Santo Padre, Paulo V, amados irmãos e irmãs, estamos celebrando o quarto domingo do Tempo Comum. Já no Antigo Testamento, Deus prometeu a vinda de um grande profeta a Moisés, um grande profeta que fosse semelhante a ele. O pleno cumprimento desta promessa é, como bem sabemos, Jesus Cristo. Mas, todos nós, pelo batismo somos configurados a este profetismo de Cristo. Só que para sermos profetas, nós não podemos fechar o coração à voz de Deus, como nos cantou o salmo responsorial. O profeta deve ter uma íntimidade profunda com o Senhor. Esta intimidade, São Paulo fala aos Coríntios, está de acordo com a dedicação da própria vida. O solteiro, a solteira, aquele que abraça o celibato, deve ter uma intimidade profunda e direta com o Senhor, cuidando das coisas dele. Agora, o casado, a casada, também deve se dedicar as coisas de Deus e a intimidade com Deus, por meio do esposo, da esposa e das coisas temporais. Se não tomarmos cuidado, leremos São Paulo como um maniqueísta, onde o mundo é ruim e só o espiritual é bom. Não deve ser assim. Deus perpassa todas as realidades e deve em todos os lugares estar presente por meio de nós, por meio do nosso "ser" profetas. Jesus, no Evangelho que São Marcos narra para nós neste domingo, mostra-nos como ele é o verdadeiro profeta e imagem para todo profeta. Ele prega com autoridade. Que autoridade é essa? É a autoridade moral. Jesus fala com jeitinho carinhoso, mas com autoridade, com verdade e às vezes com dureza. Mas, Jesus não desrepeita, não é grosseiro, não se impõe. Ele "é" e quem quiser, o segue. E na sua pregação em Cafarnaum, Jesus foi interrompido pelo homem possesso que não suporta a palavra de Jesus, mas reconhece quem ele é. Jesus, diante disso, não diáloga. Logo expulsa o demônio. Exorcismos, nós bem sabemos, são muitas vezes demorados e difíceis. Dizem que uma das coisas que o demônio mais faz é lembrar ao exorcista dos próprios pecados. Jesus nos mostra que com o Diabo não se conversa. Das duas uma: ou o expulsa, quando podemos, ou corremos. Não dá pra ficar de lenga-lenga com o inimigo. E, quantas vezes, nós ficamos damos trela para o demônio que fica nos acusando com o objetivo de nos afastar de Deus. Diante dessa cena, reconhecem: “O que é isto? Um ensinamento novo dado com autoridade: Ele manda até nos espíritos maus, e eles obedecem!”. Sim, irmãos e irmãs, chegou em Cristo um novo tempo, tempo de uma nova profecia. Ele próprio é o profeta e a profecia já cumprida e faz de nós profetas nele. Para sermos profetas nele, precisamos da mesma autoridade, que só vai ser possível com a intimidade com Deus, abrindo a ele o nosso coração e permitindo que ele nos perscrute. Senão, irmãos e irmãs, jogaremos palavras ao vento. Nossas palavras, muitas vezes podem sair da boca, do racional, com belíssimos discursos até teológicos, ou discursos moralistas, ou, ainda, discursos com intuíto de emocionar e de fazer de nós pregadores reconhecidos. A palavra do profeta sai do coração, de uma experiência profunda e verdadeira com Deus, com a pessoa de Jesus Cristo. Ou é assim, ou é melhor ficarmos de boca fechada. Assim seja! Amém.
domingo, 28 de janeiro de 2024
sexta-feira, 5 de janeiro de 2024
05.01.2024 | Vigília da Epifania do Senhor
Amados irmãos e irmãs, estamos celebrando a Missa da Vigília da Solenidade da Epifania do Senhor. A dinâmica desta celebração gira entorno do pedido de que o esplendor da majestade de Deus ilumine os nossos corações; e assim possamos atravessar as trevas deste mundo e chegar à pátria da eterna claridade. É interessante pensarmos em como a nossa liturgia cristã e toda a tradição judaíca brinca com esse jogo de luzes e trevas. Há alguns dias ouvíamos São João em seu prólogo trabalhar muito bem esta distinção entre luzes e trevas. O livro do Gênesis, já na criação do mundo, mostrava este dinamismo entre as trevas e o haver luz. Isaías destaca Jerusalém com a luz do Senhor. A estrela que guia os magos vindos do oriente é o astro de luz. Na Páscoa também celebramos essa passagem da luz às trevas e depois, novamente, das trevas à luz. Consideremos, pois, meus irmãos, este rico simbolismo. A luz reveste as coisas. Quando está a noite, sem a luz artificial, sem velas, mas, de fato na noite, as coisas perdem as cores e o nosso corpo, como seres diurnos, quer repousar. Diante dos nossos olhos, na escuridão, parece que nada tem vida. Mas, na verdade, durante a noite, outros seres vivem, a lua reflete a luz do sol e faz com que subam as marés e a criação de Deus continua, mas, de um outro modo. Pois bem, neste jogo de luzes e trevas que ouvimos nas Sagradas Escrituras, não podemos pensar que há uma total ausência de Deus. E, quantas vezes, irmãos e irmãs, em nossas vidas, nós não vemos apenas trevas, escuridão total? Então, nós não sabemos para onde seguir, não sabemos qual caminho trilhar, temos medo. Medo porque estamos diante das incertezas, da inconstância. Medo porque parece que falta a alegria da luz que faz tudo ter cor e que nos permite enxergar com clareza. Mas, as noites, a escuridão, as trevas, acontecem ainda assim nas nossas vidas. Acontecem não porque nós queiramos que aconteçam ou porque Deus quer que aconteça, mas, acontece pelo simples ciclo natural das coisas. As noites são também necessárias. Se não fosse a noite, os magos não seriam guiados pela estrela. Ninguém vê a olho nu, com clareza, a estrela durante o dia. Os magos também precisavam da incerteza, da angústia, da procura. Procura essa que todos nós fazemos: procuramos a felicidade, procuramos sentido, procuramos, procuramos. E a estrela, a luz em meio a noite nos aponta o que tanto procuramos, que é o menino Jesus, na manjedoura, com Maria e José. Não sabemos o que procuramos, mas o encontramos. Encontramos na simplicidade, na humildade. Aí encontramos a luz que nos traz alegria. Não nos iludamos, porém. A noite virá outra vez. Mas, se soubermos onde está Jesus Cristo, sabemos onde está a luz. Entendemos, então, que mesmo na noite, Deus está lá e nada nunca está perdido. Mesmo diante da escuridão aparentemente total, há um pequeno raio de luz e de esperança, uma estrela guia que chama nossa atenção ao Senhor. Hoje o Senhor brilha como luz a todos os povos. Sua Epifania na visita dos magos, no seu Batismo e nas bodas de Caná manifesta que Deus veio ao encontro de todos, e todos os povos agora fazem parte da Aliança, não apenas ao povo judeu. Agora, Jesus resplandece como luz para que o procuremos e o possamos encontrar.