domingo, 2 de junho de 2024

02.06.2024 | Solenidade de Corpus Christi

Amados irmãos e irmãs, querida comunidade romana, estamos celebrando a Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo. Celebramos, hoje, a solenidade do Sacramento. A primeira leitura do livro do Êxodo nos fala sobre a aliança firmada entre Deus e o povo, por meio de Moisés, quando o povo adere a aliança. E o sinal desta aliança firmada, é a aspersão do sangue dos animais do sacrifício, derramado sobre o altar e aspergido sobre o povo. É firmado um pacto de sangue. O sangue não é sinal da morte na tradição hebraica. Pelo contrário, o sangue era sinal da vida, que traz pureza e impureza. Pois bem, a vida nos veio não pelo sangue dos animais da antiga aliança, mas, pelo sangue de Cristo, derramado no altar da cruz e aspergido sobre nós, firmando uma nova e eterna aliança, como nos explicou o autor da carta aos Hebreus na segunda leitura. E ali, na cruz, ele fez-se ao mesmo tempo sacerdote, altar e cordeiro. Ele foi, como nos diz a liturgia da Igreja Maronita, Imolado Redentor, que oferecesteu a si mesmo ao Pai!: "Ó Cordeiro, que fostes de Vós mesmo o Pontífice sacrificador!". Ele mesmo, antes de padecer a Paixão e ser vitorioso na Ressurreição, quis instituir o memorial de seu mistério Pascal por meio da Eucaristia, como nos relatou São Marcos no Evangelho que ouvimos. De fato, no XI Sínodo dos Bispos, em 2001, os Bispos da Igreja afirmaram que a Eucaristia é fonte e ápice da vida e missão da Igreja, de modo que dela tudo brota e nela tudo culmina. O Senhor fez do seu Sacramento da Eucaristia para ser seu mistério Pascal e nosso alimento. Mistério Pascal pois não podemos reduzir a Eucaristia, a celebração eucarística, apenas a Paixão do Senhor. De fato, a celebração eucarística é o sacrifício incruento do Redentor. Ao mesmo tempo, ela é mistério do Cristo que desce a mansão dos mortos, é a celebração do Senhor Ressuscitado, que imolado já não morre e morto vive eternamente, e é a celebração da mesa do Senhor, da ceia que o Senhor Ressuscitado prepara para nós. Nós acreditamos que o mistério que celebraremos eternamente no céu, já o vivemos sob o véu do Sacramento. Já nos assentamos na mesa na qual queremos nos assentar eternamente no céu. Ali, na Ceia, Jesus institui a Eucaristia, "isto é meu corpo", "isto é meu sangue, o sangue da nova e eterna aliança". A nova aliança, a aliança indestrutível, foi firmada no sangue Redentor. E nós nos alimentamos deste Corpo e Sangue. O Deus infinito, imenso, que não pode caber em lugar algum, que não podia morar em construção humana, se encarna e se faz homem, e, depois, se faz pão e vinho para nos alimentar. Quão grande mistério de amor! Os escritores sagrados dizem com beleza, admirados com o fato de terem um Deus tão próximo. Imaginem, irmãos e irmãs, se eles tivessem tido a oportunidade de contemplar o próprio Deus feito pão e vinho, que se dá como alimento? Esta solenidade de hoje, nos quer recordar a importância do Sacramento da Eucaristia. Mas, não apenas. Quer nos lembrar que se comungamos o Corpo e o Sangue do Senhor nas espécies do pão e do vinho, é para nos cristianizar, ou melhor, nos cristificar. Somos chamados a deixar que o Sangue de Cristo corra em nossas veias; que seu Corpo ocupe as feridas existentes em nosso corpo, até podermos dizer que é Cristo que vive em nós. Senão, a Eucaristia perde seu sentido. Porque, se o sentido da Eucaristia é fazermos comunhão com Deus, quando ela não nos transforma, não mexe em nosso interior, podemos até comer o Corpo de Cristo, mas, não fazermos comunhão. Por isso, nada vale o exterior, se não levarmos em consideração o interior. Os gestos, as palavras da liturgia, precisam ser cheias de vida. Não adianta comungarmos de joelhos, se não dobramos nosso coração diante do Senhor. Não adianta não tocarmos as mãos na Sagrada Eucaristia por respeito, mas o recebermos numa boca imunda de pecado. Não somos capazes de dar mais ou menos dignidade a Deus, pois ele já é digníssimo. Não vivamos uma exterioridade eucaristíca, enquanto nosso coração permanece fechado ao Corpo e Sangue de Cristo. Quero encerrar esta nossa reflexão, propondo também uma reflexão de São João Crisóstomo, que muito antes de Santo Tomás de Aquino recebeu o título de doctor eucharisticus, por sua elaborada teologia sobre a Eucaristia: "Queres honrar o Corpo de Cristo? Então não o desprezes nos seus membros, isto é, nos pobres que não têm que vestir, nem ohonres no templo com vestes de seda, enquanto o abandonas lá fora ao frio e à nudez. Aquele que disse: 'Isto é o Meu Corpo' (Mt 26, 26), e o realizou ao dizê-lo, é o mesmo que disse: 'Porque tive fome e não Me destes de comer' (cf. Mt 25, 35); e também: 'Sempre que deixastes de fazer isto a um destes pequeninos, foi a Mim que o deixastes de fazer' (Mt 25, 42.45). Aqui, o corpo de Cristo não necessita de vestes, mas de almas puras; além, necessita de muitos desvelos. Deus não precisa de vasos de ouro, mas de almas que sejam de ouro. Não vos digo isto para vos impedir de fazer doações religiosas, mas defendo que simultaneamente, e mesmo antes, se deve dar esmola. Que proveito resulta de a mesa de Cristo estar coberta de taças de ouro, se Ele morre de fome na pessoa dos pobres? Por conseguinte, enquanto adornas a casa do Senhor, não deixes o teu irmão na miséria, pois ele é um templo e de todos o mais precioso.". 

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