domingo, 30 de junho de 2024

30.06.2024 | XIII Domingo do Tempo Comum

Amados irmãos e irmãs, estamos celebrando o décimo terceiro Domingo do Tempo Comum. Deus é Deus da vida. A literatura sapiencial, no livro da Sabedoria da primeira leitura de hoje, nos lembra que nós não fomos criados para a morte. Esta morte que nós conhecemos não era do plano de Deus. Por isso, na segunda leitura, a segunda carta de São Paulo aos coríntios fala-nos deste Cristo que sendo rico, se fez pobre. Deus sendo imortal, se fez mortal. Assumiu a nossa morte. Aquele que não tinha pecado, se fez pecado phor nós, diz o Apóstolo. Deste modo, São Paulo está convidado a comunidade de Corinto à prática da generosidade. Não adianta sermos bons em tudo, na fé, na eloquência, na ciência, no zelo para tudo, e na caridade, se não praticamos a generosidade. E a generosidade para o Apóstolo é a igualdade. É se colocar no mesmo nível. Hoje quando falamos de igualdade, parece até que estamos indo contrários a justiça. Talvez, sim, contra a justiça dos homens, mas não contra a justiça do Reino dos Céus. Porque aqui a igualdade não é ter tudo igual, todos. Não é o igualitarismo proposto por sistemas econômicos. A igualdade proposta por São Paulo é a capacidade do cristão de rebaixar-se até os outros, como Cristo fez conosco. A igualdade é não ter medo de se sujar na sujeira do outro. Sujeita tantas vezes que não é física, mas é interior. No Evangelho que ouvimos, São Marcos faz o que lhe é muito próprio, ele costura uma história dentro da outra. A menina morta, filha de Jairo, e a hemorroísa. Eram duas mulheres em situação de impureza. A mulher com fluxo de sangue não podia ser tocada. Não se podia tocar em gente morta. Quem tocasse em pessoas nessa condição se tornaria impuro. Mas, Jesus não se deixa influenciar por esta noção de puro e impuro. Ele toca. Ele deixa-se ser tocado exteriormente e interiormente. Tocado interiormente porque sente compaixão. Tocado exteriormente porque ele é tocado e toca. Ele não tem medo de se tornar impuro, porque sabe que o que torna o homem impuro é não se deixar tocar, não se deixar sensibilizar, não se abaixar até os outros. Deus é Deus da vida. Jesus restaura a vida em plenitude daquela hemorroísa, e restaura a vida a filha de Jairo. Onde sangra em nós? Onde estão as nossas feridas? Onde está a nossa situação de morte? Nós nos deixamos ser tocados pelo Senhor? Deixamos que as pessoas que vem ao nosso encontro nos toquem, ou finjimos ser alguém que não somos para não sermos tocados? Somos capazes de tocar as feridas dos outros como Cristo, para cura-las, ou apenas tocamos para fazer sangrar mais? Diante do estado de morte dos nossos irmãos e irmãs, levamos a vida e vida em plenitude, ou as condenamos ainda mais a morte? Tanta gente está morta por dentro, e nós não tocamos. Às vezes, somos nós mesmos que estamos mortos por dentro. Desesperados, desesperançados, achando que nada mais tem jeito. Aí nós nos tornamos como Jairo e como a hemorroísa, porque sabemos que apenas um toque do Senhor é capaz de restaurar a nossa vida. Amados irmãos e irmãs, Deus não tem medo de nos tocar na nossa impureza, não tem medo de se rebaixar ao nosso nível, ele quer restaurar a nossa vida. Pela terceira vez eu repito nesta homilia: Deus é Deus da vida. Quer que nós tenhamos vida em abundância. Quer que sejamos capazes de levar vida e vida em abundância a todos que estão a nossa volta. Por isso, ele toca com sua mão nas nossas e nos diz: CHUM! LEVANTA-TE! Assim seja! Amém.

sexta-feira, 28 de junho de 2024

29.06.2024 | Solenidade de São Pedro e São Paulo

Amados irmãos e irmãs, estamos celebrando a Solenidade de São Pedro e São Paulo, apóstolos e padroeiros de Roma. Pedro e Paulo são as colunas da Igreja. Pedro pela missão conferida pelo Senhor Jesus de ser a pedra sobre a qual é construída a Igreja, Paulo pela sua missão e ministério, como apóstolo do Senhor, evangelizador das nações. Duas figuras que não foram fáceis para o Senhor. Pedro era um homem cabeça dura, ignorante, que não entendia as coisas que Jesus queria dizer, era esquentado e impulsivo. Paulo era um bom judeu, tão bom que perseguia os cristãos. Pedro e Paulo passaram por um encontro com Jesus Cristo, um encontro definitivo que mudou suas vidas para sempre. Pedro passou a vida com a profundidade daqueles três anos. Refletindo sobre o Senhor que o chamou a ser pescador de homens, que ele confessou a fé e se tornou pedra da Igreja, como ouvimos no Evangelho de hoje, que não quis ter os pés lavados, que negou, mas que foi ao túmulo, que disse amar o Senhor Ressuscitado. Cristo deu a Pedro, como primeiro entre o colégio apostólico, as chaves, a missão de ligar e desligar, e o poder do inferno nunca prevalecerá na Igreja fundada sobre Pedro. Cremos na Igreja, isto é, cremos de dentro da Igreja, a partir da Igreja. Não pode crer a partir da Igreja, quem não guarda a comunhão com o Santo Padre, o Papa, e neste momento, o Papa Francisco. Amados irmãos e irmãs, quando Pedro estava preso, a primeira leitura nos relata sobre quatro grupos de soldado, com quatro soldados cada um para guardar a prisão. O que havia de tão perigoso em Pedro? O olhar de Jesus. Nos olhos de Pedro estava o olhar de Jesus. Nas palavras de Pedro, a Palavra de Jesus. Mas, ainda não havia chego o momento do testemunho de Jesus Cristo na vida de Pedro chegar ao extremo do martírio. Deus o liberta da prisão. E, bem sabemos, que São Pedro só vai morrer em Roma, muito depois, já ancião, crucificado. E crucificado de cabeça para baixo como indigno de morrer como o seu Senhor. Há aquela bela tradição que diz que Pedro ia fugir de Roma, mas no caminho se encontra com Jesus e lhe pergunta: "- Quo vadis?" Que quer dizer: "- Onde vais?" E Jesus lhe responde: "- Eu vou para Roma ser crucificado outra vez." Então, Pedro volta a Roma onde permanece até o martírio. E em Pedro, Jesus Cristo morre outra vez. Jesus morre outra vez em cada mártir. E ainda há mártires em nossos tempos. Mártires tantas vezes silenciosos, mas, prontos para dar o testemunho até o fim. Porque martírio é isso, é testemunho. Tanto que, após toda a sua missão e as suas viagens, na segunda carta a Timóteo, São Paulo afirma com toda certeza aquilo que ouvimos na segunda leitura de hoje: "Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé. Agora está reservada para mim a coroa da justiça, que o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos os que esperam com amor a sua manifestação gloriosa.". E São Paulo, como cidadão romano, vai ser decapitado nesta cidade. Seu crime foi ter sido cristão. Seus crimes foi o de terem amado. Cuidado, porque hoje estamos assistindo a mesma coisa. Agora, dar comida aos pobres, vem se tornando até crime. Onde está o espírito cristão da nossa sociedade? Onde está a fé que dizemos ter? Morta sem obras? Amados irmãos e irmãs, os apóstolos Pedro e Paulo nos deram os fundamentos da fé. Eles sustentam a fé da Igreja que é, hoje, nossa responsabilidade guardar, professar e ensinar. Seu martírio que hoje celebramos, é essa fé vivida ao extremo. Que seu exemplo nos acompanhe como Igreja do Senhor, para também fazermos, a partir do encontro com Jesus, com que a fé seja autêntica, celebrada, vivida, guardada, professada e ensinada, na comunhão da Igreja e a todos os povos. Assim seja! Amém.

28.06.2024 | Vigília de São Pedro e São Paulo

Amados irmãos e irmãs, estamos celebrando a vigília da Solenidade de São Pedro e São Paulo, padroeiros de Roma. A voz de Deus ressoa pela boca dos apóstolos. Pela boca de Pedro, na primeira leitura, a cura do coxo de nascença, nos mostra que os sinais acompanhavam os apóstolos, que realizam os mesmos feitos de Jesus. Pela boca de Paulo, na segunda leitura, a confirmação que o Senhor se revelou a ele, e ele passou a ser seguidor desse Senhor Jesus. No Evangelho, a relação de Jesus com Pedro, que o pergunta se o amava. Bem sabemos, duas vezes Jesus pergunta se Pedro o ama com um amor ágape, e Pedro só consegue responder com amor filia, o amor de amigo. Então, o próprio Jesus desce ao nível de amor que Pedro era capaz de amar, como amigo. E, por ser amigo do Senhor, ele será cingido e levado ao martírio. Ainda assim, o Senhor o interpela: "Segue-me". Nos Evangelhos, o Senhor não deixa de chamar desde o encontro com os apóstolos, até depois de Ressuscitado. O chamado a segui-lo, para Pedro e para Paulo, é um chamado de amor. E esse chamado vai em uma direção, que é o testemunho da fé em Jesus Cristo por meio do martírio. Esse que é o auge do amor. Este é o som que ressoa da boca dos apóstolos, da vida dos apóstolos: a experiência do chamado. Porque a pessoa que é chamada, tem a liberdade. Deus não aprisiona ninguém. Pedro podia ter dito que não amava Jesus. Paulo podia ter continuado perseguidor dos cristãos. Cada um deles poderia ter continuado a sua vida como estava. Mas, diante do chamado do Senhor, sentem o incomodo. O chamado do Senhor nos desestabiliza. E cuidado para não compreendermos o chamado do Senhor apenas como vocação a vida presbiteral, diaconal ou religiosa. O primeiro chamado do Senhor a cada um de nós é um chamado para a vida. Depois, um chamado a vida nele, que denominamos como vocação universal à santidade. Por fim, chama para as missões específicas, seja na vida consagrada, seja no matrimônio, seja em outros estados de vida que o Senhor suscitar. Entender o chamado do Senhor não é tão simples. Exige de nós uma abnegação de nós mesmos, sem abnegar a nós mesmos. Nos exige uma saída de nós, sem que nós deixemos de ser quem somos. O Senhor escolheu Pedro e Paulo nas suas limitações. Não deixaram de ser homens, muito humanos. Às vezes nós temos uma dificuldade que é acharmos que uma vez que o Senhor nos chamou para uma missão específica, nós estaremos prontos, seremos como seres angelicais, deixaremos a nossa humanidade de lado. E não é assim que acontece. A graça de Deus pressupõe a nossa natureza. Cristo desce ao nível do amor de Pedro. Cristo vai ao encontro de seu perseguidor para torna-lo seu seguidor. O Senhor não tem medo de quem somos, porque ele olha para quem nós podemos nos tornar. E mesmo se nós ainda não conseguimos, ele nos auxilia com a sua graça. Graças ao ressoar na vida de Pedro e Paulo, hoje a Igreja continua fazendo ressoar, no seu testemunho, o Senhor Jesus Cristo. Então, não tenhamos medo de abraçarmos o chamado a sermos seguidores e seguidoras de Jesus Cristo. Por meio de nossa vida e missão, continua a ressoar o som da voz de Deus, o som de sua Palavra, o som de seu amor. Assim seja! Amém.

terça-feira, 25 de junho de 2024

25.06.2024 | Consistório Extraordinário

Eminentíssimos senhores cardeais, meus caros filhos. A liturgia de hoje nos apresenta no evangelho de São Mateus a insistência de Jesus para que não demos coisas santas aos cães e pérola aos porcos. Com estas afirmações e com a sua colocação sobre a porta larga e a porta estreita, Jesus está instruindo seus discípulos no caminho do Reino. A porta é estreita e são poucos os que a encontram. Quem encontra a porta estreita é quem se encontrou com Jesus Cristo. Aqui nos cabe perguntarmos: conhecemos a Jesus Cristo? Não quero aqui propor uma homilia sobre a liturgia diária. Mas, antes, voltar o nosso olhar para aquilo que é central para o nosso Ministério: Jesus Cristo. Será que o nosso cardinalato não é coisa santa aos cães e pérola aos porcos? Como usamos desta honraria que a Igreja nos deu? Como eu uso do pontificado que a Igreja me deu? Usamos como autênticos conhecedores de Jesus Cristo? Ou será que os nossos ofícios e títulos são pérolas aos porcos? Meus diletos irmãos, não posso dizer que o último mês foi um tempo simples e fácil. A ausência de uma grande parcela do colégio cardinalício foi sentido e refletiu em toda a Igreja. Todos nós passamos, obviamente, por momentos de provas de fim de semestre, de outras atividades, e aqueles que se ausentaram solicitaram a devida licença. Sim, sim, não nego isso. Mas espero que agora, fim da do semestre, seja o momento de voltarmos às nossas atenções para a nossa Igreja. Eu sempre vos disse com muita clareza, não tenho nenhum problema com a pessoa que entende que não deve dar tanta atenção à Igreja no Habbo. Mas essa pessoa tem total liberdade de pedir emeritude. Agora, o que não dá é para permanecermos apenas ocupando uma cadeira. E ao mesmo tempo, não fazermos os nossos ofícios. Não cumprirmos com os nossos ofícios. Infelizmente, algo que pesa muito para mim é a amizade que tenho para com muitos dos senhores. Com todos, basicamente. Este colégio cardinalício, que está atualmente é um colégio de amigos. Não tenho inimizade com nenhum dos senhores. Por isso, quando os senhores vêm com as vossas justificativas, que muitas vezes considero válidas e necessárias, eu sempre digo que está tudo bem. Porque eu não posso me impor as vossas vidas pessoais. Não posso impor a nossa Igreja acima da vossa vida. Sequer acho saudável que alguém faça isso. Mas, essa amizade às vezes pode atrapalhar também o próprio andamento da Igreja. Os senhores bem sabem que a minha tendência é sempre a misericórdia. Só que chega um momento que não dá para empurrarmos mais algumas coisas com a barriga. Por isso, considero que devemos refletir, estou colaborando com a Igreja? O ofício que tenho colabora com a Igreja? O que eu posso fazer sem depender dos outros? Não que na Igreja alguém seja sozinho. A comunidade é essência da Igreja. Só que cada um aqui dentro, como cardeal, deve ter as suas próprias iniciativas. Eu detesto interferir nos dicastérios. E só interfiro quando acho realmente necessário. Eu sei que é muito difícil eu dizer algo porque corre-se o risco de comparar com o meu próprio ministério enquanto cardeal. Por isso, peço aos senhores que, antes de olhar para minha pessoa, olhem para o meu ofício e para a responsabilidade que tenho diante da Igreja para dizer o que direi. O Dicastério para evangelização não promove as missões que eram necessárias. O Dicastério para o culto Divino e a disciplina dos sacramentos está engatinhando nas reformas litúrgicas. O Dicastério para os seminários não consegue terminar a apostila. O Dicastério para os leigos, eu ainda sequer vi a alguma página da apostila para os leigos. As arciprestias as eu não vejo outra celebração nas basílicas a não ser as minhas. Vejo alguns trabalhos com os presbíteros, mas ainda não o suficiente. Sinto, na verdade, falta de apoio com os presbíteros. O próprio monsenhor Ruan é alguém carente e que precisa da nossa atenção, porque faz um belíssimo trabalho pastoral com os leigos. Eu não sei como estão os meus bispos. Tem duas figuras do colégio episcopal que eu não sei o que fazer, que são dom Erlei e dom Everton. Na verdade, meus caros, sinto falta de um apoio no geral. Quando me lembro das nossas conversas sobre pontificados mais curtos, o que fez o próprio meu antecessor, João Paulo VIII, Ter tido um breve pontificado, fico pensando: O meu pontificado também deveria ser breve, mas como deixar a Igreja ainda com essas situações? Sem qualquer ilusão de Salvador da pátria, sem messianismo. Mas continuo meu Ministério no desejo de que todos nós nos empenhemos para podermos cumprir com aquilo que devemos fazer para com a nossa Igreja. Quando olho para discursos como o que vimos no grupo, recentemente, de ex clérigos, agora cismáticos falando que estão nas outras igrejas por causa dos pagamentos que lá existem, eu fico de fato feliz. Porque percebo que os que estão aqui estão porque levam com seriedade a Igreja. Que este colégio com a sua bonita missão de colaborar de perto com o Romano pontífice em sua missão. Possa também levar com seriedade o Ministério que lhes foi confiado. Que possamos continuar ao mesmo tempo, com leveza, para termos gosto pelo que fazemos, mas com o devido compromisso que assumimos. 

segunda-feira, 24 de junho de 2024

24.06.2024 | Natividade de São João Batista

Amados irmãos e irmãs, estamos celebrando a Solenidade da Natividade de São João Batista, neste dia em que também rendo graças a Deus pelo meu aniversário natalício no dia de ontem. A liturgia de hoje nos mostra que Deus faz e cumpre as suas promessas. O segundo canto do servo sofredor, no livro do profeta Isaías, que ouvimos na primeira leitura de hoje, nos fala de um Deus que escolhe o seu servo. A eleição, aqui manifestada sobre Israel, é presente também na narrativa do Evangelho, sobre a figura de São João Batista. No nome João, está também a manifestação da sua eleição: Deus é graça, Deus é benção, Deus é misericórdia. E essa graça, essa bênção, essa misericórdia são de Deus em favor a Isabel e Zacarias, que conceberam o filho na velhice. E, em Isabel e Zacarias está simbolizado todo Israel, todo o povo de Deus da Antiga Aliança, que ainda na velhice dá um último fruto, que é o último dos profetas. João Batista é o final definitivo do Antigo Testamento, porque, após ele, que aponta o Cordeiro de Deus, o próprio Cordeiro de Deus inaugura um novo tempo. De tantos precursores, de tantos profetas, João Batista é aquele imediato, aquele que aponta com seus dedos. Não em vão ele é o maior entre os nascidos de mulher, e ao mesmo tempo o menor no reino de Deus. Batizou com água, num batismo de conversão. Mas, batizou o próprio autor do batismo. Entre tantos batistas, ele se destacou por seu estilo de vida, pela coerência entre sua mensagem e sua prática. O anúncio da conversão não foi um simples anúncio de uma pequena ou mera mudança. Ele preparou o terreno, o caminho, para a verdadeira mudança e plena mudança no caminho de todos, na vida de todos, no percurso da humanidade. Mas, ao mesmo tempo ele reconheceu não ser digno de desatar as correias de sua sandália. O costume judaíco dizia que o homem a quem uma mulher fosse prometida em casamento, mas que a negasse, deveria desatar as correias da sandália de seu futuro marido. Todos achavam que João era o Cristo, mas, ele sequer era digno de passar-lhe a esposa, que é a Igreja. A esposa nunca foi dele, nunca lhe foi prometida. A promessa acerca de João, por outro lado, era de um Deus que daria até o fim os frutos a seu povo. Deus não se esqueceu de sua aliança com Israel, de sua promessa. Ele a cumpriu. Deus não é apenas um Deus de promessas, mas, é um Deus de realizações. Assim seja! Amém.

sábado, 15 de junho de 2024

16.06.2024 | XI Domingo do Tempo Comum

Amados irmãos e irmãs, estamos celebrando o XI Domingo do Tempo Comum. A liturgia deste domingo, recorda-nos que somos necessitados da graça de Deus. Na primeira leitura, Ezequiel profetiza a partir do exílio da Babilônia. Provavelmente o profeta estava na primeira leva dos que foram deportados de Judá para a Babibilônia, sob o julgo de Nabucodonosor. Em sua profecia, primeiro Ezequiel se empenha em criticar o povo de Deus. O profeta lembra-os que foi por causa da infidelidade do povo, que agora eles sofriam o exílio. Mas, agora, Ezequiel está trazendo uma mensagem de esperança. O próprio Deus vai tirar um galho da copa do cedro e vai planta-lo sobre o alto do monte de Israel e sob sua sombra virão os pássaros. E, por estar acima de todas as outras árvores, todas saberão que o Senhor elevou aquela árvore. Esta mensagem é uma mensagem de profunda esperança para o povo exilado. Porque mesmo estando ali no exílio, Deus não se esquece deles. A mensagem de Ezequiel é que é o próprio Deus quem vai tirar Israel, seu povo, do exílio e vai levá-lo de volta para o alto do monte de Sião, para Jerusalém. E o profeta ainda termina dizendo "Eu, o Senhor, digo e faço". Quem faz, meus queridos, quem faz é o Senhor. Quem vai libertar a Israel não são suas próprias forças. É o Senhor. No Evangelho é colocada para nós uma categoria muito importante: o Reino de Deus. Jesus Cristo, o Filho de Deus, a segunda pessoa da Santíssima Trindade, encarnou-se por amor, e encarnou-se para uma dupla missão, a de salvar o ser humano, e para anunciar e instaurar o Reino de Deus. Mas, o que é o Reino de Deus? Jesus explica através de parábolas, porque é difícil entender o Reino de Deus. Sabemos que o Reino de Deus está no já e no ainda não. Ou seja, ele já está presente na história humana, mas ainda não é o Reino em plenitude. Porque o Reino de Deus não é deste mundo. Tanto que na segunda leitura, São Paulo fala aos coríntios que nós preferimos deixar a moradia do nosso corpo para ir morar junto do Senhor. Isso não quer dizer, é claro, nós pormos um fim a nossa vida. Mas, quer dizer que lá, sim, alcançaremos a plenitude do Reino. Porque o Reino de Deus é aquela realidade onde ninguém mais vai sofrer, ninguém mais vai chorar, ninguém mais vai ficar triste. Reino de Deus é aquela realidade onde não haverão pobres, nem ricos ensoberbecidos, nem famintos, nem sedentos, nem nhus, nem doentes, nem prisioneiros, nem ladrões, nem assassinos, nem fofoqueiros, nem julgadores, nem nenhum tipo de mal. Mas, não nos iludamos. Se participaremos do Reino na eternidade, depende se já participamos do Reino agora. E não apenas nós devemos estar no Reino de Deus, é o Reino de Deus que deve estar em nós. E como esse Reino acontece em nós? Como esse Reino acontece no meio de nós? O Reino acontece por ação de Deus. Por graça de Deus. Nós podemos até espalhar a semente do Reino em nós e no mundo. Mas, o Reino vai crescer por ação de Deus. O Reino de Deus tem uma energia, tem um dinamismo próprio que o faz crescer. E aí precisamos ser pacientes. Porque a semente vai germinando e crescendo, mas nós não sabemos como isso acontece. Precisamos ser muito pacientes com os outros em suas imperfeições. Mas, acima de tudo, precisamos ser pacientes conosco mesmos. Precisamos entender que o Reino vai crescendo em nós no dia a dia, nas coisas pequenas, e que nós quase não percebemos. Ser pacientes e deixar que o tempo cure nossas feridas. Porque todos nós trazemos feridas. Ser pacientes e deixar que a ação de Deus aconteça. Grandes momentos de conversão e de mudança são sim necessários, mas tendem a ser como a folha seca que rápido queima. A verdadeira conversão, a verdadeira mudança, o verdadeiro crescimento do Reino de Deus em nós é aos poucos. Nós temos que ter confiança e esperança. Sim, confiança e esperança que o Reino de Deus está crescendo em nós e no meio de nós. Que ele, que ainda é a menor sementinha, o grão de mostarda, vai se tornar a maior das hortaliças. Que o Reino de Deus, já instaurado por Jesus, um dia será tão grande, tão grande, que será muito maior do que todos esses reinos deste mundo. Sabem o que é este Reino? É o amor. Porque o Reino é de Deus e Deus é amor. Que sejamos capazes de abrir os nossos corações para permitirmos que a semente cresça, que o Reino de Deus se dilate, até o dia que ele for tudo em todos. Assim seja! Amém.

domingo, 9 de junho de 2024

09.06.2024 | X Domingo do Tempo Comum

Amados irmãos e irmãs, estamos celebrando o décimo domingo do Tempo Comum. Devemos tomar cuidado com o espírito de divisão. A primeira leitura é a narrativa do pecado original. Adão e Eva representam toda a humanidade que quer ser como Deus. Deus fez a humanidade livre. E na sua liberdade, diante do tentador, Eva e Adão comem do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Não só desobedecem a ordem de Deus, de que não poderiam come-lo, mas, queriam ter o conhecimento de Deus. E de fato, ali eles tomam consciência que estavam despidos. Ou seja, conhecem o mal. E quando conhecem o mal, o ser humano que é bom por natureza, porque é criação de Deus, se divide do seu criador. Aí está um primeiro espírito de divisão que o ser humano optou em sua liberdade. Mas, há na liturgia de hoje uma segunda situação de liberdade, que é a liberdade de Jesus. A perícope do Evangelho de São Marcos que ouvimos fala sobre a relação de Jesus com seus parentes, e costura no meio disso um embate de Jesus com os mestres da lei. São Marcos faz muito isso. E hoje nos mostra Jesus em sua liberdade. Ele é livre das amarras com sua parentela, é livre das amarras institucionais dos mestres da lei, é livre. E aqui, livre, mas não dividido. É livre dos seus parentes, mas amplia sua família a todos aqueles que ouvem a palavra de Deus e a põe em prática. É livre dos mestres da lei, mas não deixa de apontar a salvação, o caminho da verdade, também a eles. Diante dos parentes que achava que Jesus estava ficando louco por causa de sua missão, o Senhor mostra que sua missão é sim extrema. É preciso as vezes renunciar ao sono, a alimentação, a diversão, por causa do anúncio do Reino de Deus. Sua missão não é uma missão de melindrosos, mas de homens e mulheres livres, capazes de assumir os extremos do Evangelho. No embate dos os mestres da lei, que acusam Jesus de expulsar os demônios em nome de Belzebu, o príncipe dos demônios, Jesus mostra como é ilógico o raciocínio deles. Não há Reino que se divida contra si mesmo e subsista. Mas nós tendemos a dividir o Reino de Deus. Não somos capazes, mas muitas vezes temos essa tendência. E fazemos isso quando optamos por não viver esse Reino. Fazemos isso quando dizemos não aos extremos do Evangelho. A partir de quando a Palavra de Deus chegou aos nossos ouvidos nós já estamos comprometidos com ela, qualquer abstenção é ilusória. Por isso o nosso não divide. Divide-nos de Deus e nos divide a nós mesmos, pois o ser humano não pode ser completo senão em Deus. Por isso, São Paulo na segunda carta aos coríntios que ouvimos pode dizer com tanta segurança que após os sofrimentos desta vida, Deus nos prepara uma moradia na eternidade. Pois aquele que se uniu ao Senhor por toda a vida, também espera se unir a ele no céu. Mas, aquele que dividiu seu coração do coração de Deus, aquele que foi instrumento de divisão de famílias, de grupos de pessoas, de amizades, todo aquele que dividiu, também terá seu lugar com o divisor, o diabo. Somos livres para escolher: união ou divisão, ser família de Jesus em seu Reino ou sermos nós os nossos próprios deuses?

quinta-feira, 6 de junho de 2024

06.06.2024 | Solenidade do Sagrado Coração de Jesus

Amados irmãos e irmãs, estamos celebrando a Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, o dia de oração pela santificação do clero. Deus nos amou por primeiro. Diante desta mensagem de amor, o profeta Oséias traz a promessa de Deus de não destruir o seu povo. O profeta anuncia um Deus de coração que se comove no íntimo e arde de compaixão. É um Deus apaixonado. Deus amante dos homens. E como amante, espera receber de troca o amor. E mesmo quando o amado não devolve amor, o amante continua a amar. O amor é gratuito, não precisa receber amor em troca. Antoine di Saint-Exupéry, em O pequeno príncipe, diz que  se o amado vem as quatro, desde as três o amante começará a ser feliz. Deus é este amante tão apaixonado. E de seu coração apaixonado e encarnado em Jesus Cristo, morto no alto da cruz, o amor gera frutos. Os frutos jorram como a água e o sangue, do coração traspassado do Divino Redentor, e que São João narra no Evangelho que ouvimos. O amor jorra para nós no Batismo e na Eucaristia. No Batismo nos tornamos membros do Corpo do Cristo amante. Na Eucaristia, comungamos o amor. Que coração cheio de amor, meus irmãos e minhas irmãs. Coração chagado por amor. Coração cheio de amor pra dar. O coração de Jesus pulsa eternamente de amor por nós. Precisamos por os nossos corações pertinho do dele. Pois assim como um casal de namorados tocam os seus corpos e os corações parecem bater na mesma frequência e ritmo, os nossos corações encostados com o do Senhor baterão na mesma frequência, no mesmo ritmo e no mesmo amor. Este é o amor, meus irmãos e irmãs, que São Paulo diz na carta aos Efésios que é um amor que ultrapassa todo conhecimento. Esse amor inimaginável é o amor que Deus tem por nós. Ele espera o nosso amor. Não o força, não o obriga, mas o espera. Que possamos abrir nosso coração ao Sagrado Coração de Jesus para experimentarmos a força do amor gratuito de Deus e sermos capazes de amar um pouquinho do que ele ama. Rezemos pelo nosso clero do Habbo e por todo o clero da realidade, para que o Senhor santifique o seu clero. O Senhor escolheu homens muito pecadores, muito falhos, cheios de misérias, justamente para experimentarem a força do poder misericordioso do seu coração amoroso. Que o Senhor que chamou os seu clero, o santifique para que sejamos capazes de, apesar da fraqueza humana, alcançarmos a fortaleza do pastor de coração manso e humilde, que nos dá um fardo leve e tem um julgo suave. Jesus, manso e humilde de coração. Fazei do nosso coração semelhante ao vosso.

terça-feira, 4 de junho de 2024

04.06.2024 | Missa Exequial de Dom Darci José Cardeal Nicioli

Amados irmãos e irmãs, estamos aqui reunidos para celebrarmos a páscoa de Dom Darci José Cardeal Nicioli. Este nosso querido irmão faz sua passagem, isto é, muda de estado de vida. É momento de fazermos duas reflexões: o sentido de nossa existência como Igreja no Habbo Hotel e o sentido da morte na vida do cristão. Sim, mesmo que este nosso irmão continue sua vida na realidade, pensarmos no sentido da morte cristã, já que aqui celebramos o fim de sua vida no hotel. Portanto, me permitam dividir minha homilia em duas partes. Em primeiro lugar, falarmos de nossa Igreja, a partir de Dom Darci. Porque Dom Darci está entre os primeiros de nossos irmãos, que fizeram parte dessa nossa Igreja e que se tornaram clérigos na realidade. Nos lembra que nossa Igreja é lugar de florescimento, de poda e de amadurecimento de vocações. E nisto a Igreja no Hotel tem muito a colaborar. Porque, por mais que hajam pessoas que conseguem viver quase um alter ego aqui, o que talvez seja muito problemático, a maioria de nós somos aqui o reflexo de quem somos na realidade. E na vida comunitária que aqui temos, podemos crescer uns com os outros. Também nos reflete quem aquela pessoa será na Igreja da realidade. Não sem excessões, o clero acaba sendo um termômetro para a própria pessoa que quer abraçar o chamado à vida sacerdotal, de perceber os sinais da vocação, e até mesmo de perceber que não os tem. A Igreja também nos ensina a lidar com o outro enquanto outro, nas nossas diferenças. Nestes sentidos, nossa Igreja tem muito a contribuir com cada um de nós. E Dom Darci foi alguém que soube vivenciar muito bem essa experiência que a Igreja do Habbo o concedeu. Aqui por muitos anos se desgastou. No seu período de pausa no processo formativo, largamente doou seu tempo e sua sabedoria à Igreja. Um homem sempre muito disposto a abraçar as missões lhe foram confiadas, e muito sincero consigo mesmo e com a Igreja quando não podia desempenha-las. Seu amor e carinho especial pela Mãe Aparecida, o devotou não apenas o cuidado com a casa da Mãe, mas, também e sobretudo, o ofício de Arcebispo de Aparecida. Pensarmos em Dom Darci é pensarmos num homem simples, que soube ajudar a Igreja muitas vezes no silêncio, ajudando os outros, estando com, sendo presente. Pensarmos em Dom Darci é pensarmos em gratidão a Deus por sua vida, pelo seu ministério, por tudo que  fez e viveu conosco, e pedir a Deus que o acompanhe e esteja com ele neste novo estado de vida. Em segundo lugar, amados irmãos e irmãs, pensemos na morte do cristão. Nós não fomos criados para ficarmos eternamente neste mundo. Mas, esta morte que nós conhecemos, que é incerteza, que é dor, não estava nos planos de Deus. Por isso, a Ressurreição de Jesus Cristo dá novo sentido à nossa morte. Sim, pecamos. Mas estamos cheios da esperança que Deus, em sua misericórdia, perdoe os nossos pecados de um modo ainda maior do que somos capazes de perdoar. Nós tememos a experiência da morte. Tememos porque nossa fé ainda não é do tamanho de uma semente de mostarda. Temos medo de cair na escuridão, na inexistência. Temos medo porque não somos capazes de imaginar a morte como experiência além do espaço e do tempo. Aí transformamos em nossa imaginação o céu, o inferno em lugares. Contamos até dias de purgatório, num lugar que não há tempo. Mas, irmãos e irmãs, diante de todo esse mistério que envolve a morte do cristão, tenhamos esperança. Tenhamos esperança que viveremos para sempre em Deus. Tenhamos esperança pois a vida saiu vitoriosa na batalha entre a morte e a vida. Tenhamos esperança porque ele foi nos preparar um lugar no céu. Não um lugar físico, não mais uma morada física, mas uma morada, um lugar eternos. Eterno é aquilo que não tem começo, nem meio e nem fim. Lá Deus será tudo em todos. E eu acredito que quando fecharmos os olhos neste mundo para abrirmos em Deus, ele só fará pergunta no juízo: "AMASTE?". E eu e você responderemos com toda sinceridade possível o quanto amamos e o quanto não amamos. Deus não nos acusa. O divisor nos acusa. Nós nos acusaremos, e agora sabendo de todas as coisas. O Espírito Santo será nosso advogado. Nossos juízes o Pai e o Filho. O Pai que amou tanto o mundo que enviou seu Filho. O Filho que amou tanto o mundo que morreu na cruz por amor. Amados irmãos e irmãs, diante deste tribunal, como não confiarmos na infinita misericórdia? Ele nos julgará com justiça. Mas, até o último instante de nossa vida, até o último sopro de existência em nós, ele estará procurando um meio de nos converter para que sua sentença para nós seja a misericórdia. Assim seja! Amém.

domingo, 2 de junho de 2024

02.06.2024 | Solenidade de Corpus Christi

Amados irmãos e irmãs, querida comunidade romana, estamos celebrando a Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo. Celebramos, hoje, a solenidade do Sacramento. A primeira leitura do livro do Êxodo nos fala sobre a aliança firmada entre Deus e o povo, por meio de Moisés, quando o povo adere a aliança. E o sinal desta aliança firmada, é a aspersão do sangue dos animais do sacrifício, derramado sobre o altar e aspergido sobre o povo. É firmado um pacto de sangue. O sangue não é sinal da morte na tradição hebraica. Pelo contrário, o sangue era sinal da vida, que traz pureza e impureza. Pois bem, a vida nos veio não pelo sangue dos animais da antiga aliança, mas, pelo sangue de Cristo, derramado no altar da cruz e aspergido sobre nós, firmando uma nova e eterna aliança, como nos explicou o autor da carta aos Hebreus na segunda leitura. E ali, na cruz, ele fez-se ao mesmo tempo sacerdote, altar e cordeiro. Ele foi, como nos diz a liturgia da Igreja Maronita, Imolado Redentor, que oferecesteu a si mesmo ao Pai!: "Ó Cordeiro, que fostes de Vós mesmo o Pontífice sacrificador!". Ele mesmo, antes de padecer a Paixão e ser vitorioso na Ressurreição, quis instituir o memorial de seu mistério Pascal por meio da Eucaristia, como nos relatou São Marcos no Evangelho que ouvimos. De fato, no XI Sínodo dos Bispos, em 2001, os Bispos da Igreja afirmaram que a Eucaristia é fonte e ápice da vida e missão da Igreja, de modo que dela tudo brota e nela tudo culmina. O Senhor fez do seu Sacramento da Eucaristia para ser seu mistério Pascal e nosso alimento. Mistério Pascal pois não podemos reduzir a Eucaristia, a celebração eucarística, apenas a Paixão do Senhor. De fato, a celebração eucarística é o sacrifício incruento do Redentor. Ao mesmo tempo, ela é mistério do Cristo que desce a mansão dos mortos, é a celebração do Senhor Ressuscitado, que imolado já não morre e morto vive eternamente, e é a celebração da mesa do Senhor, da ceia que o Senhor Ressuscitado prepara para nós. Nós acreditamos que o mistério que celebraremos eternamente no céu, já o vivemos sob o véu do Sacramento. Já nos assentamos na mesa na qual queremos nos assentar eternamente no céu. Ali, na Ceia, Jesus institui a Eucaristia, "isto é meu corpo", "isto é meu sangue, o sangue da nova e eterna aliança". A nova aliança, a aliança indestrutível, foi firmada no sangue Redentor. E nós nos alimentamos deste Corpo e Sangue. O Deus infinito, imenso, que não pode caber em lugar algum, que não podia morar em construção humana, se encarna e se faz homem, e, depois, se faz pão e vinho para nos alimentar. Quão grande mistério de amor! Os escritores sagrados dizem com beleza, admirados com o fato de terem um Deus tão próximo. Imaginem, irmãos e irmãs, se eles tivessem tido a oportunidade de contemplar o próprio Deus feito pão e vinho, que se dá como alimento? Esta solenidade de hoje, nos quer recordar a importância do Sacramento da Eucaristia. Mas, não apenas. Quer nos lembrar que se comungamos o Corpo e o Sangue do Senhor nas espécies do pão e do vinho, é para nos cristianizar, ou melhor, nos cristificar. Somos chamados a deixar que o Sangue de Cristo corra em nossas veias; que seu Corpo ocupe as feridas existentes em nosso corpo, até podermos dizer que é Cristo que vive em nós. Senão, a Eucaristia perde seu sentido. Porque, se o sentido da Eucaristia é fazermos comunhão com Deus, quando ela não nos transforma, não mexe em nosso interior, podemos até comer o Corpo de Cristo, mas, não fazermos comunhão. Por isso, nada vale o exterior, se não levarmos em consideração o interior. Os gestos, as palavras da liturgia, precisam ser cheias de vida. Não adianta comungarmos de joelhos, se não dobramos nosso coração diante do Senhor. Não adianta não tocarmos as mãos na Sagrada Eucaristia por respeito, mas o recebermos numa boca imunda de pecado. Não somos capazes de dar mais ou menos dignidade a Deus, pois ele já é digníssimo. Não vivamos uma exterioridade eucaristíca, enquanto nosso coração permanece fechado ao Corpo e Sangue de Cristo. Quero encerrar esta nossa reflexão, propondo também uma reflexão de São João Crisóstomo, que muito antes de Santo Tomás de Aquino recebeu o título de doctor eucharisticus, por sua elaborada teologia sobre a Eucaristia: "Queres honrar o Corpo de Cristo? Então não o desprezes nos seus membros, isto é, nos pobres que não têm que vestir, nem ohonres no templo com vestes de seda, enquanto o abandonas lá fora ao frio e à nudez. Aquele que disse: 'Isto é o Meu Corpo' (Mt 26, 26), e o realizou ao dizê-lo, é o mesmo que disse: 'Porque tive fome e não Me destes de comer' (cf. Mt 25, 35); e também: 'Sempre que deixastes de fazer isto a um destes pequeninos, foi a Mim que o deixastes de fazer' (Mt 25, 42.45). Aqui, o corpo de Cristo não necessita de vestes, mas de almas puras; além, necessita de muitos desvelos. Deus não precisa de vasos de ouro, mas de almas que sejam de ouro. Não vos digo isto para vos impedir de fazer doações religiosas, mas defendo que simultaneamente, e mesmo antes, se deve dar esmola. Que proveito resulta de a mesa de Cristo estar coberta de taças de ouro, se Ele morre de fome na pessoa dos pobres? Por conseguinte, enquanto adornas a casa do Senhor, não deixes o teu irmão na miséria, pois ele é um templo e de todos o mais precioso.".