quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

28.12.2022 - Consistório Ordinário

Irmãos e irmãs, dos quais saúdo de modo especial os eminentíssimos senhores cardeais aqui presentes na pessoa de Dom Jorge Snaif Cardeal Médici, decano do colégio cardinalício, e de Dom Cristiano Tavares, hoje inserido neste colégio. Que é este cardinalato, Dom Cristiano, que hoje estais recebendo? É um compromisso ainda mais íntimo com a Igreja do Senhor. Não pense, Dom Cristiano, em momento algum, que será cardeal por mérito seu. Nada é mérito nosso, tudo é mérito de Cristo. Não pense que receberás honrarias por este título, pois só receberás trabalhos e compromissos. Mas, tenha certeza, que se fizer isto bem feito, serás recompensado com uma enorme alegria e satisfação. E quanto mais o senhor se doar, quanto mais se desgastar no serviço da Igreja, mais feliz estarás, mais satisfeito, e mais vai querer se doar. Lembra-te sempre disso: és inserido num colégio de príncipes, mas que ao mesmo tempo são servos. Três termos: colégio, princípe e servo. Primeiramente, és inserido num colégio. Isso quer dizer que o senhor não estará sozinho como cardeal, mas, deve seguir o ritmo do colégio e no colégio, se se permitir, irá amadurecer muito e formar belas amizades que poderá levar para a vida toda. É um colégio de irmãos, com todas as suas dificuldades. Em segundo lugar, serás príncipe. Este termo, por mais que eu não goste muito, foi amplamente utilizado por tantos séculos. Mas, que fazer com este título? Lembrar-se que o príncipe é aquele que está próximo da corte, num lugar elevado da hierarquia e que este papel de destaque deve ser usado pelo bem do teu povo, não pelo teu próprio bem. O cardinalato que recebes é fruto do teu trabalho com os outros, não dos teus trabalhos contigo mesmo, por isso também é uma honra para eles e tu deverás honrá-los. Em terceiro lugar, serás ainda mais servo. Eu gosto de repetir em todo consistório que o símbolo do vermelho é do sangue que derramas: é aquele dá a vida. E quem nos deu a vida foi o Cristo, quando fez-se servo de todos nós. Não é um servo só de palavras, mas um servo em ações, que entrega sua vida a morte e morte de cruz para redimir e reconciliar a humanidade com o Pai. Nunca te esqueças deste trecho do Evangelho que ouvimos: "Mas, entre vós, não deve ser assim: quem quiser ser grande seja vosso servo; e quem quiser ser o primeiro seja o escravo de todos.". Estarás num lugar elevado na hierarquia, mas, para que deste lugar, tu sirvas, próximo de Cristo, capaz de ser batizado pelo sangue. Não simplesmente o sangue do martírio, mas, o sangue derramado no dia a dia, nas pequenas coisas, nos caminhos da vida, nas renuncias que farás pela obra de Cristo aqui na Igreja. Não se desespere por isso tudo, nem pense que não vai ser capaz: entrega tua fragilidade nas mãos do Senhor e Ele fará todas essas coisas serem realidade na tua vida e na vida de todos nós que queremos ser autênticos apóstolos do Senhor Jesus. Assim seja! Amém.

domingo, 25 de dezembro de 2022

25.12.2022 - Bênção Urbi et Orbi

Amados irmãos e irmãs, celebramos o Natal de Jesus. O Natal é sempre um momento de muita sensibilidade nos nossos corações. De fato, vendo o menino Jesus deitado na manjedoura, nosso coração se aquece e sente grande alegria, pois temos um Salvador. Porém, este espírito precisa ser mais presente em nós. É fácil se sensibilizar com as belas imagens do presépio. É muito mais difícil quando precisamos nos sensibilizar com Jesus onde não esperamos: nos pobres das nossas comunidades e cidades, nos que vivem em situação de rua, nos que estão prisioneiros, nos migrantes, nos idosos, nos doentes, nos que vivem em situações de precariedade, e porque não falarmos, nos desempregados, nos que fazem trabalhos análogos a escravidão ou humilhantes, nas prhostihthutas, nos que sofrem com ansiedade ou depressão. Nosso coração precisa se sensibilizar mais para os outros. É muito fácil viver uma fé descompromissada, mas que sequer reza por estes nossos irmãos. Sequer se reza. Passamos muito tempo rezando por nós mesmos e nos esquecemos de rezar pelos outros. Mas, nem sempre rezar é fazer muito. Se podemos fazer mais, devemos fazer mais. Talvez nosso trabalho mais importante seja conscientizar os outros sobre essas situações e levantar questionamentos: por que aquela pessoa cometeu um crime? por que aquele outro vive na drogadição? por que aquela se prhostithui? por que aquele migrante veio para cá? por que aqueles sofrem de ansiedade ou depressão? E então perceberemos que, muitas vezes, a culpa também é nossa. Sim, pois mantemos armadas estruturas de pecado. Existem estruturas sociais que quase induzem os outros ao pecado e algumas que quase que obrigam: quando não se tem o que comer ou a mínima dignidade, educação, saúde, escola, saneamento básico, mas, sobretudo, respeito, atenção, carinho e amor. E, assim, choramos diante do presépio, mas não conseguimos derramar sequer uma lágrima diante dos que sofrem; nos esquecemos que Jesus foi adorado pelos pequenos, pois os grandes do mundo o desprezaram. Não o desprezemos nos que precisam de nós. Jesus aceitou assumir a nossa carne humana, Ele sendo Deus. Assim, Ele se suja na nossa lama, na lama do nosso pecado e na nossa situação. Precisamos aprender, tantas e tantas vezes, a arregaçarmos nossas mangas para também nos sujarmos na lama, na sujeira de nossos irmãos, ou não seremos autênticos cristãos. Que Jesus sensibilize o nosso coração, para sermos mais a sua imagem, um Deus que se fez pequeno para nos salvar. Assim seja! Amém.

25.12.2022 - Natal do Senhor

Amados irmãos e irmãs, estamos celebrando o Natal do Senhor. Celebramos o glorioso dia em que deu-se a plenitude da encarnação da Palavra de Deus na natureza humana, no nosso tempo e na nossa história. O Menino que nasce hoje, não é simplesmente um filho de Deus, mas é o próprio Deus Filho, a segunda pessoa da Santíssima Trindade que deixa de habitar com o Pai e o Espírito Santo para habitar com os seres humanos. Que grande mistério de amor! São João, no Evangelho que ouvimos, com uma profunda teologia, revela-nos este mistério do nascimento do Salvador. São João não explica o natal históricamente, mas, teologicamente. O Evangelho começa com um jogo de luz e trevas, onde as trevas não conseguem dominar a luz, mostrando para nós que mesmo antes de Cristo, a escuridão não era total. A Palavra vinha ao mundo por meio dos profetas, mas a mensagem dos profetas não foi acolhida como deveria. Então o Deus Filho, que era a Palavra, o Verbo, o Logos, isto é, a lei eterna de Deus ao criar o universo, assume nossa humanidade: a Palavra se faz carne e nós vimos a sua glória. E o Evangelista ainda afirma que por mais que não vejamos a Deus Pai, ao Filho, o unigênito de Deus, nós o conhecemos e o conhecemos num rosto humano. Deus Eterno, antes inimaginável (por isso dele era proibido fazer qualquer tipo de escultura), agora assume um rosto humano num pequeno e frágil menino. O autor da carta aos Hebreus revela com tamanha maestria que Jesus Cristo é aquele que foi gerado pelo Pai, adorado pelos anjos, a Palavra que agora nos purificará de todos os pecados. Os confis do universo podem ver a salvação do nosso Deus, porque não é uma salvação abstrata, mas, assume uma carne humana, assume o que nos é realidade. Não deixemos, irmãos e irmãs, que Jesus, o menino ou o crucificado, se tornem algo abstrato para nós. Não permitamos que Jesus se torne um ideal, uma filosofia, um projeto ou uma utopia. Jesus Cristo é uma pessoa humana, que nos rehumaniza, que nos torna pessoas, que nos torna filhos e filhas de Deus, porque se fez igual a nós, porque entrou em nossa história e assumiu a nossa carne e as glorificou para sempre. Assim seja! Amém.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

24.12.2022 - Missa da Noite do Natal

Amados irmãos e irmãs, os quais saúdo no nome de Dom Jorge Snaif Cardeal Médici, Arcipreste desta Basílica e Decano do Colégio Cardinalício. Estamos celebrando a noite do Natal, isto é, a noite em que nosso Senhor Jesus Cristo nasce em natureza humana. Deus eterno, o Filho do Eterno Pai, dignou-se assumir a nossa humanidade. O eterno entra na história. O divino ocupa um corpo de criatura. Ele vem nos trazer a salvação. O Filho se torna humano, o logos se encarna na natureza humana, para que nós, humanos, recebessemos a reconciliação com o Pai. Chegou a plenitude dos tempos e o que todos esperavam desde o Antigo Testamento se concretiza e é superado: Deus entrou na história. Ele entra na nossa história de modo que é fixado num tempo histórico, naquele em que houve o recensseamento, quando Quirino era governador da Síria. E, ao entrar na história, assume também as nossas histórias. Assume o papel do desprezado, do migrante, de todo sofredor. Assume para si a pequenez da pessoa humana e nasce como frágil menino. Ele que é a luz que brilha na escuridão do mundo, o Conselheiro admirável, Deus forte, Pai dos tempos futuros, o Príncipe da paz, vem ser para nós o amor de Deus que nunca se esqueceu de sua promessa, que nunca se esqueceu de seu povo, que nunca se esqueceu de nós. Mas, Ele não foi acolhido e, renegado, nasceu onde os animais comiam. O amor de Deus nunca foi entendido ou compreendido. Quem foi adorá-lo foram os pastores, os simples, aqueles de coração humilde. Estes tiveram medo quando os anjos se aproximaram, mas, ainda assim, foram e adoraram Jesus. Eles tiveram a graça de ver o céu em festa, pois a criatura humana seria resgatada e por isso Deus é glorificado nas alturas e a paz chegaria aos homens amados por Deus. Sim, irmãos e irmãs, acolhamos no nosso coração este Senhor, entreguemos em suas mãos a nossa história e olhando para o menino no presépio, deixemo-nos encantar pelo amor que rompe a escuridão e frieza desta noite com a sua luz e o calor do seu amor, a quentura de seu amor inflamado pela humanidade. Assim seja! Amém.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2022

22.12.2022 - Imposição do Pálio

Amados irmãos e irmãs, dos quais saúdo de modo especial Dom Nadson Bob Paixão Cardeal Médici, Arcebispo Metropolitano de São Paulo, que hoje recebeu o pálio pastoral. Estamos há dois dias de celebrarmos o Natal do Senhor e a liturgia deste tempo tão singular propõe para nós o cântico, o louvor de Maria, que chamamos de magnificat. Este louvor de Maria, nos recorda que devemos sempre louvar o Senhor por sua ação e bondade para conosco. Maria ressalta como Deus olhou com misericórdia para com ela. Interessante, irmãos e irmãs, é que a liturgia de hoje coloca um paralelo a este cântico da Mãe de Deus, que é a história de Ana, mãe de Samuel, e também o seu cântico de louvor. Ana havia orado e pedido a Deus um filho, na presença de Eli, com choro e sofrimento. Deus a concede este filho, Samuel. E o que faz Ana? Ana vai e o oferece ao sacerdote Eli, no Templo, e consagra o seu filho a Deus. Irmãos e irmãs, o nosso louvor deve ser também um gesto concreto. Devemos sim, dizer a Deus que o louvamos e louvá-lo ao nosso modo, mas também com os salmos e cânticos. Mas, devemos louvá-lo na concretude. O concreto do louvor de Ana foi o oferecimento de Samuel, o concreto do louvor de Maria foi a missão de ser Mãe do Redentor, o concreto do louvor do nosso Senhor Jesus Cristo foi sua crucifixão e morte de cruz. Nós também devemos fazermo-nos sacrifícios de louvor. Dom Nadson, tenha sempre isso em mente: devemos ser sacrifícios de louvor. Nós não nos pertencemos, pertencemos ao Senhor. Quero ressaltar, ainda, um aspecto que não está nos textos bíblicos de hoje, mas que faz parte da história de Samuel. Elcana, esposo de Ana, tinha também uma outra esposa, chamada Fenena. Fenena tinha filhos de Elcana, enquanto Ana não os tinha. Fenena provocava Ana por isso e a fazia chorar por conta disso. Foi por isso que Ana pediu, aos prantos, um filho ao Senhor. Com isso, irmãos e irmãs, quero dizer que não importa se vamos louvar ou chorar, se estaremos sorrindo ou abatidos, de braços abertos ou com as mãos juntas ao peito, o importante é que estejamos na presença do Senhor e ele não se esquecerá de nossa oração. Assim seja! Amém.

domingo, 18 de dezembro de 2022

18.12.2022 - IV Domingo do Advento

Amados filhos e filhas, dos quais saúdo de modo especial Dom Francisco Assis, capelão desta capela. Estamos celebrando o quarto domingo do Advento. A liturgia deste domingo já se refere ao nascimento do Salvador e de muito muito belo honra Nossa Senhora e São José. Na primeira leitura, Isaías faz uma profecia para Acaz, de que a vhirghem daria a luz a um filho, como sinal de que Deus ouve suas preces. Acaz, naquele tempo, estava fazendo alianças com os assírios, contra a Babilônia e o Egito e essa profecida de Isaías é interpretada por Acaz e pelo povo do antigo testamento como o nascimendo de Ezequias. Mas, na verdade, hoje entendemos, por revelação divina, que esta profecia está para muito além de Ezequias, ela se refere a Jesus. No Evangelho, vemos o pleno cumprimento desta profecia: na encarnação de Jesus. Diante do anúncio do anjo a Maria, e a encarnação, Maria vai falar para José o que estava acontecendo. E claro, isso preocupou São José. Ele era justo e não queria entregar Maria. Ele sabia que Maria seria tratada como adultera e apedrejada, mas, por alguns instantes, também não entendia o que estava acontecendo. Ele amava Maria e preferiu ele sair como o frouxo, o que não honrou Maria, que a engravidou e fugiu, do que abandona-la e ela sofrer as consequências. Deus veio a José pelo anjo no sonho. Interpretemos aqui esse sonho de São José como um êxtase resultado de uma oração. Por quê? Porque o sonho foi a resposta as orações de São José que queria fazer o melhor. E foi assim que ele aceitou unir-se a Maria. Pois, no sonho, o próprio Deus dá o nome do menino: Jesus, Yeshua, que signififca, Deus salva. O nome de Jesus é também sua missão. E quando Deus dá o nome para Jesus, ele toma para si a paternidade de Jesus. É como se ele tivesse dito que José seria pai de Jesus para se cumprir a profecia de Isaías, e Jesus ser filho de Davi segundo a carne, mas, Ele era Filho de Deus. Mas, Jesus será chamado por um outro nome, Emanuel. Vejam, este não é o nome dado, é o nome pelo qual ele seria chamado, pois é a junção de Emanu, que significa "no meio de nós" e El, que é "Deus". Jesus é o Salvador, é o Deus no meio de nós. Diante de tudo isso, São José faz conforme o Senhor mandara. Filhos e filhas, que abracemos nossa vocação a santidade, conforme nos disse São Paulo na segunda leitura. E que, vivendo a busca da santidade, possamos nos aproximar de Deus na oração e Ele próprio falará conosco. É a busca da santidade, filhos e filhas, pois não seremos plenamente santos aqui, ainda, nós vivemos buscando. Mas, é nesta busca que não devemos temer nos aproximarmos do Senhor Deus e criarmos uma íntimidade com Ele, para que Ele fale conosco. Assim seja! Amém.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

15.12.2022 - Encerramento do Sínodo

Amados irmãos e irmãs, estamos reunidos para encerrar o décimo segundo Sínodo Geral dos Bispos. O Senhor, pela boca do Profeta Isaías, diz-nos: "Por um breve instante eu te abandonei, mas com imensa compaixão volto a acolher-te.". Esta intervenção do Senhor, tão propícia ao Advento, é também conveniente a este momento que vivemos em nossa Igreja. Por vezes, pensamos que o Senhor abandona a sua Igreja. Quando vemos algumas coisas que caminham mal, que andam por caminhos que não são os melhores, os mais propícios, tendemos a pensar que as coisas não tem mais jeito e que o próprio Senhor abandonou sua Igreja, e, se Ele abandonou, nós também podemos abandona-la. Esta é uma de nossas maiores misérias: abandonarmos a Igreja, não nos preocuparmos com ela. Esta consequência da nossa falta de senso de corresponsabilidade, faz com que abandonemos nossos postos, nossas missões, e deixemos que as coisas simplesmente vão acontecendo, e a Igreja vai caminhando quase que sozinha. Eu não penso que exista uma crise na Igreja: vejo um momento como todos os outros de sua história, vejo um hotel vivenciando um tempo diferente e isso influenciando diretamente na Igreja. Diante desta inegável realidade, somos interpelados a não abandonarmos a Igreja também nós, mas, pelo contrário, assumirmos a responsabilidade de sermos Igreja, renovarmos todas as coisas em Cristo e reformarmos a própria estrutura da Igreja para que ela se torne mais evangelizadora, mais missionária, mais discípula e esposa do seu Senhor Ressuscitado. Se o problema é não sermos conhecidos, a Igreja deve ser presença nas mídias sociais; se o problema é com vocações, a Igreja deve se empenhar não só em formar quantitativamente, mas, qualitativamente, pois o pouco com Deus é muito; se o problema é na nossa ação missionária, devemos nos esforçar mais para que Cristo seja conhecido e amado; se os nossos não exercem o ministério como deveriam, devemos lembrar a seriedade da Igreja e ainda mais, a seriedade do anúncio que devemos fazer. Abandonar a Igreja não é uma opção, a não ser para os que não a amam. Podem os montes recuar e as colinas abalar-se, mas Deus não afastará de nós a sua misericórdia e o seu amor, diz-nos o profeta. A misericórdia é o sinal que Ele não se esqueceu de nós e nós também não podemos nos esquecer dele e de nossos compromissos para com sua Igreja. Como diz São Lucas no Evangelho, acerca dos fariseus e dos mestres da Lei, não tornemos inútil para nós os projetos de Deus, por recusarmos os sinais dos tempos. Os sinais estão aí, a renovação necessária está proposta, o caminho está desenhado e traçado por este Sínodo: não o recusemos. Esforcemo-nos e renovemos todas as coisas em Cristo. Assim seja! Amém.

domingo, 11 de dezembro de 2022

11.12.2022 - III Domingo do Advento

Caríssimos filhos e filhas, estamos celebrando o terceiro domingo do advento, o domingo da alegria. Neste domingo, um binômio nos é apresentado pela liturgia: deserto e alegria. O profeta Isaías exorta a se alegrar a terra que era deserta; São Tiago fala do agricultor que espera pelas chuvas; no Evangelho, o próprio Senhor fala sobre a figura de João Batista, aquele que no deserto prepara os caminhos do Senhor. Sim, filhos e filhas, como bem nos recorda o salmista, foi no deserto que o Senhor achou e chamou o seu povo. É Deus quem nos tira do deserto. Muitas vezes, nossa vida neste mundo é muito conturbada, com muitos desertos: passamos por tantas situações em que parece que Deus não está presente. Hoje, porém, devemos nos recordar que o Senhor nos vem tirar desse deserto. Deus vem nos tirar das situações onde sentimos sua ausência, onde vivemos na aridez, nas dificuldades, nas dores, e vai nos levar para a alegria. O problema é que muitas vezes a nossa alegria, neste mundo, está baseada em coisas efêmeras. Confundimos pequenas realizações com alegria. E aí, nós que fomos feitos para voar como os pássaros do céu, nos contetamos em rastejar como as cobras. Nós, que fomos feitos para sermos possuidores do Reino dos Céus, nos contentamos com pequenas realizações. Alcemos voos mais altos, filhos e filhas. Sonhemos mais alto, busquemos, firmemente, as coisas mais elevadas. Isso não quer dizer que este mundo no qual vivemos, ou que a matéria, são coisas más. Pelo contrário, são coisas boas, porque criadas por Deus. As coisas deste mundo passageiro podem, sim, nos fazer contentes. Mas, apenas, se antes já formos alegres e felizes em Deus. Pois aí, o próprio Deus vai impregnando de sentido todas as pequenas coisas deste mundo e descobrimos, de fato, o que é alegria. Não mais uma alegria efêmera, mas, uma alegria verdadeira, pois parte de uma certeza: o Senhor está no meio de nós, é Emmanuel, Deus conosco. "Querem a prova?", perguntaria-nos Jesus, quase como perguntou aos discípulos de João Batista, "os cegos recuperam a vista, os paralíticos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e os pobres são evangelizados". Se este não é o Reino dos Céus entre nós, não há Reino, se este não é o Deus conosco, não sei o que é. Abramos o nosso deserto para a presença do Senhor; deixemos que ele impregne nossas vidas com seu Espírito e seu sentido; e então teremos a alegria do Deus conosco. Assim seja! Amém.

sábado, 10 de dezembro de 2022

10.12.2022 - Ordenação Episcopal do Mons. Francisco Assis

Amados filhos e filhas, dos quais saúdo de modo muito especial Mons. Francisco Assis, que será Ordenado Bispo de Emmaus e Auxiliar de São Paulo, celebrando a missa na véspera deste III Domingo do Advento, o Domingo da Alegria. Consideremos, irmãos e irmãs, atentamente o ministério que vai ser confiado na Igreja a este nosso irmão. Jesus Cristo, nosso Senhor, enviado pelo Pai para salvar o gênero humano, enviou por sua vez os doze Apóstolos ao mundo, a fim de que, cheio do Espírito Santo, anunciassem o Evangelho, santificassem e conduzissem todos os povos, reunindo-os num só rebanho. Para que este ministério permanecesse até o fim dos tempos, os Apóstolos escolheram colaboradores, aos quais, pela imposição das mãos, que confere a plenitude do sacramento da Ordem, comunicaram o dom do Espírito Santo, recebido de Cristo. Assim, ao longo das gerações, este dom inicial foi sempre transmitido, pela sucessão ininterrupta dos Bispos, e a obra do Salvador se prolonga e cresce até os nossos dias. No Bispo com os seus presbíteros está presente entre vós o próprio Jesus Cristo, Senhor e Pontífice eterno. Francisco Assis, irmão caríssimo, escolhido pelo Senhor, lembra-te que foste tirado dentre os seres humanos, e colocado a serviço deles nas coisas de Deus. Observa o que dizem as leituras que acabamos de ouvir: tu és aquele que deve dizer, como pede Isaías, para que as pessoas não tenham medo, mas tenham ânimo, se alegrem, que deve reconduzi-los à casa do Senhor; és tu que deves ser o mensageiro do Senhor, a exemplo de João Batista, e tomando o exemplo dos sofrimentos e firmeza dos profetas, falar também tu em nome do Senhor, como nos recordou o Evangelho e a carta de São Tiago. Toma sobre ti, querido irmão e filho, a missão de ser sinal da alegria e da esperança, que tantas vezes falta ao mundo que vivemos. Lembre-se sempre que o cristão é alegre e deve anunciar o seu Senhor com alegria. Lembre-se, ainda, como exorta a Igreja, que o Episcopado é um serviço e não uma honra; o Bispo deve distinguir-se mais pelo serviço prestado que pelas honrarias recebidas. Conforme o preceito do Senhor, aquele que é maior seja como menor, e aquele que preside, como o que serve. Prega a palavra de Deus, quer agrade, quer desagrade. Admoestando com paciência e desejo de ensinar. Orando e oferecendo o sacrifício pelo povo que te foi confiado, procura haurir copiosamente da plenitude do Cristo as riquezas da graça. Na Igreja que te é confiada como Auxiliar, distribui com prudência e guarda fielmente os mistério de Cristo. Escolhido pelo Pai para dirigir sua família, lembra-te sempre do Bom Pastor, que conhece as suas ovelhas e é por elas conhecido, e que não hesitou em dar a vida pelo rebanho. Ama com amor de pai e de irmão todos aqueles que Deus te confiou, especialmente os Presbíteros e Diáconos, teus colaboradores no serviço de Cristo; e também os pobres e doentes, os peregrinos e imigrantes. Exorta os fiéis  a colaborarem contigo na missão apostólica e não recuses ouvi-los de boa vontade. Mostra um zelo incansável pelos que ainda não pertencem ao rebanho de Cristo, como se fossem entregues a ti pelo próprio Cristo. Não te esqueças de que fazes parte do Colégio dos Bispos no seio da Igreja universal unida pelo vínculo da caridade (e como é triste quando os irmãos se esquecem deste vínculo e vivem como que a deriva, fazendo da Igreja Particular quase que uma cisma). Desta maneira, estende tua solicitude pastoral a todas as comunidades cristãs, sempre disposto a ajudar as mais necessitadas. Vela, pois por todo o rebanho dos fiéis e cujo serviço te coloca o Espírito Santo, para reger a Igreja de Deus; em nome do Pai, de quem és imagem entre os fiéis; em nome do Filho, cuja missão de mestre, sacerdote e pastor exerces; e em nome do Espírito Santo, que dá vida a Igreja de Cristo, e fortalece a nossa fraqueza. Assim seja! Amém.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

08.12.2022 - Solenidade da Imaculada Conceição e Abertura do Sínodo

Amados filhos e filhas, dos quais saúdo de modo especial os padres sinodais, em nome do Relator Geral do Sínodo, Dom Joseph Médici Cardeal Ravassi. Estamos celebrando a Solenidade da Imaculada Conceição de Nossa Senhora e abrindo o nosso décimo segundo Sínodo Geral dos Bispos. Esta solenidade que tão bem conhecemos, Maria, a Mãe do Senhor, foi imaculada de todo o pecado desde sua concepção no ventre de Sant´Ana, por antecipação dos méritos de Cristo, traz-nos uma belíssima mensagem: Maria, a Imaculada, não conseguia viver para si. Sim, pois sem a mancha do pecado que nos tende para o egoísmo, Nossa Senhora soube pensar nos outros, colocar-se no lugar dos outros. Tudo começa no anúncio do anjo que acabamos de escutar. Mesmo sendo a destinada para ser a Mãe do Redentor, o anjo oferece a Maria a opção de escolher. Para ela, sem dúvidas, seria mais cômodo não ser a Mãe do Salvador. Por conta da gravidez ela poderia perder José, a quem era prometida em casamento, e poderia até ser apedrejada. Mas, não tendendo a si mesma, abre-se aos planos de Deus e aceita a missão. Logo em seguida, ela parte ao encontro de Isabel para servi-la e chegando lá ela canta o belíssimo "magnificat", o canto de louvor a Deus pelas maravilhas que por meio dela chegariam a toda a humanidade. Imaculada, Maria vivia para os outros. Ela, como bem sabemos e cantamos num dos hinos marianos, muda de Eva o nome e torna-se obediente. Se outrora o pecado entrara no mundo, com Maria entra a Salvação na história humana. Porque ela disse sim, também nós, predestinados a sermos filhos de Deus, pudemos nos tornar filhos e filhas amados, pela força salvífica de Cristo e pelo santo batismo. Maria, a Imaculada, hoje resplandece para nós para que neste Sínodo nós, padres sinodais, não pensemos o melhor para nós, mas o melhor para a Igreja. Ela resplandece como Estrela da Evangelização, para que nós, neste Sínodo sobre a Evangelização, aprendamos a evangelizar. Este Sínodo não tem outro objetivo senão o de renovar as estruturas, rever alguns pontos que devem ser revistos, e propor um jeito diferente de agir frente a tantos desafios que a evangelização nos propõe. Para isso é preciso, em primeiro lugar, por os pés no chão para analisar a realidade, o palpável e vermos o que é possível e o que não é possível transformar e nos adaptarmos a isso. Em seguida, sim, é preciso alçar vôos mais altos, pois aí devemos transformar o que é possível transformar, e renovar o que deve ser renovado. Uma tendência nossa poderia ser pensar: "sempre foi assim". Aí nós nos tornamos bichos da goiaba. Para o bicho da goiaba, a goiaba é o mundo todo e nada existe fora da goiaba. Saíamos da goiaba, saíamos da nossa zona de conforto. Maria saiu; os discípulos saíram; o Senhor saiu; não se evangeliza fechado e não se renova estrutura nenhuma pensando que nada vai mudar. Vamos, irmãos, e a exemplo de Maria, renovemos todas as coisas em Cristo. Assim seja! Amém.

domingo, 4 de dezembro de 2022

04.12.2022 - II Domingo do Advento

Amados filhos e filhas, estamos celebrando o II Domingo do Advento. Hoje, o Senhor nos recorda pela boca de São João Batista, o precursor do Senhor, que não é suficiente dizermos ser filhos de Deus, mas é preciso vivermos como seus filhos e filhas. Sim, viver. Muitas vezes percebemos a incoerência de nossa vida para com o Evangelho de Jesus. Já veio o dia da paz, onde da raiz de Jessé nasceu o Salvador, como profetizou Isaías. Mas, nós, que acreditamos nesta promessa, que professemos Jesus Cristo como nosso salvador, muitas vezes não somos praticantes da Palavra que ele pregou. Cristo se fez nosso servo e é misericordioso para com todos nós, como recordou o apóstolo São Paulo, mas nós não vivemos na sua misericórdia e nem vivemos para servir. A liturgia deste domingo do Advento chama, então nossa atenção e nos adverte: já é hora de viver conforme aquilo que acreditamos. É preciso que façamos acontecer o dia do Senhor, onde floresce a justiça e a paz, é precisamos abandonarmos as obras que nos afastam do Senhor para vivermos a vida em plenitude que Ele nos oferece. Se não somos cristãos autênticos, não somos capazes de experimentar toda a graça salvífica do Cristo que vem aos nossos corações. O caminho, filhos e filhas, é a conversão. A conversão, porém, acontece a partir do encontro pessoal com Jesus Cristo. Só que este encontro é apenas um momento. Conversão não é um momento; é todo um processo, é toda uma vida. Por isso, não se desespere se até hoje você não é convertido. Mas, nem por isso deixe de buscar a conversão. Converta-se todo dia. Escolha todos os dias pelo Senhor e pelos seus caminhos, pela sua vontade, pela obediência a sua Palavra. Converter-se é escolher pelo Senhor. Escolhamos, pois o Senhor, e façamos suas obras. Assim seja! Amém.

domingo, 27 de novembro de 2022

27.11.2022 - I Domingo do Advento

Amados filhos e filhas, os quais saúdo em nome do Mons. Ruan Oliveira, pároco deste Santuário, a quem agradeço pela deferência e amizade. Na tarde de ontem iniciamos um novo ano litúrgico com o Tempo do Advento. Este é o primeiro dia do ano litúrgico e o primeiro domingo do Advento. Este ano é o ano A, no ciclo dominical de leituras, e estaremos sendo conduzidos pelo evangelho de São Mateus em quase todos os domingos deste ano. São Mateus apresenta Jesus Cristo como o Emanuel, o Deus conosco. Esta é principal característica do seu Evangelho. São Mateus apresenta para nós o intinerário do discípulo de Jesus e ressalta a figura do nosso divino Salvador como nosso Mestre. Somos convidados, portanto, neste novo ano, a acompanhar a vida de Jesus, próximos Dele como seus discípulos e discípulas, crendo que Deus está no meio de nós e Ele próprio é nosso Mestre e Redentor. Este primeiro domingo do Advento que celebramos traz-nos o tema da vigilância. Muitas vezes este tema passa tão batido por nós, pois consideramos esgotado tudo aquilo que poderiamos falar sobre ele. Mas, devemos sempre nos recordar que mistério grandioso é este da vinda do nosso Salvador. São Cirilo de Jerusalém nos recorda que nós estamos num tempo específico de refletirmos as duas vindas de Cristo: a primeira, quando encarnou-se em Maria, e a segunda, quando vier pela segunda vez revestido de poder e glória. Nós, que estamos entre estas duas vindas, devemos viver sempre preparados para o momento do nosso encontro definitivo com o Senhor, quer pela morte, quer pela segunda vinda. Há uma tradição judaíca que diz que não sabemos qual o último dia de nossa vida, por isso, devemos viver sempre como se fosse o último dia. Chegará o momento em que o dia sem fim do Cristo será a nossa eterna realidade, e nós devemos aguardar ansiosos por esse momento. É o próprio Jesus que no Evangelho que ouvimos nos diz: vigiai! Um outro aspecto desta liturgia, filhos e filhas, é a luz. O livro da Sabedoria falou de deixar-se guiar pela luz e São Paulo nos interpelou a revestirmo-nos das armas da luz. Que luz é essa? É a luz do próprio Cristo. Neste Advento, quando aguardamos em alegre expectativa a vinda do Senhor, possamos mudar as nossas atitudes. Deixemos de ser filhos das trevas, deixemos para trás as atitudes das trevas, as fofocas, as brigas, o desamor, o ódio, os discursos que ferem, os exageros que ferem a nossa dignidade humana, e vivamos como filhos da luz. Que é vivermos como filhos da luz? É não sermos pessoas amargar, mal amadas, mas, pelo contrário, resplandecermos onde estivermos, levando a alegria, fazendo bem aos que estão ao nosso redor, irradiando e iluminando a todos com um sorriso fraterno, uma amizade sincera, uma palavra de perdão, um abraço carinhoso e o amor que só Deus nos concede. Se vivermos assim, estaremos mais do que vigilantes, e, filhos da luz, revestidos da luz, experimentaremos a luz de Cristo que nunca se apagará. Assim seja! Amém.

terça-feira, 22 de novembro de 2022

22.11.2022 - Imposição do Pálio Pastoral em Dom Cristiano

Amados filhos e filhas, estamos aqui reunidos nesta memória de Santa Cecília, celebrando a Eucaristia, quando concedemos o Pálio Pastoral a Dom Cristiano Tavares, Arcebispo Metropolitano de Aparecida. Minha saudação a Dom Cristiano e a todo o clero aparecidense. Chegou a hora da ceifa: esta é a mensagem de São João na primeira leitura que escutamos. Sim, filhos e filhas, infeliz o ser humano que se esquece que chegará a hora onde seremos ceifados e julgados de acordo com o nosso amor. Quando chegar a hora, Deus nos levará para o tribunal. No tribunal, Cristo será o justo e misericordioso juiz: justo, sim, mas, a justiça de Deus é misericórdia. Seremos misericordiados de acordo com a nossa misericórdia. É assim que o Senhor vem para julgar. Por isso, não precisamos ter medo. No Evangelho que ouvimos, Jesus fala de diversos sinais, mas, sinais que acontecem o tempo todo na história humana. Isso para dizer: ficai preparados. Um aspecto interessante deste Evangelho é que Jesus destaca dois tipos de pregadores que não devem ser ouvidos: os que dizem "sou eu" e os que dizem "o tempo está próximo". Os pregadores que ficam constantemente afirmando que o tempo do final está chegando, trabalham para colocar medo no rebanho. São, no fundo, lobos, que não estão preocupados com a salvação do povo de Deus, mas, que repetem estes discursos com insistência para manter suas igrejas cheias, justamente por causa do medo. Apenas o Pai sabe quando terminará o tempo e a história. Isso não quer dizer que devamos viver despreocupados, sem temor. Temor é diferente de medo. O temor é um temor de Deus, é um respeito aos preceitos, é a sensação de estar diante do justo juiz; o medo é infundando, é ansioso, não só tira a tranquilidade, mas tira a paz. O medo é o sentimento dos culpados, que sabem que serão punidos. O temor é aquilo que nos faz pensar: e se eu não for digno? Enfim, não sejamos propagadores do medo. O outro tipo de pregador que não pode ser ouvido é o que aponta a si mesmo e não ao Evangelho. E aqui, uma palavra a todos os clérigos, de modo especial a Dom Cristiano: nós nunca pregamos a nós mesmos, nós pregamos Cristo. Não somos nós que devemos aparecer e resplandecer em nossas pregações, é Cristo. O grande medo de São Francisco em ter pregadores na sua ordem é que isso os tirasse a humildade. Nossa pregação deve ser uma pregação humilde, que conduza a Cristo Senhor. Nossas pregações, discursos, sempre devem ser cristocêntricas e cristológicas, mesmo quando abordamos a vida dos santos e santas e mesmo quando falamos de Maria, nossa Mãe, aquela que viveu toda para o Cristo. Para isso, sempre devemos estar pautados na Sagrada Escritura, e inspirados, claro, pelo magistério e pela Tradição (a verdadeira Tradição, e não aquela de tradicionalismos que nos metem nojo). É assim, pregando o amor de Deus, a misericordia de Deus, anunciando Jesus Cristo, convidando todos ao amor, que nos prepararemos bem e prepararemos aos outros para o encontro definitivo com Cristo, Senhor do tempo e da história, no dia sem fim da eternidade, quando Ele será tudo em todos. Assim seja! Amém.

domingo, 20 de novembro de 2022

20.11.2022 - Solenidade de Cristo Rei

Amados filhos e filhas, neste último domingo do Ano Litúrgico, celebramos a Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo. Neste dia, encerramos o Ano Sacerdotal, convocado e iniciado pelo meu antecessor João III, de venerável memória. Na primeira leitura nós ouvimos a unção do rei Davi. Davi é o grande paradigma de rei do povo de Israel. O rei Davi foi um rei justo, bom, apesar de seu pecado. Mas, foi um rei segundo os moldes de reinado deste mundo. De sua descendência, nasceu Jesus. Jesus é um rei diferente. Seu reinado não é deste mundo. Jesus revelou para nós que o poder não é autoridade, mas é serviço; ele não nasceu num grande palácio, mas numa manjedoura; na sua missão, não era só aplaudido, mas perseguido; entra em Jerusalém num burrinho, não num cavalo branco; na Ceia, lava os pés dos servos; na Cruz, serve sua própria vida ao Pai, na obediência e no amor. Que rei é este? Que rei diferente! Sim, o rei Jesus subverte as nossas noções e os nossos ideais de poder, de majestade. O trono de Jesus foi a sua cruz, seu cetro foi a lança que abriu o seu lado e fez correr sangue e água, sua coroa foi de espinhos. Não há outro rei como este em todo o universo. E diante desse rei nós temos duas posições: podemos ficar parados ou podemos entrar na dinâmica de seu reino. No Evangelho que ouvimos, duas figuras se destacaram, além do próprio Jesus: o bom e o mau ladrão. O mau ladrão permanece parado diante de Jesus, não consegue fazer o movimento interior de ir ao encontro do Senhor e zomba de Jesus. Zomba de Jesus como os outros zombavam, como Pilatos zombou ao colocar a placa chamando Jesus de rei dos judeus. O bom ladrão, porém, chamado de Dimas pela tradição, mesmo preso pela crucificação, faz o movimento de sair de si e entrar no dinamismo do reinado de Jesus. Qual é o reinado de Jesus? É o reinado do amor, da misericórdia. Dimas pede pra entrar no reinado de Jesus e encontra a misericórdia do Senhor. Jesus, com seu olhar amoroso, mesmo na cruz, encontra com o olhar de Dimas. O assassino foi perdoado. Deus não cansa de nos amar. Por isso, no tempo, o reinado de Cristo é o reinado do amor. Na eternidade, onde ele é o juiz da história, nos julgará pelo amor. Entremos, pois, nesta dinâmica do amor do reino de Jesus Cristo e sejamos capazes de mover os nossos corações ao encontro dos outros, principalmente dos que sofrem. Jesus Cristo crucificado é também o modelo de Sumo e Eterno Sacerdote. Jesus se oferece uma vez por todas ao Pai, e nos ensina a também nós, sacerdotes pelo batismo, oferecermo-nos em sacrifício de louvor. A Jesus Cristo, Rei do Universo, Sumo e Eterno Sacerdote, Senhor do tempo e da história, louvor e glória pelos séculos dos séculos. Amém.

sábado, 19 de novembro de 2022

19.11.2022 - Audiência Geral

Do Evangelho segundo Lucas.
Naquele tempo, Jesus foi à cidade de Nazaré, onde se tinha criado. Conforme seu costume, entrou na sinagoga no sábado, e levantou-se para fazer a leitura. Deram-lhe o livro do profeta Isaías. Abrindo o livro, Jesus achou a passagem em que está escrito: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção para anunciar a Boa nova aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos cativos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos e para proclamar um ano da graça do Senhor”. Depois fechou o livro, entregou-o ao ajudante, e sentou-se. Todos os que estavam na sinagoga tinham os olhos fixos nele. Então começou a dizer-lhes: “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir”.

Queridos filhos sacerdotes, nesta tarde de sábado, às vésperas de encerrar nosso Ano Sacerdotal, nós nos reunimos para este momento de encontro. Ao pensarmos na figura do sacerdote na história da salvação, somos introduzidos num universo todo particular. No Antigo Testamento, antes da instituição dos sacerdotes, os chefes de família sacrificavam as oblatas a Deus, como é o caso de Jetro, sogro de Moisés, que ofereceu seu sacrifício no Sinai. Com Melquisedec tivemos um sacerdócio diferente do levita, quando ele ofereceu pão e vinho. Depois, os levitas tornam-se uma classe propriamente sacerdotal, responsável por oferecer o culto, o sacríficio dos animais. Entrando no período monárquico, o sacerdócio ganha estruturação e a partir daí o culto no Templo torna-se vigoroso. Um passo importante para o sacerdócio de Judá, ocorrido antes da deportação para a Babilônia, deu-se com a descoberta do livro da aliança no Templo, pelo sumo sacerdote Helcias. Após as palavras da profetisa Holda, o rei Josias promoveu uma reforma geral no culto: renovando a aliança com Deus, ele ordenou a Helcias, aos sacerdotes de segunda ordem e aos porteiros que limpassem o Templo de todos os objetos idolátricos que lá havia; despediu os sacerdotes idólatras e os que adoravam os astros do céu e mandou profanar os lugares que tinham sido objeto de culto idolátrico, unificando, dessa forma, o culto ao Deus verdadeiro no templo de Jerusalém. A reconstrução pós-exílica levou em conta esta declaração de Ezequiel, o que tornou os sadoquitas sacerdotes principais, enquanto à descendência de Arão coube a parte do sacerdócio comum e os genitores levitas ficaram sendo os servos do Templo. Além da restauração e centralização do culto no Templo, a leitura e explicação da lei passou a ter um realce cada vez maior. Agora não só o aspecto sacrifical era preponderante, mas a especialização legalista das Escrituras Sagradas se torna cada vez mais relevante. Essa concepção legalista mais tarde ultrapassa a própria dignidade sacerdotal. À época do Messias, os sacerdotes já estavam categorizados segundo normas anteriores. Para os sacerdotes comuns havia 24 divisões de serviços, os quais poderiam exercer outras funções no tempo vago. Geralmente faziam as leituras e explicações da Torá nas sinagogas e eram encarregados das questões de pureza ritual. A hierarquia estabelecida funcionava de forma hereditária. Portanto, a separação entre os sacerdotes principais e os sacerdotes comuns era bem acentuada. Os levitas dessa época que deveriam viver em cidades levíticas, tinham como funções a de cantores e demais serviços do Templo. No Novo Testamento, os contatos de Jesus com sacerdotes não eram frequentes; ocorriam quando mandava aqueles a quem havia curado mostrarem-se a eles, devido aos conceitos de purificação ritual, os quais declaravam a pessoa isenta de impurezas e apta a frequentar novamente a sociedade. Ao mesmo tempo isto servia para a afirmação da autoridade de Jesus. A parábola do bom samaritano apresenta uma crítica aos sacerdotes que promoviam simplesmente um culto externo. O evangelho de Mateus, com seu paralelo em Marcos e Lucas mostra como o rei Davi comeu os pães da proposição ― que lhes era proibido ― e Mateus aproveita para afirmar o senhorio de Jesus sobre o sábado e o Templo, alegando que os sacerdotes também rompem o sábado para exercer suas funções. Para essa afirmação de Jesus é dado como argumento a própria Sagrada Escritura. Nos Evangelhos sinóticos Jesus nunca atribui a Si mesmo o título de sacerdote, preferindo utilizar a expressão “Filho” ou “Filho do Homem”; desta forma, faz uma distinção clara entre Sua missão e a dos sacerdotes aarônico e levítico. No entanto, Sua missão está envolta de conceitos sacerdotais. Na morte do Senhor, ele próprio a oferece como o sacerdote oferece a vítima; e é por isso que ele dela espera a expiação dos pecados, a instauração da nova Aliança, a salvação de seu povo. Numa palavra, ele é o sacerdote de seu próprio sacrifício. Em João, no capítulo 17, destaca-se a chamada “oração sacerdotal”, em que Jesus pede por Si, pelos discípulos e pela unidade dos futuros cristãos. Esse capítulo não traz o termo “sacerdote”, mas pode ser comparado ao dia da Expiação, pelo fato de Jesus estar se preparando para a morte. É na Carta aos Hebreus que Cristo recebe o título de Sumo Sacerdote, pois o autor tenta aproxima-lo daquilo que era próprio dos judeus. O sacerdócio da lei era a prefiguração do sacerdócio de Cristo, não de maneira adequada à verdade, mas de maneira muito deficiente. Por duas razões: quer porque o sacerdócio da lei não purificava os pecados, quer porque não era eterno, como o sacerdócio de Cristo. A aliança feita por Cristo é mais excelente e perfeita que a antiga. Ela tem como base o próprio sangue de Cristo; “por isso ele é mediador do novo testamento”. A Lei antiga era apenas sombra dos bens que viriam, pois os sacrifícios eram renovados indefinidamente, mas agora uma só oblação ― por meio de Cristo ― realizou a perfeição definitiva. Os Apóstolos compreendem esta dimensão e a realizam. Eles estabelecem por sua vez responsáveis para prolongar sua própria ação. Mas, o Concílio Vaticano II distingue o sacerdócio batismal e o sacerdócio ministerial. Todo cristão é sacerdote, enquanto se oferece como sacrifício, unindo-se ao sacrifício de Cristo. Já o sacerdote ministerial, oferece em nome de Cristo, o sacrifício redentor atualizado no mistério Eucarístico. Como reavivar em nós est dom do sacerdócio? É preciso sempre partir de Cristo. Mas isso supõe têLo encontrado, ter-se deixado por Ele transformar inteiramente, ou seja, terse tornado seu discípulo fiel. De fato, tudo começa ali. Encontrar-se com Cristo e deixar-se por Ele transformar. Na escolha dos doze Apóstolos, o Evangelho de Marcos narra, dizendo: “Jesus subiu à montanha, e chamou a si os que ele queria, e eles foram até ele. E constituiu Doze, para que ficassem com ele, para enviá-los a pregar, e terem autoridade para expulsar os demônios” (Mc 3, 13-15). Temos aqui três momentos que integram a identidade dos Apóstolos: é uma vocação (Jesus chama quem Ele quer), é um discipulado (para que estejam com Ele), e Jesus inclui uma missão (para enviá-los a pregar e a expulsar demônios). De alguma forma são cronologicamente sucessivos, mas também devem permanecer sempre presentes em todo o processo. Cronologicamente eles se sucedem: primeiro, Jesus chama os Doze, depois os forma e, enfim, envia-os. Mas também compõe essencialmente e sempre a identidade do apóstolo: ele vive seu ser apóstolo simultaneamente como alguém chamado, como um discípulo e como missionário. O missionário de Cristo tem consciência de ter sido chamado e dever viver sempre como discípulo, se quiser ser um bom missionário. Ele nunca poderá deixar de renovar em si seu ser discípulo e de se entender como alguém chamado. Ser missionário, ser evangelizador, não é uma autoconstrução, uma autoafirmação ou autoprojeto. Ser missionário é um dom de Deus, que acolhemos livre e responsavelmente, e que devemos preservar e nutrir com a força vivificante que nos vem do Espírito Santo, no seguimento de Jesus, que nos chamou e nos constituiu seus enviados. Para ser um bom missionário de Cristo, é necessário ser seu discípulo. Aquele “estar com Jesus”, de que fala Marcos, no texto citado, é precisamente o discipulado. “Estar com Jesus” para qualificar-se a ser seu anunciador ao mundo. De fato, os sacerdotes são, por ordenação, ministros qualificados de Cristo para continuar a obra do Senhor no mundo, na história, até o fim dos tempos, enviados ao mundo para levar o Evangelho a todas as criaturas. Devem anunciar Jesus Cristo e seu Evangelho aos homens e, assim, conduzi-los a Cristo, para, por sua vez, tornarem-se seus discípulos. Mas para qualificar-se a tão sublime ministério, o sacerdote necessita, antes, ser ele mesmo conduzido a Cristo, e, por Ele, ser transformado em discípulo, pois, como poderia conduzir outros se ele mesmo não tivesse percorrido o caminho? E nós, hoje, como podemos fazer ou renovar este encontro tão decisivo e transformador? Hoje, Jesus não é mais visível entre nós, como no tempo de sua vida terrena. Hoje, sua presença na Igreja e no mundo é de outra natureza. Como encontrá-Lo hoje?  Encontrar a Cristo é um dom de Deus e não simples resultado do esforço humano. Devemos pedi-lo e acolhê-lo humildemente. Na verdade, é Deus mesmo quem primeiro nos busca e nos oferece este dom, porque nos ama e não quer perdernos. Ele sabe que só por Cristo chegaremos ao Pai. É necessário encontrar a Cristo. Ele bate à nossa porta. Mas somos nós que devemos abrir e acolhê-lo livremente. Devemos deixar-nos alcançar por Jesus Cristo que nos faz seus sacerdotes. Assim seja! Amém.

terça-feira, 15 de novembro de 2022

15.11.2022 - Missa com os Bispos

Dom Cristiano Tavares, Arcebispo Eleito de Aparecida, amados filhos e filhas: dentre os diversos aspectos da leitura do livro do Apocalipse que acabamos de ouvir, um aspecto merece ser ressaltado, que é o olhar. O Senhor, por meio de São João, exorta não sermos cegos, mas a enxergarmos bem. Zaqueu, no Evangelho, também queria ver o Senhor, mas sua baixeza não permitia. Vejam, filhos e filhas, muitas vezes nós não conseguimos enxergar bem o Senhor ou o seu projeto para nós, e mesmo que fisicamente vejamos, permanecemos cegos ao Senhor. Somos questionados: o que será que nossa cegueira está nos impedindo de ver? Em primeiro lugar, a cegueira nos impede de ver a nós mesmos e esse é o primeiro grande problema. Quando deixamos de ver a nós mesmos, passamos a nos ter com grande estima. Essa imagem que criamos de nós mesmos tantas e tantas vezes é falsa. Achamos que somos melhores que os outros, que somos bons, ou até mesmo que o que somos basta, é o suficiente. Este auto-conceito de nós mesmo impede a ação de Deus, impede o crescimento da Igreja, impede uma ação pastoral que seja eficaz. É um tipo de cegueira grave, pois nos torna individualistas e egoístas. A cegueira, então, nos impede de ver os outros, de ver o bem da Igreja, e de ver a Deus. Somos chamados a abrirmos os nossos olhos para estas realidades e interpelador a passarmos a olhar para as coisas de um jeito diferente. Não basta vermos, é preciso olharmos de um modo novo: com atenção, perspicácia, esperança. É tão triste quando olhamos para as situações como se fosse um caso perdido, ou com algum tipo de estranheza. Há dentro de nossa Igreja algumas situações que precisamos reaprender a olhar. E como devemos olhar? Não de fora, mas, de dentro. O problema na Igreja é que muitas vezes tem gente que fica sentada de fora, fazendo análise de conjuntura, mas não consegue se por dentro, arregaçar as mangas e olhar para as realidades com compromisso e esperança, olhar de baixo, olhar de dentro. Nosso olhar nunca pode ser alheio, mas deve sempre estar introduzido na realidade, para podermos transforma-la. Deixemos de lado todo tipo de cegueira que nos exalta, que nos faz ver de fora os problemas e que não nos evoca a um verdadeiro compromisso com Cristo e sua Igreja. Assim seja! Amém.

domingo, 13 de novembro de 2022

13.11.2022 - XXXIII Domingo do Tempo Comum

Amados filhos e filhas, estamos celebrando o trigésimo terceiro Domingo do Tempo Comum. A liturgia deste dia nos atenta: chegará o dia do julgamento. E quando chegar este momento, como estaremos? Estaremos preparados para o nosso encontro com o Senhor, ou seremos queimados como a palha? O Senhor, justo juiz, olhará misericordiosamente para nós, por termos praticado a misericórdia, ou nos repreenderá pelas nossas misérias? Já paramos para pensar como será o momento em que fecharmos os olhos para este mundo e acordarmos para a eternidade? Já percebemos que isso pode acontecer a qualquer momento? Jesus fala, sim, de sua segunda vinda no fim dos tempos. Mas, alerta para tomarmos cuidado com alguns que ficam profetizando o final dos tempos a todo momento. Há alguns exotéricos com esse discurso constante. Mas, nem o Filho, apenas o Pai sabe quando será a hora que isso acontecer. Todos os sinais que Jesus coloca, são sinais quase que normais, que existem em todo momento da história da humanidade. Mas, ele fala das guerras, da fome, das pestes, dos sinais, Jesus está falando do acontecimento do homem velho, do homem que ainda não conheceu o Senhor, pois quando Ele vier em sua glória, tudo isso cessará e tudo será plenamente renovado para o Reino na vida eterna. Nós, porém, não podemos, por isso, nos acomodar e ficar apenas olhando para cima, esperando que Jesus volte. Devemos trabalhar para construir o Reino de Deus no já de nossa história. O Reino está no já, mas está no ainda não. O Reino de Deus não será plenamente construído já, mas existe em plenitude na vida eterna e um dia será totalmente instaurado por Cristo. Embora não seja plenamente construído agora, não estamos isentos de construí-lo o máximo que for possível. São Paulo olha para a comunidade tessalônica, que havia simplesmente desistido de trabalhar e fazer as coisas neste mundo. É o risco de cristãos que só se preocupam em olhar para cima e vivem alienados. O cristão olha para cima, mas tem os pés bem firmes no chão. Aqui já deve começar a acontecer o Reino e por isso São Paulo diz que se deve trabalhar, se deve viver uma vida normal, buscando construir o Reino e não só na espera daquilo que há de vir. Quando nós somos construtores do Reino de Deus, somos também perseguidos, entregues, odiados e mortos. Mas, não devemos nos preocupar. Para Cristo, a consequência do anúncio do Reino foi sua morte redentora, e nós devemos estar dispostos a permanecer firmes, mesmo que tenhamos que dar a nossa vida pela construção do Reino de Deus, pois aí, um dia ganharemos a vida. Olhemos para o alto, vejamos o Senhor vindo ao nosso encontro e digamos: venha a nós o vosso Reino e nos empenhemos na construção deste Reino, até o dia que entrarmos na vida futura e Cristo for tudo em todos. Assim seja! Amém.

quarta-feira, 9 de novembro de 2022

09.11.2022 - Festa da Dedicação da Basílica do Latrão

Amados filhos e filhas, por antiguissima tradição, hoje celebramos a Festa da Dedicação da Basílica do Latrão. Esta Basílica, formalmente chamada de Arquibasílica do Santíssimo Salvador e dos Santos João Batista e João Evangelista no Latrão é a Catedral da Diocese de Roma, é onde está a cátedra do papa. A arquibasílica começou sua história com a doação do Palácio do Latrão, da família do imperador, ao papa. Ali, junto do palácio, constriu-se a Basílica dedicada ao Santíssimo Salvador, isto é, a Jesus Cristo. A Catedral de todo o mundo tem como patrono o próprio Senhor e é dedicada toda a ele. Isto simboliza que toda igreja é, primeiramente dedicada a Cristo e representa o próprio Cristo. Mas, a Basílica foi também dedicada a São João Batista, por conta do seu batistério, e a São João Evangelista. Duas visões devemos ter desta Festa que hoje celebramos. Em primeiro lugar, devemos ter em mente que toda igreja física simboliza Jesus Cristo. O próprio Jesus ressalta a importância do Templo, pois ele próprio se faz templo, se faz morada de Deus. É Ele o templo destruído e reconstruído em três dias na Páscoa, é Ele o altar donde jorra para nós a água que leva a vida a todos. E é partindo desta água, que percebemos o segundo aspecto, que é um aspecto da Igreja. A água que jorra do Cristo para nós é a água batismal que nos forma como Igreja. Igreja, esta, constituída sobre o fundamento dos apóstolos, sobre a pedra que é São Pedro. Por isso, esta Festa da Dedicação da Basílica do Latrão é uma festa de toda a Igreja, pois celebramos o sinal visível da unidade de todas as Igrejas que é a Catedral de Roma, que preside todas as Igrejas na unidade e na caridade. Igreja que não é e nem deve ser só hierarquia, nem só templos físicos, mas, Igreja que é o povo de Deus. A Igreja, sim, muitas vezes sofre, chora, passa por momentos difíceis, de escândalos, de baixas, com inúmeros problemas. Mas, não podemos desistir da Igreja. Mesmo a nossa Igreja aqui no Habbo, não podemos desistir dela. Pelo contrário, devemos nós mesmos assumirmos o ser Igreja e fazermos com que a Igreja resplandeça como povo de Deus a caminho, no caminho de Cristo, como a própria presença do Senhor Ressuscitado. Assim seja! Amém.

domingo, 6 de novembro de 2022

06.11.2022 - XXXII Domingo do Tempo Comum

Amados filhos e filhas, saúdo de modo especial a Dom Vito Cardeal Lavezzo, nosso eminentíssimo Secretário de Estado. Estamos celebrando o trigésimo segundo Domingo do Tempo Comum e hoje somos inseridos na dinâmica da Ressurreição. Sabemos que a crença na ressurreição dos mortos não existiu desde sempre na história do povo de Israel, mas, foi sendo inserida na religiosidade do povo com o passar do tempo. Deste modo, a vivência da fé no Deus único ultrapassa uma obrigação a leis morais, para que Deus seja o protetor do povo neste mundo. Esta realidade é transcendida, quando, no tempo dos Macabeus, a fé na ressurreição passa a ser disseminada entre os judeus, como nós ouvimos na primeira leitura. Os Macabeus já tinham uma fé firme na ressurreição, na vida após a morte. Mas, é com Jesus Cristo que a ressurreição é confirmada como verdade, justamente por causa da sua Ressurreição. Por isso, é válido dizermos que o próprio judaísmo foi sendo preparando para o mistério salvífico do Cristo Senhor e que Ele veio quando se deu a plenitude dos tempos. Jesus confirma, primeiro com palavras como ouvimos no Evangelho e depois com a própria Ressurreição, a crença de que após a morte primeira virá a vida eterna. Não fomos, filhos e filhas, feitos para este mundo tão mortal, tão destrutível. Fomos criados para o céu. Fomos feitos para a eternidade com Deus. Deus nos fez para a vida e vida eterna. Este mundo é tão fulgaz, tão passageiro, quase como uma nuvem de fumaça, um mundo, muitas vezes, tão líquido. Não podemos nos esquecer que após esta vida, virá a ressurreição, virá a vida eterna. E como viveremos esta vida eterna dependerá de como vivermos esta vida mortal. Vivamos, pois, abraçando as coisas do alto. Não que as coisas deste mundo sejam ruins, ou que a matéria, ou este mundo seja mal. Pelo contrário, criados por Deus, todas as coisas são boas. O problema é que nós podemos usar das coisas deste mundo de um modo mal. Um dia, enfim, fecharemos nossos olhos para este mundo e acordaremos com Deus. Vivamos, então, no amor, na fé e na esperança, firmes na certeza de que após esta vida, seremos abraçados pelo Pai amoroso o contemplaremos na eternidade. Lá, onde o tempo não tem fim, onde não há espaço, os que nesta vida buscaram a Deus de todo o coração e amaram de todo o coração, entrarão na visão daquilo que nem os olhos viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou: assim é o que Deus tem preparado para àqueles que o amam. Assim seja! Amém.

quarta-feira, 2 de novembro de 2022

02.11.2022 - Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos

Amados filhos e filhas, celebramos a Comemoração de Todos os fiéis defuntos. Esta comemoração nos recorda a breviedade da vida humana neste mundo. Hoje é o dia em que a Igreja Militante, após celebrar no dia de ontem a Igreja Triunfante, se une a ela para rezar pela Igreja Padecente. Estes nossos irmãos e irmãs que estão no purgatório e que não conseguem rezar por nós, precisam muito das nossas orações. Sim, pois após a morte vem o julgamento particular. E diante do justo juiz, àqueles que não amaram como deveriam neste mundo, que não serviram com amor aos com fome, ou com sede, estrangeiros, ou nus, doentes, presos, enfim, os que estão nas periferias sociais ou existenciais, estes próprios reconhecerão a necessidade do purgatório. Filhos e filhas, nós seremos medidos e julgados, nos mediremos e nos julgaremos, pelo amor! E quando reconhecemos que por mais que não mereçamos o inferno, ainda assim ainda não somos dignos de entrar junto de Deus, pois nossas vestes estão sujas, a misericórdia de Deus nos permitirá o purgatório. O purgatório é o estado da alma que se purifica, não no fogo, mas no serviço, purificando-se naquilo que não amou, que não abraçou como projeto de Deus para a sua vida. Felizes e benditos são àqueles que estão no purgatório, pois tem a certeza que apóss estes tão difíceis momentos, entrarão no Reino Celeste. Nós precisamos, sim, rezar por estes nossos irmãos e irmãs, e principalmente oferecer missas por suas intenções, para que Deus abrevie seu tempo no purgatório, para que logo eles possam ser nossos intercessores no Céu. E quantos dos nossos irmãos e irmãs no purgatório não estão esquecidos? É principalmente para eles que se dirige nossa comemoração de hoje, àqueles que estão esquecidos, pelos quais ninguém mais reza, mas que ainda precisam muito de nossas orações. Hoje, esse sentimento de luto que sentimos, deve estar repleto de esperança na Ressurreição, pois nossos pecados são vencidos e derrotados na força da Ressurreição do Senhor, que abriu para nós o Paraíso, que nos deu o perdão. Por fim, quero chamar a atenção a essa palavra: "luto". Diante do atual cenário político que estamos inseridos, alguns postaram que estão de "luto" pelo Brasil. Que pessoas malditas, que brincam ou diminuem o sentimento de luto de tantos irmãos e irmãs que sofrem, verdadeiramente, profundamente, com a morte de seus entes queridos. A pátria não morreu, continua viva, mesmo que o candidato de alguns não tenha sido eleito: não é a morte de nada. Não podemos brincar com o luto, pois este é um sentimento forte. Muitas pessoas, hoje, são desrespeitadas em seus sentimentos por colocações mal pensadas. Luto, devemos ter, pelos 700 mil mortos da pandemia da COVID-19 no Brasil, que não receberam um luto oficial. Que voltemos nossas orações, neste dia, aos nossos irmãos e irmãs falecidos, e na alegre esperança da Ressurreição os confiemos a Deus, na expectativa de que um dia rezem os vivos, também por nós. Que nossos irmãos e irmãs falecidos, pela misericórdia de Deus, descansem em paz. Amém.

terça-feira, 1 de novembro de 2022

01.11.2022 - Solenidade de Todos os Santos

Amados filhos e filhas, estamos reunidos celebrando a Solenidade de Todos os Santos e Santas de Deus. Hoje, somos interpelados pela Liturgia a agirmos como filhos e filhas de Deus - como diz São Paulo na segunda leitura - praticando as bem-aventuranças - como propõe Jesus no Evangelho - para um dia nos unirmos àquela multidão dos santos e santas - que São João vê no Apocalipse. Ser filhos e filhas de Deus, na prática das bem-aventuranças, é sim o modo de entrarmos no Reino de Deus e nos unirmos ao coro dos santos. Santos e santas, estes, que muitos foram canonizados pela Igreja, mas, tantos outros que já estão no Reino Celeste, como Igreja Triunfante, e que hoje celebramos. Celebramos os santos e santas que não sabemos o nome, que podem ser de nossa família, que podem nem ter sido católicos ou cristãos nesta vida. Santo e santa é aquele que já se encontra junto de Deus na Igreja Triunfante, onde nós também queremos estar um dia. Um detalhe importante sobre essa multidão dos santos e santas, é que eles trazem as vestes brancas. Sim, as vestes batismais, que todos nós recebemos, pois todo cristão e toda cristã é chamado a santidade. Essa vocação universal a santidade que tanto ressalta o Concílio Vaticano II, é intrínseca ao ser cristão. E as vestes destes santos e santas foram lavadas e alvejadas no Sangue do Cordeiro, pois o Sangue de Jesus nos purifica. Isto revela para nós, que os santos e santas de Deus não foram seres humanos estritamente perfeitos, mas que nesta vida, se uniram com seus sofrimentos, suas dificuldades, suas lutas, aos sofrimentos de Cristo Jesus. O caminho da santidade não é, filhos e filhas, um caminho de facilidades, um caminho suave, um mar de rosas. É sim um caminho de muitos sofrimentos, de dores e de lutas, um caminho de grande tribulação, pois é necessária muita força para cumprirmos as bem-aventuranças que Jesus nos propõe. Se não as conseguimos cumprir ainda todas de uma vez, não tem problema. Vamos caindo e levantando, de esperança em esperança, de luta em luta, de queda em queda, de levantar-se em levantar-se, até o dia que Deus for tudo em nós: este é o caminho da santidade, este é o caminho que devemos percorrer, com a graça de Deus. Assim seja! Amém.

domingo, 30 de outubro de 2022

30.10.2022 - XXXI Domingo do Tempo Comum

Amados filhos e filhas, estamos celebrando o XXI Domingo do Tempo Comum. O autor do livro da Sabedoria, exalta a compaixão e misericórdia do Senhor, pois Ele é misericordioso, compassivo, por ser todo-poderoso. Sua dinâmica é diferente da nossa. É isso que ouvimos também no Evangelho. No Evangelho de hoje, Jesus está a 38 quilômetros de Jerusalém, na cidade de Jericó. O Evangelho de São Lucas é, como já sabemos, o Evangelho do caminho, onde Jesus vai caminhando até Jerusalém. E é passando em Jericó, nessa importante cidade, que se dá o encontro em Jesus e Zaqueu. Zaqueu era chefe dos cobradores de impostos. Os impostos, por si, já eram 64% do salário recebido por cada homem e ainda assim, os cobradores de impostos cobravam também uma parte para eles. Por isso, esses homens eram ricos. E muito mais rico era Zaqueu, que era o chefe dos cobradores de impostos. Zaqueu era, portanto, um grande, um poderoso, mesmo que fosse odiado. Mas, para o autor sagrado, Zaqueu era um homem baixo. Não, Zaqueu não era só baixo de estatura, mas era baixo em suas atitudes, era diminuído e odiado pelos irmãos. Aquele homem tão grande, tão importante, era tão pequeno diante da multidão. Ainda assim, Zaqueu sobe na figueira, pois queria ver Jesus, talvez por curiosidade, talvez porque procurasse um sentido para a sua vida e este sentido poderia ser Jesus. Quantas vezes nós não estamos procurando em coisas e pessoas um sentido, quantas vezes não estamos subindo em árvores na nossa vida, procurando a felicidade, mas, na verdade, a nossa felicidade é a mesma de Zaqueu: quando Cristo nos chama para descer e diz que hoje ficará na nossa casa, hoje ficará conosco. E quando os outros ouvem isso, todos ficam enciumados. Jesus, parecia, então, ser como qualquer outro... estava do lado dos ricos, dos fortes. Mas, não! Jesus vai na casa de Zaqueu para salvá-lo, para resgatá-lo, pois Cristo veio salvar o que estava perdido. Esta é a dinâmica do amor misericordioso de Deus: às vezes é preciso deixar as 99 ovelhas, para salvar aquela ovelha perdida. Zaqueu, então, muda de vida. Se a lei o mandava a restituir quem ele roubara três vezes mais, ele afirma que vai restituir quatro vezes mais, pois ele deixou de viver a dinâmica, a ordem do mundo, e passa a viver a dinâmica de Deus. 

quinta-feira, 27 de outubro de 2022

27.10.2022 - Missa em Sabina

Amados filhos e filhas, quero saudar com alegria e afeto a Dom Odilo Pedro Cardeal Scherer, Bispo desta Diocese Titular Subúrbicaria de Sabina Poggio-Mirteto, e em seu nome em saúdo os demais aqui presentes. A Liturgia de hoje nos recorda que estamos, sim, numa batalha, que é uma batalha espiritual. A batalha é contra quem? É contra o mesmo inimigo desde sempre: satanás, o diabo, o demônio e seus anjos. Sim, pois os inimigos de Deus são também os nossos inimigos e são eles quem querem que o plano de Deus não se concretize em nossas vidas e a salvação, consequentemente, não chegue até nós. Por isso, São Paulo nos orienta e revestirmo-nos da armadura de Deus que é a oração. Nada na Igreja, nenhuma obra, nenhuma missão, e nada na nossa vida pessoal pode acontecer sem oração. Precisamos ser homens e mulheres de oração, capazes de rezar com a própria vida. O inimigo detesta alguém que se aproxime de Deus e, por isso, quando quer nos arruinar, primeiro nos afasta da oração. Filhos e filhas, é o diabo que nos faz pensar que por sermos pecadores, nós não podemos rezar, não podemos nos aproximar de Deus. Jesus veio ao mundo justamente para que nós possamos, mesmo que pecadores, nos aproximar de Deus e mudar de vida. E a obra de Jesus, como Ele mesmo disse no Evangelho, se concretiza em Jerusalém, na cruel cidade de Jerusalém que não aceitou a Jesus, e lá onde ele foi crucificado, morto e ressuscitou. Aí se manifesta toda a força de Cristo: a força da proximidade com o Pai, da obediência e do amor que o levam à cruz e ressurreição. Assim, por mais que sejamos pecadores, somos chamados a aproximarmo-nos de Deus com a certeza de que ele nos procura, também, mesmo que sejamos pecadores. É muita prepotência nossa pensarmos que quando rezamos é porque nós queremos nos aproximar de Deus; muito pelo contrário, é Deus que quer se aproximar de nós, curar nossas feridas, aliviar todo sofrimento desnecessário e nos convidar a unirmo-nos a morte e ressurreição de Jesus, razão de nossa alegria e, ao mesmo tempo, queda e destruição do inimigo. Assim seja! Amém.

segunda-feira, 24 de outubro de 2022

24.10.2022 - Aniversário de Ordenação Presbiteral

Amados filhos e filhas, reunidos hoje neste dia em que rendemos graças a Deus pelos meus oito anos de ordenação presbiteral, saúdo-vos com alegria e afeto em Cristo Jesus. Hoje, Cristo nos recorda que o amor é superior a lei e que a lei está a serviço do homem e não o homem a serviço da lei. Jesus não precisava curar aos sábados, mas, o faz para que o homem recupere seu estado de dignidade diante da lei. Sim, pois de tal modo os mestres da lei e os fariseus pregavam a lei de Deus, que a lei deixou de ser de Deus, e passou a ser dos homens: tradições vazias, costumes a serem seguidos, que tiravam do homem sua dignidade própria em vista de uma moral fajuta. A lei se tornou como que um ídolo quando passou a ser mais importante que o conjunto da Palavra de Deus. Jesus se depara com a realidade do sofrimento de seu povo amado, do povo que Ele veio redimir. Como permaneceria parado diante do sofrimento humano dos seus? Não. Ele vai e cura. Não se importa com a lei humana, mas coloca a verdadeira lei de Deus sobre todas as coisas e demonstra que esta lei está intrinsicamente ligada ao amor. Por isso, o povo se alegra: sente que Deus está com eles. E é São Paulo na Carta aos Efésios que nos convida a imitarmos Jesus. Sim, pois ao imitar Jesus nós consequentemente somos seguidores da lei de Deus. De fato, a lei não perde seu valor em Cristo, mas é levada por Ele à plenitude. Sermos imitadores de Jesus é abandonarmos o pecado, amando a Deus de todo coração, e por consequência deste amor a Deus, promovermos também a vida dos irmãos e irmãs, promovendo a dignidade de toda pessoa humana. Rendendo graças a Deus pelos meus oito anos de ordenação presbiteral, não posso deixar de recordar a maravilha de Deus na minha vida. Sou muito grato a Deus por fazer parte desta Igreja. Sou muito grato a Igreja do Habbo que a oito anos me forma como pessoa, me deu tantos amigos, tantas experiências, tantas possibilidades de crescimento pessoal e discernimento vocacional. Ao longo destes oito anos foram muitos momentos maravilhosos e muitos momentos tristes. De fato, não fui por muito tempo presbítero, embora achasse que nunca passaria por isso. Mas, esse dia de hoje marca, para mim, de modo muito profundo, o início de uma história de amor e dedicação por esta Igreja. Foi muito dinheiro e muito tempo investido aqui e não me arrependo de nada disso. Aqui aprendi muita coisa, inclusive amar a Igreja da realidade e conhecê-la cada vez mais, me aperfeiçoando de modo que hoje me destaco em áreas que estudei para a nossa Igreja. Se Deus me permitiu tantas vezes estar neste ofício tão alto de nossa Igreja, penso que só pode ser pois ele sabe meu amor e desejo de querer bem e de servir a vós e a toda a Igreja. Para mim, tudo isso marca uma linda história. Hoje peço a Cristo a graça de que eu, em meu ministério que desempenho há oito anos, e que todos nós aqui reunidos, sejamos seus imitadores: imitadores do Senhor no amor, na santidade, no testemunho, e na promoção da dignidade da vida humana contra qualquer tipo de tendência de feri-la e no amor e serviço a sua Santa Igreja. Assim seja! Amém.

domingo, 23 de outubro de 2022

23.10.2022 - XXX Domingo do Tempo Comum

Amados filhos e filhas, estamos celebrando o XXX Domingo do Tempo Comum, dia mundial das missões, rezando pela evangelização dos povos. Neste domingo somos interpelados a sermos anunciadores, testemunhas vivas do nosso Senhor Jesus Cristo. E Jesus Cristo aparece para nós, na Liturgia deste domingo, como o justo juiz. Sim, Jesus é o juiz que vem para aplicar sobre nós a sentença Divina. Contudo, a justiça de Deus tem um nome; e esse nome é MISERICÓRDIA. Filhos e filhas, Deus não quer a nossa condenação eterna, mas quer ser misericordioso para conosco. E tudo o que ele precisa para isso é que nós nos coloquemos diante dele com um coração quebrantado. Deus nunca recusa um coração quebrantado. Repito: DEUS NUNCA RECUSA, NUNCA DESPREZA UM CORAÇÃO QUEBRANTADO! Deus não se esquece, não olha com desgosto para qualquer um de seus filhos e filhas que se põe diante dele, rasga o coração, e o clama por misericórdia. É a prece de quem se coloca humildemente diante de Deus, diz-nos o Eclesiástico, que se eleva até as nuvens, isto é, que chega a presença de Deus. Mas, o coração arrogante, a este Deus não escuta, pois é preciso que ao se colocar diante de Deus que o homem reconheça a Deus como Senhor da sua vida e da sua história, como Àquele ao qual deve se submeter toda a sua vontade. Caso contrário, o homem tende a rebaixar Deus, a elevar-se sobre Deus e querer que Deus faça conforme a vontade humana. Se no domingo passado o Senhor nos insistia para que rezássemos com perseverança, hoje Ele insiste que essa oração deve brotar com humildade. Foi por falta de humildade que o fariseu da parábola do Evangelho saiu da presença do Senhor sem ser justificado. E isto é um alerta para que nós tenhamos cuidado: não é porque nós estamos na Igreja, somos ministros, trabalhamos nas pastorais, ou apenas frequentamos a missa, não é porque somos seminaristas, padres, bispos, cardeais ou papa que somos melhores do que os outros e podemos rebaixar o outro. NÃO! MUITAS VEZES NÓS SOMOS OS PIORES. Às vezes os cobradores de impostos, ou seja, os que vivem de falcatruas, e até mesmo as prosthithutas são mais dignos de estar na presença do Senhor do que nós: pois eles reconhecem a sua pequenez. Nós, tantas e tantas vezes olhamos com desprezo para estas realidades, mas estes são os mais amados pelo Senhor, porque onde abundou o pecado, aí superabundou a graça. Nossa posição é de sempre reconhecermos diante da grandeza de Deus e do seu infinito amor, nós não somos nada. Nada! Somos menos do que nada. Somos sempre necessitados de seu amor, de sua misericórdia. E, tantas e tantas vezes, quanto mais próximos do Senhor, mais reconhecemos que nada somos e mais necessitados de sua misericórdia precisamos. Aí de nós quando nos achamos melhores. Aos que se acham melhores, Deus nada reserva. Mas, aos pequenos, aos humildes, aos que se puserem a serviço dos outros e do Senhor, aos que rasgarem seu coração e reconhecerem quem são diante de Deus e de seu plano e projeto de amor, é a estes que o Senhor, justo juiz, dará a coroa imperecível da glória da qual fala São Paulo na segunda leitura. Coroa esta que não é dada por nossos méritos, mas por nossa bondade. Coroa esta que é consequência de aceitarmos neste mundo a coroa de espinhos e abraçarmos a cruz do Senhor. Se for para sermos elevados por Deus, o seremos ao nos unirmos a Cristo Crucificado e com Ele sermos exaltados na cruz. Quem busca erguer-se por si mesmo, vai cair de cara no chão, mas, ao humilde que aceitar ser pequeno em Cristo, sem nada querer em troca, é a este que Deus olhará com ainda mais misericórdia. Assim seja! Amém.

sábado, 22 de outubro de 2022

22.10.2022 - Solenidade de São João Paulo II

Amados filhos e filhas, estamos aqui reunidos nesta tríplice solenidade: celebramos São João Paulo II, padroeiro desta igreja, dedicamos esta igreja e este altar e comemoramos os sete anos de ordenação presbiteral de Dom Cristiano Tavares, a quem saúdo com afeto e estima e em seu nome saúdo a todos e todas aqui presentes. No Evangelho que acabamos de ouvir, confundem-se duas realidades: da dedicação que celebramos e da solenidade de nosso papa padroeiro. Ao dedicarmos essa igreja, após mais de sete anos de seu uso litúrgico, somos interpelados a recordar que quem dedica constantemente esta igreja, quem santifica essas paredes, somos nós. E só conseguimos fazer isso quando nós próprios assumimos àquele papel do qual nos fala São Paulo, de sermos integrados no edifício espiritual do Corpo de Cristo, de sermos morada de Deus pelo Espírito. Deste modo, filhos e filhas, este rito de dedicação deve nos ajudar a dignificar esta igreja como lugar próprio da adoração: A prece, a unção, a incensação e a iluminação que marcam este rito, oferecem a Deus, em primeiro lugar, este lugar que é todo oferecido para Ele; mas, sobretudo, é preciso que nós dediquemos também o nosso coração, unjamos nosso ser, nos ofereçamos como a fumaça do incenso, para que, unidos ao Corpo de Cristo como povo de Deus, um dia nos unamos a Ele na Jerusalém celeste, no banquete da vida na eternidade.  Aqui, na igreja física, o altar simboliza o coração, o ambão a boca de Deus, a cadeira presidencial é a cabeça do Corpo, a pia batismal é o útero dessa Igreja que é mãe, todos nós somos os membros desse Corpo. Por isso, cada um de nós é importante para a Igreja, que não seria completa sem quaisquer um de seus membros. Assim, filhos e filhas, somos pedras vivas da Igreja. E neste templo espiritual, temos como alicerce os Apóstolos e neste sentido, São Pedro e seus sucessores como a base deste alicerce, e Jesus Cristo, nosso Senhor, é a pedra angular, isto é, aquela pedra que está no cume do edifício e que garante que o edifício não caia. São João Paulo II, com sua vida e seu testemunho, nos ajuda a olhar para diversas realidades; a doutrina, a fé, o direito, o sacerdócio, a vida, a família, os problemas sociais dos sistemas políticos atuais. Mas, acima de tudo, do primeiro ao último momento de seu pontificado ele nos convida a abrirmos, a eschancarmos as portas a Cristo, sem medo, sem receio, e abrirmos a ele, que perscruta e conhece o homem, seu interior, e permitirmos que ele, seja tudo em todos nós. São João Paulo II foi homem do diálogo, da missão, do ir ao encontro, não em vão foi o papa peregrino, o papa da juventude. Seus documentos e sobretudo seu exemplo são legados de um pontífice atento, zeloso e preocupado, de um homem que não teve medo e abriu seu próprio coração a Jesus Cristo. Abraçando com amor a missão e sendo integrado ao alicerce do Corpo de Cristo nesta terra, pelo ministério petrino, foi também integrado ao Corpo de Cristo no céu por sua santidade; isto é, por ter neste mundo manifestado o amor de Deus, o anunciado com sua voz marcante, firme e amorosa, e ao mesmo tempo o vivenciado na profundidade do seu coração, aceitando as consequências deste amor no sofrimento da vida. Que a exemplo de nosso padroeiro, São João Paulo II, não tenhamos medo, abramos as portas do mundo e as portas do nosso coração a Cristo e nos tornemos membros do seu Corpo, oferecedores do culto em sua casa e dedicados como pedras do edifício vivo que é sua Igreja, com a força e a alegria da Palavra e sob a proteção da Mãe de Deus e da Igreja, a Virgem Maria. Assim seja! Amém.

segunda-feira, 17 de outubro de 2022

17.10.2022 - Audiência Geral

Amados filhos e filhas, prosseguimos com as nossas catequeses inspiradas nas obras de Bento XVI. Falaremos hoje sobre a Anunciação do Anjo a Nossa Senhora: “No sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um varão chamado José, da casa de Davi; e o nome da virgem era Maria” (Lc 1, 26-27). O anúncio do nascimento de Jesus está ligado à história de João Batista, antes de tudo, cronologicamente por meio da indicação do tempo decorrido depois da mensagem do arcanjo Gabriel a Zacarias, isto é, “no sexto mês” da gravidez de Isabel. Mas, nessa passagem, os dois acontecimentos e ambas as missões estão ligados também pela informação de que Maria e Isabel – e, consequentemente, os seus filhos – são parentes. A visita de Maria a Isabel, que deriva como consequência do diálogo entre Gabriel e Maria (cf. Lc 1, 36), leva – ainda antes do nascimento – a um encontro, no Espírito Santo, entre Jesus e João, e nesse encontro tornasse evidente, ao mesmo tempo, a correlação das suas missões: Jesus é o mais jovem, Aquele que vem depois; mas é a proximidade d’Ele que faz João saltar de alegria no ventre materno e cumula Isabel do Espírito Santo (cf. Lc 1, 41). Assim, aparece objetivamente, já nas narrativas de São Lucas sobre o anúncio e o nascimento, aquilo que João Batista dirá, segundo oEvangelho de João: “É aquele de quem eu disse: ‘Depois de mim, vem um homem que passou adiante de mim, porque existia antes de mim’ ” (1, 30). Antes de mais nada, porém, convém considerar, de forma mais detalhada, a narração do anúncio do nascimento de Jesus a Maria. Vejamos primeiro a mensagem do anjo, e depois a resposta de Maria. Na saudação do anjo, impressiona o fato de não dirigir a Maria a habitual saudação judaica shalom – a paz esteja contigo –, mas a fórmula grega khaire, que se pode tranquilamente traduzir por “Ave”, como sucede na oração mariana da Igreja, formada com palavras tiradas da narração da anunciação (cf. Lc 1, 28.42). Mas é justo individuar, neste ponto, o verdadeiro significado da palavra khaire: alegra-te! Com esse voto do anjo – podemos dizer –, começa propriamente o Novo Testamento. A palavra volta a aparecer na Noite Santa, nos lábios do anjo que diz aos pastores: “Eis que vos anuncio uma grande alegria” (2, 10). Aparece, em João, por ocasião do encontro com o Ressuscitado: “Os discípulos, então, ficaram cheios de alegria por verem o Senhor” (20, 20). Nos discursos de despedida, em João, aparece uma teologia da alegria, que esclarece, por assim dizer, as profundezas dessa palavra: “Eu vos verei de novo e o vosso coração se alegrará e ninguém vos tirará a vossa alegria” (16, 22). Nesses textos, a alegria aparece como o dom próprio do Espírito Santo, como o verdadeiro dom do Redentor. Assim, com a saudação do anjo, sente-se ecoar o acorde que continuará depois a ressoar através de todo o tempo da Igreja e que pode ser também percebido, no que diz respeito ao seu conteúdo, na palavra fundamental com que se designa a totalidade do anúncio cristão: o Evangelho – a Boa Nova. Como vimos, “alegra-te” é, primeiramente, uma saudação em grego, e assim, nessa palavra do anjo, abre-se imediatamente também a porta para os povos do mundo; tem-se uma alusão à universalidade da mensagem cristã. Ao mesmo tempo, porém, ela é também uma palavra extraída do Antigo Testamento, isto é, que se situa plenamente na continuidade da história bíblica da salvação. Sobretudo Stanislas Lyonnet e René Laurentin mostraram que, na saudação de Gabriel a Maria, é retomada e atualizada a profecia de Sofonias 3, 14-17, que soa assim: “Rejubila, filha de Sião, solta gritos de alegria, Israel! (...) O Senhor, o teu Deus, está no meio de ti”. Não é necessário entrar aqui nos detalhes de uma comparação textual entre a saudação do anjo a Maria e a palavra de promessa do profeta. O motivo essencial pelo qual a filha de Sião pode exultar está expresso na afirmação “o Senhor está no meio de ti” (Sf 3, 15.17), que traduzida literalmente diz: “está no teu seio”. Desse modo, Sofonias retoma palavras do Livro do Êxodo, que descrevem a habitação de Deus na arca da aliança como um habitar “no seio de Israel”. É precisamente essa palavra que aparece na mensagem de Gabriel a Maria: “Eis que conceberás no teu seio” (Lc 1, 31). Qualquer que seja o modo com que se avaliem os detalhes desses paralelismos, torna-se evidente uma proximidade íntima das duas
mensagens. Maria aparece como a filha de Sião em pessoa. As promessas que dizem respeito a Sião cumprem-se de modo inesperado n’Ela. Maria torna-se a arca da aliança, o lugar de uma verdadeira habitação do Senhor. “Alegra-te, cheia de graça”. Essa ligação entre alegria e graça é outro aspecto digno de consideração, na saudação khaire; em grego, as duas palavras – alegria e graça (khara e kharis) – são formadas da mesma raiz. Alegria e graça andam juntas. Debrucemo-nos agora sobre o conteúdo da promessa. Maria dará à luz um filho, a quem o anjo atribui os títulos de “Filho do Altíssimo” e “Filho de Deus”. Além disso, é prometido que Deus, o Senhor, lhe dará o trono de seu pai Davi; reinará para sempre na casa de Jacó e o seu reino (o seu domínio) não terá fim. Depois se acrescenta uma série de promessas relativas ao modo “como” se dará a concepção: “O Espírito Santo virá sobre ti e o poder do Altíssimo vai te cobrir com a sua sombra; por isso, o Santo que nascer será chamado Filho de Deus” (Lc 1, 35). Comecemos pela última promessa; considerando a sua linguagem, pertence à teologia do Templo e da presença de Deus no santuário. A nuvem sagrada – a shekinà – é sinal visível da presença de Deus; simultaneamente esconde e manifesta o Deus que habita na sua casa. A nuvem, que estende a sua sombra sobre os homens, reaparece mais tarde na narrativa da Transfiguração do Senhor (cf. Lc 9, 34; Mc 9, 7); e de novo é sinal da presença de Deus, da manifestação de Deus escondido. Assim, através da afirmação sobre a sombra que desce com o Espírito Santo, é retomada a teologia relativa a Sião, já presente na saudação inicial. Mais uma vez, Maria aparece como a tenda viva de Deus, na qual Ele quer habitar, de um modo novo, no meio dos homens. Ao mesmo tempo vislumbra-se, no conjunto dessas palavras da anunciação, uma alusão ao mistério do Deus trinitário. Age Deus Pai, que prometera estabilidade ao trono de Davi e agora institui o herdeiro cujo reino não terá fim, o herdeiro definitivo de Davi, predito pelo profeta Natã com estas palavras: “Eu serei para ele um pai e ele será para mim um filho” (2 Sm 7, 14). O Salmo 2 repete o mesmo: “Tu és meu filho. Eu hoje te gerei” (v. 7). As palavras do anjo permanecem totalmente na concepção da piedade doAntigo Testamento, e  todavia superam-na. A partir da nova situação, recebem um novo realismo, uma densidade e uma força que antes não se podia imaginar. O mistério trinitário ainda não foi objeto de reflexão, ainda não se desenvolveu até chegar à doutrina definitiva: surge espontaneamente do modo de agir de Deus, prefigurado no Antigo Testamento; aparece no acontecimento, antes de se tornar doutrina. De igual forma, o conceito de ser Filho, próprio do Menino, também não está aprofundado nem desenvolvido até a dimensão metafísica. E assim tudo permanece no âmbito da concepção da piedade judaica. Mas as próprias palavras antigas, por causa do acontecimento novo que exprimem e interpretam, estão novamente a caminho, vão além de si mesmas. Precisamente na sua simplicidade, recebem uma nova grandeza, quase desconcertante, que, entretanto, só ao longo do caminho de Jesus e do caminho dos crentes se
deverá desenvolver. Nesse contexto, situa-se também o nome “Jesus”, que o anjo – tanto em Lucas (1, 31) como em Mateus (1, 21) – atribui ao menino. No nome de Jesus, esconde-se o tetragrama [YHWH], o misterioso nome recebido no Horeb, que agora é ampliado até a afirmação: Deus salva. O nome do Sinai, que ficou por assim dizer incompleto, é agora pronunciado na sua totalidade. O Deus que é, é o Deus presente e salvador. A revelação do nome de Deus, que começou na sarça ardente, é completada em Jesus (cf. Jo 17, 26). Depois disso, segue-se a terceira reação, a resposta essencial de Maria: um simples “sim” daquela que se declara serva do Senhor. “Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1, 38). Bernardo de Claraval, numa homilia de Advento, ilustrou de forma dramática o aspecto emocionante desse momento. Depois do fracasso dos primeiros pais, o mundo inteiro está às escuras sob o domínio da morte. Agora Deus procura entrar de novo no mundo; bate à porta de Maria. Tem
necessidade do concurso da liberdade humana: não pode redimir o homem, criado livre, sem um “sim” livre à sua vontade. Ao criar a liberdade, de certo modo, Deus se tornou dependente do homem; o seu poder está ligado ao “sim” não forçado de uma pessoa humana. Ora, Bernardo afirma que, no momento do pedido a Maria, o céu e a terra como que suspendem a
respiração. Dirá “sim”?! Ela demora... Porventura lhe será obstáculo a sua humildade? Só por esta vez – diz-lhe Bernardo – não sejas humilde, mas magnânima! Dá-nos o teu “sim”! Esse é o momento decisivo, em que dos seus lábios, do seu coração, surge a resposta: “Faça-se em mim segundo a tua palavra”. É o momento da obediência livre, humilde e simultaneamente magnânima, na qual se realiza a decisão mais sublime da liberdade humana. Maria torna-se mãe, através do seu “sim”. Várias vezes os Padres da Igreja exprimiram tudo isso, dizendo que Maria teria concebido pelo ouvido, ou seja, através da sua escuta: através da sua obediência, a Palavra entrou nela, e nela se tornou fecunda. Nesse contexto, os Padres desenvolveram a ideia do nascimento de Deus em nós através da fé e do Batismo, por meio dos quais o Logos vem a nós sem cessar, tornando-nos filhos de Deus. Pensemos, por exemplo, nas palavras de Santo Irineu: “Como poderá o homem tornar-se Deus, se Deus não se torna homem? Como deixarão o nascimento para a morte, se não forem regenerados em um novo nascimento, que nos foi dado, pela fé, de modo maravilhoso e inesperado por Deus, no nascimento de uma Virgem, como sinal da salvação?”. Penso que seja importante ouvir também a última frase da narração lucana da Anunciação: “E o anjo a deixou” (Lc 1, 38). A grande hora do encontro com o mensageiro de Deus, na qual toda a vida muda, passa; e Maria fica sozinha com a tarefa que verdadeiramente supera toda a capacidade humana. Não há anjos ao seu redor; ela deve prosseguir pelo seu caminho, que passará através de muitas obscuridades, a começar pelo espanto de José perante a sua gravidez até o momento em que se diz de Jesus que está “fora de si” (Mc 3, 21; cf. Jo 10, 20), antes, até a noite da Cruz. Quantas vezes, em tais situações, Maria terá interiormente voltado à hora em que o anjo de Deus lhe falara, terá escutado de novo e meditado a saudação “alegra-te, cheia de graça”, e as palavras de conforto “não temas!”. O anjo parte, a missão permanece e, juntamente com esta, matura a proximidade interior a Deus, o íntimo ver e tocar a sua proximidade.

quarta-feira, 12 de outubro de 2022

12.10.2022 - Solenidade de Nossa Senhora da Conceição Aparecida

Com Maria, caminhar juntos para construir uma Igreja missionária! Amados filhos e filhas dha Mãe Aparecida e meus, saúdo-vos em nome de Dom Eugênio Lorscheider. Estamos celebrando a Solenidade de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, Mãe e Rainha do Brasil e do nosso Habbo Hotel Br. Reunidos como devotos e devotas da Senhora Aparecida, queremos caminhar juntos como Igreja missionária, como Igreja sinodal. De fato, Maria resplandece para nós como este exemplo de mulher missionária, de mulher do diálogo, de mulher preocupada com a situação de seu povo. Quando a Rainha Ester, prefigurando Maria, vai até o rei para pedir-lhe a libertação de seu povo, do povo de Deus, ela assume o risco das consequências de se apresentar diante do rei sem ser convidada; ela poderia até ser morta. Nossa Senhora, ao receber o anúncio do anjo de que o povo de Deus seria salvo por meio do fruto de seu ventre, Jesus, assume também as consequências disso: Maria poderia ser apedrejada por ter engravidado antes de seu casamento com São José. E a imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida é uma imagem de Nossa Senhora que está grávida. Sim, em seu ventre ela trazia Jesus e assumia o risco desta sua missão. Quantos hoje em nosso tempo assumem riscos para a libertação do povo? Risco até mesmo de morrer para que o povo seja liberto de todo tipo de opressão, indiferença, e sobretudo do pecado. Ao mesmo tempo, quantos de nós não assumimos o risco da missão e preferimos permanecer no comodismo, inertes diante da necessidade dos tempos, diante dos sofrimentos dos irmãos e irmãs e até mesmo em nossos trabalhos pastorais? Nossa Senhora aparece no nosso território brasileiro nas curvas de um rio, preta, pequena, simbolizando o simples povo brasileiro e sinalizando para àqueles que devemos olhar com preferência: os pequenos. E é justamente aos pequenos do Reino de Deus que se manifestam os principais milagres e é em meio aos pequenos, aos pobres que cresce a devoção de Nossa Senhora Aparecida, que foi elevada a Rainha e Padroeira do Brasil. Rainha e Padroeira pois em sua simplicidade e pequenez é a grande Mãe que está ao lado de seus filhos e filhas. Povo brasileiro, nunca cessai de recorrer a Senhora Aparecida! Ela, retirada das águas, daquele símbolo que é o símbolo da morte, torna-se sinal da vida de seu povo. Não abracemos e não aceitemos no meio de nosso povo os sinais e instrumentos de morte, mas tornemo-nos sinais de vida e de vida plena. É esta plenitude que se manifesta no milagre das bodas de Caná que hoje escutamos no Evangelho. No primeiro milagre de Jesus, que acontece por intercessão de Maria, que antecipa a hora da vida plena, o Senhor manda encher seis talhas de pedra com água. Sim, seis talhas; o símbolo da imperfeição, para nos lembrar que somos imperfeitos. É aí, então, que ele faz-se a sétima talha, a talha da plenitude, capaz de trazer o vinho novo da alegria, de encher de sentido e de vida em plenitude todas as coisas. Estas bodas, este casamento, é o casamento de Jesus com a humanidade e representa a nossa união com Ele. Nós, Igreja, somos a noiva e Ele é o noivo. Por isso, unidos a Jesus, abraçando Maria e seu projeto de vida para o povo, saíamos em missão, sejamos Igreja em estado permanente de missão, e abracemos as consequências desta missão. É Maria, a Senhora Aparecida, a nossa Mãe, quem estará conosco pelos caminhos tortuosos de nossa vida, derrotando o inimigo pela graça de seu Filho, irá nos transformando a imagem do seu Filho, gestando Cristo em nós para que tenhamos e levemos a todos, em nossa missão, a vida e a vida em plenitude. Assim seja! Amém.

terça-feira, 11 de outubro de 2022

11.10.2022 - Abertura do Sínodo da Arquidiocese de São Paulo

Amados filhos e filhas, os quais saúdo em nome do Arcebispo Metropolitano, Dom Miguel Maria Dolezzio, estamos reunidos para a abertura do Sínodo da Arquidiocese de São Paulo. Bonito que, neste dia que celebramos os sessenta anos da abertura do Concílio Vaticano II, celebramos a abertura deste Sínodo Arquidiocesano e convocamos o Sínodo Geral dos Bispos. Sínodo, bem sabeis, quer dizer: "caminhar juntos". Este é o sinal de uma Igreja que quer dialogar entre si, mas quer abrir-se a dialogar também com a realidade onde está inserida. Este é o objetivo deste Sínodo da Igreja Particular de São Paulo: que o Arcebispo, com seus auxiliares, ouça os presbíteros e ouça o povo de Deus para atender as necessidades do contexto onde realiza a sua missão. Sim, sempre compreendendo quais são as limitações de um Sínodo Arquidiocesano em relação a Igreja Universal e em relação a si mesma, tendo em vista que este Sínodo deve se voltar a vida pastoral e litúrgica desta Igreja, em comunhão com Roma. Me uno a vós e acompanharei a distância este vosso momento de discernimento. Ao mesmo tempo, o Sínodo é momento de proximidade com Deus. Sim, pois é momento de como ramos da videira que é Cristo, unirmo-nos ainda mais a Ele e permitirmos que sua seiva salvifica nutra também a nossa vida interior. A pastoral, a liturgia, todas reflexões são importantes, pois precisamos estar com os pés no chão. Mas, com os pés no chão, devemos estar olhando para cima, precisamos ter os olhos fixos em Jesus. Filhos e filhas, é Jesus Cristo nosso Senhor que é a razão da nossa própria existência e da missão de ser Igreja. Por isso, é o próprio Senhor Jesus que nos alimenta, que nos nutre. Quando não nos nutrimos de Cristo, quando capengamos em nossa espiritualidade ou a deixamos em segundo plano, poderemos ter santas ações, mas, ainda assim, estaremos agindo sós, pensando em nós mesmos e não na Igreja. É triste quando os membros da Igreja não estão olhando ansiosos para o alto, quando não unem devotamente suas mãos em prece, erguem-nas em louvor e gratidão, pois acabando vendo a Igreja não só humanamente, mas de um modo relativista. O relativismo é um perigo para a nossa vida clerical, pois daí passamos a pensar que tanto faz e tanto fez as coisas para com as quais devemos nos preocupar, mesmo que pequenas. É de pequenas coisas que podemos fazer as grandes. Quem não se une a Cristo não age pelo bem na Igreja, mas, em seu próprio bem. É o fato, por exemplo, de que hoje dentro da Igreja há uma tendência de ruptura: entre progressistas e tradicionalistas, entre direita e esquerda. Que erro tremendo é este de rompermos a Igreja de Jesus, mas, este também revela a tendência individualista, de olhar apenas para as suas opiniões e para o seu próprio grupinho. Não! O caminho da Igreja é diferente: é de preservar a Tradição, mas não se apegar ao supérfluo, não se apegar ao poder - pois o tradicionalismo é um apego ao passado, a um passado de poder, de relevância social que já não existe - e é de progredir, mas não de se esquecer dos preceitos do Senhor, em desrespeito a história, correndo o risco de se secularizar - mesmo que a Igreja deva estar no século e dialogar com ele, não se seculariza. Deste modo, filhos e filhas, nos unamos a Jesus Cristo, nosso mestre e Senhor, que nos une a si; chacoalhemos de nós toda tendência ao tradicionalismo, ao progressismo, ao individualismo e a preguiça para poderem, vós de São Paulo, realizar vosso Sínodo Arquidiocesano, e nós todos, como Igreja Universal, sermos autêntica Igreja de Jesus Cristo, sempre nova, sempre renovada no amor. Assim seja! Amém.