domingo, 30 de outubro de 2022

30.10.2022 - XXXI Domingo do Tempo Comum

Amados filhos e filhas, estamos celebrando o XXI Domingo do Tempo Comum. O autor do livro da Sabedoria, exalta a compaixão e misericórdia do Senhor, pois Ele é misericordioso, compassivo, por ser todo-poderoso. Sua dinâmica é diferente da nossa. É isso que ouvimos também no Evangelho. No Evangelho de hoje, Jesus está a 38 quilômetros de Jerusalém, na cidade de Jericó. O Evangelho de São Lucas é, como já sabemos, o Evangelho do caminho, onde Jesus vai caminhando até Jerusalém. E é passando em Jericó, nessa importante cidade, que se dá o encontro em Jesus e Zaqueu. Zaqueu era chefe dos cobradores de impostos. Os impostos, por si, já eram 64% do salário recebido por cada homem e ainda assim, os cobradores de impostos cobravam também uma parte para eles. Por isso, esses homens eram ricos. E muito mais rico era Zaqueu, que era o chefe dos cobradores de impostos. Zaqueu era, portanto, um grande, um poderoso, mesmo que fosse odiado. Mas, para o autor sagrado, Zaqueu era um homem baixo. Não, Zaqueu não era só baixo de estatura, mas era baixo em suas atitudes, era diminuído e odiado pelos irmãos. Aquele homem tão grande, tão importante, era tão pequeno diante da multidão. Ainda assim, Zaqueu sobe na figueira, pois queria ver Jesus, talvez por curiosidade, talvez porque procurasse um sentido para a sua vida e este sentido poderia ser Jesus. Quantas vezes nós não estamos procurando em coisas e pessoas um sentido, quantas vezes não estamos subindo em árvores na nossa vida, procurando a felicidade, mas, na verdade, a nossa felicidade é a mesma de Zaqueu: quando Cristo nos chama para descer e diz que hoje ficará na nossa casa, hoje ficará conosco. E quando os outros ouvem isso, todos ficam enciumados. Jesus, parecia, então, ser como qualquer outro... estava do lado dos ricos, dos fortes. Mas, não! Jesus vai na casa de Zaqueu para salvá-lo, para resgatá-lo, pois Cristo veio salvar o que estava perdido. Esta é a dinâmica do amor misericordioso de Deus: às vezes é preciso deixar as 99 ovelhas, para salvar aquela ovelha perdida. Zaqueu, então, muda de vida. Se a lei o mandava a restituir quem ele roubara três vezes mais, ele afirma que vai restituir quatro vezes mais, pois ele deixou de viver a dinâmica, a ordem do mundo, e passa a viver a dinâmica de Deus. 

quinta-feira, 27 de outubro de 2022

27.10.2022 - Missa em Sabina

Amados filhos e filhas, quero saudar com alegria e afeto a Dom Odilo Pedro Cardeal Scherer, Bispo desta Diocese Titular Subúrbicaria de Sabina Poggio-Mirteto, e em seu nome em saúdo os demais aqui presentes. A Liturgia de hoje nos recorda que estamos, sim, numa batalha, que é uma batalha espiritual. A batalha é contra quem? É contra o mesmo inimigo desde sempre: satanás, o diabo, o demônio e seus anjos. Sim, pois os inimigos de Deus são também os nossos inimigos e são eles quem querem que o plano de Deus não se concretize em nossas vidas e a salvação, consequentemente, não chegue até nós. Por isso, São Paulo nos orienta e revestirmo-nos da armadura de Deus que é a oração. Nada na Igreja, nenhuma obra, nenhuma missão, e nada na nossa vida pessoal pode acontecer sem oração. Precisamos ser homens e mulheres de oração, capazes de rezar com a própria vida. O inimigo detesta alguém que se aproxime de Deus e, por isso, quando quer nos arruinar, primeiro nos afasta da oração. Filhos e filhas, é o diabo que nos faz pensar que por sermos pecadores, nós não podemos rezar, não podemos nos aproximar de Deus. Jesus veio ao mundo justamente para que nós possamos, mesmo que pecadores, nos aproximar de Deus e mudar de vida. E a obra de Jesus, como Ele mesmo disse no Evangelho, se concretiza em Jerusalém, na cruel cidade de Jerusalém que não aceitou a Jesus, e lá onde ele foi crucificado, morto e ressuscitou. Aí se manifesta toda a força de Cristo: a força da proximidade com o Pai, da obediência e do amor que o levam à cruz e ressurreição. Assim, por mais que sejamos pecadores, somos chamados a aproximarmo-nos de Deus com a certeza de que ele nos procura, também, mesmo que sejamos pecadores. É muita prepotência nossa pensarmos que quando rezamos é porque nós queremos nos aproximar de Deus; muito pelo contrário, é Deus que quer se aproximar de nós, curar nossas feridas, aliviar todo sofrimento desnecessário e nos convidar a unirmo-nos a morte e ressurreição de Jesus, razão de nossa alegria e, ao mesmo tempo, queda e destruição do inimigo. Assim seja! Amém.

segunda-feira, 24 de outubro de 2022

24.10.2022 - Aniversário de Ordenação Presbiteral

Amados filhos e filhas, reunidos hoje neste dia em que rendemos graças a Deus pelos meus oito anos de ordenação presbiteral, saúdo-vos com alegria e afeto em Cristo Jesus. Hoje, Cristo nos recorda que o amor é superior a lei e que a lei está a serviço do homem e não o homem a serviço da lei. Jesus não precisava curar aos sábados, mas, o faz para que o homem recupere seu estado de dignidade diante da lei. Sim, pois de tal modo os mestres da lei e os fariseus pregavam a lei de Deus, que a lei deixou de ser de Deus, e passou a ser dos homens: tradições vazias, costumes a serem seguidos, que tiravam do homem sua dignidade própria em vista de uma moral fajuta. A lei se tornou como que um ídolo quando passou a ser mais importante que o conjunto da Palavra de Deus. Jesus se depara com a realidade do sofrimento de seu povo amado, do povo que Ele veio redimir. Como permaneceria parado diante do sofrimento humano dos seus? Não. Ele vai e cura. Não se importa com a lei humana, mas coloca a verdadeira lei de Deus sobre todas as coisas e demonstra que esta lei está intrinsicamente ligada ao amor. Por isso, o povo se alegra: sente que Deus está com eles. E é São Paulo na Carta aos Efésios que nos convida a imitarmos Jesus. Sim, pois ao imitar Jesus nós consequentemente somos seguidores da lei de Deus. De fato, a lei não perde seu valor em Cristo, mas é levada por Ele à plenitude. Sermos imitadores de Jesus é abandonarmos o pecado, amando a Deus de todo coração, e por consequência deste amor a Deus, promovermos também a vida dos irmãos e irmãs, promovendo a dignidade de toda pessoa humana. Rendendo graças a Deus pelos meus oito anos de ordenação presbiteral, não posso deixar de recordar a maravilha de Deus na minha vida. Sou muito grato a Deus por fazer parte desta Igreja. Sou muito grato a Igreja do Habbo que a oito anos me forma como pessoa, me deu tantos amigos, tantas experiências, tantas possibilidades de crescimento pessoal e discernimento vocacional. Ao longo destes oito anos foram muitos momentos maravilhosos e muitos momentos tristes. De fato, não fui por muito tempo presbítero, embora achasse que nunca passaria por isso. Mas, esse dia de hoje marca, para mim, de modo muito profundo, o início de uma história de amor e dedicação por esta Igreja. Foi muito dinheiro e muito tempo investido aqui e não me arrependo de nada disso. Aqui aprendi muita coisa, inclusive amar a Igreja da realidade e conhecê-la cada vez mais, me aperfeiçoando de modo que hoje me destaco em áreas que estudei para a nossa Igreja. Se Deus me permitiu tantas vezes estar neste ofício tão alto de nossa Igreja, penso que só pode ser pois ele sabe meu amor e desejo de querer bem e de servir a vós e a toda a Igreja. Para mim, tudo isso marca uma linda história. Hoje peço a Cristo a graça de que eu, em meu ministério que desempenho há oito anos, e que todos nós aqui reunidos, sejamos seus imitadores: imitadores do Senhor no amor, na santidade, no testemunho, e na promoção da dignidade da vida humana contra qualquer tipo de tendência de feri-la e no amor e serviço a sua Santa Igreja. Assim seja! Amém.

domingo, 23 de outubro de 2022

23.10.2022 - XXX Domingo do Tempo Comum

Amados filhos e filhas, estamos celebrando o XXX Domingo do Tempo Comum, dia mundial das missões, rezando pela evangelização dos povos. Neste domingo somos interpelados a sermos anunciadores, testemunhas vivas do nosso Senhor Jesus Cristo. E Jesus Cristo aparece para nós, na Liturgia deste domingo, como o justo juiz. Sim, Jesus é o juiz que vem para aplicar sobre nós a sentença Divina. Contudo, a justiça de Deus tem um nome; e esse nome é MISERICÓRDIA. Filhos e filhas, Deus não quer a nossa condenação eterna, mas quer ser misericordioso para conosco. E tudo o que ele precisa para isso é que nós nos coloquemos diante dele com um coração quebrantado. Deus nunca recusa um coração quebrantado. Repito: DEUS NUNCA RECUSA, NUNCA DESPREZA UM CORAÇÃO QUEBRANTADO! Deus não se esquece, não olha com desgosto para qualquer um de seus filhos e filhas que se põe diante dele, rasga o coração, e o clama por misericórdia. É a prece de quem se coloca humildemente diante de Deus, diz-nos o Eclesiástico, que se eleva até as nuvens, isto é, que chega a presença de Deus. Mas, o coração arrogante, a este Deus não escuta, pois é preciso que ao se colocar diante de Deus que o homem reconheça a Deus como Senhor da sua vida e da sua história, como Àquele ao qual deve se submeter toda a sua vontade. Caso contrário, o homem tende a rebaixar Deus, a elevar-se sobre Deus e querer que Deus faça conforme a vontade humana. Se no domingo passado o Senhor nos insistia para que rezássemos com perseverança, hoje Ele insiste que essa oração deve brotar com humildade. Foi por falta de humildade que o fariseu da parábola do Evangelho saiu da presença do Senhor sem ser justificado. E isto é um alerta para que nós tenhamos cuidado: não é porque nós estamos na Igreja, somos ministros, trabalhamos nas pastorais, ou apenas frequentamos a missa, não é porque somos seminaristas, padres, bispos, cardeais ou papa que somos melhores do que os outros e podemos rebaixar o outro. NÃO! MUITAS VEZES NÓS SOMOS OS PIORES. Às vezes os cobradores de impostos, ou seja, os que vivem de falcatruas, e até mesmo as prosthithutas são mais dignos de estar na presença do Senhor do que nós: pois eles reconhecem a sua pequenez. Nós, tantas e tantas vezes olhamos com desprezo para estas realidades, mas estes são os mais amados pelo Senhor, porque onde abundou o pecado, aí superabundou a graça. Nossa posição é de sempre reconhecermos diante da grandeza de Deus e do seu infinito amor, nós não somos nada. Nada! Somos menos do que nada. Somos sempre necessitados de seu amor, de sua misericórdia. E, tantas e tantas vezes, quanto mais próximos do Senhor, mais reconhecemos que nada somos e mais necessitados de sua misericórdia precisamos. Aí de nós quando nos achamos melhores. Aos que se acham melhores, Deus nada reserva. Mas, aos pequenos, aos humildes, aos que se puserem a serviço dos outros e do Senhor, aos que rasgarem seu coração e reconhecerem quem são diante de Deus e de seu plano e projeto de amor, é a estes que o Senhor, justo juiz, dará a coroa imperecível da glória da qual fala São Paulo na segunda leitura. Coroa esta que não é dada por nossos méritos, mas por nossa bondade. Coroa esta que é consequência de aceitarmos neste mundo a coroa de espinhos e abraçarmos a cruz do Senhor. Se for para sermos elevados por Deus, o seremos ao nos unirmos a Cristo Crucificado e com Ele sermos exaltados na cruz. Quem busca erguer-se por si mesmo, vai cair de cara no chão, mas, ao humilde que aceitar ser pequeno em Cristo, sem nada querer em troca, é a este que Deus olhará com ainda mais misericórdia. Assim seja! Amém.

sábado, 22 de outubro de 2022

22.10.2022 - Solenidade de São João Paulo II

Amados filhos e filhas, estamos aqui reunidos nesta tríplice solenidade: celebramos São João Paulo II, padroeiro desta igreja, dedicamos esta igreja e este altar e comemoramos os sete anos de ordenação presbiteral de Dom Cristiano Tavares, a quem saúdo com afeto e estima e em seu nome saúdo a todos e todas aqui presentes. No Evangelho que acabamos de ouvir, confundem-se duas realidades: da dedicação que celebramos e da solenidade de nosso papa padroeiro. Ao dedicarmos essa igreja, após mais de sete anos de seu uso litúrgico, somos interpelados a recordar que quem dedica constantemente esta igreja, quem santifica essas paredes, somos nós. E só conseguimos fazer isso quando nós próprios assumimos àquele papel do qual nos fala São Paulo, de sermos integrados no edifício espiritual do Corpo de Cristo, de sermos morada de Deus pelo Espírito. Deste modo, filhos e filhas, este rito de dedicação deve nos ajudar a dignificar esta igreja como lugar próprio da adoração: A prece, a unção, a incensação e a iluminação que marcam este rito, oferecem a Deus, em primeiro lugar, este lugar que é todo oferecido para Ele; mas, sobretudo, é preciso que nós dediquemos também o nosso coração, unjamos nosso ser, nos ofereçamos como a fumaça do incenso, para que, unidos ao Corpo de Cristo como povo de Deus, um dia nos unamos a Ele na Jerusalém celeste, no banquete da vida na eternidade.  Aqui, na igreja física, o altar simboliza o coração, o ambão a boca de Deus, a cadeira presidencial é a cabeça do Corpo, a pia batismal é o útero dessa Igreja que é mãe, todos nós somos os membros desse Corpo. Por isso, cada um de nós é importante para a Igreja, que não seria completa sem quaisquer um de seus membros. Assim, filhos e filhas, somos pedras vivas da Igreja. E neste templo espiritual, temos como alicerce os Apóstolos e neste sentido, São Pedro e seus sucessores como a base deste alicerce, e Jesus Cristo, nosso Senhor, é a pedra angular, isto é, aquela pedra que está no cume do edifício e que garante que o edifício não caia. São João Paulo II, com sua vida e seu testemunho, nos ajuda a olhar para diversas realidades; a doutrina, a fé, o direito, o sacerdócio, a vida, a família, os problemas sociais dos sistemas políticos atuais. Mas, acima de tudo, do primeiro ao último momento de seu pontificado ele nos convida a abrirmos, a eschancarmos as portas a Cristo, sem medo, sem receio, e abrirmos a ele, que perscruta e conhece o homem, seu interior, e permitirmos que ele, seja tudo em todos nós. São João Paulo II foi homem do diálogo, da missão, do ir ao encontro, não em vão foi o papa peregrino, o papa da juventude. Seus documentos e sobretudo seu exemplo são legados de um pontífice atento, zeloso e preocupado, de um homem que não teve medo e abriu seu próprio coração a Jesus Cristo. Abraçando com amor a missão e sendo integrado ao alicerce do Corpo de Cristo nesta terra, pelo ministério petrino, foi também integrado ao Corpo de Cristo no céu por sua santidade; isto é, por ter neste mundo manifestado o amor de Deus, o anunciado com sua voz marcante, firme e amorosa, e ao mesmo tempo o vivenciado na profundidade do seu coração, aceitando as consequências deste amor no sofrimento da vida. Que a exemplo de nosso padroeiro, São João Paulo II, não tenhamos medo, abramos as portas do mundo e as portas do nosso coração a Cristo e nos tornemos membros do seu Corpo, oferecedores do culto em sua casa e dedicados como pedras do edifício vivo que é sua Igreja, com a força e a alegria da Palavra e sob a proteção da Mãe de Deus e da Igreja, a Virgem Maria. Assim seja! Amém.

segunda-feira, 17 de outubro de 2022

17.10.2022 - Audiência Geral

Amados filhos e filhas, prosseguimos com as nossas catequeses inspiradas nas obras de Bento XVI. Falaremos hoje sobre a Anunciação do Anjo a Nossa Senhora: “No sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um varão chamado José, da casa de Davi; e o nome da virgem era Maria” (Lc 1, 26-27). O anúncio do nascimento de Jesus está ligado à história de João Batista, antes de tudo, cronologicamente por meio da indicação do tempo decorrido depois da mensagem do arcanjo Gabriel a Zacarias, isto é, “no sexto mês” da gravidez de Isabel. Mas, nessa passagem, os dois acontecimentos e ambas as missões estão ligados também pela informação de que Maria e Isabel – e, consequentemente, os seus filhos – são parentes. A visita de Maria a Isabel, que deriva como consequência do diálogo entre Gabriel e Maria (cf. Lc 1, 36), leva – ainda antes do nascimento – a um encontro, no Espírito Santo, entre Jesus e João, e nesse encontro tornasse evidente, ao mesmo tempo, a correlação das suas missões: Jesus é o mais jovem, Aquele que vem depois; mas é a proximidade d’Ele que faz João saltar de alegria no ventre materno e cumula Isabel do Espírito Santo (cf. Lc 1, 41). Assim, aparece objetivamente, já nas narrativas de São Lucas sobre o anúncio e o nascimento, aquilo que João Batista dirá, segundo oEvangelho de João: “É aquele de quem eu disse: ‘Depois de mim, vem um homem que passou adiante de mim, porque existia antes de mim’ ” (1, 30). Antes de mais nada, porém, convém considerar, de forma mais detalhada, a narração do anúncio do nascimento de Jesus a Maria. Vejamos primeiro a mensagem do anjo, e depois a resposta de Maria. Na saudação do anjo, impressiona o fato de não dirigir a Maria a habitual saudação judaica shalom – a paz esteja contigo –, mas a fórmula grega khaire, que se pode tranquilamente traduzir por “Ave”, como sucede na oração mariana da Igreja, formada com palavras tiradas da narração da anunciação (cf. Lc 1, 28.42). Mas é justo individuar, neste ponto, o verdadeiro significado da palavra khaire: alegra-te! Com esse voto do anjo – podemos dizer –, começa propriamente o Novo Testamento. A palavra volta a aparecer na Noite Santa, nos lábios do anjo que diz aos pastores: “Eis que vos anuncio uma grande alegria” (2, 10). Aparece, em João, por ocasião do encontro com o Ressuscitado: “Os discípulos, então, ficaram cheios de alegria por verem o Senhor” (20, 20). Nos discursos de despedida, em João, aparece uma teologia da alegria, que esclarece, por assim dizer, as profundezas dessa palavra: “Eu vos verei de novo e o vosso coração se alegrará e ninguém vos tirará a vossa alegria” (16, 22). Nesses textos, a alegria aparece como o dom próprio do Espírito Santo, como o verdadeiro dom do Redentor. Assim, com a saudação do anjo, sente-se ecoar o acorde que continuará depois a ressoar através de todo o tempo da Igreja e que pode ser também percebido, no que diz respeito ao seu conteúdo, na palavra fundamental com que se designa a totalidade do anúncio cristão: o Evangelho – a Boa Nova. Como vimos, “alegra-te” é, primeiramente, uma saudação em grego, e assim, nessa palavra do anjo, abre-se imediatamente também a porta para os povos do mundo; tem-se uma alusão à universalidade da mensagem cristã. Ao mesmo tempo, porém, ela é também uma palavra extraída do Antigo Testamento, isto é, que se situa plenamente na continuidade da história bíblica da salvação. Sobretudo Stanislas Lyonnet e René Laurentin mostraram que, na saudação de Gabriel a Maria, é retomada e atualizada a profecia de Sofonias 3, 14-17, que soa assim: “Rejubila, filha de Sião, solta gritos de alegria, Israel! (...) O Senhor, o teu Deus, está no meio de ti”. Não é necessário entrar aqui nos detalhes de uma comparação textual entre a saudação do anjo a Maria e a palavra de promessa do profeta. O motivo essencial pelo qual a filha de Sião pode exultar está expresso na afirmação “o Senhor está no meio de ti” (Sf 3, 15.17), que traduzida literalmente diz: “está no teu seio”. Desse modo, Sofonias retoma palavras do Livro do Êxodo, que descrevem a habitação de Deus na arca da aliança como um habitar “no seio de Israel”. É precisamente essa palavra que aparece na mensagem de Gabriel a Maria: “Eis que conceberás no teu seio” (Lc 1, 31). Qualquer que seja o modo com que se avaliem os detalhes desses paralelismos, torna-se evidente uma proximidade íntima das duas
mensagens. Maria aparece como a filha de Sião em pessoa. As promessas que dizem respeito a Sião cumprem-se de modo inesperado n’Ela. Maria torna-se a arca da aliança, o lugar de uma verdadeira habitação do Senhor. “Alegra-te, cheia de graça”. Essa ligação entre alegria e graça é outro aspecto digno de consideração, na saudação khaire; em grego, as duas palavras – alegria e graça (khara e kharis) – são formadas da mesma raiz. Alegria e graça andam juntas. Debrucemo-nos agora sobre o conteúdo da promessa. Maria dará à luz um filho, a quem o anjo atribui os títulos de “Filho do Altíssimo” e “Filho de Deus”. Além disso, é prometido que Deus, o Senhor, lhe dará o trono de seu pai Davi; reinará para sempre na casa de Jacó e o seu reino (o seu domínio) não terá fim. Depois se acrescenta uma série de promessas relativas ao modo “como” se dará a concepção: “O Espírito Santo virá sobre ti e o poder do Altíssimo vai te cobrir com a sua sombra; por isso, o Santo que nascer será chamado Filho de Deus” (Lc 1, 35). Comecemos pela última promessa; considerando a sua linguagem, pertence à teologia do Templo e da presença de Deus no santuário. A nuvem sagrada – a shekinà – é sinal visível da presença de Deus; simultaneamente esconde e manifesta o Deus que habita na sua casa. A nuvem, que estende a sua sombra sobre os homens, reaparece mais tarde na narrativa da Transfiguração do Senhor (cf. Lc 9, 34; Mc 9, 7); e de novo é sinal da presença de Deus, da manifestação de Deus escondido. Assim, através da afirmação sobre a sombra que desce com o Espírito Santo, é retomada a teologia relativa a Sião, já presente na saudação inicial. Mais uma vez, Maria aparece como a tenda viva de Deus, na qual Ele quer habitar, de um modo novo, no meio dos homens. Ao mesmo tempo vislumbra-se, no conjunto dessas palavras da anunciação, uma alusão ao mistério do Deus trinitário. Age Deus Pai, que prometera estabilidade ao trono de Davi e agora institui o herdeiro cujo reino não terá fim, o herdeiro definitivo de Davi, predito pelo profeta Natã com estas palavras: “Eu serei para ele um pai e ele será para mim um filho” (2 Sm 7, 14). O Salmo 2 repete o mesmo: “Tu és meu filho. Eu hoje te gerei” (v. 7). As palavras do anjo permanecem totalmente na concepção da piedade doAntigo Testamento, e  todavia superam-na. A partir da nova situação, recebem um novo realismo, uma densidade e uma força que antes não se podia imaginar. O mistério trinitário ainda não foi objeto de reflexão, ainda não se desenvolveu até chegar à doutrina definitiva: surge espontaneamente do modo de agir de Deus, prefigurado no Antigo Testamento; aparece no acontecimento, antes de se tornar doutrina. De igual forma, o conceito de ser Filho, próprio do Menino, também não está aprofundado nem desenvolvido até a dimensão metafísica. E assim tudo permanece no âmbito da concepção da piedade judaica. Mas as próprias palavras antigas, por causa do acontecimento novo que exprimem e interpretam, estão novamente a caminho, vão além de si mesmas. Precisamente na sua simplicidade, recebem uma nova grandeza, quase desconcertante, que, entretanto, só ao longo do caminho de Jesus e do caminho dos crentes se
deverá desenvolver. Nesse contexto, situa-se também o nome “Jesus”, que o anjo – tanto em Lucas (1, 31) como em Mateus (1, 21) – atribui ao menino. No nome de Jesus, esconde-se o tetragrama [YHWH], o misterioso nome recebido no Horeb, que agora é ampliado até a afirmação: Deus salva. O nome do Sinai, que ficou por assim dizer incompleto, é agora pronunciado na sua totalidade. O Deus que é, é o Deus presente e salvador. A revelação do nome de Deus, que começou na sarça ardente, é completada em Jesus (cf. Jo 17, 26). Depois disso, segue-se a terceira reação, a resposta essencial de Maria: um simples “sim” daquela que se declara serva do Senhor. “Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1, 38). Bernardo de Claraval, numa homilia de Advento, ilustrou de forma dramática o aspecto emocionante desse momento. Depois do fracasso dos primeiros pais, o mundo inteiro está às escuras sob o domínio da morte. Agora Deus procura entrar de novo no mundo; bate à porta de Maria. Tem
necessidade do concurso da liberdade humana: não pode redimir o homem, criado livre, sem um “sim” livre à sua vontade. Ao criar a liberdade, de certo modo, Deus se tornou dependente do homem; o seu poder está ligado ao “sim” não forçado de uma pessoa humana. Ora, Bernardo afirma que, no momento do pedido a Maria, o céu e a terra como que suspendem a
respiração. Dirá “sim”?! Ela demora... Porventura lhe será obstáculo a sua humildade? Só por esta vez – diz-lhe Bernardo – não sejas humilde, mas magnânima! Dá-nos o teu “sim”! Esse é o momento decisivo, em que dos seus lábios, do seu coração, surge a resposta: “Faça-se em mim segundo a tua palavra”. É o momento da obediência livre, humilde e simultaneamente magnânima, na qual se realiza a decisão mais sublime da liberdade humana. Maria torna-se mãe, através do seu “sim”. Várias vezes os Padres da Igreja exprimiram tudo isso, dizendo que Maria teria concebido pelo ouvido, ou seja, através da sua escuta: através da sua obediência, a Palavra entrou nela, e nela se tornou fecunda. Nesse contexto, os Padres desenvolveram a ideia do nascimento de Deus em nós através da fé e do Batismo, por meio dos quais o Logos vem a nós sem cessar, tornando-nos filhos de Deus. Pensemos, por exemplo, nas palavras de Santo Irineu: “Como poderá o homem tornar-se Deus, se Deus não se torna homem? Como deixarão o nascimento para a morte, se não forem regenerados em um novo nascimento, que nos foi dado, pela fé, de modo maravilhoso e inesperado por Deus, no nascimento de uma Virgem, como sinal da salvação?”. Penso que seja importante ouvir também a última frase da narração lucana da Anunciação: “E o anjo a deixou” (Lc 1, 38). A grande hora do encontro com o mensageiro de Deus, na qual toda a vida muda, passa; e Maria fica sozinha com a tarefa que verdadeiramente supera toda a capacidade humana. Não há anjos ao seu redor; ela deve prosseguir pelo seu caminho, que passará através de muitas obscuridades, a começar pelo espanto de José perante a sua gravidez até o momento em que se diz de Jesus que está “fora de si” (Mc 3, 21; cf. Jo 10, 20), antes, até a noite da Cruz. Quantas vezes, em tais situações, Maria terá interiormente voltado à hora em que o anjo de Deus lhe falara, terá escutado de novo e meditado a saudação “alegra-te, cheia de graça”, e as palavras de conforto “não temas!”. O anjo parte, a missão permanece e, juntamente com esta, matura a proximidade interior a Deus, o íntimo ver e tocar a sua proximidade.

quarta-feira, 12 de outubro de 2022

12.10.2022 - Solenidade de Nossa Senhora da Conceição Aparecida

Com Maria, caminhar juntos para construir uma Igreja missionária! Amados filhos e filhas dha Mãe Aparecida e meus, saúdo-vos em nome de Dom Eugênio Lorscheider. Estamos celebrando a Solenidade de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, Mãe e Rainha do Brasil e do nosso Habbo Hotel Br. Reunidos como devotos e devotas da Senhora Aparecida, queremos caminhar juntos como Igreja missionária, como Igreja sinodal. De fato, Maria resplandece para nós como este exemplo de mulher missionária, de mulher do diálogo, de mulher preocupada com a situação de seu povo. Quando a Rainha Ester, prefigurando Maria, vai até o rei para pedir-lhe a libertação de seu povo, do povo de Deus, ela assume o risco das consequências de se apresentar diante do rei sem ser convidada; ela poderia até ser morta. Nossa Senhora, ao receber o anúncio do anjo de que o povo de Deus seria salvo por meio do fruto de seu ventre, Jesus, assume também as consequências disso: Maria poderia ser apedrejada por ter engravidado antes de seu casamento com São José. E a imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida é uma imagem de Nossa Senhora que está grávida. Sim, em seu ventre ela trazia Jesus e assumia o risco desta sua missão. Quantos hoje em nosso tempo assumem riscos para a libertação do povo? Risco até mesmo de morrer para que o povo seja liberto de todo tipo de opressão, indiferença, e sobretudo do pecado. Ao mesmo tempo, quantos de nós não assumimos o risco da missão e preferimos permanecer no comodismo, inertes diante da necessidade dos tempos, diante dos sofrimentos dos irmãos e irmãs e até mesmo em nossos trabalhos pastorais? Nossa Senhora aparece no nosso território brasileiro nas curvas de um rio, preta, pequena, simbolizando o simples povo brasileiro e sinalizando para àqueles que devemos olhar com preferência: os pequenos. E é justamente aos pequenos do Reino de Deus que se manifestam os principais milagres e é em meio aos pequenos, aos pobres que cresce a devoção de Nossa Senhora Aparecida, que foi elevada a Rainha e Padroeira do Brasil. Rainha e Padroeira pois em sua simplicidade e pequenez é a grande Mãe que está ao lado de seus filhos e filhas. Povo brasileiro, nunca cessai de recorrer a Senhora Aparecida! Ela, retirada das águas, daquele símbolo que é o símbolo da morte, torna-se sinal da vida de seu povo. Não abracemos e não aceitemos no meio de nosso povo os sinais e instrumentos de morte, mas tornemo-nos sinais de vida e de vida plena. É esta plenitude que se manifesta no milagre das bodas de Caná que hoje escutamos no Evangelho. No primeiro milagre de Jesus, que acontece por intercessão de Maria, que antecipa a hora da vida plena, o Senhor manda encher seis talhas de pedra com água. Sim, seis talhas; o símbolo da imperfeição, para nos lembrar que somos imperfeitos. É aí, então, que ele faz-se a sétima talha, a talha da plenitude, capaz de trazer o vinho novo da alegria, de encher de sentido e de vida em plenitude todas as coisas. Estas bodas, este casamento, é o casamento de Jesus com a humanidade e representa a nossa união com Ele. Nós, Igreja, somos a noiva e Ele é o noivo. Por isso, unidos a Jesus, abraçando Maria e seu projeto de vida para o povo, saíamos em missão, sejamos Igreja em estado permanente de missão, e abracemos as consequências desta missão. É Maria, a Senhora Aparecida, a nossa Mãe, quem estará conosco pelos caminhos tortuosos de nossa vida, derrotando o inimigo pela graça de seu Filho, irá nos transformando a imagem do seu Filho, gestando Cristo em nós para que tenhamos e levemos a todos, em nossa missão, a vida e a vida em plenitude. Assim seja! Amém.

terça-feira, 11 de outubro de 2022

11.10.2022 - Abertura do Sínodo da Arquidiocese de São Paulo

Amados filhos e filhas, os quais saúdo em nome do Arcebispo Metropolitano, Dom Miguel Maria Dolezzio, estamos reunidos para a abertura do Sínodo da Arquidiocese de São Paulo. Bonito que, neste dia que celebramos os sessenta anos da abertura do Concílio Vaticano II, celebramos a abertura deste Sínodo Arquidiocesano e convocamos o Sínodo Geral dos Bispos. Sínodo, bem sabeis, quer dizer: "caminhar juntos". Este é o sinal de uma Igreja que quer dialogar entre si, mas quer abrir-se a dialogar também com a realidade onde está inserida. Este é o objetivo deste Sínodo da Igreja Particular de São Paulo: que o Arcebispo, com seus auxiliares, ouça os presbíteros e ouça o povo de Deus para atender as necessidades do contexto onde realiza a sua missão. Sim, sempre compreendendo quais são as limitações de um Sínodo Arquidiocesano em relação a Igreja Universal e em relação a si mesma, tendo em vista que este Sínodo deve se voltar a vida pastoral e litúrgica desta Igreja, em comunhão com Roma. Me uno a vós e acompanharei a distância este vosso momento de discernimento. Ao mesmo tempo, o Sínodo é momento de proximidade com Deus. Sim, pois é momento de como ramos da videira que é Cristo, unirmo-nos ainda mais a Ele e permitirmos que sua seiva salvifica nutra também a nossa vida interior. A pastoral, a liturgia, todas reflexões são importantes, pois precisamos estar com os pés no chão. Mas, com os pés no chão, devemos estar olhando para cima, precisamos ter os olhos fixos em Jesus. Filhos e filhas, é Jesus Cristo nosso Senhor que é a razão da nossa própria existência e da missão de ser Igreja. Por isso, é o próprio Senhor Jesus que nos alimenta, que nos nutre. Quando não nos nutrimos de Cristo, quando capengamos em nossa espiritualidade ou a deixamos em segundo plano, poderemos ter santas ações, mas, ainda assim, estaremos agindo sós, pensando em nós mesmos e não na Igreja. É triste quando os membros da Igreja não estão olhando ansiosos para o alto, quando não unem devotamente suas mãos em prece, erguem-nas em louvor e gratidão, pois acabando vendo a Igreja não só humanamente, mas de um modo relativista. O relativismo é um perigo para a nossa vida clerical, pois daí passamos a pensar que tanto faz e tanto fez as coisas para com as quais devemos nos preocupar, mesmo que pequenas. É de pequenas coisas que podemos fazer as grandes. Quem não se une a Cristo não age pelo bem na Igreja, mas, em seu próprio bem. É o fato, por exemplo, de que hoje dentro da Igreja há uma tendência de ruptura: entre progressistas e tradicionalistas, entre direita e esquerda. Que erro tremendo é este de rompermos a Igreja de Jesus, mas, este também revela a tendência individualista, de olhar apenas para as suas opiniões e para o seu próprio grupinho. Não! O caminho da Igreja é diferente: é de preservar a Tradição, mas não se apegar ao supérfluo, não se apegar ao poder - pois o tradicionalismo é um apego ao passado, a um passado de poder, de relevância social que já não existe - e é de progredir, mas não de se esquecer dos preceitos do Senhor, em desrespeito a história, correndo o risco de se secularizar - mesmo que a Igreja deva estar no século e dialogar com ele, não se seculariza. Deste modo, filhos e filhas, nos unamos a Jesus Cristo, nosso mestre e Senhor, que nos une a si; chacoalhemos de nós toda tendência ao tradicionalismo, ao progressismo, ao individualismo e a preguiça para poderem, vós de São Paulo, realizar vosso Sínodo Arquidiocesano, e nós todos, como Igreja Universal, sermos autêntica Igreja de Jesus Cristo, sempre nova, sempre renovada no amor. Assim seja! Amém.

11.10.2022 - Convocação do Sínodo dos Bispos

 XII SÍNODO DOS BISPOS

SEXTAGESIMO ANNO 

LINEAMENTA

Caríssimos irmãos no episcopado, filhos presbíteros e diáconos, filhos e filhas religiosos e religiosos, leigos e leigas, 

No sexagésimo ano da abertura do Concílio Vaticano II, celebramos hoje o dom do Espírito Santo na vida da Igreja que inspirou, motivou e fecundou a obra do Santo Padre São João XXIII, que hoje celebramos, e de seu sucessor, São Paulo VI. De fato, dizemos ter sido obra dos Sumos Pontífices, mas, este santo sínodo foi, na verdade, obra do Espírito Santo que impulsionou todos os Bispos da Igreja de Deus para a cidade eterna de Roma para o maior dos Concílios Ecumênicos da história da Igreja. Mas não apenas os Bispos, que foram os padres conciliares, se reuniram na sacrossanta basílica petrina para ouvir a voz do Espírito Santo, foram auxiliados por peritos, teólogos católicos, dentre os quais o então Pe. Joseph Ratzinger, Bento XVI, e peritos das outras igrejas e movimentos religiosos do mundo. Sim, pois a Igreja não queria saber apenas quem ela era, mas, queria ouvir quem os outros diziam quem ela é. De igual modo fez Jesus, antes de dar a chave a São Pedro, perguntando quem diziam que ele era. É impossível para qualquer católico que viva em boa fé negar a ação e a inspiração do Espírito Santo no grande Concílio Vaticano II.

E qual foi o impulso conciliar senão aquele de aggiornamento das estruturas da Igreja? Pela primeira vez um concílio foi convocado e aberto não para responder a heresias, a questões metafísicas, mas, para lidar com os problemas cotidianos da vida da Igreja e da evangelização. É claro que isso não seria possível sem rever e até mesmo construir alguns conceitos teológicos como, sem dúvida o maior deles, o de Igreja como povo de Deus. Assim, não apenas o clero é Igreja, mas, entende-se mais plenamente como Igreja e como sujeitos do ser Igreja e da evangelização, da missão, todos os fiéis leigos e leigas, religiosos e religiosas, clérigos e estrutura da Igreja. O impulso de São João XXIII para que a Igreja abrisse as janelas e permitisse soprar o vento do Espírito Santo, que deveria tirar a poeira de todas as estruturas que foram enrijecidas no grande e sacrossanto concílio de Trento, como reforma católica após a reforma protestante. Foi o próprio sopro do Espírito Santo que reconheceu que a Igreja deveria se abrir aos novos tempos e responder, dialogar, com o mundo contemporâneo. Se a Igreja quer fazer sua missão no mundo e não ser alheia a ele, ela compreende que precisa encontrar-se com o mundo, suas realidades e problemas e escutá-los. Foi assim que o sopro do Espírito passou e soprou a barca da Igreja adiante em sua missão.

É neste sentido que nós, Igreja Católica no Habbo Hotel, devemos também retirar de nossa Igreja toda poeira que acumulamos sobre a nossa missão. Isto buscou fazer o Concílio de Jerusalém, convocado pelo Santo Padre João Paulo VII, com suas tão importantes reflexões e tão diletos documentos. Meu venerável antecessor, Bento V, entendeu que o Concílio não havia encerrado todas as questões, mas, o entendeu como o iniciador de um processo, de um caminho. Neste caminho, no ano passado, aconteceu o XI Sínodo dos Bispos, voltando exclusivamente para a formação presbiteral e sabemos que nem todo este sínodo, bem como o Concílio foram totalmente postos em prática. Para soprar a poeira sobre eles colocados e sobre a nossa missão, nós, usando de nossa autoridade apostólica como cabeça do colégio universal dos Bispos, CONVOCAMOS todos os Bispos e Cardeais da Igreja para o XII Sínodo dos Bispos que se realizará na cidade de Roma, entre os dias 08 e 14 de dezembro do presente ano de 2022.

Louvando a Deus pelos 60 anos da abertura do Concílio Vaticano II, invocamos sobre o nosso sínodo o patrocínio da bem-aventurada Virgem Maria, dos apóstolos Pedro e Paulo, de São José, São João XXIII, São Paulo VI e todos os santos e santas de Deus.

Dado e passado em São Paulo, na celebração dos 60 anos de abertura do Concílio Vaticano II e memória de São João XXIII, 11 de outubro do Ano Sacerdotal de 2022.

+ Benedictus VI

segunda-feira, 10 de outubro de 2022

10.10.2022 - Missa em Brasília

Amados filhos e filhas, dos quais saúdo de modo especial nosso Arcebispo Metropolitano Dom Caio Medeiros, é uma alegria estarmos aqui celebrando o tríduo festivo em honra de Nossa Senhora da Conceição Aparecida. Filhos e filhas, o nosso tempo nutre-se de muitos sucedâncos da liberdade, há muitos entorpecentes que dão a ilusão da liberdade. A constituição Gaudium et Spes afirma que: "Nenhuma lei humana pode assegurar a dignidade pessoal e a liberdade do homem, como o faz o Evangelho de Cristo confiado à Igreja. Este Evangelho anuncia e proclama a liberdade dos filhos de Deus, rejeita toda escravidão que, em última análise, deriva do pecado". Mas não basta proclamar os princípios. Percebemos na primeira leitura que cabe a nós, cristãos de hoje, responder com criatividade ao incessante desafio dos tempos. Nossa vida, inspirada pelo Espírito, é chama da a ser fermento de autêntica liberdade, superando velhos legalismos minimamente mortos. No Evangelho ouvimos que não há para nós outros sinais além do de Jonas, porque Deus por não constranger o homem, mas conquistar-lhe o amor morrendo ele. Exatamente por ser o amor, Deus não concede outros sinais além do que foi realizado em Jesus Cristo. O verdadeiro crente, embora não desconheça a função do milagre, não pede outros sinais exteriores, porque descobre na própria pessoa de Cristo, homem-Deus, a presença discreta e a intervenção de Deus. O verdadeiro milagre é de ordem moral, é a condição humana de Jesus, assumida na fidelidade, na obediência e no amor absoluto, que irradia inteiramente a presença divina ao ponto de na própria morte, Deus estar presente ao Filho para ressuscitá-lo. Precisamente neste sinal de Jonas culminam todos os milagres do evangelho, apelo à conversão e à abertura à salvação de Deus, sinais de sua presença espiritual no combate ao pecado e à morte. Que a exemplo de Maria, da Mãe Aparecida, sejamos criativos no anúncio e dóceis na percepção dos sinais silenciosos de Deus em nossa vida. Assim seja! Amém.

domingo, 9 de outubro de 2022

09.10.2022 - Reabertura da Basílica de São Pedro

 Amados filhos e filhas, três motivos nos reúnem aqui esta tarde: hoje celebramos o Domingo, o dia da Ressurreição do Senhor Jesus Cristo, o vigésimo oitavo do Tempo Comum; reabrimos a Basílica de São Pedro, com seus novos pisos que foram doados por Dom Miguel Maria Dolezzio, a quem somos muito gratos; e rendemos graças a Deus pelo meu terceiro mês de ministério petrino. Simbolicamente, todos estes motivos estão unidos no termo que justamente marca a Liturgia deste domingo: gratidão. A gratidão é a memória do coração, diz o poeta. E somos convidados pelas leituras deste domingo a pensar em como anda a nossa gratidão a Deus. Muitas vezes nós procuramos o Senhor para pedir, mas não o procuramos para agradecer. Rezamos terços, novenas, oferecemos missas, para pedirmos por algumas situações específicas de nossa vida, e isso é louvável; mas, mas, depois não voltamos para agradecer a Deus com a mesma intensidade. Vejam, filhos e filhas, que Naamã, o sírio, foi tão grato pela cura recebida que quis levar a terra das beiras do Jordão, para só sobre aquela terra oferecer seus sacrifícios de louvor, só ao Deus único e verdadeiro. É a gratidão do homem que não pertence ao povo de Deus que é mostrada como sinal para nós. Do mesmo modo acontece com o leproso samaritano no Evangelho, que foi o único a voltar para agradecer a Deus pelo dom de ter sido curado. As vezes Deus pode agir mais em quem está fora da Igreja, fora da salvação, do que em nós, que temos um coração orgulhoso e prepotente, que não reconhece sua ação e não o louva por isso. E nós nos perguntamos: e nós? Sim, nós que estamos aqui na Igreja, será que estamos dedicando tempo para louvar a Deus ou estamos querendo que Deus faça a nossa vontade, no nosso tempo? Pedir a Deus é reconhecer que nem sempre vamos ter o que pedimos, pois as coisas são conforme a vontade dele. Por isso, São Paulo nos convida a tudo suportar, tudo suportar. Devemos criar o hábito de agradecer a Deus, principalmente nós que estamos ao seu serviço e nós que prestamos a Ele nosso culto dominical. É virmos e irmos a missa não só para pedir, mas para adorar a Deus por suas maravilhas: a vida, a família, a solidão, a saúde, a doença, a graça de Cristo, os dons, tudo. Nossas orações precisam ser mais de gratidão do que de pedidos. Sim, é importante pedir, mas é mais importante agradecer. Quando agradecemos, reconhecemos a ação de Deus. E precisamos reconhecer a agradecer por aquilo que Deus nos fez, mesmo que seja aparentemente uma desgraça; como diz Jó ao perder tudo: "Deus me deu, Deus me tirou. Como foi do agrado do Senhor assim foi feito. Bendito seja o nome do Senhor.". Assim seja! Amém.

quinta-feira, 6 de outubro de 2022

06.10.2022 - Consistório de Criação Cardinalícia do Pe. Francisco Reis

Amados filhos e filhas, dos quais saúdo de modo especial Dom Jorge Snaif Cardeal Médici, decano do colégio Cardinalício e o Pe. Frei Francisco Reis, que hoje é criado cardeal e introduzido neste dileto colégio. Este Consistório, bem sabeis, coroa os cinco anos de serviço diaconal de Francisco Reis, que foram completos no último dia 29. Por isso, ao o criarmos hoje como membro do colégio de Cardeais, no estado de cardeal emérito, ressaltamos seu valoroso serviço. E este é o termo que deve ser ressaltado cada dia mais: serviço. Serviço e ministério dentro de nossa linguagem teológica tem o mesmo sentido: sim, pois o serviço é um ministério e ministério é serviço. Neste sentido compreendemos o texto bíblico que acabamos de ler. O servo, na compreensão judaica-pagã é aquele que está mais próximo do senhor, mas que não se assenta na mesa com seu mestre. Para nós, o servo não é aquele que por si merece a glória e ocupa um lugar de poder e destaque. Ainda assim, o servo é o que está mais próximo do seu senhor. E está como? Servindo. O cálice que Jesus oferece aos seus discípulos é o cálice do sangue derramado, e que é o sangue de Cristo derramado senão o auge do seu serviço, do seu ministério, que foi a entrega de sua própria vista para a redenção da humanidade, para sua reconciliação, que alcança para si próprio e para nós a ressurreição? Sim, filhos e filhas, somos convidados, portanto, a oferecermos também nós o nosso sangue, nosso suor e lágrimas, doando-nos e desgastando-nos pelos nossos irmãos e irmãs. A isto todos somos convocados pela nossa própria vocação universal a santidade. Mas, vós, cardeais, sois chamados a isto de modo singular: como membros deste distinto colégio, que vestis o vermelho, o rubro, que vos revestis da cor do sangue, deveis deixar vossos tronos, vossas cátedras, e ir em serviço. Serviço em primeiro lugar a Deus; depois ao Romano Pontífice; aos Dicastérios e ministérios a vós confiados; ao clero e a todo o povo de Deus. O serviço manifesta-se na proximidade e no próprio desempenhar das funções, abandonando-se e desgastando-se. O homem que em sua vontade de poder, em seu ímpeto vital mais profundo, tem o desejo de em toda sua força abraçar o próprio sofrimento e o dos outros para dignificá-los, este alcançou a mais autêntica das existências, pois descobriu em si toda a força do amor.Assim, o Cardeal Francisco Reis, todos os cardeais e todos nós aqui reunidos bebamos do cálice do sangue, do cálice do serviço, e desempenhemos com fidelidade o que a Igreja e por meio dela o próprio Deus nos confia. Assim seja! Amém.

terça-feira, 4 de outubro de 2022

04.10.2022 - São Francisco de Assis

 "VAI E RECONSTRÓI A MINHA IGREJA!"
Amados filhos e filhas, dos quais saúdo de modo especial Dom Frei Darllan Cardeal Messias, atual superior da Ordem dos Frades Menores, paz e bem! Estamos celebrando aqui a Solenidade de São Francisco de Assis. O mandamento do Senhor a Francisco, de ir e reconstruir a Igreja, ressoa mais uma vez aos nossos ouvidos. Diante disso poderíamos, inicialmente, ter o mesmo pensamento de São Francisco, que diante do Crucifixo de São Damião, pôs-se a reconstruir a igreja física, e só mais tarde foi entender que deveria reconstruir a Igreja espiritual. E, quando ele entendeu isso, ele entendeu também por onde começar: por si mesmo. Nós sabemos a bela história de São Francisco, de seu abandono as riquezas do pai e o modo como abraçou a pobreza. Sim, filhos e filhas, precisamos começar a reconstrução da Igreja reconstruindo a nós mesmos, isto é, deixando tudo que nos impede de abraçar a simplicidade de vida e de coração, deixando todos os ídolos que nos impedem de amar a Jesus Cristo como ele deve ser amado. E São Francisco deixa tudo para amar a Jesus Cristo. Não é um homem apaixonado por uma ideia, mas, por uma pessoa e que abraça as consequências deste amor: doar-se como Cristo. Se a experiência fundamental da fé de Francisco é a experiência mediante a cruz do Senhor, é ele próprio se aproximando do crucificado, recebendo os estigmas, que esta fé é levada ao extremo, ao auge que deveria chegar. São Francisco compreende que é chegando neste extremo que nós experimentamos a perfeita alegria. A perfeita alegria é nossa união perfeita com Cristo, que acontece quando nós nos encontramos e cuidamos do Cristo crucificado, sofredor, do Cristo pobre, que está caído nas sarjetas, nas favelas, nos hospitais, nos inocentes que vivem em meio as guerras. Só encontra a perfeita alegria, só experimenta e vive plenamente o amor quem sabe sair de si e sofrer com os outros, para tira-los também do sofrimento. Foi justamente isso que Jesus fez: saiu de si, esvaziou-se e assumiu a nossa condição humana para nos redimir. Devemos imita-lo, sim, pois em todos os nossos irmãos e irmãs, mas principalmente nos pobres e sofredores, encontramos o rosto de Jesus Cristo. Somos interpelados, convocados, então, a sairmos em defesa da dignidade da vida humana, dos direitos dos nossos irmãos e irmãs, a cuidarmos da natureza, a qual Francisco chamou toda de irmãos e irmãs, a fazermos da sociedade, do mundo, um mundo mais irmão. Em tempos de polarização política que vivemos, alguns, principalmente alguns cristãos superficiais e fariseus, chamariam isto de comunismo; a Igreja, em sua doutrina social, porém, chama de Evangelho. Encarnemos, portanto, o Evangelho em nossas vidas, com consciência e amor e, um dia, ao nos encontrarmos com a irmã Morte, que nos levará para a eternidade, poderemos repetir com São Francisco de Assis: "Louvado seja meu Senhor!". Assim seja! Amém.

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

03.10.2022 - Audiência Geral

Amados filhos e filhas, estamos iniciando esta nossa nova série de catequeses, inspiradas nas obras "Jesus de Nazaré", de Bento XVI. Filhos e filhas, quem é Jesus? No decurso do interrogatório de Jesus, de improviso Pilatos põe ao acusado esta pergunta: “De onde és Tu?”. Os acusadores dramatizaram o seu clamor pela condenação à morte de Jesus, declarando que Ele Se teria feito Filho de Deus; delito este para o qual a Lei previa a pena de morte. O juiz romano racionalista, que antes manifestara o seu ceticismo diante da questão a respeito da verdade, poderia avaliar como ridícula essa pretensão do acusado. Mas não! Ficou assustado. Anteriormente, o acusado declarara que era um rei, mas especificando que o seu reino não era “deste mundo”. Depois aludira a um misterioso “de onde” e “para quê”, ao dizer: “Para isso nasci e para isto vim ao mundo: para dar testemunho da Verdade”. Para o juiz romano, tudo aquilo devia parecer um desvario; e todavia não conseguia subtrair-se à misteriosa impressão deixada por aquele homem, diferente dos outros que ele conhecia e que combatiam contra a dominação romana e pela restauração do reino de Israel. O juiz romano interroga sobre a origem de Jesus, para compreender quem era Ele verdadeiramente e o que queria. A pergunta sobre o “de onde” é Jesus, como questão sobre a sua origem íntima e, consequentemente, sobre a sua verdadeira natureza, surge também em outros pontos decisivos do Evangelho de João e é importante também nos evangelhos sinóticos. Tanto em João como nos sinóticos, a questão aparece envolvida em um estranho paradoxo. Por um lado, contra Jesus e a sua alegada missão, está a informação precisa de que dispõem sobre a sua origem: não vem de modo algum do céu, do “Pai”, de “lá de cima”, como Ele sustenta. Não! Porventura não é Ele “cujo pai e a mãe conhecemos? Como diz agora: ‘Eu desci do céu’? Os sinóticos narram uma discussão muito semelhante na sinagoga de Nazaré, a terra de Jesus. Ele interpretara as palavras da Sagrada Escritura não na forma habitual, mas com uma autoridade que ultrapassava os limites de toda interpretação; tinha-as referido a Si mesmo e à sua missão. Compreensivelmente, os ouvintes ficam alvoroçados com essa relação com a Escritura, com a pretensão de ser Ele próprio o ponto intrínseco de referência e a chave de interpretação das palavras sagradas. E o alvoroço transforma-se em protesto: “Não é este o carpinteiro, o filho de Maria, irmão de Tiago, Jose, Judas e Simão? E as suas irmãs não estão aqui entre nós? E isto parecia-lhes escandaloso”. De fato, eles sabem muito bem quem é Jesus e de onde vem: é um entre outros; é um como nós. A sua pretensão não pode ser senão presunção. A isso vem juntar-se o fato de que Nazaré não era um lugar indicado para a realização de tal promessa. João conta que Filipe disse a Natanael: “Encontramos aquele de quem escreveram Moisés, na Lei, e os Profetas: Jesus, filho de José, de Nazaré”. A resposta de Natanael é bem conhecida: “De Nazaré pode vir algo de bom?”. A vida normal de Jesus, o operário provinciano, não parece esconder qualquer mistério; a sua proveniência revela-O como um igual a todos os outros. Mas contra a autoridade de Jesus há também o argumento oposto, referido concretamente na discussão em torno da cura do “cego de nascença”, que adquiriu a vista: “Sabemos que Deus falou a Moisés; mas esse Jesus não sabemos de onde é!”. Algo de muito semelhante disseram também os habitantes de Nazaré depois da pregação de Jesus na sinagoga e antes de O desqualificarem como bem conhecido e igual a eles: “De onde lhe vem tudo isto? E que sabedoria é esta que lhe foi dada? E como se fazem tais milagres por suas mãos?”. Também aqui a pergunta é “de onde…?”, embora depois a eliminem invocando a parentela d’Ele. A origem de Jesus é simultaneamente conhecida e desconhecida: aparentemente fácil de explicar e, todavia, não possui uma explicação exaustiva. Em Cesareia de Filipe, Jesus interrogará os seus discípulos nestes termos: “Quem dizem os homens que Eu sou? (...) E vós, quem dizeis que Eu sou?”. Quem é Jesus e de onde vem: as duas perguntas estão inseparavelmente unidas. O objetivo dos quatro Evangelhos é responder a essas perguntas; foram escritos precisamente para lhes dar resposta. Ao abrir o seu Evangelho com
a genealogia de Jesus, Mateus quer, logo de início, colocar na justa perspectiva a questão sobre a origem de Jesus; a genealogia é como uma espécie de título para o Evangelho inteiro. Diversamente, Lucas colocou a genealogia de Jesus no início da sua vida pública, quase como uma apresentação pública de Jesus, para dar resposta – embora com ênfase diferente – à mesma pergunta, antecipando aquilo que depois o Evangelho inteiro desenvolverá. Procuremos agora entender melhor a intenção essencial das duas genealogias. Em Mateus, há dois nomes que são determinantes para compreender “de onde” é Jesus: Abraão e Davi. Depois da dispersão da humanidade na sequência da construção da Torre de Babel, é com Abraão que começa a história da promessa. Abraão alude, antecipadamente, àquilo que deve vir; ele é peregrino não só saindo do país das suas origens para a terra prometida, mas também enquanto sai do presente para se encaminhar rumo ao futuro. Toda a sua vida aponta para a frente, possui uma dinâmica que o faz caminhar pela estrada do que deve acontecer. Por isso, justamente a Carta aos Hebreus o apresenta como peregrino da fé apoiada na promessa: ele “esperava a cidade que tem fundamentos, cujo arquiteto e construtor é o próprio Deus”. Para Abraão, a promessa refere-se primariamente ao seu descendente, mas
vai mais longe: “Por ele serão benditas todas as nações da terra”. Assim, em toda a história que começa com Abraão e se dirige para Jesus, o olhar fixa-se no conjunto: através de Abraão, deve vir uma bênção para todos. Por isso, já desde o início da genealogia, o olhar volta-se para a conclusão do Evangelho, onde o Ressuscitado diz aos discípulos: “Fazei que todas as nações se tornem discípulos”. Em todo caso, na história particular apresentada pela genealogia, está presente, desde o início, a tensão para a totalidade; a universalidade da missão de Jesus está incluída neste “de onde” é Ele. Mas a estrutura da genealogia e da história por ela narrada está
determinada totalmente pela figura de Davi, do rei a quem fora feita a promessa de um reino eterno: “O teu trono se estabelecerá para sempre”. A genealogia, que Mateus apresenta, está modelada com base nessa promessa. Está estruturada em três grupos de 14 gerações: primeiro
subindo de Abraão até Davi, depois descendo de Salomão até o exílio da Babilônia, para em seguida subir de novo até Jesus, em quem a promessa alcança a sua realização. Aparece o rei que permanecerá para sempre, mas completamente diferente daquilo que se poderia imaginar com base no modelo de Davi. Essa estruturação torna-se ainda mais clara se tivermos em mente que as letras hebraicas do nome de Davi totalizam o valor numérico de 14, e assim, a partir do simbolismo dos números, Davi, o seu nome e a sua promessa caracterizam o caminho de Abraão até Jesus. Com base nisso, poder-se-ia dizer que a genealogia com os seus três grupos de 14 gerações é um verdadeiro Evangelho de Cristo Rei: a história inteira aponta para Ele, cujo trono estará firme para sempre. A genealogia, em Mateus, é uma genealogia de homens; nela, porém, antes de Maria – com quem termina a genealogia – mencionam-se quatro mulheres: Tamar, Raab, Rute e “a mulher de Urias”. Por que motivo aparecem essas mulheres na genealogia? Com qual critério foram escolhidas? Porque – foi dito – as quatro mulheres teriam sido pecadoras. Assim, com a sua menção, estaria subjacente a indicação de que Jesus teria tomado sobre Si os pecados e, com estes, o pecado do mundo, e que a sua missão haveria de ser a justificação dos pecadores. Mas isso não pode ter sido o aspecto determinante na escolha, sobretudo porque não se aplica às quatro mulheres. Mais importante é o fato de nenhuma das quatro ser judia; assim, por intermédio delas, entra na genealogia de Jesus o mundo dos gentios: torna-se visível que a sua missão se destina a judeus e pagãos. Mas, acima de tudo, a genealogia termina com uma mulher – Maria – que, na realidade, constitui um novo início e relativiza a genealogia inteira. Através de todas as gerações, tal genealogia avançara seguindo o esquema: “Abraão gerou Isaac...”; no final, porém, aparece uma coisa muito diversa. Relativamente a Jesus, já não se fala de geração, mas afirma-se: “Jacó gerou José, o esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, chamado Cristo”. Na narrativa seguinte do nascimento de Jesus, Mateus nos diz que José não era o pai de Jesus, tendo ele a intenção de repudiar Maria em segredo por causa do suposto adultério; e então lhe foi dito: “O que nela foi gerado vem do Espírito Santo”. Assim, a última frase dá uma nova orientação para toda a genealogia. Maria é um novo início; o seu filho não provém de um homem, mas é uma nova criação: foi concebido por obra do Espírito Santo. A genealogia mantém a sua importância: José é juridicamente o pai de Jesus. Por meio dele, Jesus pertence segundo a Lei, “legalmente”, à tribo de Davi. E, todavia, vem de outro lugar, “do alto”: do próprio Deus. O mistério sobre “de onde” Ele é, da sua origem dupla, nos é colocado de forma muito concreta: a sua origem é determinável e, todavia, permanece um mistério. Só Deus é o seu “Pai” em sentido próprio. A genealogia dos homens tem a sua importância no que diz respeito à história do mundo. E, apesar disso, no fim das contas é em Maria, a Virgem humilde de Nazaré, que acontece um novo início: recomeça de modo novo o ser humano.