quarta-feira, 31 de março de 2021

31.03.2021 - Quarta-Feira Santa

Irmãos, sermos traidores do Senhor Jesus é o maior risco que corremos. Nós acabamos de ouvir no Evangelho de São Mateus a traição de Judas Iscariotes. Trinta moedas de prata foi o preço do sangue redentor. A verdade é que mal sabia Judas, mas aquele sangue custaria muito mais: custaria a sua salvação. São João Evangelista, ontem, nos narrava essa mesma cena, mas, acrescentava alguns outros detalhes. Judas teve, até o último instante, mesmo depois de combinar o preço da entrega de Jesus, chance de desistir. Mas ele não desiste. Seu coração, encarquilhado no mal, não consegue pensar em outra coisa a não ser em si mesmo. Judas era um homem extremamente apegado a coisas, bens, pessoas. Podemos considerá-lo um homem ciumento, possessivo, avarento. Só que Judas não era apegado a uma coisa essencial, a algo que ele devia se apegar sobre todas as coisas. Judas não se apega a Jesus Cristo. Irmãos, enquanto não nos apegarmos verdadeiramente a Jesus Cristo podemos traí-lo com facilidade e não nos doerá. Os discípulos todos abandonaram Jesus, mas voltaram, por isso Jesus diz que eles não o traíram. Mas, Judas traí e não volta mais. Depois sente remorso e se enforca. Ele vai, joga as moedas, mas era tarde demais. Cuidado, irmãos. Cuidado, pois uma hora pode ser tarde demais para voltar atrás. Podemos querer voltar para o Senhor quando não der mais, mas, aí, já seremos marcados como traidores. E aí daquele que trair Jesus Cristo, melhor seria se não existisse, se nem tivesse nascido, se fosse um nada. Pois Deus é capaz de aceitar as nossas misérias quando voltamos e recorremos a sua misericórdia. Mas quem trai a Deus durante a vida e não volta seu coração a Ele, este não é perdoado e é condenado ao inferno. Perdoem-me, irmãos, mas a Palavra de hoje é uma Palavra dura. Nossos pecados condenaram a Jesus Cristo e nós não podemos olhar para essa condenação e não querermos mudar de vida. Ou, pior, não mudamos de vida mas ficamos colocando pesados fardos sobre as costas dos outros, apontando seus erros, suas misérias e suas limitações. As vezes somos como o fariseu que louva a Deus por não ser como o homem simples, que pouco entende sobre Deus, mas somos piores que o que não entende: pecadores, nojentos e sujos, indignos do Senhor. E ficamos confortáveis em nossa sujeira, em nossa lama, não queremos mudar, não nos esforçamos para isso, nem rezamos para isso e vamos cometendo sempre os mesmos erros sem lutar para deixá-los. Mas, Cristo desce até nossa lama, se suja conosco para nos resgatar. Não podemos passar mais uma Páscoa indiferente. Temos que perceber que se não mudarmos de vida agora, não amanhã, agora, seremos traidores de Jesus. É claro que isso se dá no dia-a-dia, a conta gotas, na conversão do coração. Mas, é preciso sempre um primeiro passo e a cada queda um novo levantar-se. É preciso ir e não desistir e é preciso perseverar até o fim. Judas Iscariotes estava perto do Senhor, ouvia sua Palavra, mas não deixava com que a Palavra tocasse seu coração, não se permitia mudar. E nós? Nós que estamos aqui, perto do Senhor, deixamos que sua Palavra nos transforme? Permitimos que o alimento da Eucaristia nos renove? Ou estamos vivendo só mais uma semana santa, só mais um dia, só mais um ano, só mais uma vida sem sentido, vazia e de traições? Preparemos não só as mesas, mas, também o nosso coração, para a Ceia Pascal, para a passagem do Senhor.
Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos.

terça-feira, 30 de março de 2021

30.03.2021 - Missa do Crisma

 Irmãos, estamos celebrando a missa do crisma. Esta celebração eucarística, que normalmente acontece na quinta-feira Santa pela manhã, é o momento de renovarmos as nossas promessas sacerdotais e abençoarmos os óleos que usaremos ao longo do próximo ano. É da celebração Pascal de Jesus Cristo que brota para nós o ministério sacerdotal, e nos alcança a graça do Espírito Santo. A liturgia desta celebração nos apresenta Jesus Cristo como ungido de Deus. Aquele que antes era premeditado no livro do profeta Isaías agora se faz realidade entre os homens. Cristo é ungido o eleito de Deus Pai, pois quis o Pai que seu Cristo fosse o cume de todas as coisas. Quando Jesus faz a leitura desse trecho da Escritura no Templo todos ficam pasmos, pois percebem que falava Dele. E ele próprio diz: "Hoje se cumpriu essa passagem da Escritura que acabaste de ouvir". A Escritura alcança seu pleno cumprimento em Jesus Cristo, Ele é o ungido por excelência e nós participamos da sua unção. De igual modo, irmãos, Ele é o sacerdote por excelência, mas, nos faz participantes de seu sacerdócio. A todos, pelo Batismo, e a nós, Bispos e Presbíteros, pelo Batismo e pelo ministério, Cristo fez sacerdotes. O sacerdote é aquele que oferece um sacrifício. Cristo é, ao mesmo tempo, sacerdote, altar e cordeiro, oferecido uma vez por todas pela humanidade. Pela nossa unção, nossa missão, aqui, é celebrarmos o memorial desse evento, e sermos anunciadores daquele que anuncia a Boa nova aos pobres; a libertação aos cativos e aos cegos a recuperação da vista; a libertação os oprimidos e um ano da graça do Senhor. Essa é a nossa missão: de sermos outro Cristo. Sim, pelo Batismo, mas, muito mais nós que nos propomos a nos configurarmos a Jesus Cristo. E essa configuração a Cristo deve ser uma configuração a Ele naquele momento em que institui o sacerdócio: quando lava os pés dos discípulos. Nossa configuração é ao Cristo Servo. Ele institui o sacerdócio em razão da Eucaristia, e estes dois, em razão de seu mistério Pascal. Corremos o risco, irmãos, de colocar a Eucaristia a nosso serviço, os sacramentos a nosso serviço, a Igreja a nosso serviço, usando nosso discurso a nosso bel prazer, como se nós fôssemos o centro de tudo isso. Mas, não, o centro é Ele, é Jesus Cristo. Ele nos fez participantes de seu ministério e quer manifestar-se através de nós. Só que ele não poderá fazer isso se permanecermos de coração fechado, achando por nós mesmos que estamos certos, sem abertura ao crescimento, a escuta da Palavra, a obediência, aos modos como Deus quer falar conosco. Nós precisamos ter um coração próximo do coração do Senhor. Devemos ser como São João, que repousa sobre o peito de Jesus na Ceia. Façamos, irmãos Bispos e Presbíteros, do altar o lugar do repouso de noss´alma. Ele quer ser o lugar de renovar as forças para a missão, para o anúncio desse Senhor Jesus Cristo, nosso Mestre. Se um clérigo não tem proximidade, intimidade com Jesus e não celebra seus mistérios com a própria vida, ele está no lugar errado. A Liturgia, os sacramentos, o sacramento que nos marca, deve transformar a nossa existência humana. Depois de lavar os pés dos discípulos, de fazê-los sacerdotes, de dá-los a Eucaristia, Jesus transformou completamente a vida deles. Eles já não foram mais os mesmos, pois experimentaram o Senhor. Que, nessa Páscoa, possamos de fato morrer e ressuscitar com Cristo, deixarmos para trás o velho homem e abraçarmos a vida nova. E todos nós, irmãos, ungidos por esses óleos nos sacramentos, recordemos a força de Cristo que nos batiza, que nos fortalece na doença. Sobre os que descer a unção do Santo Crisma venha também o Espírito Santo, e nos faça participantes do convívio que Cristo conquistou para nós pela sua morte e ressurreição. Por fim, continuemos celebrando esse memorial e vivendo de acordo com ele, até o dia em que Cristo vir sobre as nuvens, imolado e Ressuscitado, Vitorioso para sempre.


segunda-feira, 29 de março de 2021

29.03.2021 - Segunda-Feira Santa

Irmãos, Jesus não grita, nem precisa fazer escândalo para anunciar sua palavra. Na simplicidade de seu discurso está a centralidade do mesmo. Não é como os mestres da lei e os fariseus que precisavam gritar, fazer-se ser ouvidos para manter-se no poder. Jesus fala com calma, com mansidão. E assim, ele promove os julgamento das nações pois o espírito do senhor está sobre ele. É isso que vem nos falar o primeiro cântico do servo sofredor. Essa figura que há muito tempo os cristãos associaram a Jesus nos lembra o sofrimentos que o Messias precisou passar pela nossa salvação. Nós custamos um alto preço. Jesus aceita esse preço, paga com todo o seu sangue, suor, lágrimas, a dívida que tínhamos. Esse sacrifício vicário resgata a nossa humanidade. Éramos réus de morte, mas ele assume a nossa culpa. Como deveríamos morrer, o próprio Jesus Cristo entra na morte. Seu corpo antes de ser enterrado é ungido com perfumes, como era a tradição para época. Mas, muito maior ao perfume do seu corpo com a ressurreição, pois não é mais um perfume humano, é a própria glória de Deus. Contudo, antes essa glorificação Jesus Cristo precisou ser cadáver. Maria, hoje, unge os pés de nosso Senhor. Como nós também gostaríamos de estar ali, ungindo os pés do nosso mestre, tratando com carinho o nosso Redentor. Nossa humanidade é carente, somos seres sociais por natureza, precisamos dos outros, gostamos do carinho dos outros. Quanto mais Jesus, pouco antes de sua morte, sentindo-se só, não aproveitou dessa unção... Maria dava Jesus um pouco de descanso, um pouco de afeto, de carinho, de amor. Era um perfume caro, e ela despejava completamente nos pés do Senhor. Quanto mais caro é nossa vida, por isso, a derramemos no pé de Jesus. Hoje irmãos, nos falta muito este derramamento. A doação completa de nossa vida, de nossa essência, do nosso ser ao Senhor Jesus Cristo, é a única coisa que satisfaz inteiramente o nosso coração. Judas queria, ao menos fingindo, gastar aquele dinheiro com outras coisas. Mas a nossa vida não pode ser gasta com outras coisas, ela deve ser gasta com Jesus. Pode ser na vida consagrada, no clero, ou no matrimônio. O importante é doar a vida. Esse é o único caminho possível do cristão: entregar-se inteiramente nas mãos do Senhor, como ele entregou-se inteiramente pela nossa salvação. Ele foi a morte da morte, a ruína do inferno, para que não morrêssemos, para que não fossemos condenados. Pagou por todos nós o alto preço. Por quê não doarmos também a nossa vida? 

Nós vos adoramos, senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos.

domingo, 28 de março de 2021

28.03.2021 - Domingo de Ramos na Paixão do Senhor

Irmãos, estamos celebrando o Domingo de Ramos da Paixão do Senhor. Jesus assume um caminho sem volta. Faltando seis dias para a solene Páscoa ele entra na cidade Santa de Jerusalém e é aclamado como Rei de Israel. E, de fato, ele caminha para o seu reinado. Mas seu reino não é deste mundo. Seu trono de poder não é de ouro, mas de madeira. Seu trono não é vermelho da almofada, mas vermelho de sangue. Seu trono não é uma cadeira, mas é a árvore da Cruz. Ele, o Filho Eterno do Eterno Pai rebaixou-se a condição de escravo. Ele aceita o desígnio do Pai. Sacrifícios antigos não nos reconciliaram com o Pai, então Ele se faz sacrifício e nos reconcilia, uma vez por todas, com o Pai. Ele é a morte da morte, a ruína do inferno. Ele é um rei obediente e pela obediência é glorificado. Podia ter abandonado as dores, mas, não desvia o rosto, não volta atrás, aceita até a morte os sofrimentos necessários. A verdade é que ele era Deus, ao mesmo tempo que era homem. Mas, mesmo sendo Deus, ele sentiu o abandono do Pai. Como qualquer um de nós sente a dor da solidão, mesmo Deus estando conosco, Jesus sente. O Pai não o abandonara, mas estava ali, quieto, sofrendo por ver o sofrimento de seu Filho. Mas o grito de Jesus é o grito de toda a humanidade, principalmente neste tempo de pandemia da COVID-19: onde está Deus? Por que ele nos abandonou? Mas, a verdade, é que ele assiste calado a nossa dor, sofrendo pelo nosso sofrimento. Deus não pode interferir em nossa liberdade, mas quer que nós cuidemos. Ele espera que façamos nossa parte. Nossa solidão, isolados, muitos sem poder participar da Semana Santa, nos deve recordar a solidão do Rei Jesus. Ele fora aclamado como Rei, o Messias esperado, mas depois foi abandonado pelos homens. Precisamos tomar cuidado, pois corremos o risco de abandona-lo outra vez. A Campanha da Fraternidade trouxe um assunto muito oportuno: unidade. Hoje, cada um em sua casa, muitos perdem a fé Católica. Alguns a deixam pelo comodismo de suas casas, deixam de participar das missas e se afastam de Deus. Pela distância da Igreja outros passam a duvidar de Deus, e outros ainda acabam mudando de religião. Outros, porém, se tornam católicos de rede social, sejam modernistas ou tradicionalistas. Aristóteles diz e Santo Tomás de Aquino repete: "in medium virtus"; a virtude está no meio. Mas, para que ouvir o doutor Angélico no que não é conveniente? Essas pessoas rompem a unidade da Igreja e não só abandonam a Deus, mas também se tornam demônios, como Judas Iscariotes, traindo Jesus Cristo, o vendendo em troca de sua ideia de Igreja. Ideia que está ou no passado que já não existe mais ou num futuro que possivelmente nunca existirá. Irmãos, não o saudemos Jesus para depois abandona-lo. Dizendo hoje que Jesus é Rei, possamos abraça-lo até as últimas consequências, pois ele sabe que entrando hoje em Jerusalém não há mais volta, ele caminha para a cruz e Ressurreição, caminha para nos unir novamente com o Pai. Nós também possamos caminhar para a Páscoa buscando a comunhão com o Pai e fortalecendo a unidade da Igreja e entre a humanidade. Cristo é nossa paz, do que era divido ele fez uma unidade. Uma boa Semana Maior a todos!
Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos.

sexta-feira, 26 de março de 2021

26.03.2021 - Dedicação de Santa Maria Sopra Minerva

Irmãos, ouvimos a passagem do Livro de Neemias, quando o sacerdote Esdras faz a leitura do livro de Deus, diante de todo o povo. Precisamos entender o contexto dessa leitura. O povo estava voltando do exílio da Babilônia, e encontrou Jerusalém destruída. Então o povo chorava, pois sabia que havia desobedecido ao Senhor, por isso estava exilado. Mas agora, Esdras os anuncia a alegria que estava ali naquelas escrituras. Alegria pois tinham encontrado novamente a graça diante do Senhor, por isso aquele dia era um dia consagrado ao Senhor. Deus não deixou o seu povo no choro e na lamentação pelo Templo destruído, mas o renova por sua palavra. Quando Esdras faz a leitura da Palavra de Deus é o próprio Deus que se comunica com o seu povo. Comunicação exige um laço. O povo volta a poder olhar para o Senhor Adonai como o seu Deus e por isso pode se alegrar. E, então, nós sabemos, eles vão começar a reconstrução do Templo de Jerusalém e, depois, solenemente dedicá-lo. O Templo era considerado o lugar da habitação de Deus, sobretudo o Santo dos Santos. Lá o sumo sacerdote entrava amarrado a uma corda, pois temia morrer se visse a Deus. Nós, porém, vemos a Deus cada vez que nos reunimos para celebrar a Eucaristia. Celebramos na igreja o verdadeiro sacrifício, do verdadeiro sumo sacerdote, não unicamente no Templo de Jerusalém, mas em todos os altares do mundo. Fazermos, aqui, memória deste sacrifício é trazermos ao coração o amor do nosso Deus. Aqui nós não só receberemos o amor de Deus, mas, também, o amaremos. Por isso, irmãos, que a dedicação desta igreja, deste templo e deste altar, seja a dedicação também do nosso coração. Que a unção dessas paredes represente o derramamento do Espírito Santo em nosso coração, nos impelindo a crescer no amor para com Deus, a nos mantermos parte de sua comunidade e nos convidando a alegria, pois Deus está entre nós.

quinta-feira, 25 de março de 2021

25.03.2021 - Visita a Brasília

HOMILIA NA MISSA
Irmãos, celebramos hoje a anunciação de Nosso Senhor Jesus Cristo. Celebramos o dia em que Jesus Cristo, Deus eterno e Filho do eterno Pai, gerado antes dos tempos, entrou na história humana, se fazendo homem, assumindo a carne do pecado, para salvar a humanidade. Nós pecamos e quebramos muitas vezes a aliança com Deus. Mas, Deus sabia que chegou a hora de firmar conosco uma nova e eterna aliança, e essa é firmada em Jesus Cristo. O Salmista nos expõe muito bem essa dinâmica. Os nossos pecados quebraram nossa relação com Deus e ela precisava ser restaurada. Mas, Deus sabia que por nós mesmos não éramos capazes disso. Então, para que voltássemos os olhos para Deus, para que o peso que caía sobre nós não nos amassasse, não nos destruísse, o Filho eterno do Pai assume a missão de salvar-nos. Ele assume a natureza humana. Cristo, Jesus de Nazaré, não deixa para trás a natureza humana, mas une, em sua pessoa, a natureza humana e a natureza divina, o que chamamos de união hipostática. Um mistério difícil de compreender, mas, que nos basta simplesmente crer. Pois, Ele que sendo Deus não tinha pecado, tornou-se pecado por nós. Ele, que era Deus, esvaziou-se a si mesmo e tomou a condição de um escravo e fez-se aos homens semelhantes. Irmãos, vejam que profundida. Ele era Deus imenso e se fez homem! Assumiu em tudo a nossa condição. Que humilhante para Deus... Por isso, as vezes, temos a tendência de diminuir o que de fato aconteceu, mas não podemos. Ele se humilhou! Assumir a condição humana para Deus seria humilhante. Que outro Deus ouvimos dizer que se preocupa assim com seu povo? Como consequência do nosso livre arbítrio o Pai não podia nos obrigar a cumprir a aliança, mas, Ele não nos quer perder eternamente, por isso o Filho aceita se fazer sacrifício. Encarnando em Maria, Cristo inicia o processo sacrificial. Por isso faz sentido celebrarmos essa solenidade mesmo que em meio a quaresma: porque na encarnação inicia-se a caminhada para a cruz. O menino hoje encarnado é o Deus que contemplaremos em alguns dias morrer e ressuscitar. Que mistério é nosso Deus! No Evangelho ouvimos Maria dar seu fiat, mas, era o próprio Verbo de Deus, Jesus Cristo, que dava seu sim pela boca de Maria. Jesus aceita a vontade do Pai e se encarna para nos resgatar. E nós, por mais quanto tempo vamos continuar fugindo de Deus? Precisamos parar de fugir de Deus, precisamos nos voltar para Ele, comungar do cálice da nova e eterna aliança, vivendo de acordo com essa aliança e dizer, como Jesus: "COM PRAZER FAÇO A VOSSA VONTADE". 
Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos.

DISCURSO DE DESPEDIDA
Irmãos, que alegria poder ter partilhado com vocês esse bonito momento da nossa visita Apostólica. É sempre bom nos reunirmos irmãos. A fé católica não é uma fé individualista, mas, uma fé de comunidade. Quando os primeiros cristãos se reuniam nas catacumbas, era o momento auge da vivência em comunidade. Termos comunidade de fé, de amor, nos motiva e impulsiona no segmento de Jesus Cristo. ele próprio em sua vivência humana quis ter uma comunidade a comunidade dos discípulos, e dos apóstolos. E como comunidade que crescemos e evoluímos no seguimento de Jesus Cristo. Apenas no apoio mútuo os cristãos conseguem chegar a plenitude da vida em Cristo. Pois, viver em Jesus é viver na comunhão do seu Corpo, a Igreja. Deste modo, estivermos reunidos nesses dias nos animando, nos fortalecendo como comunidade de amor que reunida em torno de seu divino mestre espera receber os benefícios de sua misericórdia. Irmãos, estamos as portas da semana maior, momento em que celebramos com favor a paixão, morte e ressurreição de nosso Senhor Jesus Cristo. Que possamos celebrar com amor estes mistérios, e que eles nos fortaleçam ainda mais no segmento de nosso Senhor. Meu objetivo aqui com vocês foi apenas um: falar sobre Jesus Cristo. Desejo que nesses próximos dias possamos mergulhar com profundidade no ministério de Jesus, sofrer com ele, morrer com ele, vencer a morte com ele. Como reflexão para essa semana santa que presidirei coloquei uma bonita antífona: "ó morte eu serei a tua morte, ó inferno eu serei a tua ruína". Jesus Cristo que agora nem tanto podemos contemplar é o vencedor da morte, destruidor do inferno, Vitória para cada um de nós que nele crê. Obrigado pela acolhida de cada um de vocês, em todas as arquidioceses que passei. Agradeço a cada um na pessoa de Dom Pedro, nosso núncio apostólico. Muito, muito, muito obrigado. Espero retornar em breve. Permaneço unido a vocês num só coração, Unidos no coração transpassado e e glorioso do nosso mestre ressuscitado. Juntos caminhamos! Deus está conosco!

quarta-feira, 24 de março de 2021

24.03.2021- Visita a Aparecida

DISCURSO 
Irmãos, que momento bonito de poder estar com vocês. Nós que já estamos, há tanto tempo, unidos num só coração em Cristo Jesus, podemos, agora, nos unir fisicamente nessa Igreja Particular de Aparecida. Essa Igreja, que entorno do Rio Paraíba e dos simples pescadores continua a ser Igreja das águas. Essas águas que são águas de purificação, como bem nos lembra a dinâmica pascal que estamos vivendo, e também são águas da esperança, como no texto de Ezequiel. As águas do rio de Cristo, donde todos nós recebemos, pelo batismo, a vida, foi também a água donde nos vem a Virgem Maria. Maria foi Imaculada tendo em vista os méritos de seu Filho Jesus Cristo. E, aqui, venerada sob o título de Imaculada Conceição Aparecida, ela nos recorda ainda mais este bonito simbolismo: ela surge em meio as águas. Ela surge do meio daquele elemento que recordava a morte dos egípcios submersos pela água, e nos anuncia que estão mortos os nossos inimigos. Ao povo brasileiro quantos inimigos foram vencidos pela intercessão da Virgem Aparecida. E quantos inimigos ainda há para serem vencidos aqui. Confiemo-nos, sempre, ao patrocínio da Virgem Mãe Aparecida, que não desamparou os pescadores e que não desamparará a nenhum de nós. Espero do fundo do meu coração que o fruto da nossa visita a vocês seja o conhecimento mútuo, o aprofundamento da relação de pastor e rebanho, e o fortalecimento mútuo, de mim para com vocês e de vocês para comigo, para que nos inflamemos do amor por nosso Senhor e possamos continuar a missão a cada um de nós confiada. 

HOMILIA NA MISSA
Irmãos, a Palavra é a verdade. Isso que retiramos da primeira frase de Nosso Senhor no Evangelho de hoje é fundamental para entendermos todo o contexto das leituras. Vimos, na primeira leitura, os três jovens sendo jogados na fornalha por não prestarem culto aos deuses que ordenara o rei Nabucodonosor. Eles aderiram a verdade que era o próprio Deus e um anjo se põe com eles na fornalha. O anjo é sempre sinal da presença de Deus. Talvez possamos dizer que era o próprio Cristo que se colocou junto deles na fornalha, como aquela quarta figura. Quando aderimos, irmãos, a Verdade, somos realmente livres. Pois a Verdade, pois Jesus Cristo nos liberta de qualquer cadeia a qual estamos presos. Os sofrimentos, com ele, se tornam mais suportáveis. É claro que nossa vida continua com as mesmas tendências para o erro, porém, buscamos preferir a Verdade, pois aderimos a Cristo. Nós vivemos em tempos onde são apresentadas para nós muitas verdades. Mas, precisamos saber discernir aonde está a Verdade, e a Verdade está onde está Jesus Cristo e seu projeto de amor. Não há outro caminho, irmãos. Podemos adotar outros deuses e nos tornarmos adoradores de outras realidades, mas, aí não estará a verdade. A Verdade é Jesus Cristo. Mas, corremos o risco de nos dispersar dessa verdade. Vejam como os judeus naquela época já não sabiam mais a verdade. Num primeiro momento estavam tão cegos que tinham até se esquecido que foram escravizados, que eram parte de um povo que havia sofrido muito. Nós, muitas vezes, corremos esse mesmo risco, irmãos: Esquecermo-nos da dor e do sofrimento do pecado, como eu dizia ontem, e querermos voltar para ele. Achamos, as vezes, que a vida no pecado será mais fácil e mais agradável. Só que no pecado vivemos uma existência muito miserável, muito incapaz de satisfazer aqueles anseios mais profundos de nossa alma. Ainda sim, sabendo disso, procuramos o pecado. Que esse seja, para nós, o momento propício de deixar de lado o pecado, deixar para trás a escravidão, e abraçarmos a Verdade que é Jesus Cristo. Ele nos liberta da escravidão. Precisamos parar de viver o adultério e as vezes termos Deus como nosso Deus e outras vezes tomarmos os ídolos por deuses. Deixemos para trás os ídolos! Deixemos para trás o pecado! É a hora de voltarmos a Jesus Cristo e tomarmos suas palavras como vida, nos esforçando o máximo, nos renegando se preciso. Assim, teremos a certeza de que se formos para a fornalha ele irá conosco. Assim, teremos a certeza de que a Verdade nos libertará.
Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos.

CONSAGRAÇÃO A NOSSA SENHORA APARECIDA
Vinde, ó Deus, em meu auxílio.
Socorrei-me sem demora.
Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo.
Como era no princípio, agora e sempre. Amém.

Maria, Senhora Imaculada, Mãe Aparecida, queremos consagrarmo-nos a ti. Queremos, também, renovar aquela consagração de todo esse Hotel a ti, mãe do povo Brasileiro. Aqui, teus filhos e filhas se reúnem como nação santa, implorando os vossos benefícios. Com o coração ardente em fé, esperança e caridade, nos confiamos a vossa materna intercessão:

Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco, bendita sois vós entre as mulheres e bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus. Santa Maria, mãe de Deus, rogai por nós pecadores, agora e na hora de nossa morte. Amém.

Ó Maria concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a vós.
Nossa Senhora Aparecida, rogai por nós.

Confiando em ti, Maria, nos consagramos: 
Ó Maria Santíssima, pelos méritos de Nosso Senhor Jesus Cristo,
em vossa querida imagem de Aparecida, espalhais inúmeros benefícios sobre todo o Brasil.
Eu, embora indigno de pertencer ao número de vossos filhos e filhas,
mas cheios do desejo de participar dos benefícios de vossa misericórdia, prostrado a vossos pés,
consagro-vos o meu entendimento, para que sempre pense no amor que mereceis;
consagro-vos a minha língua para que sempre vos louve e propague a vossa devoção;
consagro-vos o meu coração, para que, depois de Deus, vos ame sobre todas as coisas.
Recebei-me, o Rainha incomparável, 
vós que o Cristo crucificado deu-nos por Mãe, no ditoso número de vossos filhos e filhas;
acolhei-me debaixo de vossa proteção; socorrei-me em todas as minhas necessidades,
espirituais e temporais, sobretudo na hora de minha morte. 
Abençoai-me, o celestial cooperadora, e com vossa poderosa intercessão,
fortalecei-me em minha fraqueza, a fim de que, servindo-vos fielmente nesta vida,
possa louvar-vos, amar-vos e dar-vos graças no céu, por toda eternidade.
Assim seja! Amém.

DAI-NOS A BÊNÇÃO,
Ó MÃE QUERIDA,
NOSSA SENHORA APARECIDA!

O Senhor esteja convosco.
Ele está no meio de nós.

Por intercessão de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, Rainha e Padroeira do Brasil, abençoe-vos Deus todo poderoso: PAI + E FILHO + E ESPÍRITO + SANTO.
Amém.

Bendigamos ao Senhor.
Graças a Deus.

terça-feira, 23 de março de 2021

23.03 - Visita a Salvador

DISCURSO NA CHEGADA A SALVADOR

Irmãos, que momento bonito chegarmos nessa terra de Santa Cruz e encontrarmos o local do descobrimento do Brasil. Daqui desse lugar, abençoado por Deus, bonito por natureza, o povo brasileiro se espalhou por todo esse território. Antes ocupado apenas pelos indígenas, os brasileiros originais, o primeiro povo dessa terra,  que passou a conhecer Jesus Cristo como seu Senhor. É óbvio que no processo de conversão houveram atitudes que não condizem verdadeiramente com a nossa fé católica. Porém, a iniciativa dos pregadores Jesuítas trouxe a esse território, a essa terra, a pessoa de Jesus Cristo, o conhecimento da nossa fé, a verdade do Evangelho. Trouxeram até aqui a salvação e é por isso que estamos aqui agora reunidos, irmãos, para deixarmos aqui também a mensagem de Jesus Cristo aqui onde nasceu o Brasil como conhecemos. Queremos disseminar a palavra de amor e de paz que brota do coração de Jesus Cristo. A Bahia de Todos-os-Santos, dedicada a todos aqueles que se uniram a Deus, é sinal de um povo que quer dedicar-se e unir-se a Deus. Somos, irmãos e irmãs, ansiosos pela nossa união com Deus. Foi para isso que fomos criados e é para isso que caminhamos. Que nosso anúncio dentro de tantos anúncios não seja mais um anúncio político simplesmente por interesses pessoais. Mas, sejam anúncio de Jesus Cristo e de Jesus Cristo ressuscitado. Quando anunciamos a Jesus Cristo, obviamente, acabamos entrando nos campos da cultura, da economia, da moral, e outras áreas da sociedade, mas, não fazemos um benefício próprio. Pelo contrário, fazemos por um anúncio, o anúncio de Jesus Cristo. Que nesta dinâmica possamos ser pessoas inseridas na sociedade, preocupados com tudo o que se refere a vida comum. O estado é uma benção que Deus nos dá. Insiramos, pois, nessa sociedade, a mensagem de Jesus nosso Divino mestre e Redentor. Que momento bonito para mim como bispo de Roma, estar aqui presente com vocês e celebrar neste lugar, nesta cidade, o amor do nosso Deus. Ele olhou para essa terra e a abençoou de uma esplêndida beleza. E nós agora o louvamos e bendizemos por todos os benefícios que nos concedeu. Obrigado pela acolhida povo de Salvador. Que no reconhecimento de Jesus Cristo como nosso verdadeiro e único salvador todos nos empenhamos em seu bonito anúncio.

HOMILIA NA MISSA

Irmãos, estamos na última semana do tempo da quaresma é preciso ser perseverante. a primeira leitura nos mostra uma realidade a realidade do povo de Deus, que havia se revoltado contra o Senhor. Deus os tirou do Egito, mas, agora, eles passavam fome e queriam voltar ao Egito, queriam voltar a escravidão. Muitas vezes, irmãos, corremos esse mesmo risco de querer voltar para o Egito. Saímos do pecado e sentimos falta dele. Queremos voltar para aquela escravidão. Quando o povo sentiu a saudade do Egito, Deus os castigou enviando serpentes. Muita gente morreu pela picada da serpentes. O povo, então, se reconhece pecador. E, então, Deus manda que Moisés fizesse uma serpente de bronze e colocasse sobre uma haste para que todo aquele que olhasse para a serpente ficasse curado. Irmãos essa é uma prefiguração muito bonita de Jesus Cristo elevado na cruz. Já se aproximam de fato os dias da nossa paixão redentora, quando Jesus Cristo crucificado vence a morte. Jesus Cristo abraça a cruz com grande amor. Só Deus podia pegar um objeto de tortura, objeto de morte e transformar em objeto de glorificação. São Leão Magno, irmãos, em um dos seus sermões na paixão do Senhor, diz: "Ó admirável poder da cruz! Ó inefável glória da Paixão! Nela se encontra o tribunal do Senhor, o julgamento do mundo, o poder do Crucificado! Atraístes tudo a vós, Senhor, para que o culto divino fosse celebrado, não mais em sombra e figura, mas num sacramento perfeito e solene, não mais no templo da Judéia, mas em toda parte e por todos os povos da terra." É por isso, irmãos, que estamos aqui reunidos. É óbvio a paixão e a ressurreição se unem num só grande evento, já que nós na celebração eucarística celebramos paixão, morte e ressurreição. Tanto que não celebramos a missa na sexta-feira Santa porque ela também é ressurreição. É, sim, ao mesmo tempo a cruz mas a cruz, irmãos, já não é mais triste, já não é desgraça. Pelo contrário a cruz é graça, a cruz é Glória, é a cruz do Senhor ressuscitado: a cruz gloriosa, porque foi glorificada por Jesus. Mas, nós fugimos da Cruz. Porém, foi com a crucificação que Cristo manifestou plenamente quem ele era. Ele disse no evangelho de hoje: quando tiver de ser levado o filho do homem então sabereis que Eu Sou. Jesus se proclama duas vezes com o nome de Deus. Quando Moisés fala com a sarça ardente e pergunta quem era, ela responde Eu Sou. Jesus diz, então, que ele mesmo era Deus. E, quando elevado na cruz - vai ser muito bonito quando o mesmo São João colocar isso na sexta-feira santa - o soldado diz que de verdade esse homem, Jesus, era o filho de Deus. Só se reconhece Jesus como filho de Deus de fato na sua paixão, porque não há outro modo de um Deus que é amor, demonstrar amor, se não for através da morte, o extremo da doação da própria vida. Foi desse modo que Cristo concretizou aquele seu amor tão grande que seria capaz de vencer a morte. Por isso, irmãos, que nesta última semana quaresmal fica em nosso coração convite a olhar para Jesus. Talvez sua imagem esteja coberta e ainda será mais simbólico, porque olharemos e diremos: Jesus eu não te vejo, mas  não te vendo eu enxergo com o coração, porque essa cena da tua morte está em meu coração, esperando que eu contigo ressuscite. E assim, irmãos, neste espírito queremos celebrar a páscoa do Senhor. Permitamos que pelo poder radiante da Cruz enxerguemos a glória do Senhor. 

Nós vos adoramos senhor Jesus Cristo e vos bendizemos

segunda-feira, 22 de março de 2021

22.03.2021 - Visita a São Paulo

DISCURSO NA CHEGADA AO BRASIL

Digníssimo Dom Pedro, núncio Apostólico, em nome do qual saúdo todos os bispos e clérigos aqui presentes, e amados irmãos e irmãs em Cristo.

Que momento de alegria para mim, como Bispo de Roma, pontífice da Igreja Universal, chegar ao Brasil para esta nossa primeira visita apostólica. Que momento sublime podermos nos encontrar aqui como irmãos na fé. O Brasil é país de um povo muito católico, de profunda influência religiosa, embora nos últimos tempos venha assistido, tristemente, a perca da fé em seu povo e enfrentado as dificuldades do homem hodierno. Desejo do mais profundo do meu coração que essa nossa visita apostólica seja um momento de encontro entre irmãos. Encontro entre pessoas que partilham a fé no mesmo Cristo. Seja um momento de fortalecimento para a vossa missão, enquanto estamos as portas da Semana Maior, cume do ano litúrgico e da nossa vivência eclesial. É entorno da Árvore da Cruz que nós brotamos como anunciadores deste Jesus de Nazaré, Deus que tanto nos amou. Por isso, irmãos, espero do fundo do meu coração que o fruto da nossa visita a vocês seja o conhecimento mútuo, o aprofundamento da relação de pastor e rebanho, e o fortalecimento mútuo, de mim para com vocês e de vocês para comigo, para que nos inflamemos do amor por nosso Senhor e possamos continuar a missão a cada um de nós confiada. Que esse momento de encontro fraterno nos faça perseverar no anúncio de Jesus Cristo, nosso Senhor. Sou muito feliz por estar no Brasil. Bendito seja Deus!

HOMILIA PARA A MISSA

Irmãos, a Liturgia da Palavra de hoje tem uma profunda interligação entre os dois textos que ouvimos. Na primeira leitura, Susana está sendo condenada a morte sem o devido julgamento de seu caso. Uma figura feminina que estava sendo acusada de adultério por homens que tinham uma palavra considerada mais válida que a dela. Daniel, por outro lado, era justo, e quis julgar o caso. Encontrou, então, um erro no discurso dos acusadores: cada um dizia ter visto Susana sob uma árvore diferente daquela que o outro disse. Daniel vê a mentira e liberta a inocente Susana. De fato, esta Susana que a escritura nos fala era uma mulher temente a Deus e inocente. Ela só foi libertada por ser inocente. A inocência de Susana estava ligada ao fato de ser temente. E, normalmente, as mulheres são mais tementes a Deus. Mas, nem sempre é o caso. Não podemos colocar isso como regra. Hoje, irmãos, corre na nossa sociedade uma perigosa corrente que sempre inocenta as mulheres. Mas, se esquece que mulher também erra, mulher também assassina, também trai. Em tempos que se fala tanto de relacionamento abusivo se esquece que há mulheres abusivas. Essas causam grande sofrimento aos parceiros, pois sendo vista como inocentes podem criar má fama a eles. Embora, verdade seja dita, a maioria dos casos de abuso parte dos homens. Aí sim precisamos ser verdadeiros defensores dos direitos das mulheres, daqueles que elas de fato devem possuir como qualquer homem. Mas, eu digo tudo isso para que possamos perceber a incongruência existida em ambos os lados. Nós precisamos antes de criar conceitos estereotipados, julgar verdadeiramente a situação, analisar provas, não ir pelo disse ou não disse do homem ou da mulher. Infelizmente há muitos homens bons e muitas mulheres boas que são injustamente acusados pela nossa sociedade e nós não nos importamos. Cancelamos as pessoas sem nos preocupar onde está a verdade. Isso é uma realidade muito forte em nossa sociedade e vem se tornado um hábito. Um hábito, porém, que precisamos deixar de lado. É preciso julgar corretamente cada caso e não deixar ninguém impune. Ou homem ou mulher que bate em seu parceiro ou parceira merece sim ser punido legalmente por suas atitudes. Nós, como cristãos, não podemos permitir que as vítimas continuem a sofrer com os abusos psicológicos e físicos. Precisamos acolher essas pessoas, dá-las nova esperança! Precisamos ir as periferias, diz Papa Francisco, não apenas físicas, mas, sobretudo existenciais. Quantas pessoas sofrem ao nosso lado e não nos preocupamos, não nos importamos, não damos valor ao seu sofrimento. Talvez essa pessoa tenha, como costumamos dizer, culpa no cartório, mas e daí? Não podemos ajudar? Nosso Senhor, no Evangelho, acolheu a mulher adúltera. Nós, nesse momento, precisamos olhar para as nossas misérias para sermos misericordiosos. Há quem diga que, no chão, Jesus escrevia os pecados daqueles que traziam pedras nas mãos. Só quem olha para dentro de si mesmo e seus erros, suas falhas, é capaz de compreender as falhas dos outros. Jesus embora não tivesse erro, tornou-se pecado por nós e por isso se compadece da adúltera. Ele não a condena, mas a salva. Salvemos, irmãos os inocentes que sofrem, as vítimas. Sim, mas salvemos também os pecadores. Retiremos da miséria os nossos irmãos errantes e tentemos ajudá-los. Não sejamos coniventes com os erros dos nossos irmãos quando os vemos atentar contra a natureza humana, contra a dignidade do outro, contra Deus. Mas não coloquemos pedras em nossas mãos para apedrejá-los. Os ajudemos. Nos coloquemos no lugar de todos os outros. Lembremos que a justiça civil deve punir os errantes, mas, nós, cristãos, devemos ir a miséria deles e salvá-los. Só assim seremos de verdade outros Cristos, pois foi Ele mesmo, que se fez pecado por nós, desceu a nossa miséria e nos resgatou por sua misericórdia.

Nós vos adoramos Senhor Jesus Cristo e vos bendizemos!


sexta-feira, 19 de março de 2021

19.03.2021

Irmãos e irmãs, celebramos a solenidade de São José, patrono da Igreja. Tão pouco sabemos sobre esse grande homem a quem foi confiado o cuidado de Jesus e de Maria. Mas, do pouco conteúdo que temos, conseguimos extrair que ele era um homem justo. Mesmo que desconsideremos os apócrifos, as Escrituras nos revelam essa grande característica do pai adotivo de Jesus. Alguns dizem que São José era mais velho e outros que era um jovem. Uns dizem que tinha outros filhos e outros que não. No fundo o que realmente nos importa é que São José era um homem justo. Justo a ponto de ver Maria, que merecia, segundo as leis e costumes da época, ser apedrejada e acolhe-la como esposa. Um homem precisa ter muita virilidade, muita convicção para ser justo a esse ponto. E esse foi São José: um homem justo. As Escrituras não colocam nenhuma palavra na boca de São José em momento algum. Foi homem silencioso. E, no seu silêncio, São José pode ouvir a voz de Deus por meio do seu sonho. Que São José nos ajude a ouvir e interpretar a voz de Deus. Irmãos, aceitando Maria como sua esposa, São José salva a própria Mãe do Salvador e o Verbo de Deus que estava em seu ventre, da morte cruel para a qual estavam destinados. José fez uma escolha. E, essa escolha tem suas consequências. Primeiro, José tem que admitir a todos que havia se deitado com Maria antes do casamento, embora não o tivesse feito. Sofreu com Maria por não poder ter dado a ela um parto confortável. Fugiu com Maria e Jesus para o Egito para evitar a morte daquele menino que nem era, de fato, seu filho, mas que ele criara como se fosse. Irmãos, imaginem que momentos extraordinários quando José, um bom judeu, ensinou as Escrituras para o seu menino Jesus? Logo para ele, irmãos, que é a própria Palavra. E Deus permitiu-se aprender de José. Aprender as Escrituras, o ofício, a viver. São José não foi hipócrita não, meus irmãos. Ele podia, já num primeiro momento ter julgado Maria, achado que ela tinha ficado com outro. Mas, não. E, irmãos, eu vos pergunto, quantas vezes nós não estamos, primeiro julgando os outros? Primeiro atiramos pedras nos outros e depois perguntamos o que aconteceu? Por que somos tão incapazes de ouvir a voz de Deus? Por que somos tão incapazes de sermos justos e vivemos na hipocrisia? Por que somos incapazes de sermos silenciosos e usamos a palavra de Deus para autopromoção, para julgar os outros? A lei mandava que Maria fosse apedrejada. Se José tivesse permitido isso, todo o processo do Cristo teria sido completamente diferente. Parem, irmãos. Parem de colocar a lei sobre a vida. Parem com isso porque estamos fazendo as pessoas se perderem. Se o Cristão é outro Cristo, estamos apedrejando outros Cristo, matando-os, porque nos consideramos os justos e justiceiros, guardadores da doutrina e tradição. Se São José, o justo que nem conhecia a revelação de Jesus, misericordiosamente acolheu Maria, por que nós não acolhemos os outros, mas apontamos o nosso dedo e os condenamos? Que nesse dia de São José, patrono da Igreja, peçamos a ele que livre a Igreja de Jesus Cristo da hipocrisia, dos falsos justiceiros, da injustiça, daqueles que, em seu lugar, matariam Maria e Jesus. 

segunda-feira, 15 de março de 2021

15.03.2021 - Entronização e Coroação

Irmãos e irmãs, hoje vocês vieram a Roma, essa Igreja que preside na caridade todas as Igrejas, para entregar a este que já exerce o ministério de Pedro os símbolos deste ministério. Sob a ordem do príncipe dos Apóstolos, na primeira leitura, recebemos o pálio pastoral. Este sinal da ovelha nos recorda o pastoreio do rebanho. Esse pastoreio não se dá pela dominação ou autoritarismo, mas, sobretudo, pelo modelo. Porém, ainda trago as imperfeições de ser humano. Por isso, peço que vocês também sejam modelo para mim. Tenho muito a aprender com cada um de vocês. Por esse motivo estou em vosso meio, caminho com vocês. O pastor caminha com as ovelhas e as guia, enquanto elas lhe aquecem. Vocês me aquecem o coração. Nesta relação deve haver confiança e cumplicidade. Quero ser com vocês e para vocês, estando junto, aprendendo e crescendo, amando, sofrendo e se alegrando. E nossa relação está selada pelo anel do pescador. Nas redes da Igreja estamos todos nós. Eu a vossa frente, como responsável em nome de Cristo - não em meu nome - e vocês atrás, como protegidos, mas, também, como aqueles que me empurram para a frente, e dão força para toda a Igreja marchar como Igreja peregrina. Por fim, irmãos, vocês me imporão o trirregnum. Essa tiara tripla que os romanos pontífices passaram a usar no século XII, para as mais solenes bênçãos e procissões, representam três realidades do papado:

1. O papa é pai de reis. Tem o poder temporal sobre o estado do Vaticano e deve promover a ordem.

2. O Bispo de Roma tem jurisdição e é pastor de todo o mundo, mantendo a unidade.

3. O papa é o Vigário de Cristo. Em nome de Jesus, com o santo magistério que guardamos e dele utilizamos, mantemos a fé intacta. Foi o próprio Cristo, como ouvimos no Evangelho, que deu a São Pedro essa posição, ao lhe dar as chaves do Reino, deixando-o na Terra em seu nome. 

Engraçado ou irônico que os que tanto defendem este rito e bela tradição, negam os feitos por papas coroados: São João XXIII e São Paulo VI, negando até seus papados, além da grande bênção que foi para a Igreja o Concílio Vaticano II. Deixam, estes irmãos, a verdadeira Igreja, para adotar sua visão ilusória de Igreja. Esquecem-se, infelizmente, que o que nos tirou do paraíso foi a desobediência, e, assim, se condenam e buscam levar os outros, com eles, para o inferno. Quem negar o Concílio e/ou o papado atual da realidade, e/ou os criticar sem embasamento, pode sair desta Igreja: não há espaço aqui para estes. Além de que eu vos recomendo estudar filosofia e teologia, não só aristotélica/tomista - embora estejam aí algumas bases - e aprendam a fazer hermenêutica e exegese. Mas, repito, não há lugar aqui para estes, a não ser que se abram a Igreja de Cristo.

Mas, essa coroa que receberemos, ainda não é permanente. Ainda não é a coroa da glória que fala São Pedro na carta. A coroa da glória, para mim, será consequência de como eu usar esse trirregnum e administrar os poderes que ele me concede. Por isso, peço que rezem por mim, pois quero ser vosso servo. Se Cristo que era o maior se fez escravo, devo ser o servo de todos vocês. Essa coroa que vocês me entregarão me lembra muito mais a coroa de espinhos de nosso Senhor. Ela é pesada, traz dor e sofrimento, mas por ela, por esse ministério que hoje solenemente iniciamos, poderei ser com vocês aquilo que me propus ao chamar Clemente: leve, misericordioso e bom. Sustentado por vossa oração, sustentaremos a cruz de Cristo, com e por vocês, e pela salvação do mundo inteiro.

Nós vos adoramos Senhor Jesus Cristo e vos bendizemos.

Porque pela vossa Santa Cruz remistes o mundo.

domingo, 14 de março de 2021

14.03.2021 - IV Domingo da Quaresma

Irmãos e irmãs, como celebrar um domingo da alegria na metade da quaresma? Nós estamos nesse caminho quaresmal, rumo a Páscoa do Senhor, e nosso coração já bate mais forte pois se aproximam os dias da vitória sobre o antigo inimigo, e nós queremos chegar lá exultantes de fé. Mas, para isso, precisamos antes passar pelo exílio. Essa experiência do povo hebreu é hoje a nossa experiência que tão bem se expressa no salmo 136. Nosso coração pode estar exilado de Deus, sentindo saudades de Deus. Isso porque, como diz São João Paulo II: “A pessoa humana tem uma necessidade que é ainda mais profunda, uma fome que é maior que aquela que o pão pode saciar: é a fome que possui o coração humano da imensidade de Deus”. Nosso coração, irmãos e irmãs, anseiam por Deus e o querem a todo custo. Hoje os homens e mulheres se separaram de Deus, procuram outras razões para a felicidade, outros deuses. Mas não encontrarão neles a satisfação, a realização, que só Deus pode dar. Se um casal de esposos não tem Deus - embora ache que tenha, se um presbítero não ama a Deus - ama a si próprio, não há verdadeira realização. Pois muito mais do que em nossas vocações particulares, a felicidade do nosso ser está na realização da nossa vocação universal, a santidade, que é a procura de Deus. Aos esposos isso se dá na verdadeira doação mútua, aos clérigos na doação a toda a comunidade. Mas, enquanto não há um esforço para isso, viveremos cativos no exílio com os nossos corações afastados de Deus. Nesse caso, vamos pendurar nossas harpas, nossos instrumentos de felicidade no Salgueiro, na árvore mais triste e infrutífera. Pelo contrário, devemos pendurar nossos instrumentos, nossa alegria na árvore da cruz, na cruz gloriosa do Senhor Ressuscitado. Devemos colocar nossa esperança no Senhor e então, apesar das dificuldades dessa vida, teremos esperança. Confiando no Senhor demos um passo para a realização de nossa alma. Aqui neste mundo sempre haverá tristeza e alegria, dor e júbilo, momentos bons e maus. Mas não podemos nos esquecer do Senhor, como os hebreus não podiam se esquecer de Jerusalém, do templo, da morada do Senhor. Antes que se cole nossa língua, que resseque nossa mão, que não possamos fazer mais nada, mas, que permaneça a esperança e confiança em Cristo, que é o mais importante. Coloquemos nossa esperança no Senhor crucificado e Ressuscitado. Olhemos para esse Cristo elevado sobre a cruz e vejamos que, através Dele, nos vem a vitória sobre o pecado, o mal e a morte e chega a alegria, o bem e a vida em plenitude. 

Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos.

sábado, 13 de março de 2021

13.03.2021 - Pro Ecclesia

 Cristo é nossa luz! O profeta Isaías nos diz, irmão, para que nos deixemos guiar pela luz do Senhor e com isso nos convida: Vamos subir ao monte do Senhor. A luz do Senhor nos atrai para o seu monte. E o que é o monte do Senhor? É o monte onde está a cidade santa de Jerusalém, o Templo. O templo, irmãos, é, neste momento o sinal de toda a religião judaica, mas, sobre o monte de Jerusalém foi erguido um novo Templo. Cristo crucificado. Ele é a pedra angular do novo povo de Deus. é o novo templo, novo altar,  cordeiro e sacerdote. Ele não é aquele que a luz indica, para o qual a luz atrai, Ele é a própria luz que nos convida a fazer parte de seu corpo e como parte do seu corpo - recorda São Pedro - somos pedras vivas que compõem esse corpo, esse templo. Atentai-vos, irmãos, somos pedras vivas! Não somos pedras mortas. Devemos estar em movimento, em ação e iluminando também aos outros. Irmãos, não estou aqui para, com vocês, fazer discursos políticos, mas, para iluminar com vocês, os irmãos. Estou aqui para apontar a Cristo. Não quero mais nada e não tenho nenhum outro objetivo do que anunciar Jesus Cristo e Ele morto, crucificado e Ressuscitado. Tenho medo de uma Igreja que não se preocupa com o anuncio do seu Divino Mestre! Mas não só isso, tenho medo de uma Igreja de sepulcros caídos que colocam pesados fardos sobre os outros mas não se esforça para viver! Tenho medo de pessoas que só vem para a Igreja quando é para dividir. Meu medo é que nos coloquemos no lugar de Cristo e nos esqueçamos Dele. São João nos mostra como Jesus vai descendo ao nível de Pedro, perguntando se Pedro o amava em diferentes níveis: Ágape, filia e eros. Pedro sempre respondia a Jesus com Eros, um amor interessado. Quando Jesus chega a terceira pergunta e pergunta sobre o amor Eros, aí Pedro responde com Ágape, um amor gratuito. Cristo desce até nós para nos elevar no amor. Nos permitamonos atrairmo-nos para esse amor, o amemos e caminhemos para Ele, como membros de sua Igreja, pedras vivas, anunciadoras de Cristo Jesus. Assim seja. Amém.