domingo, 30 de outubro de 2022
30.10.2022 - XXXI Domingo do Tempo Comum
quinta-feira, 27 de outubro de 2022
27.10.2022 - Missa em Sabina
Amados filhos e filhas, quero saudar com alegria e afeto a Dom Odilo Pedro Cardeal Scherer, Bispo desta Diocese Titular Subúrbicaria de Sabina Poggio-Mirteto, e em seu nome em saúdo os demais aqui presentes. A Liturgia de hoje nos recorda que estamos, sim, numa batalha, que é uma batalha espiritual. A batalha é contra quem? É contra o mesmo inimigo desde sempre: satanás, o diabo, o demônio e seus anjos. Sim, pois os inimigos de Deus são também os nossos inimigos e são eles quem querem que o plano de Deus não se concretize em nossas vidas e a salvação, consequentemente, não chegue até nós. Por isso, São Paulo nos orienta e revestirmo-nos da armadura de Deus que é a oração. Nada na Igreja, nenhuma obra, nenhuma missão, e nada na nossa vida pessoal pode acontecer sem oração. Precisamos ser homens e mulheres de oração, capazes de rezar com a própria vida. O inimigo detesta alguém que se aproxime de Deus e, por isso, quando quer nos arruinar, primeiro nos afasta da oração. Filhos e filhas, é o diabo que nos faz pensar que por sermos pecadores, nós não podemos rezar, não podemos nos aproximar de Deus. Jesus veio ao mundo justamente para que nós possamos, mesmo que pecadores, nos aproximar de Deus e mudar de vida. E a obra de Jesus, como Ele mesmo disse no Evangelho, se concretiza em Jerusalém, na cruel cidade de Jerusalém que não aceitou a Jesus, e lá onde ele foi crucificado, morto e ressuscitou. Aí se manifesta toda a força de Cristo: a força da proximidade com o Pai, da obediência e do amor que o levam à cruz e ressurreição. Assim, por mais que sejamos pecadores, somos chamados a aproximarmo-nos de Deus com a certeza de que ele nos procura, também, mesmo que sejamos pecadores. É muita prepotência nossa pensarmos que quando rezamos é porque nós queremos nos aproximar de Deus; muito pelo contrário, é Deus que quer se aproximar de nós, curar nossas feridas, aliviar todo sofrimento desnecessário e nos convidar a unirmo-nos a morte e ressurreição de Jesus, razão de nossa alegria e, ao mesmo tempo, queda e destruição do inimigo. Assim seja! Amém.
segunda-feira, 24 de outubro de 2022
24.10.2022 - Aniversário de Ordenação Presbiteral
Amados filhos e filhas, reunidos hoje neste dia em que rendemos graças a Deus pelos meus oito anos de ordenação presbiteral, saúdo-vos com alegria e afeto em Cristo Jesus. Hoje, Cristo nos recorda que o amor é superior a lei e que a lei está a serviço do homem e não o homem a serviço da lei. Jesus não precisava curar aos sábados, mas, o faz para que o homem recupere seu estado de dignidade diante da lei. Sim, pois de tal modo os mestres da lei e os fariseus pregavam a lei de Deus, que a lei deixou de ser de Deus, e passou a ser dos homens: tradições vazias, costumes a serem seguidos, que tiravam do homem sua dignidade própria em vista de uma moral fajuta. A lei se tornou como que um ídolo quando passou a ser mais importante que o conjunto da Palavra de Deus. Jesus se depara com a realidade do sofrimento de seu povo amado, do povo que Ele veio redimir. Como permaneceria parado diante do sofrimento humano dos seus? Não. Ele vai e cura. Não se importa com a lei humana, mas coloca a verdadeira lei de Deus sobre todas as coisas e demonstra que esta lei está intrinsicamente ligada ao amor. Por isso, o povo se alegra: sente que Deus está com eles. E é São Paulo na Carta aos Efésios que nos convida a imitarmos Jesus. Sim, pois ao imitar Jesus nós consequentemente somos seguidores da lei de Deus. De fato, a lei não perde seu valor em Cristo, mas é levada por Ele à plenitude. Sermos imitadores de Jesus é abandonarmos o pecado, amando a Deus de todo coração, e por consequência deste amor a Deus, promovermos também a vida dos irmãos e irmãs, promovendo a dignidade de toda pessoa humana. Rendendo graças a Deus pelos meus oito anos de ordenação presbiteral, não posso deixar de recordar a maravilha de Deus na minha vida. Sou muito grato a Deus por fazer parte desta Igreja. Sou muito grato a Igreja do Habbo que a oito anos me forma como pessoa, me deu tantos amigos, tantas experiências, tantas possibilidades de crescimento pessoal e discernimento vocacional. Ao longo destes oito anos foram muitos momentos maravilhosos e muitos momentos tristes. De fato, não fui por muito tempo presbítero, embora achasse que nunca passaria por isso. Mas, esse dia de hoje marca, para mim, de modo muito profundo, o início de uma história de amor e dedicação por esta Igreja. Foi muito dinheiro e muito tempo investido aqui e não me arrependo de nada disso. Aqui aprendi muita coisa, inclusive amar a Igreja da realidade e conhecê-la cada vez mais, me aperfeiçoando de modo que hoje me destaco em áreas que estudei para a nossa Igreja. Se Deus me permitiu tantas vezes estar neste ofício tão alto de nossa Igreja, penso que só pode ser pois ele sabe meu amor e desejo de querer bem e de servir a vós e a toda a Igreja. Para mim, tudo isso marca uma linda história. Hoje peço a Cristo a graça de que eu, em meu ministério que desempenho há oito anos, e que todos nós aqui reunidos, sejamos seus imitadores: imitadores do Senhor no amor, na santidade, no testemunho, e na promoção da dignidade da vida humana contra qualquer tipo de tendência de feri-la e no amor e serviço a sua Santa Igreja. Assim seja! Amém.
domingo, 23 de outubro de 2022
23.10.2022 - XXX Domingo do Tempo Comum
Amados filhos e filhas, estamos celebrando o XXX Domingo do Tempo Comum, dia mundial das missões, rezando pela evangelização dos povos. Neste domingo somos interpelados a sermos anunciadores, testemunhas vivas do nosso Senhor Jesus Cristo. E Jesus Cristo aparece para nós, na Liturgia deste domingo, como o justo juiz. Sim, Jesus é o juiz que vem para aplicar sobre nós a sentença Divina. Contudo, a justiça de Deus tem um nome; e esse nome é MISERICÓRDIA. Filhos e filhas, Deus não quer a nossa condenação eterna, mas quer ser misericordioso para conosco. E tudo o que ele precisa para isso é que nós nos coloquemos diante dele com um coração quebrantado. Deus nunca recusa um coração quebrantado. Repito: DEUS NUNCA RECUSA, NUNCA DESPREZA UM CORAÇÃO QUEBRANTADO! Deus não se esquece, não olha com desgosto para qualquer um de seus filhos e filhas que se põe diante dele, rasga o coração, e o clama por misericórdia. É a prece de quem se coloca humildemente diante de Deus, diz-nos o Eclesiástico, que se eleva até as nuvens, isto é, que chega a presença de Deus. Mas, o coração arrogante, a este Deus não escuta, pois é preciso que ao se colocar diante de Deus que o homem reconheça a Deus como Senhor da sua vida e da sua história, como Àquele ao qual deve se submeter toda a sua vontade. Caso contrário, o homem tende a rebaixar Deus, a elevar-se sobre Deus e querer que Deus faça conforme a vontade humana. Se no domingo passado o Senhor nos insistia para que rezássemos com perseverança, hoje Ele insiste que essa oração deve brotar com humildade. Foi por falta de humildade que o fariseu da parábola do Evangelho saiu da presença do Senhor sem ser justificado. E isto é um alerta para que nós tenhamos cuidado: não é porque nós estamos na Igreja, somos ministros, trabalhamos nas pastorais, ou apenas frequentamos a missa, não é porque somos seminaristas, padres, bispos, cardeais ou papa que somos melhores do que os outros e podemos rebaixar o outro. NÃO! MUITAS VEZES NÓS SOMOS OS PIORES. Às vezes os cobradores de impostos, ou seja, os que vivem de falcatruas, e até mesmo as prosthithutas são mais dignos de estar na presença do Senhor do que nós: pois eles reconhecem a sua pequenez. Nós, tantas e tantas vezes olhamos com desprezo para estas realidades, mas estes são os mais amados pelo Senhor, porque onde abundou o pecado, aí superabundou a graça. Nossa posição é de sempre reconhecermos diante da grandeza de Deus e do seu infinito amor, nós não somos nada. Nada! Somos menos do que nada. Somos sempre necessitados de seu amor, de sua misericórdia. E, tantas e tantas vezes, quanto mais próximos do Senhor, mais reconhecemos que nada somos e mais necessitados de sua misericórdia precisamos. Aí de nós quando nos achamos melhores. Aos que se acham melhores, Deus nada reserva. Mas, aos pequenos, aos humildes, aos que se puserem a serviço dos outros e do Senhor, aos que rasgarem seu coração e reconhecerem quem são diante de Deus e de seu plano e projeto de amor, é a estes que o Senhor, justo juiz, dará a coroa imperecível da glória da qual fala São Paulo na segunda leitura. Coroa esta que não é dada por nossos méritos, mas por nossa bondade. Coroa esta que é consequência de aceitarmos neste mundo a coroa de espinhos e abraçarmos a cruz do Senhor. Se for para sermos elevados por Deus, o seremos ao nos unirmos a Cristo Crucificado e com Ele sermos exaltados na cruz. Quem busca erguer-se por si mesmo, vai cair de cara no chão, mas, ao humilde que aceitar ser pequeno em Cristo, sem nada querer em troca, é a este que Deus olhará com ainda mais misericórdia. Assim seja! Amém.
sábado, 22 de outubro de 2022
22.10.2022 - Solenidade de São João Paulo II
Amados filhos e filhas, estamos aqui reunidos nesta tríplice solenidade: celebramos São João Paulo II, padroeiro desta igreja, dedicamos esta igreja e este altar e comemoramos os sete anos de ordenação presbiteral de Dom Cristiano Tavares, a quem saúdo com afeto e estima e em seu nome saúdo a todos e todas aqui presentes. No Evangelho que acabamos de ouvir, confundem-se duas realidades: da dedicação que celebramos e da solenidade de nosso papa padroeiro. Ao dedicarmos essa igreja, após mais de sete anos de seu uso litúrgico, somos interpelados a recordar que quem dedica constantemente esta igreja, quem santifica essas paredes, somos nós. E só conseguimos fazer isso quando nós próprios assumimos àquele papel do qual nos fala São Paulo, de sermos integrados no edifício espiritual do Corpo de Cristo, de sermos morada de Deus pelo Espírito. Deste modo, filhos e filhas, este rito de dedicação deve nos ajudar a dignificar esta igreja como lugar próprio da adoração: A prece, a unção, a incensação e a iluminação que marcam este rito, oferecem a Deus, em primeiro lugar, este lugar que é todo oferecido para Ele; mas, sobretudo, é preciso que nós dediquemos também o nosso coração, unjamos nosso ser, nos ofereçamos como a fumaça do incenso, para que, unidos ao Corpo de Cristo como povo de Deus, um dia nos unamos a Ele na Jerusalém celeste, no banquete da vida na eternidade. Aqui, na igreja física, o altar simboliza o coração, o ambão a boca de Deus, a cadeira presidencial é a cabeça do Corpo, a pia batismal é o útero dessa Igreja que é mãe, todos nós somos os membros desse Corpo. Por isso, cada um de nós é importante para a Igreja, que não seria completa sem quaisquer um de seus membros. Assim, filhos e filhas, somos pedras vivas da Igreja. E neste templo espiritual, temos como alicerce os Apóstolos e neste sentido, São Pedro e seus sucessores como a base deste alicerce, e Jesus Cristo, nosso Senhor, é a pedra angular, isto é, aquela pedra que está no cume do edifício e que garante que o edifício não caia. São João Paulo II, com sua vida e seu testemunho, nos ajuda a olhar para diversas realidades; a doutrina, a fé, o direito, o sacerdócio, a vida, a família, os problemas sociais dos sistemas políticos atuais. Mas, acima de tudo, do primeiro ao último momento de seu pontificado ele nos convida a abrirmos, a eschancarmos as portas a Cristo, sem medo, sem receio, e abrirmos a ele, que perscruta e conhece o homem, seu interior, e permitirmos que ele, seja tudo em todos nós. São João Paulo II foi homem do diálogo, da missão, do ir ao encontro, não em vão foi o papa peregrino, o papa da juventude. Seus documentos e sobretudo seu exemplo são legados de um pontífice atento, zeloso e preocupado, de um homem que não teve medo e abriu seu próprio coração a Jesus Cristo. Abraçando com amor a missão e sendo integrado ao alicerce do Corpo de Cristo nesta terra, pelo ministério petrino, foi também integrado ao Corpo de Cristo no céu por sua santidade; isto é, por ter neste mundo manifestado o amor de Deus, o anunciado com sua voz marcante, firme e amorosa, e ao mesmo tempo o vivenciado na profundidade do seu coração, aceitando as consequências deste amor no sofrimento da vida. Que a exemplo de nosso padroeiro, São João Paulo II, não tenhamos medo, abramos as portas do mundo e as portas do nosso coração a Cristo e nos tornemos membros do seu Corpo, oferecedores do culto em sua casa e dedicados como pedras do edifício vivo que é sua Igreja, com a força e a alegria da Palavra e sob a proteção da Mãe de Deus e da Igreja, a Virgem Maria. Assim seja! Amém.
segunda-feira, 17 de outubro de 2022
17.10.2022 - Audiência Geral
mensagens. Maria aparece como a filha de Sião em pessoa. As promessas que dizem respeito a Sião cumprem-se de modo inesperado n’Ela. Maria torna-se a arca da aliança, o lugar de uma verdadeira habitação do Senhor. “Alegra-te, cheia de graça”. Essa ligação entre alegria e graça é outro aspecto digno de consideração, na saudação khaire; em grego, as duas palavras – alegria e graça (khara e kharis) – são formadas da mesma raiz. Alegria e graça andam juntas. Debrucemo-nos agora sobre o conteúdo da promessa. Maria dará à luz um filho, a quem o anjo atribui os títulos de “Filho do Altíssimo” e “Filho de Deus”. Além disso, é prometido que Deus, o Senhor, lhe dará o trono de seu pai Davi; reinará para sempre na casa de Jacó e o seu reino (o seu domínio) não terá fim. Depois se acrescenta uma série de promessas relativas ao modo “como” se dará a concepção: “O Espírito Santo virá sobre ti e o poder do Altíssimo vai te cobrir com a sua sombra; por isso, o Santo que nascer será chamado Filho de Deus” (Lc 1, 35). Comecemos pela última promessa; considerando a sua linguagem, pertence à teologia do Templo e da presença de Deus no santuário. A nuvem sagrada – a shekinà – é sinal visível da presença de Deus; simultaneamente esconde e manifesta o Deus que habita na sua casa. A nuvem, que estende a sua sombra sobre os homens, reaparece mais tarde na narrativa da Transfiguração do Senhor (cf. Lc 9, 34; Mc 9, 7); e de novo é sinal da presença de Deus, da manifestação de Deus escondido. Assim, através da afirmação sobre a sombra que desce com o Espírito Santo, é retomada a teologia relativa a Sião, já presente na saudação inicial. Mais uma vez, Maria aparece como a tenda viva de Deus, na qual Ele quer habitar, de um modo novo, no meio dos homens. Ao mesmo tempo vislumbra-se, no conjunto dessas palavras da anunciação, uma alusão ao mistério do Deus trinitário. Age Deus Pai, que prometera estabilidade ao trono de Davi e agora institui o herdeiro cujo reino não terá fim, o herdeiro definitivo de Davi, predito pelo profeta Natã com estas palavras: “Eu serei para ele um pai e ele será para mim um filho” (2 Sm 7, 14). O Salmo 2 repete o mesmo: “Tu és meu filho. Eu hoje te gerei” (v. 7). As palavras do anjo permanecem totalmente na concepção da piedade doAntigo Testamento, e todavia superam-na. A partir da nova situação, recebem um novo realismo, uma densidade e uma força que antes não se podia imaginar. O mistério trinitário ainda não foi objeto de reflexão, ainda não se desenvolveu até chegar à doutrina definitiva: surge espontaneamente do modo de agir de Deus, prefigurado no Antigo Testamento; aparece no acontecimento, antes de se tornar doutrina. De igual forma, o conceito de ser Filho, próprio do Menino, também não está aprofundado nem desenvolvido até a dimensão metafísica. E assim tudo permanece no âmbito da concepção da piedade judaica. Mas as próprias palavras antigas, por causa do acontecimento novo que exprimem e interpretam, estão novamente a caminho, vão além de si mesmas. Precisamente na sua simplicidade, recebem uma nova grandeza, quase desconcertante, que, entretanto, só ao longo do caminho de Jesus e do caminho dos crentes se
deverá desenvolver. Nesse contexto, situa-se também o nome “Jesus”, que o anjo – tanto em Lucas (1, 31) como em Mateus (1, 21) – atribui ao menino. No nome de Jesus, esconde-se o tetragrama [YHWH], o misterioso nome recebido no Horeb, que agora é ampliado até a afirmação: Deus salva. O nome do Sinai, que ficou por assim dizer incompleto, é agora pronunciado na sua totalidade. O Deus que é, é o Deus presente e salvador. A revelação do nome de Deus, que começou na sarça ardente, é completada em Jesus (cf. Jo 17, 26). Depois disso, segue-se a terceira reação, a resposta essencial de Maria: um simples “sim” daquela que se declara serva do Senhor. “Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1, 38). Bernardo de Claraval, numa homilia de Advento, ilustrou de forma dramática o aspecto emocionante desse momento. Depois do fracasso dos primeiros pais, o mundo inteiro está às escuras sob o domínio da morte. Agora Deus procura entrar de novo no mundo; bate à porta de Maria. Tem
necessidade do concurso da liberdade humana: não pode redimir o homem, criado livre, sem um “sim” livre à sua vontade. Ao criar a liberdade, de certo modo, Deus se tornou dependente do homem; o seu poder está ligado ao “sim” não forçado de uma pessoa humana. Ora, Bernardo afirma que, no momento do pedido a Maria, o céu e a terra como que suspendem a
respiração. Dirá “sim”?! Ela demora... Porventura lhe será obstáculo a sua humildade? Só por esta vez – diz-lhe Bernardo – não sejas humilde, mas magnânima! Dá-nos o teu “sim”! Esse é o momento decisivo, em que dos seus lábios, do seu coração, surge a resposta: “Faça-se em mim segundo a tua palavra”. É o momento da obediência livre, humilde e simultaneamente magnânima, na qual se realiza a decisão mais sublime da liberdade humana. Maria torna-se mãe, através do seu “sim”. Várias vezes os Padres da Igreja exprimiram tudo isso, dizendo que Maria teria concebido pelo ouvido, ou seja, através da sua escuta: através da sua obediência, a Palavra entrou nela, e nela se tornou fecunda. Nesse contexto, os Padres desenvolveram a ideia do nascimento de Deus em nós através da fé e do Batismo, por meio dos quais o Logos vem a nós sem cessar, tornando-nos filhos de Deus. Pensemos, por exemplo, nas palavras de Santo Irineu: “Como poderá o homem tornar-se Deus, se Deus não se torna homem? Como deixarão o nascimento para a morte, se não forem regenerados em um novo nascimento, que nos foi dado, pela fé, de modo maravilhoso e inesperado por Deus, no nascimento de uma Virgem, como sinal da salvação?”. Penso que seja importante ouvir também a última frase da narração lucana da Anunciação: “E o anjo a deixou” (Lc 1, 38). A grande hora do encontro com o mensageiro de Deus, na qual toda a vida muda, passa; e Maria fica sozinha com a tarefa que verdadeiramente supera toda a capacidade humana. Não há anjos ao seu redor; ela deve prosseguir pelo seu caminho, que passará através de muitas obscuridades, a começar pelo espanto de José perante a sua gravidez até o momento em que se diz de Jesus que está “fora de si” (Mc 3, 21; cf. Jo 10, 20), antes, até a noite da Cruz. Quantas vezes, em tais situações, Maria terá interiormente voltado à hora em que o anjo de Deus lhe falara, terá escutado de novo e meditado a saudação “alegra-te, cheia de graça”, e as palavras de conforto “não temas!”. O anjo parte, a missão permanece e, juntamente com esta, matura a proximidade interior a Deus, o íntimo ver e tocar a sua proximidade.
quarta-feira, 12 de outubro de 2022
12.10.2022 - Solenidade de Nossa Senhora da Conceição Aparecida
Com Maria, caminhar juntos para construir uma Igreja missionária! Amados filhos e filhas dha Mãe Aparecida e meus, saúdo-vos em nome de Dom Eugênio Lorscheider. Estamos celebrando a Solenidade de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, Mãe e Rainha do Brasil e do nosso Habbo Hotel Br. Reunidos como devotos e devotas da Senhora Aparecida, queremos caminhar juntos como Igreja missionária, como Igreja sinodal. De fato, Maria resplandece para nós como este exemplo de mulher missionária, de mulher do diálogo, de mulher preocupada com a situação de seu povo. Quando a Rainha Ester, prefigurando Maria, vai até o rei para pedir-lhe a libertação de seu povo, do povo de Deus, ela assume o risco das consequências de se apresentar diante do rei sem ser convidada; ela poderia até ser morta. Nossa Senhora, ao receber o anúncio do anjo de que o povo de Deus seria salvo por meio do fruto de seu ventre, Jesus, assume também as consequências disso: Maria poderia ser apedrejada por ter engravidado antes de seu casamento com São José. E a imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida é uma imagem de Nossa Senhora que está grávida. Sim, em seu ventre ela trazia Jesus e assumia o risco desta sua missão. Quantos hoje em nosso tempo assumem riscos para a libertação do povo? Risco até mesmo de morrer para que o povo seja liberto de todo tipo de opressão, indiferença, e sobretudo do pecado. Ao mesmo tempo, quantos de nós não assumimos o risco da missão e preferimos permanecer no comodismo, inertes diante da necessidade dos tempos, diante dos sofrimentos dos irmãos e irmãs e até mesmo em nossos trabalhos pastorais? Nossa Senhora aparece no nosso território brasileiro nas curvas de um rio, preta, pequena, simbolizando o simples povo brasileiro e sinalizando para àqueles que devemos olhar com preferência: os pequenos. E é justamente aos pequenos do Reino de Deus que se manifestam os principais milagres e é em meio aos pequenos, aos pobres que cresce a devoção de Nossa Senhora Aparecida, que foi elevada a Rainha e Padroeira do Brasil. Rainha e Padroeira pois em sua simplicidade e pequenez é a grande Mãe que está ao lado de seus filhos e filhas. Povo brasileiro, nunca cessai de recorrer a Senhora Aparecida! Ela, retirada das águas, daquele símbolo que é o símbolo da morte, torna-se sinal da vida de seu povo. Não abracemos e não aceitemos no meio de nosso povo os sinais e instrumentos de morte, mas tornemo-nos sinais de vida e de vida plena. É esta plenitude que se manifesta no milagre das bodas de Caná que hoje escutamos no Evangelho. No primeiro milagre de Jesus, que acontece por intercessão de Maria, que antecipa a hora da vida plena, o Senhor manda encher seis talhas de pedra com água. Sim, seis talhas; o símbolo da imperfeição, para nos lembrar que somos imperfeitos. É aí, então, que ele faz-se a sétima talha, a talha da plenitude, capaz de trazer o vinho novo da alegria, de encher de sentido e de vida em plenitude todas as coisas. Estas bodas, este casamento, é o casamento de Jesus com a humanidade e representa a nossa união com Ele. Nós, Igreja, somos a noiva e Ele é o noivo. Por isso, unidos a Jesus, abraçando Maria e seu projeto de vida para o povo, saíamos em missão, sejamos Igreja em estado permanente de missão, e abracemos as consequências desta missão. É Maria, a Senhora Aparecida, a nossa Mãe, quem estará conosco pelos caminhos tortuosos de nossa vida, derrotando o inimigo pela graça de seu Filho, irá nos transformando a imagem do seu Filho, gestando Cristo em nós para que tenhamos e levemos a todos, em nossa missão, a vida e a vida em plenitude. Assim seja! Amém.
terça-feira, 11 de outubro de 2022
11.10.2022 - Abertura do Sínodo da Arquidiocese de São Paulo
Amados filhos e filhas, os quais saúdo em nome do Arcebispo Metropolitano, Dom Miguel Maria Dolezzio, estamos reunidos para a abertura do Sínodo da Arquidiocese de São Paulo. Bonito que, neste dia que celebramos os sessenta anos da abertura do Concílio Vaticano II, celebramos a abertura deste Sínodo Arquidiocesano e convocamos o Sínodo Geral dos Bispos. Sínodo, bem sabeis, quer dizer: "caminhar juntos". Este é o sinal de uma Igreja que quer dialogar entre si, mas quer abrir-se a dialogar também com a realidade onde está inserida. Este é o objetivo deste Sínodo da Igreja Particular de São Paulo: que o Arcebispo, com seus auxiliares, ouça os presbíteros e ouça o povo de Deus para atender as necessidades do contexto onde realiza a sua missão. Sim, sempre compreendendo quais são as limitações de um Sínodo Arquidiocesano em relação a Igreja Universal e em relação a si mesma, tendo em vista que este Sínodo deve se voltar a vida pastoral e litúrgica desta Igreja, em comunhão com Roma. Me uno a vós e acompanharei a distância este vosso momento de discernimento. Ao mesmo tempo, o Sínodo é momento de proximidade com Deus. Sim, pois é momento de como ramos da videira que é Cristo, unirmo-nos ainda mais a Ele e permitirmos que sua seiva salvifica nutra também a nossa vida interior. A pastoral, a liturgia, todas reflexões são importantes, pois precisamos estar com os pés no chão. Mas, com os pés no chão, devemos estar olhando para cima, precisamos ter os olhos fixos em Jesus. Filhos e filhas, é Jesus Cristo nosso Senhor que é a razão da nossa própria existência e da missão de ser Igreja. Por isso, é o próprio Senhor Jesus que nos alimenta, que nos nutre. Quando não nos nutrimos de Cristo, quando capengamos em nossa espiritualidade ou a deixamos em segundo plano, poderemos ter santas ações, mas, ainda assim, estaremos agindo sós, pensando em nós mesmos e não na Igreja. É triste quando os membros da Igreja não estão olhando ansiosos para o alto, quando não unem devotamente suas mãos em prece, erguem-nas em louvor e gratidão, pois acabando vendo a Igreja não só humanamente, mas de um modo relativista. O relativismo é um perigo para a nossa vida clerical, pois daí passamos a pensar que tanto faz e tanto fez as coisas para com as quais devemos nos preocupar, mesmo que pequenas. É de pequenas coisas que podemos fazer as grandes. Quem não se une a Cristo não age pelo bem na Igreja, mas, em seu próprio bem. É o fato, por exemplo, de que hoje dentro da Igreja há uma tendência de ruptura: entre progressistas e tradicionalistas, entre direita e esquerda. Que erro tremendo é este de rompermos a Igreja de Jesus, mas, este também revela a tendência individualista, de olhar apenas para as suas opiniões e para o seu próprio grupinho. Não! O caminho da Igreja é diferente: é de preservar a Tradição, mas não se apegar ao supérfluo, não se apegar ao poder - pois o tradicionalismo é um apego ao passado, a um passado de poder, de relevância social que já não existe - e é de progredir, mas não de se esquecer dos preceitos do Senhor, em desrespeito a história, correndo o risco de se secularizar - mesmo que a Igreja deva estar no século e dialogar com ele, não se seculariza. Deste modo, filhos e filhas, nos unamos a Jesus Cristo, nosso mestre e Senhor, que nos une a si; chacoalhemos de nós toda tendência ao tradicionalismo, ao progressismo, ao individualismo e a preguiça para poderem, vós de São Paulo, realizar vosso Sínodo Arquidiocesano, e nós todos, como Igreja Universal, sermos autêntica Igreja de Jesus Cristo, sempre nova, sempre renovada no amor. Assim seja! Amém.
11.10.2022 - Convocação do Sínodo dos Bispos
segunda-feira, 10 de outubro de 2022
10.10.2022 - Missa em Brasília
Amados filhos e filhas, dos quais saúdo de modo especial nosso Arcebispo Metropolitano Dom Caio Medeiros, é uma alegria estarmos aqui celebrando o tríduo festivo em honra de Nossa Senhora da Conceição Aparecida. Filhos e filhas, o nosso tempo nutre-se de muitos sucedâncos da liberdade, há muitos entorpecentes que dão a ilusão da liberdade. A constituição Gaudium et Spes afirma que: "Nenhuma lei humana pode assegurar a dignidade pessoal e a liberdade do homem, como o faz o Evangelho de Cristo confiado à Igreja. Este Evangelho anuncia e proclama a liberdade dos filhos de Deus, rejeita toda escravidão que, em última análise, deriva do pecado". Mas não basta proclamar os princípios. Percebemos na primeira leitura que cabe a nós, cristãos de hoje, responder com criatividade ao incessante desafio dos tempos. Nossa vida, inspirada pelo Espírito, é chama da a ser fermento de autêntica liberdade, superando velhos legalismos minimamente mortos. No Evangelho ouvimos que não há para nós outros sinais além do de Jonas, porque Deus por não constranger o homem, mas conquistar-lhe o amor morrendo ele. Exatamente por ser o amor, Deus não concede outros sinais além do que foi realizado em Jesus Cristo. O verdadeiro crente, embora não desconheça a função do milagre, não pede outros sinais exteriores, porque descobre na própria pessoa de Cristo, homem-Deus, a presença discreta e a intervenção de Deus. O verdadeiro milagre é de ordem moral, é a condição humana de Jesus, assumida na fidelidade, na obediência e no amor absoluto, que irradia inteiramente a presença divina ao ponto de na própria morte, Deus estar presente ao Filho para ressuscitá-lo. Precisamente neste sinal de Jonas culminam todos os milagres do evangelho, apelo à conversão e à abertura à salvação de Deus, sinais de sua presença espiritual no combate ao pecado e à morte. Que a exemplo de Maria, da Mãe Aparecida, sejamos criativos no anúncio e dóceis na percepção dos sinais silenciosos de Deus em nossa vida. Assim seja! Amém.
domingo, 9 de outubro de 2022
09.10.2022 - Reabertura da Basílica de São Pedro
Amados filhos e filhas, três motivos nos reúnem aqui esta tarde: hoje celebramos o Domingo, o dia da Ressurreição do Senhor Jesus Cristo, o vigésimo oitavo do Tempo Comum; reabrimos a Basílica de São Pedro, com seus novos pisos que foram doados por Dom Miguel Maria Dolezzio, a quem somos muito gratos; e rendemos graças a Deus pelo meu terceiro mês de ministério petrino. Simbolicamente, todos estes motivos estão unidos no termo que justamente marca a Liturgia deste domingo: gratidão. A gratidão é a memória do coração, diz o poeta. E somos convidados pelas leituras deste domingo a pensar em como anda a nossa gratidão a Deus. Muitas vezes nós procuramos o Senhor para pedir, mas não o procuramos para agradecer. Rezamos terços, novenas, oferecemos missas, para pedirmos por algumas situações específicas de nossa vida, e isso é louvável; mas, mas, depois não voltamos para agradecer a Deus com a mesma intensidade. Vejam, filhos e filhas, que Naamã, o sírio, foi tão grato pela cura recebida que quis levar a terra das beiras do Jordão, para só sobre aquela terra oferecer seus sacrifícios de louvor, só ao Deus único e verdadeiro. É a gratidão do homem que não pertence ao povo de Deus que é mostrada como sinal para nós. Do mesmo modo acontece com o leproso samaritano no Evangelho, que foi o único a voltar para agradecer a Deus pelo dom de ter sido curado. As vezes Deus pode agir mais em quem está fora da Igreja, fora da salvação, do que em nós, que temos um coração orgulhoso e prepotente, que não reconhece sua ação e não o louva por isso. E nós nos perguntamos: e nós? Sim, nós que estamos aqui na Igreja, será que estamos dedicando tempo para louvar a Deus ou estamos querendo que Deus faça a nossa vontade, no nosso tempo? Pedir a Deus é reconhecer que nem sempre vamos ter o que pedimos, pois as coisas são conforme a vontade dele. Por isso, São Paulo nos convida a tudo suportar, tudo suportar. Devemos criar o hábito de agradecer a Deus, principalmente nós que estamos ao seu serviço e nós que prestamos a Ele nosso culto dominical. É virmos e irmos a missa não só para pedir, mas para adorar a Deus por suas maravilhas: a vida, a família, a solidão, a saúde, a doença, a graça de Cristo, os dons, tudo. Nossas orações precisam ser mais de gratidão do que de pedidos. Sim, é importante pedir, mas é mais importante agradecer. Quando agradecemos, reconhecemos a ação de Deus. E precisamos reconhecer a agradecer por aquilo que Deus nos fez, mesmo que seja aparentemente uma desgraça; como diz Jó ao perder tudo: "Deus me deu, Deus me tirou. Como foi do agrado do Senhor assim foi feito. Bendito seja o nome do Senhor.". Assim seja! Amém.
quinta-feira, 6 de outubro de 2022
06.10.2022 - Consistório de Criação Cardinalícia do Pe. Francisco Reis
Amados filhos e filhas, dos quais saúdo de modo especial Dom Jorge Snaif Cardeal Médici, decano do colégio Cardinalício e o Pe. Frei Francisco Reis, que hoje é criado cardeal e introduzido neste dileto colégio. Este Consistório, bem sabeis, coroa os cinco anos de serviço diaconal de Francisco Reis, que foram completos no último dia 29. Por isso, ao o criarmos hoje como membro do colégio de Cardeais, no estado de cardeal emérito, ressaltamos seu valoroso serviço. E este é o termo que deve ser ressaltado cada dia mais: serviço. Serviço e ministério dentro de nossa linguagem teológica tem o mesmo sentido: sim, pois o serviço é um ministério e ministério é serviço. Neste sentido compreendemos o texto bíblico que acabamos de ler. O servo, na compreensão judaica-pagã é aquele que está mais próximo do senhor, mas que não se assenta na mesa com seu mestre. Para nós, o servo não é aquele que por si merece a glória e ocupa um lugar de poder e destaque. Ainda assim, o servo é o que está mais próximo do seu senhor. E está como? Servindo. O cálice que Jesus oferece aos seus discípulos é o cálice do sangue derramado, e que é o sangue de Cristo derramado senão o auge do seu serviço, do seu ministério, que foi a entrega de sua própria vista para a redenção da humanidade, para sua reconciliação, que alcança para si próprio e para nós a ressurreição? Sim, filhos e filhas, somos convidados, portanto, a oferecermos também nós o nosso sangue, nosso suor e lágrimas, doando-nos e desgastando-nos pelos nossos irmãos e irmãs. A isto todos somos convocados pela nossa própria vocação universal a santidade. Mas, vós, cardeais, sois chamados a isto de modo singular: como membros deste distinto colégio, que vestis o vermelho, o rubro, que vos revestis da cor do sangue, deveis deixar vossos tronos, vossas cátedras, e ir em serviço. Serviço em primeiro lugar a Deus; depois ao Romano Pontífice; aos Dicastérios e ministérios a vós confiados; ao clero e a todo o povo de Deus. O serviço manifesta-se na proximidade e no próprio desempenhar das funções, abandonando-se e desgastando-se. O homem que em sua vontade de poder, em seu ímpeto vital mais profundo, tem o desejo de em toda sua força abraçar o próprio sofrimento e o dos outros para dignificá-los, este alcançou a mais autêntica das existências, pois descobriu em si toda a força do amor.Assim, o Cardeal Francisco Reis, todos os cardeais e todos nós aqui reunidos bebamos do cálice do sangue, do cálice do serviço, e desempenhemos com fidelidade o que a Igreja e por meio dela o próprio Deus nos confia. Assim seja! Amém.