para nós. O caminho da reconciliação, da comunhão com o Pai, no Espírito Santo, foi aberto para nós pelo Filho. Abraçarmos ou não esta salvação depende de nós. O Cristo com os braços abertos na cruz nos abraça, como abraçou aquele malfeitor ao seu lado. Imaginemos que olhar de ternura, de misericórdia, capaz de, mesmo com o rosto desfigurado, tomar para si um coração por tanto tempo desviado. Olhemos para os olhos de Jesus, ele nos chama a estar com ele no Paraíso.

3. Jo 19,26-27: Jesus, ao ver sua mãe e, ao lado dela, o discípulo que ele amava, disse à mãe: “Mulher, este é o teu filho”. Depois disse ao discípulo: “Esta é a tua mãe”.

O diálogo de Jesus com sua Mãe e o discípulo amado são o seu diálogo com toda a Igreja. O Concílio Vaticano II reafirmou que Maria é imagem da Igreja e Mãe da Igreja. Mãe dos discípulos e discípulas amados de seu Filho. É mãe porque nela Deus Pai se revela com amor de mãe. É mãe porque apenas a sua docilidade poderia gerar um filho em sua natureza humana tão dócil ao Pai. Ela nos ensina ainda hoje a docilidade de fazer tudo que Jesus nos disser. Maria nunca atraiu para si nenhuma glória por ser a Mãe de Deus. Pelo contrário, ela se tornou um exemplo de humildade. Hoje ela também quer ensinar à Igreja de seu Filho que é preciso reconhecer-se com humildade. Ensina a essa comunidade no Habbo Hotel que precisamos ser sensíveis aos sinais dos tempos, dóceis ao que Deus nos fala, para podermos continuar aqui exercendo o nosso ministério. E ela cuidará de nós como nossa mãe, a Mãe da Igreja, confiada a nós pelo nosso Divino Redentor, quando na cruz faz nascer a própria Igreja. A Igreja já nasce tendo uma mãe.

4. Mt 27,46: Pelas três horas da tarde, Jesus deu um forte grito: “Eli, Eli, lamá sabactâni?” Que quer dizer: Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?

O abandono de Deus. Quantas vezes nós também não o experimentamos? Jesus que sempre viveu na intimidade com o Pai, que viveu uma vida de oração, agora se questiona: Onde está Deus? No caminho da nossa humanidade muitas vezes nós nos perguntamos isso. Aqueles que não acreditam em Deus, tantas vezes argumentam que Deus parece inerte diante do sofrimento humano. Existem guerras, massacres, fome, miséria, ditaduras, perseguições, escravidão, doenças e tantas situações que desumanizam o ser humano. Onde está Deus? Por que Deus não responde? Por que não faz nada para resolver estas situações? Por que diante do sofrimento do Filho, o Pai se cala? Quão misterioso mistério é o silêncio de Deus. Podemos tentar e até nos esforçar por diversas explicações a este silêncio, mas, a verdade, é que só o compreendemos quando estamos prontos para compreender. Prontos para compreender que mesmo sendo o Todo-Poderoso, Deus nunca ultrapassa a nossa liberdade humana. Prontos para compreender que seu silêncio se dá porque ele sofre conosco e em nós. Prontos para compreender que quanto gritamos desesperados, na verdade, estamos chorando no seu colo maternal de Pai. Ainda não estamos prontos para compreender que a solução está nas nossas mãos e que depende de nós. Jesus sente o abandono do Pai por todos aqueles que ao longo de toda a história se sentiriam abandonados por Deus. Ele experimenta na sua solidão, a nossa solidão. Experimenta a solidão do coração humano que busca tantos amores, mas ainda não aprendeu a encontrar seu amor no supremo Amor.

5. Jo 19,28: “Tenho sede!”

Ter sede. Se por um lado Jesus está falando da sua sede física, por outro, fala de uma outra sede mais profunda. Como pode a própria fonte de água viva ter sede? Tem sede do que ele mesmo pode saciar. Sua sede é sede de justiça pelos empobrecidos e pelos pequeninos. Sua sede é sede pela salvação dos seus irmãos e irmãs. Sua sede é sede pela conversão dos pecadores. Sua sede é sede do Reino de Deus. Jesus é o próprio poço da água, mas, tantas vezes nós, cristãos, o deixamos ainda sedento. O deixamos sedento porque queremos escolher quais das suas sedes vamos saciar. Por um lado, parece que a única sede a saciar é a sede espiritual, de corações convertidos a ele. Por outro, parece que nenhuma realidade espiritual saciaria a Cristo senão a justiça. Perdemos a percepção de que a sede de Cristo é uma sede integral. E uma sede que só se saciará quando nós bebermos nele. Sua sede é saciada pela nossa saciedade, quando estivermos cheios da água da vida que ele nos dá. E nós só estaremos realmente cheios desta água, que nos lava no Batismo e nos sacia nos seus mistérios, quando entendermos que não há salvação parcial do ser humano. Ou é salvo o ser humano em sua integridade, espírito, alma e corpo, ou não há salvação. Quantas vezes nós não queremos saciar a sede de Cristo com o vinagre do nosso falso piedosismo, das nossas orações vazias ou do nosso assisentencialismo fingido de caridade? 

6. Jo 19,30: “Tudo está consumado”.

Popularmente dizemos que no final da vida nos encontramos com uma luz muito intensa. Esta frase, é como se Jesus já contemplasse esta luz. Ele está no final de sua vida. Dizemos, também, que nossa vida se passa como um filme diante dos nossos olhos. Se considerarmos como verdadeira esta tradição popular, este é o momento que Jesus olha para toda a sua trajetória. Jesus reconhece todos os momentos de sua vida desde sua concepção, seu nascimento, a fuga para o Egito, a infância, a vida oculta, o Batismo e o ministério público nas estradas deste mundo. Jesus se recorda de cada gota de suor e de cada lágrima derramada, de cada cura e cada ensinamento. Com certeza em sua mente já cansada por toda uma noite acordada, se passava também a dramática noite anterior vivida com os Apóstolos, o lava-pés e a Ceia, os discursos e sua oração por eles. Fato é, amados irmãos e irmãs, que por vezes dizemos que a salvação nos veio pela cruz e ressurreição. Este é sim o evento culminante, o ápice da nossa salvação. Mas, toda a vida de Cristo foi salvífica. Cada instante de sua existência salvou-nos. Ele tornou-se o ser humano perfeito, protótipo de uma nova humanidade. Deixou os seus passos na nossa história para que nós pudéssemos segui-lo. Ele nos salvou porque nos amou. Jesus sabe que a obra naquele momento havia se encerrado, mas, com certeza tinha consciência que aquele não era o final, não era a consumação de sua obra, era, na verdade o início de um grande projeto de amor que faria com que sua existência entre nós valesse não apenas a pena, mas, valesse sua própria vida.

7. Lc 23,46. “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito”.

A palavra final é amor. O Filho deposita todo o seu ser nas mãos do Pai. Entrega a ele o seu espírito, sua existência. Ama tanto o Pai e de tal modo se reconhece amado pelo Pai que confia extremamente. O próprio Jesus faz um ato de fé no Pai. Fé que lhe dá a esperança. Esperança que é um verbo. Esperançar é confiar e ultrapassa o confiar. Esperança é uma certeza. A promessa de Deus já é cumprimento. Deus não diz algo para depois voltar atrás. Ele é fiel apesar das nossas infidelidades. Ele nos ama mesmo que não consigamos corresponde com amor ao seu amor. Jesus, o Filho amado, confia-se ao Pai no último instante de sua existência humana antes de penetrar na morte. Ele se lança, ao mesmo tempo, ao Pai e na morte. Não que Jesus não pudesse, depois, ressuscitar pelas suas próprias forças. Mas, também a ressurreição é obra da Trindade. O antigo autor do século IV, ao fazer sua homilia no grande Sábado Santo, nos diz que Jesus ao entrar na mansão dos mortos, entra também com ele o Pai. O Pai e o Filho no Espírito Santo vão ao resgate da humanidade cativa pela morte. A morte adquire para nós um novo sentido. Já não é mais o fim. Ela se torna o lançar-se nas mãos do Deus da vida, do Deus-Amor, na certeza que ele nos acolherá numa existência muito maior do que esta que vivemos, pois Ele será tudo em todos nós.

domingo, 6 de abril de 2025

06.04.2025 | V Domingo da Quaresma

Amados irmãos e irmãs, estamos celebrando o Quinto Domingo da Quaresma, nos aproximando da Semana Santa. A liturgia da Palavra deste domingo continua a nos apontar a grandeza da misericórdia de Deus, destacando qual é o momento de experimenta-la: HOJE! Após os últimos domingos terem nos recordado as grandezas do Senhor em Noé, Abrão e Moisés, o profeta Isaías hoje nos fala para não nos apegarmos ao passado, mas olharmos para Deus que faz novas todas as coisas. Sim, o Senhor fez coisas grandiosas com o povo da antiga aliança, fez coisas maravilhosas aos nossos antepassados em todos estes anos de cristianismo, mas, ele continua fazendo obras estupendas diante de nossos olhos. Tantas e tantas vezes somos nós que fechamos os olhos e os ouvidos e não conseguimos nos abrir à experiência da bondade do Deus todo-poderoso nas nossas vidas na nossa história. E quando reconhecemos somos nós este povo que exclama com o salmista: Maravilhas fez conosco o Senhor! Mas, só somos capazes de reconhecer essas maravilhas, quando ouvimos a voz do Apóstolo Paulo que fala à comunidade dos Filipenses que tudo devemos ter como lixo diante de Deus. Só o coração que está livre, desapegado das coisas deste mundo, é capaz de  reconhecer as maravilhas de Deus. Muitas vezes ficamos ludibriados com tantas coisas, que nos esquecemos da simplicidade da ação de Deus. Reconhecendo a ação de Deus, temos coragem de deixar para trás o nosso passado e nos lançarmos em Cristo, que como diz São Paulo, é a nossa meta. Acolhemos, ainda, a nossa imperfeição. Paulo aceita ainda não ter alcançado a Cristo, a meta, mas, reconhece que Cristo já o acalçou. Assim como Jesus Cristo, no Evangelho de hoje, alcança com sua misericórdia a mulher pega em flagrante adultério. Esta perícope, embora joanina, tem características do Evangelho de São Lucas, por isso é lida neste domingo do ano C. Percebamos que a lei antiga já não era mais suficiente para Jesus. Alguns exegetas colocam no gesto de Jesus se escrever no chão, o gesto dele escrever uma nova lei. Assim como Deus escreveu na pedra as leis e as deu a Moisés, agora Jesus escreve na pedra do chão do Templo uma nova lei, que é a misericórdia. Mas, o próprio Jesus não descumpre a lei antiga, apenas a mostra insuficiente: "Quem não tiver pecado, atire a primeira pedra.". Ora, ninguém pode se colocar nesta posição, e a lei que outrora era usada para acusar, agora é usada para misericordiar. A maravilha realizada por Deus na vida daquela mulher, foi a maravilha da misericórdia. E Jesus dialoga com a mulher: "Ninguém te condenou?" "Ninguém, Senhor." "Nem eu te condeno. Vai e não peques mais.". Sim, amados irmãos e irmãs, diferente do que pensam muitos cristãos e cristãs sobretudo em nossos tempos, Deus não tem pedras nas mãos prontas para lançar em nós por cada pecado que fizermos. Deus não nos condena, mas, exige de nós um caminho de conversão. Não pecar mais, que tantas vezes parece impossível, nos demonstra que pecamos porque estamos confiando nas nossas forças e não na graça de Deus, somos neopelagianos. Achar impossível não voltar ao caminho do pecado é recusar o caminho do amor, o projeto de Jesus e não precisarmos que os outros nos apedrejem, mas, nós mesmos nos apedrejarmos, incapazes de perceber a maravilhosa misericórdia de Deus para conosco.

domingo, 30 de março de 2025

30.03.2025 | IV Domingo da Quaresma

Dom Fernando, amados irmãos e irmãs, estamos celebrando o IV Domingo da Quaresma, o Domingo Laetare, o domingo da alegria. Alegria porque nos aproximamos da Páscoa da Ressurreição. Alegria porque estamos provando e vendo como o Senhor é bom. Alegria porque experimentamos a misericórdia do Senhor. A primeira leitura, do livro de Josué, fala de um povo que faz a experiência de voltar à Terra Prometida e, pela primeira vez, comer dos frutos da terra. É a experiência da alegria e da misericórdia que Deus teve com eles. Essa mesma experiência está relatada no Evangelho que ouvimos, uma passagem bem conhecida por nós: a parábola do filho pródigo, ou melhor, do pai misericordioso. Essa parábola nos apresenta três figuras: o filho mais novo, o filho mais velho e o pai. O filho mais novo é aquele que, ao pedir sua herança e partir, simbolicamente mata o pai em seu coração. Depois de viver uma vida desregrada, sente saudade da casa paterna. Ele decide voltar, mas não como filho, e sim como servo. No caminho, ensaia o discurso que fará ao pai: "Pai, pequei contra Deus e contra ti. Já não mereço ser chamado teu filho. Trata-me como um dos teus empregados." O pai, no entanto, é aquele que permanece à espera. Ele não impediu o filho de partir, mas sempre aguardou seu retorno. E, quando o vê ao longe, corre ao seu encontro, abraça-o e o cobre de beijos. O filho começa a falar, mas, antes mesmo de terminar, o pai já ordena aos empregados que tragam a melhor túnica, coloquem um anel em seu dedo, sandálias em seus pés e matem o novilho gordo para celebrar. O filho que esperava ser aceito como servo é restituído à dignidade de filho amado. Essa experiência do filho mais novo é a mesma que São Paulo nos apresenta na segunda leitura, ao escrever aos Coríntios: "Se alguém está em Cristo, é uma nova criatura." O filho foi renovado pelo pai. E nós também podemos ser renovados e reconciliados com Deus, graças a Jesus Cristo, que assumiu nossa humanidade e se fez pecado para nos justificar. Mas esse pai misericordioso tem outro filho. Enquanto o filho mais novo celebra no banquete, o filho mais velho retorna do campo. Ele sempre esteve em casa, mas nunca viveu uma verdadeira intimidade com o pai. Ele representa aqueles que, mesmo dentro da Igreja, mesmo conhecendo a lei e os preceitos, ainda não fizeram a experiência do amor de Deus. Sua relação com o pai é fria, baseada apenas na obediência e no dever, sem alegria. Quantos de nossos irmãos e irmãs ainda fazem essa experiência de um Deus distante e rigoroso? O filho mais velho não quer entrar para a festa porque não compreende a misericórdia do pai. E o pai lhe recorda que há mais alegria no céu por um só pecador que se arrepende do que por noventa e nove justos que não precisam de conversão. Amados irmãos e irmãs, os que mais experimentam a misericórdia de Deus são aqueles que reconhecem sua necessidade dela. O que o filho mais velho não percebe é que, dentro ou fora de casa, ele também precisa da misericórdia do pai. Ele também precisa ser reconciliado. E nós? As festas que se aproximam são as festas da nossa reconciliação. Corremos para elas cheios de fervor e alegria, exultando na fé. Mas a grande questão é: entraremos e faremos juntos a experiência da misericórdia de Deus? Ou ficaremos do lado de fora, questionando se Deus realmente tem uma misericórdia sem limites?

quinta-feira, 27 de março de 2025

27.03.2025 | Consistório Extraordinário

Eminentíssimos senhores cardeais, lhes convoquei esta noite para juntos refletirmos sobre algumas questões que são cada vez mais essenciais para a vida da Igreja. 

Gostaria de iniciar resgatando alguns elementos das discussões ocorridas no Consistório Ordinário do último sábado. Falávamos sobre se a Igreja deve se aproximar mais ou menos de um RPG. Dom Odilo, na ocasião, nos ajudou com a compreensão de quando a Igreja passou a negar-se como RPG. Então, entendia-se que no RPG as pessoas poderiam ficar online e a partir de um dado momento, combinado, entrariam para os quartos do RPG e ali passariam a simulação. Enquanto isso, na Igreja não. Uma vez que entramos no clero, sempre que estamos online no Habbo, somos clérigos. Esta nossa explanação deveu-se a outro comentário, do Cardeal Lavezzo que criticava a quantidade de documentos expedidos nos últimos pontificados, sem uma verdadeira prática. De fato, em sua visão, e assim também o considero, nos aproxima muito dos RPG´s. 

E também esta reflexão se deu a partir de outra, de Dom Snaif.  Para este, nós estamos numa competição injusta com os hp´s. Lá eles tem paramentos e estruturas e para muito deles aquilo é o suficiente. Eminências, gostaria que pudessemos juntos refletir. O Habbo já não é mais um jogo de crianças ou de adolescentes. Pelo contrário, aqui, a maior parte de nós já somos adultos com as nossas obrigações fora desse jogo virtual. Portanto, como daremos prosseguimento à nossa Igreja? Se, por um lado, vemos em muitos uma boa vontade, por outro, percebemos que isso não é suficiente. Acredito que seja hora de revisitarmos as nossas estruturas e pensarmos, de fato, quais foram as nossas últimas metas.

No pontificado de Gregório IV, foi realizada a reforma de todos os livros litúrgicos por conta da nova tradução do Missal Romano. No pontificado de Bonifácio II, foi promulgado o novo Código de Direito Canônico. No pontificado de Lucas IV, houve a acolhida desse código com algumas reformas do ponto de vista do Colégio Cardinalício, que se fizeram necessárias, e, por outro lado, reformas na formação presbiteral solicitadas pela Congregação Geral dos Cardeais, na Sé Vacante que o precedeu. Mas fui eleito por vossas eminências para que possamos dar outros passos na vida da nossa Igreja. Passos que, como já conversamos, estão para além da produção de documentos. É uma reforma de mentalidade que precisamos assumir.

O Papa Bonifácio II fez, como um experimento, a redução de toda a Igreja ao clero de Roma. Se, por um lado, isso conseguiu aglutinar o clero, por outro, fez com que não houvesse motivação para novos passos a serem dados. Acredito que nossa perspectiva de termos nos tornado uma Igreja pequena, em muitos momentos, trouxe-nos uma dificuldade. Passamos a sonhar baixo. Passamos a esperar pouco. Nosso colégio episcopal se reduziu a quase nada nos últimos tempos. O Colégio Cardinalício, por sua vez, tornou-se cada vez mais preguiçoso. Os presbíteros não tiveram ânimo para sua missão.

Penso que devemos fazer o contrário. Devemos ampliar as estruturas. Penso que transformar dioceses em arquidioceses metropolitanas dará a elas um novo ânimo. Isso nos passa a imagem de que não basta ser uma diocese pequena, mas sim uma estrutura sempre em crescimento. Neste sentido, nossa exigência deve ser alta, nossa medida deve ser alta. Por outro lado, precisamos ser menos exigentes com os clérigos em si. Foi muito bom levarmos mais a sério o nosso ministério. Mas sabemos que nem todos estão dispostos a isso. E, à medida que nós, mais velhos, fomos amadurecendo e envelhecendo, ficamos menos pacientes para lidar com as atitudes infantis de clérigos jovens. Mas sejamos sinceros: não seremos nós a motivar esta Igreja. Isso será função dos clérigos jovens. Serão eles que darão um novo ardor missionário para nossa Igreja. Precisamos acolhê-los, formá-los, educá-los, ajudá-los, mas não conseguiremos fazer deles uma cópia nossa.

A burocratização da nossa Igreja, como falávamos no sábado, teve um grande valor. Mas, muitas vezes, as decisões deixaram de ser pastorais. Entendi, na crítica de Dom Lavezzo, algo que quero trazer aqui. Sempre fui muito crítico a documentos extensos. Fui crítico, inclusive, ao Código de Direito Canônico, dizendo a Bonifácio II que estava muito extenso. Mas acredito que precisamos desenvolver modelos que sejam utilizados em todas as circunstâncias. Modelos simples, nos quais bastará mudar o nome da pessoa ao invés de escrever todo um documento para reabilitar, integrar, demitir, e assim por diante. Dessa forma, o tempo que gastamos escrevendo documentos será reduzido, entendendo que os documentos não são a parte principal da nossa Igreja. Se, por um lado, não vale um site atualizado diariamente enquanto a Igreja permanece parada, por outro, não podemos simplesmente eliminar toda a burocracia, que é essencial para a nossa Igreja. Mas devemos saber administrá-la de modo comedido. Sabemos muito bem que todas as normas podem acabar sendo burladas, mas isso não significa que devemos deixar de tê-las.

Para mim, o principal fator que nos aproxima mais de um RPG é nossa mentalidade. Na verdade, acredito que o problema vai além disso. O problema está quando eu me coloco como o centro da Igreja, quando você se coloca como centro da Igreja. A Igreja não é nossa; a Igreja está para além de nós. Certamente, logo todos nós passaremos, e eu não acredito que esta Igreja passará tão facilmente. Acredito, de fato, que está na hora de muitos de nós largarmos o osso. Penso que precisamos deixar mais a Igreja nas mãos dos mais jovens. Inclusive, partilhava com Dom Snaif que acredito que este será o meu último pontificado. Queira Deus que assim seja. Na verdade, os senhores bem sabem que nem este mesmo eu gostaria. Sendo assim, o que nos cabe pensar é: como fazer a transição da Igreja para as mãos dos mais jovens? Como fazer essa passagem de gerações? Estamos preparados para isso?

Os planos que quero partilhar convosco e que desejo que me ajudem a desenvolver melhor, ou mesmo desistir de alguns deles, são, inicialmente: promover duas arquidioceses metropolitanas; criar uma arquidiocese para os militares; aumentar o colégio episcopal, buscando também que ele tenha qualidade. Penso ser necessário um novo reavivamento de carismas religiosos dentro da Igreja. Acredito que o trabalho realizado nas redes sociais poderá colaborar muito para atrair pessoas para nossa Igreja. Vejo no Dicastério para os Seminários um grande potencial, desde que consiga fazer com que o clero conviva com seminaristas. Acredito muito nessa necessária convivência, algo que já não temos mais tempo para fazer. E isso também desmotiva o clero, pois não se criam mais vínculos como antes. Quando nós entrávamos, conversávamos, batíamos papo, ficávamos online. Hoje, quase não temos mais tempo para isso. Isso faz muito mal para a Igreja.

Quero indicar ainda aos senhores o meu pensamento em promover, em breve, Dom Felipe Sampaio, atual prefeito do Dicastério para os Seminários, a membro deste Colégio Cardinalício, justamente dentro da perspectiva de passar a Igreja para um clero mais jovem. Perdemos excelentes oportunidades no passado que não podemos perder hoje. Acredito que a lista de eméritos do Colégio Cardinalício precisa aumentar, e isso não é um problema.

Além disso, o último aspecto que gostaria de ressaltar em minha fala, que também foi discutido entre nós no consistório do último sábado, é que precisamos cortar ao máximo o nosso diálogo ecumênico. Essa crítica, trazida por Dom Snaif, foi considerada por mim muito válida. Enquanto estamos promovendo um diálogo com verdadeiro esforço de nossa parte, eles estão promovendo um diálogo falso e vindo buscar nossos clérigos. Por isso, quero também delegar alguém de confiança para fazer o processo contrário. Porém, como falamos no início, infelizmente, as Igrejas de lá têm muito mais atrativos do que as nossas. E, por não terem bom senso, acabam atraindo muitos de nossos padres. Acho inclusive, muito difícil, no atual momento, estabelecer Igrejas Particulares lá, embora tenha cogitado isso já. Particularmente, acho injusto buscar alguém de lá para ser bispo aqui, quando temos padres capacitados para isso, o que quase não é o caso desta vez. Ou buscar cardeais de lá para serem cardeais aqui, enquanto temos bons bispos para serem elevados ao cardinalato. Esse tipo de coisa não compensa. E acredito que muitos se afastaram da nossa Igreja justamente por isso: por falta de consideração, por falta de se sentirem valorizados.

Por isso, eminências, aos que trabalham na Cúria Romana e aos nossos bispos diocesanos, gostaria que os senhores tornassem seus presbíteros membros ativos da Igreja. Que sejam inseridos nos ofícios diocesanos: vigário-geral, chanceler, vigários episcopais, mesmo que apenas como títulos. Isso tudo os anima. Além disso, devem assumir ofícios como oficiais na Cúria Romana. Eminências, por fim, acredito que temos passos consideráveis a serem dados, mas precisamos ter coragem para caminhar.