Amados irmãos e irmãs, estamos celebrando a Missa da Vigília da Solenidade da Epifania do Senhor. A dinâmica desta celebração gira entorno do pedido de que o esplendor da majestade de Deus ilumine os nossos corações; e assim possamos atravessar as trevas deste mundo e chegar à pátria da eterna claridade. É interessante pensarmos em como a nossa liturgia cristã e toda a tradição judaíca brinca com esse jogo de luzes e trevas. Há alguns dias ouvíamos São João em seu prólogo trabalhar muito bem esta distinção entre luzes e trevas. O livro do Gênesis, já na criação do mundo, mostrava este dinamismo entre as trevas e o haver luz. Isaías destaca Jerusalém com a luz do Senhor. A estrela que guia os magos vindos do oriente é o astro de luz. Na Páscoa também celebramos essa passagem da luz às trevas e depois, novamente, das trevas à luz. Consideremos, pois, meus irmãos, este rico simbolismo. A luz reveste as coisas. Quando está a noite, sem a luz artificial, sem velas, mas, de fato na noite, as coisas perdem as cores e o nosso corpo, como seres diurnos, quer repousar. Diante dos nossos olhos, na escuridão, parece que nada tem vida. Mas, na verdade, durante a noite, outros seres vivem, a lua reflete a luz do sol e faz com que subam as marés e a criação de Deus continua, mas, de um outro modo. Pois bem, neste jogo de luzes e trevas que ouvimos nas Sagradas Escrituras, não podemos pensar que há uma total ausência de Deus. E, quantas vezes, irmãos e irmãs, em nossas vidas, nós não vemos apenas trevas, escuridão total? Então, nós não sabemos para onde seguir, não sabemos qual caminho trilhar, temos medo. Medo porque estamos diante das incertezas, da inconstância. Medo porque parece que falta a alegria da luz que faz tudo ter cor e que nos permite enxergar com clareza. Mas, as noites, a escuridão, as trevas, acontecem ainda assim nas nossas vidas. Acontecem não porque nós queiramos que aconteçam ou porque Deus quer que aconteça, mas, acontece pelo simples ciclo natural das coisas. As noites são também necessárias. Se não fosse a noite, os magos não seriam guiados pela estrela. Ninguém vê a olho nu, com clareza, a estrela durante o dia. Os magos também precisavam da incerteza, da angústia, da procura. Procura essa que todos nós fazemos: procuramos a felicidade, procuramos sentido, procuramos, procuramos. E a estrela, a luz em meio a noite nos aponta o que tanto procuramos, que é o menino Jesus, na manjedoura, com Maria e José. Não sabemos o que procuramos, mas o encontramos. Encontramos na simplicidade, na humildade. Aí encontramos a luz que nos traz alegria. Não nos iludamos, porém. A noite virá outra vez. Mas, se soubermos onde está Jesus Cristo, sabemos onde está a luz. Entendemos, então, que mesmo na noite, Deus está lá e nada nunca está perdido. Mesmo diante da escuridão aparentemente total, há um pequeno raio de luz e de esperança, uma estrela guia que chama nossa atenção ao Senhor. Hoje o Senhor brilha como luz a todos os povos. Sua Epifania na visita dos magos, no seu Batismo e nas bodas de Caná manifesta que Deus veio ao encontro de todos, e todos os povos agora fazem parte da Aliança, não apenas ao povo judeu. Agora, Jesus resplandece como luz para que o procuremos e o possamos encontrar.
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