quarta-feira, 31 de agosto de 2022

31.08.2022 - Ordenação Episcopal Mons. Giuseppe Siri

Amados filhos e filhas, dos quais saúdo de modo especial Mons. Giuseppe Siri, que hoje será ordenado Bispo para a Igreja. Estamos reunidos para este momento solene da nossa vida eclesial. Antigamente chamava-se este rito de sagração episcopal, termo que hoje caiu. Falamos, agora, de ordenação, isto é, de introdução do eleito na ordem dos Bispos, no Colégio Apostólico. Nunca podemos nos esquecer que o Bispo, uma vez introduzidos na Ordem, no Colégio, quando age pensando em si próprio e isolado, perde o próprio sentido e rumo. Os outros, os irmãos na Ordem, estão sempre aí para nos apoiar, para crescermos juntos. Quando queremos nos isolar, agir fora da comunhão, prejudicamos toda a missão e ferimos todo o tecido da Igreja. Como Bispos, somos guardiões da Igreja, responsáveis por prosseguir a obra salvífica que o Cristo confiou inicialmente aos apóstolos, mas também a cada cristão batizado. É o Bispo, porém, que está a frente desta missão. E hoje nós, Bispos, como Colégio Episcopal, imporemos sobre o Mons. Siri as nossas mãos e pediremos sobre ele o Espírito Santo Paráclito. É o Espírito que o enviará na missão do serviço da qual fala o profeta Isaías; é Ele quem o renovará em Cristo, como convida São Paulo na segunda carta aos coríntios; é Ele que nos reúne como amigos do Senhor. É salutar que reforcemos este aspecto que é sermos amigos do Senhor. Jesus nos chama a seu amor e é apenas experimentados no seu amor que somos enviados como seus embaixadores no mundo. Este é nosso serviço. Não somos os servos que não conhecem o seu Senhor. Cristo nos chama a sermos íntimos Dele, para podermos amar aos irmãos e irmãs. Assim, o nosso serviço é, tal como era o de Jesus: amar. O grande ato de serviço mas também de amor de Jesus foi a sua morte de cruz, vivenciado na véspera no lava-pés. E está é a Igreja que devemos ser e que exortamos este novo Bispo a experimentar e propor: a Igreja do lava-pés, da Ceia, da entrega generosa, da Cruz e da Ressurreição. Isto é, a Igreja deve vivenciar e se renovar completamente no mistério do seu Senhor. E para que amemos verdadeiramente é preciso criar vínculos de amor, de amizade e serviço com Deus, com os irmãos no ministério episcopal, com os presbíteros e diáconos e com o povo de Deus. Não há outro caminho! Qualquer caminho que fuja destes vínculos é ilusório. Exemplo disto são os Bispos que foram, infelizmente, demitidos no último mês: se perderam por não fortalecer estes vínculos. Quanto a ti, querido Mons. Siri, além de todas essas exortações, exorto-te com aquilo que recomenda o Pontifical Romano para a Ordenação do Bispo: lembra-te que foste tirado dentre os seres humanos, e colocado a serviço deles nas coisas de Deus. O Episcopado é um serviço e não uma honra; o Bispo deve distinguir-se mais pelo serviço prestado que pelas honrarias recebidas. Prega a palavra de Deus, quer agrade, quer desagrade. Orando e oferecendo o sacrifício pelo povo que te foi confiado, procura haurir copiosamente da plenitude do Cristo as riquezas da graça. Distribui com prudência e guarda fielmente os mistério de Cristo. Vela, pois por todo o rebanho dos fiéis e cujo serviço te coloca o Espírito Santo, para reger a Igreja de Deus; em nome do Pai, de quem és imagem entre os fiéis; em nome do Filho, cuja missão de mestre, sacerdote e pastor exerces; e em nome do Espírito Santo, que dá vida a Igreja de Cristo, e fortalece a nossa fraqueza. Amém.

terça-feira, 30 de agosto de 2022

30.08.2022 - Encontro com os Presbíteros

Caríssimos presbíteros, hoje quero me aprofundar com os senhores no direcionamento para o ministério e a vida dos presbíteros. Sabemos que toda a Igreja foi tornada participante da unção sacerdotal de Cristo no Espírito Santo. O sacerdócio ministerial encontra a sua razão de ser nesta união vital e operacional da Igreja com Cristo. Com efeito, mediante tal ministério, o Senhor continua a exercer no seu Povo aquela atividade que só a Ele pertence enquanto Cabeça do seu Corpo. Portanto, o sacerdócio ministerial torna tangível a ação própria de Cristo Cabeça, e testemunha que Cristo não se afastou da sua Igreja, mas continua a vivificá-la com o seu sacerdócio perene. Por este motivo, a Igreja considera o sacerdócio ministerial como um dom que Lhe foi concedido no ministério de alguns dos seus fiéis. A identidade do sacerdote deriva, portanto, da participação específica no Sacerdócio de Cristo, pelo qual o ordenado se torna, na Igreja e para a Igreja, imagem real, viva e transparente de Cristo Sacerdote, uma representação sacramental de Cristo Cabeça e Pastor. Ao mesmo tempo, não se deve esquecer de que cada sacerdote é único como pessoa, e possui os próprios modos de ser. Cada um é único e insubstituível. Deus não anula a personalidade do sacerdote, antes, a requer completamente, desejando servir-se dela – a graça, de fato, edifica a natureza – a fim de que o sacerdote possa transmitir as verdades mais profundas e preciosas mediante as suas características, que Deus respeita e também os outros devem respeitar. Vossas diferenças são favoráveis à Igreja. Por meio do mistério de Cristo, o sacerdote, exercendo o seu múltiplo ministério, é inserido também no mistério da Igreja que, na fé, toma consciência de não existir por si mesma, mas pela graça de Cristo, no Espírito Santo. Deste modo, o sacerdote, enquanto é inserido na Igreja, coloca-se também à frente dela. A expressão eminente desta colocação do sacerdote na e diante da Igreja é a celebração da Eucaristia, na qual ele convida o povo a elevar os corações para o Senhor, na oração e na ação de graças, e associa-o a si na oração que ele, em nome de toda a comunidade, dirige a Deus Pai por Jesus Cristo no Espírito Santo. O sacramento da Ordem, efetivamente, torna o sacerdote participante não só do mistério de Cristo Sacerdote, Mestre, Cabeça e Pastor, mas, de alguma maneira, também de Cristo Servo e Esposo da Igreja. A  vocação pastoral dos sacerdotes é grande e universal: destina-se a toda a Igreja e, portanto, é também missionária. Normalmente, está ligada ao serviço de determinada comunidade do Povo de Deus, onde cada fiel espera encontrar atenção, dedicação e amor . Por isso, o ministério do sacerdócio e também ministério de paternidade. Através da sua dedicação às almas, tantas são geradas à nova vida em Cristo. Trata-se de uma verdadeira paternidade espiritual, como exclamava São Paulo: "Com efeito, ainda que tivésseis dez mil mestres em Cristo, não tendes muitos pais; ora, fui eu que vos gerei em Cristo Jesus pelo Evangelho" (1Cor 4,15). Uma manifestação ulterior da colocação do sacerdote à frente da Igreja está em ele ser o guia que conduz à santificação os fiéis confiados ao seu ministério, que é essencialmente pastoral, apresentando-se, porém, com aquele prestígio que fascina e faz com que a mensagem se torne credível. Toda autoridade deve ser exercida, efetivamente, em espírito de serviço, como amor ao ofício e dedicação desinteressada pelo bem do rebanho. O sacerdote não deve encarar a sua própria função como que reduzida a de um simples dirigente. Ele é mediador – a ponte –, isto é, aquele que deve recordar sempre que o Senhor e Mestre "não veio para ser servido, mas para servir"; que se ajoelhou a lavar os pés aos seus discípulos antes de morrer na Cruz e antes de enviá-los por todo o mundo. Assim, o presbítero, ocupado no cuidado do rebanho que pertence ao Senhor, procurará proteger a grei, alimentando-a e conduzindo-a para Ele, o Bom Pastor que deseja a salvação de todos. Por conseguinte, alimentar o rebanho do Senhor é um ministério de amor vigilante, que exige a dedicação total, até esgotar as próprias forças e, se for necessário, até ao sacrifício da vida. Os sacerdotes darão autêntico testemunho do Senhor Ressuscitado, a quem foi dado todo o poder no céu e na terra, se exercerem o próprio poder gastando-o no humilde e autorizado serviço em favor do rebanho e no respeito das tarefas que Cristo e a Igreja confiam aos fiéis leigos e aos fiéis consagrados pela profissão dos conselhos evangélicos. Às vezes, acontece que, para evitar este primeiro desvio, se cai no segundo, tendente a eliminar todas as diferenças de funções entre os membros do Corpo de Cristo que é a Igreja, negando na prática a distinção entre o sacerdócio comum e o ministerial. Entre as diversas formas desta negação, que hoje se notam, encontra-se o chamado democratismo, que leva a não reconhecer a autoridade e a graça capital de Cristo, presente nos ministros sagrados, e a desnaturar a Igreja como Corpo Místico de Cristo. A propósito, convém recordar que a Igreja reconhece todos os méritos e valores que a cultura democrática trouxe consigo para a sociedade civil. Além disso, a Igreja combate sempre com todos os meios à sua disposição para o reconhecimento da igual dignidade de todos os homens. Efetivamente, a Igreja deve a sua existência e a sua estrutura ao desígnio salvífico de Deus. Ela contempla-se a si mesma como dom da benevolência do Pai que a libertou mediante a humilhação do seu Filho na cruz. Portanto, a Igreja quer ser – no Espírito Santo – totalmente conforme e fiel à vontade livre e libertadora do seu Senhor Jesus Cristo. Este mistério faz com que a Igreja seja, por sua própria natureza, uma realidade diversa das puras sociedades humanas. Por conseguinte, não é admissível na Igreja certa mentalidade, que se manifesta por vezes em alguns organismos de participação eclesial, e que tende tanto a confundir as tarefas dos presbíteros e as dos fiéis leigos, quanto a não distinguir a autoridade própria do Bispo dos presbíteros como colaboradores dos Bispos, como a não dar a devida adesão ao Magistério universal, exercido pelo Romano Pontífice na sua função primacial, querida por Senhor.  A  incardinação em alguma Igreja particular constitui um autêntico vínculo jurídico que tem também um valor espiritual, já que dela provém a relação com o Bispo no único presbitério, a partilha da solicitude pastoral, a dedicação à cura evangélica do Povo de Deus nas condições históricas concretas e ambientais. Filhinhos, sede obedientes aos vossos Bispos e dialogai com eles. Sede amigos entre vós e com o vosso Bispo. O presbitério é o lugar privilegiado para o sacerdote poder encontrar os meios específicos de formação, de santificação e de evangelização e ser ajudado a superar as limitações e as fraquezas próprias da natureza humana que hoje particularmente se notam. Portanto, ele fará todos os esforços para evitar viver o seu sacerdócio de um modo isolado e subjetivista e favorecerá a comunhão fraterna dando e recebendo – de sacerdote a sacerdote – o calor da amizade, da assistência cordial, do acolhimento, da correção fraterna , muito consciente de que a graça da Ordem assume e eleva as relações humanas, psicológicas, afetivas, de amizade e espirituais e se concretiza nas mais variadas formas de ajuda recíproca, não só espirituais, mas também materiais. A capacidade de cultivar e viver amadurecidas e profundas amizades sacerdotais aparece como fonte de serenidade e de alegria no exercício do ministério, apoio decisivo nas dificuldades e ajuda preciosa no incremento da caridade pastoral, que o presbítero deve exercer dum modo particular precisamente para com os colegas em dificuldade, que têm necessidade de compreensão, ajuda e apoio. A fraternidade sacerdotal, expressão da lei da caridade, longe de reduzir-se a um simples sentimento, se torna para os presbíteros uma memória existencial de Cristo e um testemunho apostólico de comunhão eclesial. Para enfrentar um dos problemas atuais mais importantes da vida sacerdotal, que é a solidão do padre, nunca será demasiado recomendar aos sacerdotes a utilidade de certa vida comum entre eles, inteiramente orientada ao ministério propriamente espiritual; a prática de frequentes encontros, com fraternas trocas de idéias, de conselhos e de experiências; a promoção de associações que favoreçam a santidade sacerdotal. Como para Cristo, assim também para o presbítero, a obediência exprime a total e alegre disponibilidade de se cumprir a vontade de Deus. Por isso, o sacerdote reconhece que esta Vontade é manifestada também pelas indicações dos legítimos superiores. Esta disponibilidade deve ser entendida como uma verdadeira realização da liberdade pessoal, consequência duma escolha amadurecida constantemente diante de Deus na oração. A virtude da obediência, requerida intrinsecamente pelo sacramento e pela estrutura hierárquica da Igreja, é claramente prometida pelo clérigo, primeiro no rito da ordenação diaconal e, depois, no da ordenação presbiteral. Mediante ela, o presbítero fortalece a sua vontade de comunhão, entrando, assim, na dinâmica da obediência de Cristo, feito Servo obediente até à morte de Cruz. Na realidade, o presbítero está, pela natureza do seu ministério, ao serviço de Cristo e da Igreja. Portanto, estará disponível a acolher quanto lhe é justamente indicado pelos Superiores e dum modo particular, se não estiver legitimamente impedido, deverá aceitar e cumprir fielmente o encargo que lhe foi confiado pelo seu Ordinário. O presbítero deve uma especial obrigação de respeito e obediência ao Sumo Pontífice e ao Ordinário próprio, isto é, seu Bispo . Pelo fato de pertencer a um determinado presbitério, o presbítero está agregado ao serviço duma Igreja particular, cujo princípio e fundamento de unidade é o Bispo, que tem sobre ela todo o poder ordinário, próprio e imediato, necessário para o exercício do seu múnus pastoral. A subordinação hierárquica, requerida pelo sacramento da Ordem, encontra a sua atuação eclesiológico-estrutural na referência ao Bispo próprio e ao Romano Pontífice, o qual detém o primado do poder ordinário sobre todas as Igrejas particulares. O apelo à desobediência, especialmente ao Magistério definitivo da Igreja, não é uma via para a renovação da Igreja. A sua inesgotável vivacidade pode derivar apenas do seguimento do Mestre, obediente até a cruz, com cuja missão se colabora «com o transbordar da alegria da fé, a radicalidade da obediência, a dinâmica da esperança e a força do amor. Ninguém mais do que o presbítero está consciente de que a Igreja tem necessidade de normas, as quais servem para proteger adequadamente os dons do Espírito Santo confiados à Igreja, porque, com efeito, uma vez que a sua estrutura hierárquica e orgânica é visível, o exercício das funções confiadas por Deus, especialmente a de guia e a da celebração dos sacramentos, deve ser adequadamente organizado  Precisamente para poder realizar frutuosamente o ministério pastoral, o sacerdote tem necessidade de entrar numa particular e profunda sintonia com Cristo bom Pastor, o qual permanece sempre o único protagonista principal de toda a ação pastoral: Cristo permanece sempre o princípio e a fonte de unidade da vida dos presbíteros. Eles alcançarão a unidade da sua vida, unindo-se a Cristo no conhecimento da vontade do Pai e no dom de si mesmos pelo rebanho que lhes foi confiado. Assim, fazendo as vezes do Bom Pastor, encontrarão no próprio exercício da caridade pastoral o vínculo da perfeição sacerdotal, que conduz à unidade de vida e ação. Tal vida espiritual deve ser encarnada na existência de cada presbítero mediante a liturgia, a oração pessoal, o estilo de vida e a prática das virtudes cristãs que contribuem para a fecundidade da ação ministerial. A própria conformação a Cristo exige que o sacerdote cultive um clima de amizade e de encontro pessoal com o Senhor Jesus, fazendo experiência de um encontro pessoal com Ele, e de colocar-se a serviço da Igreja, seu Corpo, à qual o sacerdote demonstrará amar pelo cumprimento fiel e incansável dos deveres próprios do seu ministério pastoral . É necessário, portanto, que na vida de oração não falte nunca a celebração eucarística cotidiana, com adequada preparação e sucessiva ação de graças; a confissão frequente e a direção espiritual já praticada no seminário e frequentemente antes; o exame de consciência; a oração mental propriamente dita; a lectio divina,  os momentos prolongados de silêncio e de colóquio, sobretudo nos Exercícios e retiros Espirituais periódicos; as preciosas expressões da devoção mariana, como o Rosário;  a Via Sacra e os outros pios exercícios;  a frutuosa leitura hagiográfica; etc. Sem dúvida, o bom uso do tempo, por amor a Deus e à Igreja, permitirá ao sacerdote manter mais facilmente uma sólida vida de oração. De fato, aconselha-se que o presbítero, com o auxílio do seu diretor espiritual, procure ater-se com constância a este plano de vida, que lhe permite crescer interiormente num contexto em que as múltiplas exigências da vida poderiam induzi-lo, muitas vezes, ao ativismo e a descuidar a dimensão espiritual. Por isso, encerro com a pergunta feita hoje pelo Papa Francisco: vocês ainda se encantam quando pensam em Jesus? Ainda se maravilham? Ainda se permitem ficar estupefatos? O sacerdote não pode deixar esmorecer essa dimensão, ou se afastará da própria vocação.

segunda-feira, 29 de agosto de 2022

29.08.2022 - Martírio de São João Batista

Amados filhos e filhas, estamos celebrando a memória do martírio de São João Batista. Hoje contemplamos o extremo do anúncio de Jesus Cristo. Se concretiza em João Batista aquilo que Jeremias profetizou: ele foi perseguido, mas não foi vencido. João Batista, em seu papel de precursor, o último dos profetas do Antigo Testamento, denunciava o mal e convidava a conversão. Herodes Antipas até gostava de ouvi-lo, mas Herodíades sabia que por conta da palavra de João, Herodes poderia abandoná-lo, pois eles estavam em uma união ilegítima. Porém, no martírio do precursor do Messias não houve uma vitória de Herodes Antipas, mas, a sua condenação. Antipas, era filho do Herodes pai, aquele que reinava em Israel no tempo do nascimento de Jesus. Ao condenar João Batista a morte por um motivo passional, entregando-se totalmente aos prazeres de Salomé, ao poder, Herodes Antipas  se condena a, depois, ser o condenador do próprio Salvador. Assim, Cristo e seu precursor tiveram seu sangue derramado nas mãos de Antipas. Ele próprio condenou João, e não poupou Jesus, não o libertou, mas o enviou de volta para Pilatos. Celebrando o martírio de João Batista, celebramos justamente que aquele que havia exultado no ventre de Santa Isabel ao sentir a presença do Salvador, agora derrama seu sangue antes do Cristo. Isto é, aquele que preparou os caminhos do Cristo neste mundo, une-se a Paixão de Cristo pelo martírio, e agora vai ser o precursor também na mansão dos mortos. Aquele que anunciou a Palavra de Deus até o extremo de dar a sua vida por dizer a verdade, interceda também por nós para que assumamos o compromisso de evangelização até o derramamento de nosso sangue se for necessário. Assim seja! Amém.

quinta-feira, 25 de agosto de 2022

25.08.2022 - Missa com as Ordens Religiosas

Queridos filhos, saúdo de modo especial nesta Eucaristia todos os irmãos membros dos Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica. Nesta semana celebramos a vocação à vida religiosa. É bela esta vocação a qual fostes chamados em nosso apostolado virtual, pois, confundem-se em vós a religiosidade e a diocesaniedade. Respirais, assim, com dois pulmões: o próprio de vossos carismas e o do Cristo Bom Pastor. Seja vivendo a exemplo do Cristo Redentor na árdua missão evangelizadora, seja seguindo o exemplo de São Francisco, no serviço aos pobres e na vida na pobreza sois chamados, queridos filhos, a serem empregados fiéis e prudentes. Isso é, sois chamados a praticar as obras do Senhor. Se agirem bem, diz o texto bíblico do Evangelho, sereis chamados a serem administradores de todos os bens de Deus. Sois, portanto, interpelados a administrarem bem os vossos carismas. Queridos filhos religiosos, não podeis deixar de suscitar em vossos Institutos e Sociedades o que é próprio de vossos carismas; não podeis ser mau administradores de vossos carismas e viverem hipocritamente. Um hábito, uma roupinha, não vos faz religiosos. O que vos faz religiosos é viverem com verdade e intensidade o carismas que escolhestes abraçar. Nenhum de vós foi forçado a ser membro de algum Instituto e nem os superiores foram obrigados a estes postos. Não! Vós escolhestes. Por isso, abraceis com amor o que vos é próprio. Redentoristas, onde estão vossas missões populares? Franciscanos, onde estão as atividades tão próprias de vosso seráfico pai? Óh, queridos filhos, não penseis que o Senhor está demorando, pois Ele sempre nos cobrará no momento oportuno. No início da Carta à comunidade de Corinto, que ouviremos de hoje em diante nos dias de semana do tempo comum, São Paulo exaltou a diversidade de dons e carismas existentes na comunidade. Por meio desses dons distintos, é confirmado no meio da comunidade o testemunho de Cristo. Vos exorto, assim como exortou o Apóstolo, a serem perseverantes e fiéis ao seguimento de Jesus Cristo e assim faremos de nossa própria vida um canto de bendição ao Senhor nosso Deus. Assim seja! Amém.

quarta-feira, 24 de agosto de 2022

24.08.2022 - Catequese: Adoração e União com Deus

Queridos filhos e filhas, continuamos nossa série sobre a Liturgia como Mistério da Salvação, embasados na obra de mesmo título do Bispo de Tortona e ex-Mestre das Celebrações Litúrgicas Pontifícias, Mons. Guido Marini. Hoje falaremos sobre a adoração e a união com Deus. A adoração é o reconhecimento repleto de admiração, também poderíamos dizer de êxtase - porque nos faz sair de nós mesmos e do nosso pequeno mundo - diante da grandeza infinita de Deus, da sua majestade inatingível, do seu amor sem fim, que se doa a nós com absoluta gratuidade, do seu senhorio onipotente e providente. Por consequência, a adoração conduz o homem e toda a criação à reunificação com Deus, a uma saída do estado de separação, de aparente autonomia, até à perda de si mesmos, que afinal é a única maneira de acontecer esse reencontro. Diante da beleza indizível da caridade de Deus, que toma forma no mistério do Verbo encarnado, morto e ressuscitado em nosso favor, e que encontra na liturgia a sua manifestação sacramental, não nos resta outra coisa senão permanecer em adoração. João Paulo II afirma na Encíclica Ecclesia de Eucharistia: "No evento pascal e na Eucaristia que o atualiza nos séculos, existe uma abrangência realmente grandiosa, na qual está contida a História toda, como destinatária da grande redenção. Esta admiração há de invadir sempre a Igreja recolhida na celebração eucarística" (n. 5). "Meu Senhor e meu Deus!" Assim nos ensinaram desde crianças a dizer no momento da consagração. Dessa maneira, acolhendo a exclamação do apóstolo Tomé, somos levados a adorar o Senhor presente e vivo nas espécies eucarísticas, unindo-nos a ele e reconhecendo-o como o nosso Tudo. E daí se pode retomar o caminho quotidiano, tendo reencontrado a ordem exata da existência, o critério fundamental à luz do qual se possa viver e morrer. Eis por que, na ação litúrgica, no sinal da nobreza, beleza e harmonia, tudo deve conduzir à adoração e à união com Deus: música, canto, silêncio, maneira de proclamar a Palavra do Senhor e o modo de orar, os gestos, as vestes litúrgicas e objetos sagrados, como também o edifício sagrado no seu conjunto. Exatamente nessa perspectiva é que se há de considerar a decisão de Bento XVI que, a partir da festa de Corpus Christi de 2008, começou a distribuir diretamente na língua a santa Comunhão aos fiéis ajoelhados. Com o exemplo desse gesto, o Papa nos convida a tornar manifesta a atitude de adoração diante da grandeza do mistério da presença eucarística do Senhor. Atitude de adoração que deverá ainda mais ser tomada ao se aproximar da santíssima Eucaristia nas outras for mas hoje concedidas. Agradou a Mons. Guido, a respeito citar ainda uma passagem da Exortação apostólica Sacramentum Caritatis, de Bento XVI: "Enquanto a Reforma dava os primeiros passos, às vezes não foi percebida de maneira suficientemente clara a relação intrínseca entre Santa Missa e adoração do Santíssimo Sacramento. Por exemplo, uma objeção então difundida partia exatamente do realce que se dava ao fato de que o Pão eucarístico não nos foi dado para contemplação, e sim para manducação. Na realidade, à luz da experiência de oração da Igreja, tal contraposição se revelava sem fundamento. O próprio Agostinho já tinha dito: 'Ninguém come desta carne, sem antes adorá-la. Pecaríamos se não a adorássemos'. Na Eucaristia, de fato, o Filho de Deus vem ao nosso encontro e deseja unir-se a nós. A adoração eucarística não é mais que o óbvio desenvolvimento da celebração eucarística, a qual em si mesma já é o grande ato de adoração da Igreja. Receber a Eucaristia significa colocar-se em atitude de adoração diante daquele que recebemos. Precisamente assim, e somente assim, nos tornamos uma coisa só com Ele e antecipadamente pregustamos, de alguma forma, a beleza da liturgia celeste" (n. 66). Entre as outras, penso que não tenha passado despercebida esta passagem do texto que acabamos de ler: "Em si mesma, (a celebração eucarística) é o maior ato de adoração da Igreja". Diz ainda Bento XVI: "Graças à Eucaristia, o estar diante de Deus, mediante a participação na doação de Jesus, esse participar do seu corpo e sangue torna-se união" (Deus caritas est, n. 13). Por essa razão, na liturgia, em particular na liturgia eucarística, tudo deve tender para a adoração, e tudo no desenrolar do rito ajuda a entrar no interior da adoração que a Igreja faz ao seu Senhor. Considerar a liturgia como lugar da adoração, da união com Deus, não significa perder de vista a dimensão comunitária da celebração litúrgica, nem muito menos esquecer o horizonte da caridade. Ao contrário, somente através de uma renovada adoração do mistério de Deus em Cristo, mistério que toma forma no ato litúrgico, poderá brotar uma autêntica comunhão fraterna e uma nova história de caridade, conforme a fantasia e heroicidade que só a graça de Deus pode doar aos nossos pobres corações. É o que nos relembra e ensina a vida dos santos. "A união com Cristo é ao mesmo tempo união com todos os demais, a quem ele se doa. Não posso ter Cristo só para mim; eu só posso pertencer a ele, se eu mesmo estiver unido a todos os que se tornaram ou se tornarão pertencentes a ele. A comunhão me afasta de mim mesmo em direção a ele, e assim em direção também à unidade com todos os cristãos" (Deus caritas est, n. 14). Continuamos nossa reflexão na próxima Audiência.

domingo, 21 de agosto de 2022

21.08.2022 - XXI Domingo do Tempo Comum, Liturgia de "Uso Anglicano"

Amados filhos e filhas, estamos celebrando esta liturgia de "Uso Anglicano", neste nosso caminho de conhecer os diversos ritos da Igreja. Dentre os ritos que derivam do Rito Romano, está este rito que hoje celebramos. Os cristãos ingleses, após a cisão com a Santa Igreja, continuaram a desenvolver partes deste rito que hoje celebramos. Claro que, recentemente, quando alguns anglicanos pediram para retornar à comunhão da Igreja, eles adoram também a liturgia da Igreja, como lex orandi, e o papa os permitiu certos elementos da liturgia anglicana tradicional. De fato, percebemos assim o cumprimento daquilo que disse o Profeta Isaías: todas as nações se reúnem no Senhor. É triste que o egoísmo de alguns tenha causado e cause até hoje cisões no Corpo de Cristo. Mas, o Senhor constantemente convida estes filhos e filhas dispersos, que não aceitam a sua Igreja, a aceitá-la para reunirem-se no seu amor. O autor da Carta aos Hebreus fala da correção da parte de Deus: Deus constantemente corrige estes nossos irmãos separados, como também corrige a nossa atitude como Igreja. Porque muitas vezes nós queremos dividir dentro da Igreja e queremos fazer dela uma alfândega. Essa não é a posição dos filhos e filhas de Deus, essa não deve ser a nossa atitude. A porta do Reino de Deus é estreita, disse Jesus no Evangelho. Mas, quantas vezes nós não as estreitamos ainda mais para os outros? Nós queremos privar os outros de passar pela porta do Reino dos céus, mas, nos enchemos de tal modo de nosso orgulho, do nosso egoísmo, ficamos tão cheios de nós mesmos, que nós próprios não entraremos pela porta estreita. É quem se faz humilde, quem acolhe, quem abre os braços para o outro que terá seu lugar no Reino que Deus preparou. Por isso, mudemos as nossas ações, a nossa mentalidade para sermos mais acolhedores, menos prepotentes, capazes de acolher os irmãos e irmãs, com suas diferenças, e como Igreja do Senhor, abraçar a todos para que todos enriqueçam o Corpo de Cristo. Assim seja! Amém.

quarta-feira, 17 de agosto de 2022

17.08.2022 - Catequese: Orientação Litúrgica

Amados filhos e filhas, continuando nossa série de catequeses sobre a Liturgia como Mistério de Salvação, de sua excelência Mons. Guido Marini, falaremos hoje sobre a orientação litúrgica. Acima das mudanças que historicamente têm caracterizado a disposição arquitetônica das igrejas e espaços litúrgicos, uma convicção perdura sempre muito clara no interior da comunidade cristã, quase até nossos dias. Refere-se à oração voltada para o Oriente, tradição que remonta às origens do cristianismo. O que se entende com "oração voltada para o Oriente"? Entende-se o coração orante orientado para Cristo, do qual provém a salvação e para o qual todos tendem como para o Princípio e Termo da História. No Oriente nasce o sol. Ora, o sol é símbolo de Cristo, a Luz que surge no Oriente. Lembre-se a propósito a passagem do cântico messiânico do Benedictus: "O sol que surge no Oriente vem nos visitar" (Lc 1,78). Estudos muito sérios, e também recentíssimos, têm demonstrado que, em qualquer tempo da sua história, a comunidade cristã encontra a maneira de exprimir, também no sinal litúrgico exterior e visível, essa orientação fundamental para a vida na fé. De fato, encontramos as igrejas construídas de maneira tal que a abside esteja voltada para o Oriente. Quando tal orientação já não era possível na edificação do lugar sagrado, recorreu-se ao grande crucifixo colocado no altar e para o qual todos pudessem voltar os olhos. É de pensar também nas absides decoradas com esplêndidas representações do Senhor, para as quais todos eram convidados a erguer os olhos no momento da liturgia eucarística. Sem entrar nos detalhes de uma visão histórica, que nos colocaria no interior de uma reflexão sobre o desenvolvimento da arte cristã, neste contexto nos interessa afirmar que a oração orientada, ou melhor, voltada para o Senhor, é expressão típica do autêntico espírito litúrgico. Nesse sentido, como bem nos relembra o diálogo que introduz o Prefácio, no momento da liturgia eucarística somos convidados a voltar o coração para o Senhor: "Corações ao alto", exorta o sacerdote, ao que todos respondem: "O nosso coração está em Deus". Ora, se tal orientação deve ser sempre interiormente assumida por toda a comunidade cristã recolhida em oração, essa atitude deve ser expressa também com sinal exterior. De fato, o sinal exterior há de ser sempre verdadeiro, de modo que torne manifesta a correta atitude espiritual. Então, aí está o motivo da proposta feita a seu tempo pelo cardeal Ratzinger, e reafirmada no curso do seu pontificado: colocar o crucifixo no centro do altar, de maneira que todos, no momento da liturgia eucarística, possam efetivamente voltar os olhos para o Senhor, orientando assim a própria oração e coração. Vamos ouvir diretamente Bento XVI, que escreve, na introdução ao primeiro volume da sua Opera omnia, dedicado à liturgia: "A ideia de que sacerdote e povo deveriam, na oração, olhar um para o outro surgiu apenas no cristianismo moderno e é completamente estranha no antigo. Sacerdote e povo certamente não rezam voltados um para o outro, e sim para o único Senhor. Por isso é que, na oração, ambos olham na mesma direção: ou para o Oriente como símbolo cósmico do Senhor que vem, ou, nos lugares onde isso não é possível, para uma imagem de Cristo na abside, para uma cruz, ou simplesmente para o céu, como fez o Senhor durante a oração sacerdotal da última noite antes da Paixão (Jo 17.1). Entretanto, caminha-se cada dia mais, felizmente, rumo à proposta que fiz no final do capítulo em questão da minha obra [de Bento XVI] (Introdução ao espírito da liturgia, p. 70-80): não buscar novas transformações, mas colocar simplesmente a cruz no centro do altar, para a qual sacerdote e fiéis possam juntos olhar, para se deixarem guiar de tal maneira para o Senhor, a quem oramos todos unidos". E não se diga que a imagem do crucifixo obscurece a visão dos fiéis em relação ao celebrante. Os fiéis não devem olhar o celebrante, nesse momento litúrgico! Devem olhar para o Senhor! Assim também aquele que preside a celebração deve poder olhar para o Senhor. A cruz não impede a visão; ao contrário, lhe abre o horizonte para o mundo de Deus, e a faz contemplar o mistério, a introduz no céu, de onde provém a única luz capaz de dar sentido à vida neste mundo. Em verdade, a visão ficaria obscurecida, impedida, se os olhos permanecessem fixos naquilo que é apenas presença do homem e obra sua. Assim se compreende por que é ainda hoje possível celebrar a Missa nos altares antigos, quando as particulares características arquitetônicas e artísticas de nossas igrejas o devessem aconselhar. Também nisso o Papa nos dava um exemplo, quando celebrava a Eucaristia no antigo altar da Capela Sistina, na festa do Batismo do Senhor. Em nosso tempo, entrou em voga a expressão "celebrar voltado para o povo". É aceitável dizer assim, quando tal expressão entende descrever o aspecto topográfico, devido ao fato de que hoje o sacerdote, pela colocação do altar, se encontra em posição frontal em relação à assembleia. Mas, não se poderia absolutamente aceitar, se tal expressão tivesse conteúdo teológico. De fato, a Missa, teologicamente falando, está sempre voltada para Deus, através de Cristo nosso Senhor, e seria grave erro imaginar que a orientação principal da ação sacrifical fosse a comunidade. Por isso, tal orientação - voltada para o Senhor - deve animar em cada um a participação litúrgica interior. E é igualmente importante que isso possa ser bem visível também no sinal litúrgico... Nossa reflexão continua na próxima Audiência.

segunda-feira, 15 de agosto de 2022

15.08.2022 - Solenidade da Assunção de Nossa Senhora

Amados filhos e filhas, estamos celebrando neste dia a Assunção de Maria ao céu. É dogma de fé, e todos devemos crer, que a "imaculada Mãe de Deus, a sempre virgem Maria, terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celestial". Porém, filhos e filhas, o dogma não define se Maria morreu ou dormiu, antes de momento. Os mariolólogos debatem ainda sobre esse assunto. Porém, sigo a linha de pensamento de São João Paulo II segundo o qual a morte teria aproximado ainda mais de Cristo, a experiência de Maria. E Maria vive a morte tal como foi preparada por Deus para nós. Essa morte como enfrentamos, triste, incerta, dolorosa, não era o plano de Deus para seus filhos e filhas. Por isso, o Pai, no seu desígnio amoroso, enviou o Filho para ser o primogênito entre os mortos. Isto é, quando Cristo vence a morte em sua Ressurreição, Ele permite a todos nós também vencermos a corrupção da morte. Assim, a morte se torna bendito momento de encontro com o Pai, em seus braços e abraços. E, se Cristo é o primogênito dentre os mortos, logo após Ele, vem aquela que é Imaculada, Maria. Ela é a Mãe do Senhor, preparada para este ministério, e é bendita porque confiou. Sem o pecado, após sua morte ou dormiçao, talvez entendendo esse sono como o "sono da morte", Maria é ressuscitada pela força do Filho, pela força de Jesus, e levada pelos anjos para junto do Filho no céu. Ela não permaneceu na desesperança, pois é aquela que acreditou e que viu se cumprir o que o Senhor lhe prometera. E no céu, a tradição acredita que Maria foi coroada, e colocada num lugar de honra, ou seja, no céu ela se tornou plenamente a cheia de graça, cantando para sempre os louvores do Senhor. Ela é a mulher do Apocalipse, no céu, com a lua sob os pés e na cabeça coroada. Mas, essa mulher é também a Igreja e sendo a Igreja é cada um de nós. Para cada um de nós, filhos e filhas, está reservado um lugar no céu. Todos nós ressuscitaremos, um dia, com Cristo. Agora, se seremos também assuntos em corpo e alma, pois cremos na ressurreição da carne, e se ocuparemos os lugares que nos foram preparados para a eternidade junto de Deus, depende de nossa luta contra o pecado e nossa disponibilidade a, como Maria, irmos ao serviço daqueles que mais precisam. Deus olhou para a humildade de Maria e a elevou aos céus, mas os orgulhosos, canta o Magníficat que ouvimos, ficaram de mãos vazias, mas a humilde foi exaltada. Que possamos, um dia, pelos méritos de Cristo e dando tudo de nós, chegarmos ao lugar que também a nós Deus preparou, quando Ele for vitorioso também em nós. Assim seja! Amém.


domingo, 14 de agosto de 2022

14.08.2022 - XX Domingo do Tempo Comum

Queridos filhos e filhas, quais são as consequências que estamos dispostos a abraçar por amor a Deus? Não há, filhos e filhas, amor sem sacrifício. Não há amor verdadeiro que não acarrete sofrimento. Não há verdade que não fira. Não há seguimento de Jesus Cristo sem suas consequências. E, se ainda não estamos enfrentando as difíceis consequências do seguimento de Jesus, é porque ainda não estamos seguindo direito. Isto, porque, o projeto de Jesus Cristo, a vida conforme seus ensinamentos, é controverso a proposta da sociedade. Por isso, seremos perseguidos. Vejam o exemplo do profeta Jeremias, na primeira leitura, jogado numa cisterna por anunciar o plano de Deus. O profeta sofreu as consequências justamente por ser profeta. Jeremias foi condenado a pagar com a própria vida o anúncio da verdade. Mas, vai além: o próprio Jesus fala no Evangelho que a consequência de segui-lo seria até mesmo a divisão dentro das famílias. Quantos de nós não temos, em nossas casas, em nossas famílias, pessoas que ainda não abraçaram a fé em Jesus Cristo? E essas pessoas não entendem o seguimento. Elas não entendem o nosso empenho e amor para seguir Jesus. Muitas vezes nos questionam se não estamos indo demais a Igreja. Filhos e filhas, isso é absolutamente normal. Jesus já disse que a consequência de abraçá-lo é uma divisão entre os que escolhem a ele e os que não escolhem. Não que Jesus seja o divisor, portanto, mas, a divisão é uma realidade que se fará presente enquanto o mundo todo, todos os povos, todas as famílias, não se converterem completamente ao Evangelho. E a proposta do Evangelho por si mesma é provocativa para aqueles que ainda não acreditam nele. A boa-nova de Jesus impõe sobre nós um outro modo de olhar a realidade, as injustiças, a liberdade, a responsabilidade, enfim, ela é inquietante. Nem por isso podemos nos descompromissarmos com o Reino de Deus, e qualquer tentativa de neutralidade para com ele é ilusão, já estamos compromissados pelo nosso batismo. Pelo batismo já estamos inseridos na luta que é sermos cristãos. Por isso que o autor da Carta aos Hebreus fala que estamos em combate, rodeados por testemunhas, os santos e santas de Deus. E de modo especial, hoje, temos como testemunha São Maximiliano Maria Kolbe, padre e prisioneiro do campo de concentração nazista, Maximiliano abraçou as consequências de ser cristão a ponto de ofertar a própria vida para morrer numa câmara de gás no lugar de um pai de família. Assim, também, irmãos e irmãs, Jesus também abraçou a cruz com grande amor. A cruz era consequência do seu projeto savífico, do seu plano de amor. Nós temos que ter os olhos fixos em Jesus Crucificado para sermos semelhantes a ele, autênticos cristãos. Ele foi o que primeiro resistiu até o derramamento do próprio sangue na luta contra o pecado, e nós devemos fazer o mesmo. De fato, o próprio Jesus anunciou na primeira parte do Evangelho que ouvimos, que Ele veio lançar fogo sobre a terra e que Ele devia receber um batismo. O batismo que Jesus iria receber era o batismo de sangue na sua morte e Ressuscitado Ele envia sobre nós o dom do Espírito Santo, o fogo do alto, para nos renovar e impulsionar na missão. Abracemos, portanto, o Evangelho, a fé em Jesus Cristo até as últimas consequências e confiemos que o Espírito Santo nos dará forças para lutar e para suportar a cruz, até o dia que toda humanidade de se converter para Cristo e Ele for tudo em todos. Assim seja! Amém.

sábado, 13 de agosto de 2022

13.08.2022 - Missa no Rito Ambrosiano

Caríssimos filhos e filhas, neste sábado, dia dedicado a Nossa Senhora, estamos celebrando esta liturgia no rito ambrosiano. Este rito cresceu e difundiu-se concomitantemente ao rito romano. Mas, enquanto em Roma celebrava-se o rito romano, em Milão e nos lugares ao redor celebrava-se o rito ambrosiano, atribuído originalmente a Santo Ambrósio, que foi Bispo de Milão. Este rito histórico foi mantido para a Igreja de Milão e outras regiões, mesmo quando o Concílio de Trento definiu o missal da Cúria Romana para toda a Igreja, extinguindo a maioria dos ritos diocesanos, exceto este e alguns e quando o Concílio Vaticano II ordenou a reforma dos ritos, também o Ambrosiano foi reformado. É belo celebrarmos neste dia este rito, pois recordamos aquilo que afirmou o Concílio de Jerusalém: "A Igreja quer ser aberta a variedade de dons e carismas, de modos de ser, sem perder sua catolicidade, e ao mesmo, tempo, sem perder seu rosto característico.".  De fato, a Sagrada Liturgia foi o modo que Deus nos deu de chegar até nós a graça salvífica de Cristo. Na primeira leitura que escutamos, Ezequiel já dizia que o preço do pecado era a morte, mas Deus não quer a morte de seus filhos. Que Pai seria Deus se quisesse nossa morte? Que Deus seria esse que se alegra com o sofrimento das suas criaturas? Por isso, Jesus diz no Evangelho que o Filho do Homem, isto é, ele próprio, veio ao mundo para salvar o mundo. Veio para não permitir que nós experimentássemos a morte eterna mas, por seu amor, termos a vida eterna. E é essa graça maravilhosa de Deus que chega até nós cada vez que celebramos os ritos sagrados da Igreja. Deus quis que a salvação por meio da paixão, morte e ressurreição acontecesse uma vez por todas na história, mas fosse celebrada todos os dias nos altares do mundo todo. Por isso, filhos e filhas, aproveitemos os sacramentos como momentos de louvor a Deus, mas também de santificação, aproveitando-nos da força de salvação dos ritos Sagrados da Igreja, que Deus preparou para que por meio dele alcancemos a vida eterna. E que neste caminho, Maria Santíssima, a que primeiro experimentou a graça de ter em si o Corpo de Cristo, nos ajude a experimentarmos autenticamente o que o Pai nos concede na força do Sacramento. Assim seja! Amém.

sexta-feira, 12 de agosto de 2022

12.08.2022 - Sexta-Feira da XIX Semana do Tempo Comum

Amados filhos e filhas, aos quais saúdo em nome de Dom Cristiano, pároco deste Santuário. O Evangelho que ouvimos coloca-nos diante de duas vocações, dois chamados: ao matrimônio e ao celibato. São duas vocações que num primeiro momento parecem-nos totalmente antagônicas, mas que, na verdade, não são. Todo ser humano nasce para amar. Deus nos criou para o amor. Nós temos, portando, uma necessidade natural de corresponder ao chamado à amar. A nossa vocação universal é à santidade, mas mesmo a santidade não existirá em nós sem experimentarmos com profundidade a mística do amor. E o amor sempre exige uma renúncia. Não há, filhos e filhas, amor sem sacrifício. Vejam o Cristo na cruz: é a prova de amor maior; é o extremo do amor; o limite do amor; a exigência do amor. Por isso, no Evangelho que escutamos, quando perguntam a Jesus acerca da certidão do divórcio, Ele diz que isto não é o certo. Sabemos, sim, que existe um processo de nulidade na Igreja onde se analisa se aquele casamento foi ou não um sacramento. Mas, neste processo se investiga o pré-casamento: as intenções, se alguém foi obrigado, coagido, algo do tipo. Mas, uma vez que houve de fato um vínculo matrimonial, ninguém mais pode romper. O que muitas vezes destrói casamentos legítimos é justamente o esfriamento do amor, a medida em que um deixa de fazer sacrifícios pelo outro. Cada um do casal passa a olhar só a si e se preocupar apenas consigo. E do mesmo modo que ao optar por um casamento o homem ou a mulher renunciam todos os outros homens e mulheres do mundo, aqueles que abraçam o celibato o fazem. São duas realidades que exigem renúncias, exigem sacrifício, e esse sacrifício só faz sentido no amor a Deus. Nem o cônjuge, no caso dos casados, nem o povo de Deus ou a Igreja, no caso dos celibatários, corresponde completamente nosso anseio por amor, carinho, reconhecimento, enfim, todas nossas necessidades humanas. Mas, quando nos perdemos amorosamente nessas realidades, inebriados pelo amor de Deus, aí sim tudo faz sentido, a renuncia e o sacrifício acontecem com leveza e alcançamos a felicidade nessa vida e a vida na eternidade. Assim seja! Amém.

quarta-feira, 10 de agosto de 2022

10.08.2022- Festa de São Lourenço

Amados filhos e filhas, saúdo a todos na pessoa do pároco desta paróquia, Pe. Ruan. Estamos celebrando São Lourenço, diácono e mártir: o mártir dos últimos. Já no tempo Apostólico foram eleitos sete diáconos para auxiliarem os Apóstolos servindo sobretudo na caridade, mas também na Palavra e na Liturgia. Dentre os diáconos, grande destaque teve São Lourenço. Ele era arquidiacono de Roma, com Sisto II. Ali ele organizou o serviço da caridade. E quando o imperador o prendeu e o ordenou que entregasse os tesouros da Igreja, Lourenço apresenta os pobres e diz: "Estes são os grandes tesouros da Igreja!". Santo Ambrósio narra um encontro imaginário entre Lourenço e o Papa Sisto II, ao longo da via do martírio do Papa. No encontro, Lourenço diz: "Para aonde o senhor vai, pai, sem seu filho? Aonde vai com tanta pressa, santo bispo, sem o seu diácono? O senhor nunca ofereceu um sacrifício sem seu ministro. O que lhe desagradou de mim, pai? Talvez, o senhor acha que eu seja indigno? Procure ver se escolheu um ministro indigno para a distribuição do sangue do Senhor! Será que vai rejeitar aquele, que admitiu aos divinos mistérios, como seu companheiro na hora de derramar o sangue?". Assim, filhos e filhas, neste belíssimo texto Santo Ambrósio relembra o inesgotável serviço de São Lourenço. E por ter servido a Cristo e aos irmãos nesta vida, com seu martírio, assado numa grelha, diz a tradição que ele não sentiu a dor e assim recebeu a glória do Pai, que Jesus disse no Evangelho: "Quem me serve, meu Pai o honrará". Sigamos os passos deste santo Diácono e tornemo-nos todos nós servos. Lembremos que o grande gesto de serviço do Cristo foi o Lava-pés, representando o serviço que faria por nós de morrer na cruz. Sejamos, portanto, servidores e não tenhamos medo de desgastar a nossa vida para seguir Jesus e para fazer o bem; não ficaremos sem a nossa recompensa. Termino com um escrito de Santo Agostinho: "Cristo humilhou-se: aí tens, cristão, a que te apegar. Cristo se humilhou: por que te enches de orgulho? Em seguida, terminada a carreira desta humilhação, lançada por terra a morte, Cristo subiu ao céu; sigamo-lo.". Assim seja! Amém.

10.08.2022 - Dedicação da Catedral de Brasília

Amados filhos e filhas, saúdo-vos todos na pessoa de Dom Caio Medeiros, Arcebispo Metropolitano de Brasília e dos demais irmãos que concelebram esta Eucaristia. Estamos reunidos para dedicar a Deus esta Catedral de Brasília em honra de Nossa Senhora da Conceição Aparecida. Lembramo-nos hoje, em nosso hotel, daquele sonho de São João Bosco pelo qual ele viu esta cidade no coração da América do Sul. De fato, Brasília também está no coração do território brasileiro. Dedicarmos está Catedral é, também, darmos um impulso ainda mais forte na missão desta Igreja Particular. Isto porque ao dedicarmos uma catedral, nós dedicamos a Deus o lugar que representa a cabeça da Igreja Particular. Mas, não apenas isso, esse rito de Dedicação quer impulsionar a Igreja de Brasília para três encontros: com Deus, com a formação presbiteral e com a sociedade. Acredito firmemente que o plano de encontro com os setores da sociedade, dos poderes, com os povos dos bairros e RPG's descentes, promovidos pela Igreja de Brasília, poderão sim colaborar muito com nossa missão evangelizadora. Jesus Cristo e seu plano, seu projeto de amor, não fica restrito as nossas sacristias e nem mesmo as nossas Igrejas: Ele deve ser anunciado em todos os lugares. Por isso, ao dedicarmos essa catedral, queremos dedicar também os nossos corações para o Senhor. No Evangelho que ouvimos Jesus fala justamente sobre a importância de dedicar o coração. Filhos e filhas, de nada vale a dedicação desta Igreja se não for para que nela a comunidade se reúna para rezar e mais, para adorar o Senhor em espírito e verdade. Chegou o momento de Jesus, onde Deus é adorado não apenas em lugares específicos, mas é adorado em todos os lugares. Basta que tenhamos um coração ungido, um coração dedicado a Deus, um coração voltado a Deus. Deus não está mais no alto dos montes, nem no templo de Jerusalém, Ele está no coração de cada discípulo e de cada discípula. Isso não diminui o valor do templo de pedras, pelo contrário, o dá ainda mais valor. Porque o templo atual não é mais lugar apenas de nós oferecermos um sacrifício, mas é o lugar onde Deus se oferece em sacrifício. O templo agora é lugar de morada ainda mais concreta de Deus com o seu povo. Por isso, não há mais um único templo, mas várias igrejas, vários templos espalhados. E em todos eles Deus está presente. Um templo não o limita, pelo contrário, expande ainda mais a sua presença em nosso meio. Assim se completam: templo e povo. É o povo reunido que dá sentido ao templo, e é o templo que representa e exprime de modo melhor a presença da comunidade e também a presença de Deus. Para o povo da primeira leitura de Neemias, ter se afastado do templo no tempo do exílio foi motivo de grande tristeza e de muita dor. Mas agora, retornando à terra prometida, o povo pode reconstruir o templo. E por isso eles se alegram e festejam. Festejamos também nós por este templo hoje dedicado, festejamos pois aqui está representada a presença de Deus entre nós, festejamos pois este é nosso lugar de adoradores para adora-lo em espírito e verdade e dediquemos a Ele os nossos corações, para que Igreja missionária em Brasília manifestemos que Deus está entre nós. Assim seja! Amém.

10.08.2022 - Audiência Geral

Amados irmãos e irmãs, desde 09 de julho, estou tentando iniciar convosco as nossas Audiências Gerais. Acredito que elas são um momento muito bom de interação entre o Bispo de Roma e os irmãos e irmãs. Passadas as cerimônias inaugurais do pontificado, tivemos as festividades do aniversário da Igreja, logo em seguida uma semana cheia, depois a Jornada Sacerdotal e finalmente hoje podemos iniciar com nossas Audiências Gerais que ocorrerão semanalmente. Nestas primeiras catequeses gostaria de tratar convosco sobre o tema da Sagrada Liturgia como mistério da salvação. Para isso, vamos fazer um estudo do texto sobre o assunto de Mons. Guido Marini. O então Monsenhor tenciona, com esta reflexão, discorrer sobre alguns temas que se referem ao espírito da liturgia. Sua proposta é grande, diria até grandíssima. Não só porque falar do espírito da liturgia exige empenho e é bem complexo, mas também porque, sobre o tema, autores de indubitável e alta expressão litúrgica e teológica apresentam obras importantíssimas. Pensemos apenas em dois exemplos, entre outros: Romano Guardini e Joseph Ratzinger. Por outro lado, é um fato que tratar hoje do espírito da liturgia é mais do que necessário, sobretudo entre os sacerdotes. Também porque é urgente reafirmar o "autêntico" espírito da liturgia, tal como está presente na tradição ininterrupta da Igreja e testemunhado, em continuidade com o passado, no mais recente magistério, a partir do Concílio Vaticano II até Bento XVI e Papa Francisco. Digo "continuidade", termo benquisto ao Papa Bento XVI, que fez dele, com autoridade, o critério para a única interpretação correta da vida da Igreja, e em particular dos documentos conciliares, como também dos propósitos de reforma em todos os níveis neles contidos. E não poderia ser de outra maneira. Será que se pode imaginar uma Igreja de ontem e outra de hoje, como se tivesse havido uma ruptura na história do corpo eclesial? Ou será possível afirmar que a Esposa de Cristo, no passado, tenha transcorrido algum tempo histórico em que o Espírito não tenha dado assistência a ela, como se tal tempo devesse ser esquecido e cancelado? No entanto, às vezes, alguns dão a impressão de aderir a uma que se pode definir verdadeira e própria ideologia, ou ainda a uma ideia preconcebida que se aplique à história da Igreja e que nada tenha a ver com a fé autêntica. Fruto dessa ideologia desviante, por exemplo, é a corrente distinção entre Igreja pré-conciliar e Igreja pós-conciliar. Pode até ser legítima tal linguagem, na condição porém de não dar a entender com isso duas Igrejas: uma - pré -conciliar que já não teria nada para dizer ou dar, porque irremediavelmente superada; e a outra - pós-conciliar - que seria uma realidade nova nascida do Concilio e de algum presumido espírito seu, que se tenha rompido com o passa do. Esse modo de falar, e até de "sentir", não há de ser o nosso. Além de errôneo, é superado e datado, talvez até compreensível historicamente, porém ligado a uma estação eclesial já concluída. O que até aqui se afirmou a respeito da "continuidade", será que tem algo a ver com o tema que somos convidados a tratar? Absolutamente sim. Pois não pode existir o autêntico espírito da liturgia, quando não buscada com ânimo sereno e nada polêmico a respeito do passado, tanto remoto quanto próximo. A liturgia não pode nem deve ser terre no de choque entre os que só encontram o bem naquilo que havia antes de nós, e, por outro lado, aqueles que só enxergam o mal naquilo que existia antes. Somente a disposição de olhar o presente e o passado da liturgia da Igreja, como patrimônio único que se desenvolve homogêneo, é que pode levar-nos a obter, com alegria e prazer espiritual, o autêntico espírito da liturgia. Um espírito que precisamos acolher da Igreja e que não é fruto de nossas invenções. Um espírito, digo mais, que nos leva ao essencial da liturgia, ou seja, a uma oração inspirada e guiada pelo Espírito Santo, na qual Cristo continua a ser nosso contemporâneo, irrompendo em nossa vida. De fato, o espírito da liturgia é a liturgia do Espírito. Quanto ao tema proposto, claro que não pretendemos ser conclusivos. Nem mesmo pretendemos tratar todos os temas que seria útil desenvolver em abrangente panorâmica da questão. Limitamo-nos a considerar alguns aspectos da essência da liturgia, com referência específica à Celebração eucarística, tal como a Igreja os apresenta e da maneira como Mons. Guido Marini aprendeu a aprofundá-los nos primeiros dois anos de serviço junto a Bento XVI, que ele considerou como verdadeiro mestre de espírito litúrgico, seja através do seu ensinamento, seja mediante o exemplo de sua celebração. Ao considerar alguns aspectos da essência da liturgia, o Monsenhor considera que se perceber que estará apontando algum comportamento que considera não estar plenamente em sintonia com o autêntico espírito litúrgico, o fará tão somente para oferecer sua pequena contribuição a fim de que esse espírito possa aparecer ainda mais em toda a sua beleza e verdade. 
Nossa primeira catequese desta série, portanto, é: A SAGRADA LITURGIA, GRANDE DOM DE DEUS À IGREJA.
Como bem sabemos, o Concílio Vaticano II dedicou à liturgia todo um documento, aliás o primeiro na ordem de publicação. Seu nome é Sacrosanctum Concilium, que se define como a Constituição da sagrada liturgia. É o termo sagrado que pretendemos sublinhar como ligado à "liturgia". A respeito, não se trata de um caso ou de um aspecto de pouca importância. De fato, foi assim que os Padres conciliares entenderam dar força ao caráter sagrado da liturgia. Mas, o que se entende por caráter sagrado? Os orientais falariam de uma dimensão divina da liturgia. Ou seja, daquela dimensão que não se deixa ao arbítrio do homem, porque é dom que vem do alto. Em outras palavras, trata-se do mistério da salvação em Cristo, mistério confiado à Igreja, para que esta o torne disponível em qualquer tempo e lugar, através da objetividade do rito litúrgico-sacramental. Uma realidade, portanto, que nos supera e que se há de acolher como dom, e pela qual nos deixamos transformar. Realmente, como afirma o Concilio Vaticano II, "toda celebração litúrgica, enquanto obra de Cristo sacerdote e do seu Corpo que é a Igreja, é ação sagrada por excelência..." (Sacrosanctum Concilium, n. 7). Colocando-nos nessa perspectiva, não é difícil convencer-nos da distância que vai entre alguns modos de agir e o autêntico espírito da liturgia. De fato, sob o pretexto de criatividade mal concebida, às vezes chega-se a distorcer, nas mais variadas maneiras, a liturgia da Igreja. Em nome do princípio de adaptação a situações locais e a necessidades da comunidade, assume-se o direito de tirar, acrescentar ou modificar o rito litúrgico de acordo com a própria subjetividade ou emoção. A esse respeito, nós sacerdotes temos grande responsabilidade. A propósito, assim já dizia o cardeal Ratzinger em 2001: "No mínimo, necessita-se de uma nova consciência litúrgica, é preciso subtrair espaço à tendência de agir sobre a liturgia como se fosse objeto de nossa habilidade manipuladora. Chegamos ao ponto de alguns grupos litúrgicos, por própria iniciativa, se apropriarem da liturgia dominical. O resultado é certamente fruto da inventividade de um grupo de pessoas hábeis e capazes. No entanto, dessa maneira se reduz o lugar onde se encontra comigo o totalmente Outro, e no qual o sagrado se oferece a nós como dom. O que estou enfrentando é apenas a habilidade de um grupo de pessoas. Então se percebe que não é o que estamos procurando. É muito pouco, e também algo diferente. Hoje é bem mais importante readquirir o respeito pela liturgia e a consciência de que ela não pode ser manipulada. É preciso reaprender a reconhecê-la no seu ser de criatura vivente que cresce e nos foi confiada, através da qual nós tomamos parte na liturgia celeste. Renunciar ao desejo de buscar nela a própria autor realização, para ao contrário ver nela um dom. Esta, creio eu, é a primeira coisa: vencer a tentação de um agir despótico, que concebe a liturgia como objeto de propriedade do homem, e despertar o senso interior do sagrado" (Dio e il mon do, Edizioni Paolo, Cinisello Bal samo, 2001). Portanto, afirmar que a liturgia é sagrada significa sublinhar o fato de que ela não vive de invenções esporádicas e "descobertas" sempre novas de alguma pessoa ou grupo. Ela não é um círculo fechado, no qual decidimos encontrar -nos, talvez para nos encorajarmos mutuamente e sentir-nos protagonistas de uma festa. A liturgia é convocação que provém de Deus, para estarmos em sua presença; é a vinda de Deus até nós, é Deus que se torna presente em nosso mundo. Certa forma de adaptação a situações particulares está prevista, e é ótimo que esteja. O próprio Missal a indica em algumas partes. No entanto, nessas partes, e somente nelas, não arbitrariamente em outras. O motivo é importante, e é preciso reafirmá-lo: a liturgia é dom que nos precede, tesouro precioso que nos foi confiado pela oração secular da Igreja, é lugar em que a fé da Igreja encontrou forma e expressão orante no tempo. Nada disso fica à nossa disposição subjetiva. Não está disponível para nós, por estar integralmente à disposição de todos, ontem como hoje, e ainda amanhã. "Em nossos tempos também - como escreveu João Paulo II na Encíclica Ecclesia de Eucharistia a obediência às normas litúrgicas deveria ser redescoberta e valorizada como reflexo e testemunho da Igreja una e universal, que está presente em cada celebração da Eucaristia". Na estupenda Encíclica Mediator Dei, citada com frequência na Sacrosanctum Concilium, Pio XII definia a liturgia como "o culto público... o culto integral do corpo místico de Jesus Cristo, isto é, da cabeça e de seus membros". Era como dizer, entre outras coisas, que na liturgia a Igreja reconhece "oficialmente" a si mesma, o seu mistério de união esponsal com Cristo, e aí "oficialmente" se manifesta. Portanto, com que insana falta de senso poderíamos nós arrogar-nos o direito de alterar, de maneira subjetiva, esses sinais santos que o tempo avalizou, e através dos quais a Igreja fala de si, de sua própria identidade, de sua própria fé? Existe um direito do povo de Deus que não pode jamais ser menosprezado. Em virtude de tal direito, todos precisamos estar em condições de alcançar o que não é simplesmente fruto pobre do agir humano, e sim obra de Deus, exatamente por isso é fonte de salvação e vida nova. Alongamo-nos ainda um momento sobre esse tema que, Monsenhor Guido testemunha, está bem no coração do Papa, ouvindo mais uma vez o trecho de Sacramentum caritatis, exortação apostólica de Bento XVI, que brotou do Sínodo dos Bispos sobre a Eucaristia: "Sublinhando a importância da 'arte de celebrar' – afirma o Papa -, coloca-se em luz, por conseguinte, o valor das normas litúrgicas... A celebração eucarística é valorizada exatamente onde os sacerdotes e os responsáveis da pastoral litúrgica se esforçam para tornar conhecidos os livros litúrgicos e relativas normas em vigor... Nas comunidades eclesiais, talvez se considere como algo usual o conhecimento deles e sua justa valorização, mas com frequência não é isso que acontece. Na realidade, são textos onde estão contidas riquezas que guardam e exprimem a fé e o caminho do povo de Deus ao longo de dois milênios da sua história".

terça-feira, 9 de agosto de 2022

09.08.2022 - Primeiro mês de pontificado

Saúdo o superior geral dos Redentoristas, Dom Vito Cardeal Lavezzo, que me convidou para celebrar aqui a comemoração do primeiro mês de meu pontificado. Em seu nome saúdo todos os diletos concelebrantes e todos que estão aqui presentes. Queridos filhos e filhas, a liturgia desta terça-feira nos interpela a sermos alimentados pela Palavra de Deus. A profecia de Ezequiel ilustra justamente esta realidade. Após a visão que Ezequiel teve ontem, hoje ele é chamado para a missão profética. Mas, para ser profeta, antes ele deve se alimentar da Palavra. E a Palavra era doce como o mel em sua boca. Ezequiel é otimista, filhos e filhas. Sabemos que nem sempre a Palavra do Senhor é doce, nem sempre ela "desce fácil". Muitas vezes a Palavra nos exige mudanças radicais, nos exige uma transformação, e isso nem sempre é fácil. A Palavra do Senhor tantas e tantas vezes nos tira do comodismo e ainda assim segui-la é mais doce do que seguir as palavras, ou melhor, as outras vozes. Ela é mais doce porque, mesmo quando dura, está propondo o amor e aliança. E é só experimentando em nós a ação de Deus, aquilo que Deus nos propõe por sua Palavra, que nós seremos capazes de levar essa mesma Palavra a todos. Diante da Palavra de Deus devemos ser como crianças, na dinâmica do Evangelho que ouvimos. Isto é, como crianças, devemos nos confiar e deixarmo-nos sermos guiados pelo próprio Deus. A criança confia no pai ou na mãe e acolhe com pureza o que lhes é ensinado. Assim também devemos ser diante daquilo que Deus nos fala: termos uma atitude de confiança. Diante de Deus, reconheçamos que somos pequenos. Não tenhamos medo, filhos e filhas, de ouvirmos o que Deus quer de nós e com sabedoria acolher sua Palavra em nossas vidas para sermos conforme os seus projetos. E quando formos profetizar, a partir da nossa vivência com a Palavra, precisamos profetizar a todos, sem excluir ninguém. Pensemos nas condições das crianças no tempo de Jesus: eram consideradas como inferiores, sem importância social. Aliás, era muito comum uma criança morrer por doenças. Ou seja, só se investia nas crianças se vissem que ela iria "vingar". Ainda hoje existe esta cultura em alguns povos. Esta cultura é negativa. Nossa missão profética é alcançar também as crianças, e mais, alcançar todos os pequeninos, todos os menores, todos os menosprezados, todos aqueles que são descartados e todos aqueles que o pecado maculou. A todos devemos levar a Boa-nova, pois somente a Palavra de Deus pode transformar o mundo. Assim seja! Amém.

segunda-feira, 8 de agosto de 2022

08.08.2022 - Encontro com os Bispos

Irmãos, vamos ouvir o Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus.
Naquele dia, Jesus saiu de casa e foi sentar-se às margens do mar da Galiléia. Uma grande multidão reuniu-se em volta dele. Por isso, Jesus entrou numa barca e sentou-se, enquanto a multidão ficava de pé, na praia. E disse-lhes muitas coisas em parábolas: “O semeador saiu para semear. Enquanto semeava, algumas sementes caíram à beira do caminho, e os pássaros vieram e as comeram. Outras sementes caíram em terreno pedregoso, onde não havia muita terra. As sementes logo brotaram, porque a terra não era profunda. Mas, quando o sol apareceu, as plantas ficaram queimadas e secaram, porque não tinham raiz. Outras sementes caíram no meio dos espinhos. Os espinhos cresceram e sufocaram as plantas. Outras sementes, porém, caíram em terra boa, e produziram à base de cem, de sessenta e de trinta frutos por semente. Quem tem ouvidos, ouça!”.
Palavra da Salvação.

Amados filhos e irmãos, que bom termos este nosso momento de encontro. O encontro do Sumo Pontífice, cabeça do colégio episcopal, com os demais membros deste mesmo colégio é sempre um encontro que tende a ser profícuo. Inspirados pela Palavra que acabamos de escutar, gostaria de propor para todos nós duas sinceras meditações. 
A primeira meditação é: qual terreno sou eu? Esta meditação é comum, corrente para nós, mas nem por isso pode deixar de ser respondida. Como nós estamos acolhendo em nossas vidas a palavra e a vontade do Senhor? Ou achamos que vamos ser capazes de dar aos outros àquilo que nem nós mesmos temos? Fico pensando nos bispos que andam por aí o tempo todo de mal humor, o tempo todo desanimados, com os quais não se pode contar para nada. Me pergunto: será que fizeram realmente um encontro com a Palavra do Senhor? Será que deixaram se transformar por ela? É muito fácil subir no ambão e ler a Palavra, e até mesmo fazer pregações. A parte difícil, meus irmãos, é deixar que essa Palavra seja transformadora em nossas vidas. É claro que, prestem atenção, nenhum terreno dá a mesma quantidade de frutos, e nenhuma semente produz a mesma quantidade de frutos: uns são cem, outros sessenta e outros trinta. Isso é natural. Agora, é ruim quando não produzimos fruto algum. Existem entre vós, irmãos, e isto é completamente aceitável, aqueles que tem vocação para Bispo Auxiliar, por exemplo. Isso é negativo? De modo algum. Essa é a quantidade de frutos que alguém consegue dar. Por isso, a vida no clero não é uma constante subida, onde outrora éreis padres, hoje sois bispos, e amanhã sereis cardeais. Pelo contrário, acredito que nos últimos tempos a probabilidade maior vem sido a de descer do que a de subir. É muito mais fácil descer do que subir. A luta, então, não é uma luta por cargos, é uma luta por produzir frutos para a Igreja. Pode ser que alguém produza menos frutos, por exemplo, mas frutos melhores. Óbvio que quando for o momento de escolher alguém para ir para outro ofício, este será escolhido. Mas, e o que ficar como Bispo Auxiliar, este é diminuído? De modo algum. Tanto que, bem sabeis, não há diferença alguma de dignidade entre os Bispos e os Arcebispos: muda o ofício e o título, apenas. Um Arcebispo que não sabe conviver com respeito e não escuta seus Bispos Auxiliares está fadado a não conseguir levar adiante sua Arquidiocese. Um Arcebispo que toma tudo para si e não delega nada aos auxiliares, não confia neles, não levará seu trabalho adiante. É preciso haver esse vínculo de mútua confiança e mútua ajuda e crescimento. Não é necessário, ao meu ver, mais do que dois auxiliares por Arquidiocese. Por isso, o Arcebispo deve confiar em seus Bispos Auxiliares e ser próximo deles e estes próximos do Arcebispo. Se os Bispos Auxiliares não ajudam, o Arcebispo confiará ainda mais em seus presbíteros, que também podem desempenhar importantes funções na Igreja Particular, tanto que não é necessários tantos Auxiliares. E se tanto Bispos Auxiliares quanto Arcebispo estiverem falhando, ambos devem reclamar ao Dicastério para os Bispos. Os senhores sabem melhor o que acontece em vossas Igrejas do que nós. Enfim, quem cresce com vosso trabalho é a Igreja e não vós. O grande problema é que temos uma tendência a ficarmos nos comparando: "Por que ele e não eu?". Existem várias respostas para isso, mas, pode ser que, simplesmente, ele foi considerado que lidaria melhor para aquele ofício. Recordo, aqui, de Dom Lindomar Araújo. Dom Lindomar é um bispo chato, insuportável, vitimista. Lidar com ele era terrível. Mas, ele desempenhou muito bem funções em outras áreas fora da vida pastoral. Mas, sobressaia em vossas mentes que cada um dá uma quantidade diferente de frutos e frutos de qualidades diferentes, e isso não é negativo. Só não podemos fazer como aquele que precisei demitir essa semana, porque o rapaz simplesmente não dava as caras e já estava de achincalhamento, de zoação. E aqui um ponto importante: não zoem, não achincalhem, não cuspam na cara da Igreja. Sede com ela amorosos. Queridos filhos, nada me faz me dedicar a esta Igreja senão o fato de que a amo. A amo como papa, a amava como cardeal e a amaria se fosse exonerado a padre. Se amamos a Igreja as coisas fluem naturalmente. Tanto vós que estais nas funções administrativas, os Bispos Auxiliares, os Arcebispos, todos, se amarem a Igreja verão seu trabalho frutificar. Mas, não se enganem, vossos trabalhos são sim medidos. Há bispos que nem celebram missa, nem concelebram o papa, nem arcebispos, nem ajudam os padres, que NÃO SABEM celebrar uma missa direito, NÃO SABEM fazer uma homilia e muito menos tem contato com os seminaristas e os leigos. Este não é o tipo de Bispos que a Igreja quer mais. Queremos Bispos dispostos a contribuir, a ser presente e presença tanto na vida litúrgica - não minha, mas também nas vossas -, como na formação presbiteral - missão que vos cabe mais do que a qualquer outro - e no contato com as realidades como o laicato. 
E disso eu puxo o gancho para a segunda meditação: como semeadores que sois, conheceis vosso terreno? Bispos, conheceis vossos padres? Cada um deles? Vocês sabem quais são as dificuldades deles? O que vocês fazem para integrá-los quando sentem que eles começam a se afastar. Eu estou sentindo falta de padres que eram ativíssimos e que sumiram sem pedir emeritação. É preciso correr atrás, sim, e sobretudo gastar tempo. Esta é uma missão vossa. Vós sois o braço da Igreja que tem essa responsabilidade. Não é uma missão do Dicastério para o Clero: é antes dos senhores. Não podem se ausentar desta missão tão particular. Além disso, um olhar para a formação presbiteral: Bispo Auxiliar pode e deve ser reitor ou ao menos formador no seminário. Arcebispo tem a missão de ser um exemplo nisto também, formando ou ao menos estando próximos. É preciso conhecer os seminaristas, saber o horário que eles logam e estar próximos. Eu já disse isso na semana passada e repito: o que nos faz perder seminaristas as vezes é justamente que nós não os integramos o suficiente. (E aqui faço um parêntese para vos dizer que ireis acompanhar e alguns participar ativamente na reforma da apostila dos seminários que começará na próxima semana e deve durar um mês ou um mês e meio, seguindo as especificações do XI Sínodo dos Bispos do ano passado, da exortação apostólica Fecerunt Me, e atualizando certas realidades conforme a vicissitude dos tempos. Por isso, também, teremos um novo diretório anexo a apostila para guiar a formação em toda a Igreja). É preciso conhecer, também, os leigos, fazer amizades. Eu vejo trabalhos como o do Frei Ruan e me alegro muito. Por quê? Pois por mais que ele dê umas escorregadinhas, é um homem que se esforça por conhecer os leigos, por atrai-los. Irmãos, prestem atenção, se não conhecerdes o terreno, podereis até lançar sementes, mas não haverá fruto. É preciso conhecer o terreno que sois chamados a ser semeadores. É preciso, sobretudo, se envolver. Se envolver com todas as realidades das nossas Igrejas particulares e não sermos alheios. Somos todos co-responsáveis pela Igreja. Depois, as coisas começam a dar errado e ficamos jogando a culpa em uns ou em outros, mas, nos esquecemos que somos co-responsáveis pela Igreja, pela missão. Sem esta noção de que todos vocês tem essa responsabilidade comigo, não haverá a compreensão que juntos somos um colégio, o colégio episcopal, o colégio apostólico. E é o que somos. Todos nós juntos temos a missão de construir a Igreja e guiá-la em sua missão. Não sois passivos do poder deste colégio. Por isso, o caminho de nossa Igreja também no Habbo é um caminho de sinodalidade, onde nos dispomos a caminhar juntos e assumirmos juntos os compromissos da evangelização, da missão, enfim, de sermos semeadores do Reino de Deus.
Que Deus nos ajude a compreendermos quem somos e a nos envolvermos com todas as realidades de nossa Igreja, a qual nos dispomos a servir e a sermos responsáveis por sua missão. Assim seja! Amém.

domingo, 7 de agosto de 2022

07.08.2022 - XIX Domingo do Tempo Comum

Amados filhos e filhas, a liturgia deste décimo nono Domingo do Tempo Comum nos insere na dinâmica de sermos o povo da aliança com Deus, para o qual Deus prometeu uma herança. O livro da Sabedoria aponta para nós como o povo de Deus no antigo testamento esperou e confiou no Senhor. Quando o povo era escravo no Egito e Deus prometeu a noite da libertação, a noite da Páscoa, este povo não se desanimou, pois confiou na aliança do Senhor para com eles. Por isso, o salmista canta que feliz é o povo que o Senhor escolheu por sua herança, isto é, escolheu para si e prometeu um bem futuro. O autor da Carta aos Hebreus narra a experiência de Abraão e de como ele esperou no Senhor, na palavra do Senhor, na aliança que o Senhor havia feito com ele. Abraão confiou mesmo quando o Senhor o pediu o sacrifício do seu filho único, que o autor da Carta diz que é um símbolo. De fato, o próprio Pai ofertou o seu Filho para firmar uma aliança. Mas, essa aliança não foi firmada mais só com o povo hebreu, foi firmada também conosco uma nova e eterna aliança, no Sangue redentor de Jesus Cristo. E todos aqueles que faziam parte da antiga aliança, diz ainda a Carta aos Hebreus, morreram buscando a pátria celeste. Todos morreram esperando a herança que Deus os preparou. Mas a nós, povo da nova e eterna aliança, não só buscamos essa pátria, mas já a experimentamos. Há, graças a Jesus, um já e um ainda-não. Isso quer dizer que ao mesmo tempo que o Reino de Deus, que recebemos por herança, já está entre nós, ele só será pleno na eternidade, que chamamos de céus. Só teremos parte no Reino dos Céus se já começarmos a experimentá-lo no "já". Fazemos isso pelo amor fraterno, pela oração, pelos sacramentos e de modo especialíssimo pela Eucaristia: esta é a parte da herança que já experimentamos neste mundo. E quem espera no Senhor se mantém vigilante pela segunda vinda do Senhor e também pelo momento em que os nossos olhos se fecharão para este mundo. Colocando isso em prática, experimentaremos a aliança com Deus e não precisaremos temer a chegada do Filho do Homem. Mas, não brinquemos, filhos e filhas, não deixemos para amanhã tomar parte na herança do Senhor, vivendo uma de busca da santidade. Se o Senhor passar hoje, receberemos o Reino dos Céus como herança ou seremos excluídos do banquete celeste?

quinta-feira, 4 de agosto de 2022

04.08.2022 - Solenidade de São João Maria Vianney

Queridos filhos e filhas, encerramos nossa Jornada Sacerdotal celebrando a memória, neste evento celebrada como solenidade, de São João Maria Vianney, patrono dos sacerdotes. As leituras escolhidas por nós para esta celebração possuem o mesmo plano de fundo: o prêmio pelo nosso ministério. Há uma inegável condição humana, por conta do pecado, de busca do poder e da recompensação munda, uma busca por reconhecimento. Mas, entre nós, não deve ser assim, alerta-nos Jesus. Não que haja um problema na premiação ou na recompensa. Percebemos no livro do Deuteronômio que enquanto cada casa de Israel recebia uma herança, a tribo de Levi não a recebeu. Não recebeu herança, pois recebeu o próprio Senhor. Isto é, tinha a satisfação do serviço a Deus. É este mesmo serviço e cuidado das coisas de Deus e do povo de Deus que São Pedro fala que nos fará receber a coroa imperecível da glória. Mas, para chegar a isso, é necessário dedicação. Percebam, porém, filhos, em nenhum dos dois textos se prometeu qualquer tipo de recompensa neste mundo, de reconhecimento neste mundo. Aqui, há apenas a satisfação do serviço que, como eu dizia ontem, brota do gosto e da amizade. Isto porque a dinâmica das coisas de Deus, e a dinâmica do próprio Deus, inverte o nosso modo de pensar. O Evangelho que ouvimos insere-se no contexto da Ceia, depois do Lava-Pés e da Instituição da Eucaristia, quando Jesus fala que seria traído. Então os discípulos começam a se perguntar quem seria o maior entre eles. Jesus propõe uma mudança de mentalidade aos seus discípulos ao afirmar que o maior dentre eles é aquele que serve e não o que está sentado a mesa, não o que se sente superior. O próprio Jesus havia-se feito servo, naquela mesma noite em que Instituiu o Sacerdócio ministerial. Nós servimos pela missa, pelos sacramentos, pela missão 'ad gentes', pelo testemunho, pelo contato com os outros, enfim, quando cumprimos com nosso dever de evangelizar. Vejam que grande exemplo, neste sentido, é para nós São João Maria Vianney. O padroeiro dos sacerdotes era um pároco simples, de uma aldeia com duzentos moradores, Ars, que copiava homilias de livros para poder fazê-las na missa, pois não tinha o dom da palavra. Mas, de tal modo ele se gastava nos confessionários, que se tornou patrono dos sacerdotes. Isto justamente porque o cuidado do Santo Cura D´Ars era um cuidado com as pessoas, com cada pessoa, aproximando-a do amor misericordioso de Deus. Por isto milhares e milhares de pessoas iam à pequena Ars buscar aquele piedoso padre: pois ele as aproximaria do amor de Deus. Esta é a missão que somos chamados a reproduzir e esta é a maior expressão do nosso serviço. Para isso somos sacerdotes. E é efetuando este nosso serviço que o próprio Cristo nos chamará a comer e a beber em sua mesa. Sua mesa eucarística e sua mesa na eternidade é a mesa dos serviçais. E não duvido que Deus nos recompensará por nosso apostolado aqui, já que por trás de cada tela, cada nick, há uma pessoa. Que Maria, grande serva do Senhor nos ajude e que nossa Jornada Sacerdotal nos anime para isso: para servirmos e amarmos, e a nossa recompensa será o próprio Senhor. Assim seja! Amém.

quarta-feira, 3 de agosto de 2022

03.08.2022 - Vigília de Oração

Queridos filhos, antes de iniciar o tema do "Mistério da Salvação na Liturgia", sobre o qual nos debruçaremos nas Audiências Gerais a partir da próxima quarta-feira, na catequese desta noite tratarei sobre o sacerdócio em nossa realidade no Habbo. 
COMO TER ÂNIMO PARA DESEMPENHAR O SACERDÓCIO NO HABBO? 
Quero destacar três palavras: gosto, amizade e vontade.
A primeira coisa é o GOSTO e sobre isso me debruçarei mais. Irmãos caríssimos, não tem como ser clérigos no Habbo, se não temos gosto pelas coisas da Igreja. Podemos até amar a Deus, mas não termos gosto pelas suas coisas, gosto pela Igreja da realidade. Isto porque, como afirmou o Concílio de Jerusalém no Habbo, em 2020, no documento sobre a Igreja: "Em nossa missão de evangelizar pelos meios virtuais, é necessário realizar a pregação explícita da Palavra de Deus e de todo o rico tesouro que compõem a Santa Igreja Católica Apostólica Romana. Entre estas pérolas da Igreja, está sem dúvida a realização dos sacramentos. Embora a pregação primeira seja necessariamente da Palavra de Deus, a celebração dos sacramentos, mesmo que virtualmente, favorece o encontro da comunidade reunida que apresenta ao Pai suas preces e o louva em espírito e verdade, alimentando a fé e fazendo-a crescer no encontro com o anúncio do Senhor Ressuscitado, presente de forma verdadeira nos tabernáculos dos templos reais. De tal modo que, por meio da realização dos sacramentos, a Igreja pode ser apresentada em sua totalidade, favorecendo o incentivo para a participação daqueles que são virtualmente atingidos pelo nosso trabalho, a fim de que, de forma concreta, passem da presença na comunidade virtual para a comunidade real.".  Nós precisamos, portanto, ter gosto por àquilo que fazemos. Quem não tem gosto não vai aguentar, é muito simples. Pois quando se gosta de algo, se explora essa coisa, sente-se a alegria por fazê-la. Quem faz sem alegria, cheio de desânimo, não realiza um bom serviço e por isso não deveria estar desempenhando qualquer ministério que seja. Mas, poderiam me perguntar se eu acredito ser essencial que os bons sacerdotes no Habbo queiram ser padres na realidade e eu já respondo que não acredito. Acredito que basta que a pessoa faça com gosto e tenha gosto pelas coisas. Se esse gosto vai evoluir para uma vocação na realidade só Deus sabe. Pois, não é necessário que todo mundo que gosta da Igreja queira se consagrar a ela como ministro. Pelo contrário, a Igreja também precisa de leigos e leigas, pessoas que se dediquem a servir a Cristo de outros modos. Então é indispensável que exista este carinho ou desejo pelas coisas que são próprias da Igreja. Além disso, é preciso desenvolver um carinho, um gosto, um afeto, pela própria Igreja no hotel. É preciso que isso traga alegria, satisfação. Não a satisfação de quem cresce em cargos, ou algo do tipo. Não! É uma satisfação, uma alegria, uma felicidade por estar fazendo algo que gosta. Sem isso, quando as coisas esfriam, quando as pessoas nos desanimam, nós simplesmente nos deixamos ir e desistimos. É preciso termos em mente que não estamos perdendo nosso tempo, que não é uma simples brincadeira. É um serviço, um ministério virtual que nos fará crescer como pessoas, assumindo responsabilidades, no conhecimento e até mesmo no amor. Eu repito isso várias vezes pois acredito que isso é uma verdade, meus irmãos, vale a pena. E vale a pena para todos: para os que querem ser padres, para os que não querem, para os que querem conhecer mais sobre a Igreja, para os que querem gastar seu tempo em algo, e sobretudo para os que querem crescer no caminho do Senhor e convidar os outros para isso também. É por isso que precisamos nós sermos sacramentos vivos. É necessário, portanto, mesmo que os outros não saibam o significado, usarmos a batina ou o colarinho romano. Sempre devemos estar com uma dessas vestes. Essas combinações de vestuário dificilmente serão vistas sendo usadas por pessoas que não são da Igreja. Elas podem até usar uma peça ou outra, mas a combinação toda nos identifica. Além disso, ela nos lembra quem somos, e isso não podemos perder de vista. Eu bato nessa tecla desde o começo do pontificado e baterei até o último dia se for preciso: quando nos veem com nossas vestes, os outros se lembram de Deus; quando nos veem celebrando, se lembram de Deus; quando agimos com amor, se lembram de Deus; quando pregamos, anunciamos Deus! Sem o gosto por tudo isso, iremos realmente desanimar. Digo por mim mesmo, se não fosse o gosto pela Igreja não gastaria tanto meu tempo (pois isto demanda muito tempo) preparando missas, documentos, homilias e nem mesmo este discurso, esta catequese.
Depois do gosto, a segunda coisa é a AMIZADE. Além de termos gosto, é essencial deixarmo-nos envolver com os irmãos de ministério num espírito de amizade. Digo por mim mesmo, que há tantos anos estou aqui: graças a Igreja desenvolvi belíssimas amizades que não tenho dúvidas que levarei por toda a vida; pessoas que sem dúvida amo. Sem citar nomes, mas digo de irmãos que já combinamos de participar das ordenações uns dos outros na realidade, mas, não só isso, pessoas com as quais realmente partilhamos sobre a nossa vida fora do jogo e constituímos vínculos de amizade. E mesmo que não seja amizade fora do jogo, que seja amizade dentro do jogo. Isso é muito importante. Os amigos se animam mutuamente e vão se suportando, se dando forças. É tão triste quando ficamos sozinhos. Mas, às vezes falta que nós dêmos abertura para haver esse entrelaçamento entre nós e os outros numa relação de amizade. Permitamo-nos a isso. Mesmo que você seja um chato de galocha, tenha certeza que você encontrará outro para ter amizade com você! Aqui um ponto importante é que essas amizades devem ser sadias, e não erotizadas. É uma realidade para se ter cuidado. E a amizade, ou ao menos um vínculo de cuidado, deve haver entre os diferentes graus da hierarquia e principalmente com os seminaristas. Quantos não deixam o nosso convívio por não se sentirem bem acolhidos entre nós? A amizade, irmãos, é indispensável para nosso ânimo no sacerdócio.
A terceira coisa é a VONTADE. O Concílio de Jerusalém, no documento sobre o sacerdócio disse que: "Por conseguinte, o sacerdócio na Igreja habbiana é chamado a ser o principal difusor da missão eclesiástica que exercemos por este meio virtual, pois devemos ser os primeiros 'chamados para o serviço do Povo de Deus', agindo através da pregação da boa-nova do Evangelho, por meio da dissimulação dos sacramentos, principalmente o da Eucaristia". Mas, para mim, há uma realidade além que eu disse na missa de abertura, ontem: nós somos sacerdotes no Habbo na medida em que ofertamos a Deus um sacrifício de louvor conduzindo as outras pessoas à Cristo, e também oferecemos o nosso esforço de perseverar, de se doar e se gastar. Por isso, é claro que nem em todos momentos nós teremos ânimo. Isso é natural. Tem momentos que todos nós ficamos borocôxos, queremos desistir, andamos nos arrastamos e não participamos e não ajudamos em nada. Acontece comigo e com cada um de vocês. Mas precisamos ter simplesmente vontade de continuar. Por isso, precisamos avaliar tudo antes de desistir de qualquer coisa na Igreja: as amizades, o gosto, as situações adversas, as situações favoráveis, nossas condições, nossa compreensão da missão, a missão em si. Normalmente, basta ter vontade de continuar, de fazer dar certo e continuamos. E quando não conseguimos, quando realmente não dá, nós precisamos ter a humildade de reconhecer isso. Não é fracasso. Pelo contrário, é coroarmos um obra bem sucedida. Mas, sem vontade de continuar, qualquer ventinho nos derruba, nos faz desistir. 
GOSTO, AMIZADE E VONTADE: Três realidade que unidas AO AMOR A CRISTO nos animam para desempenharmos o nosso sacerdócio em nossa Igreja. Que Deus nos ajude a nos animarmos para nos empenharmos no ministério que nós escolhemos. Assim seja! Amém.

03.08.2022 - Missa na Jornada Sacerdotal

Saúdo Dom Miguel Maria Dolezzio, digníssimo Arcebispo Metropolitano de São Paulo, e em seu nome saúdo a todos os irmãos e irmãs aqui presentes. A tarde deste segundo dia da nossa Jornada Sacerdotal volta-se a oração e meditação pelas vocações sacerdotais. Por isso, nessa missa, pedimos ao Senhor que Ele envie santos pastores para a sua Igreja. A primeira leitura da liturgia diária remete ao tempo do Exílio da Babilônia. O tempo do Exílio foi um tempo doloroso para o povo de Deus. Neste tempo, o povo sentiu como que se Deus estivesse se esquecido deles. E diante disto Deus recorda ao povo: "Amei-te com amor eterno e te atraí com a misericórdia.". Isso o Senhor repete a cada um de nós essa tarde com este mesmo modo. Sabemos que, no nosso serviço sacerdotal, muitas vezes não somos dignos de nos aproximar do altar por causa de nossos pecados. Mas, irmãos, o Senhor nos atraiu com sua misericórdia. Ele nos olha sabendo de nossos pecados, de nossas falhas, de nossas limitações. O Senhor sabe quem somos realmente. Muitas vezes, o grande motivo de nós nos afastarmos de Deus e de deixarmos de nos esforçar em nossa missão é porque temos vergonha de Deus. O caminho é justamente outro: experimentarmos a misericórdia. Se nós, sacerdotes, não experimentarmos a misericórdia do Senhor, como a ofereceremos aos outros? Mas nós tendemos a nos esconder. Tendemos a fazer como fizeram Adão e Eva no Paraíso: tentar ocultar nosso pecado, nossa miséria. Só que não adianta, irmãos, tentarmos colocar uma máscara diante de Deus. Ele, que nos ama e nos atrai com misericórdia, constrói sobre nós sua Igreja, assim como outrora construiu sobre o resto de Israel a cidade de Jerusalém. Como àquele povo, clamamos que Deus nos salve e Ele nos salvará. Mas, é preciso gritar e não desistir. Precisamos ser ousados e teimosos. Quantas vezes nós não somos teimados, ousados, em nossa busca por cargos e títulos? Por que não o sermos também na relação com Deus? Àquela mulher cananéia, mesmo com Jesus dizendo que foi enviado somente para salvar a Israel, insiste que Ele a perdoe. Ela se rebaixa, se compara aos cachorrinhos. Poderíamos até pensar que Jesus estava a rebaixando, mas, o que Ele estava fazendo era tentando descobrir até onde a fé desta mulher iria. Será que diante de um "não" de Jesus ela iria desistir? Não. Ela persistiu. E a ela, que queria comer as migalhas do pão, Jesus dá espiritualmente o pão inteiro, isto é, a salva. Tanto a salvação, como o pão eucarístico, são para todos. Mas, só recebe a Salvação e só recebe a Eucaristia, quem tem fé no Senhor. Percebamos a misericórdia de Deus em nossas vidas, a experimentemos profundamente, e então encontraremos a motivação para seguirmos em frente, para continuarmos a missão, e, no fim da vida, receberemos a Salvação eterna. Assim seja! Amém.

terça-feira, 2 de agosto de 2022

02.08.2022 - Abertura da Jornada Sacerdotal

Estamos aqui reunidos iniciando a Jornada Sacerdotal. Esta Jornada não tem outro objetivo senão ser um momento de reunião e encontro dos sacerdotes para refletir justamente o tema que define sua essência: o sacerdócio. Por isto que falarmos de Ano Sacerdotal ou de Jornada Sacerdotal não é falarmos de presbíteros. Sacerdote não é sinônimo de presbítero. Os Cardeais, os Bispos e os Presbíteros, até mesmo eu, somos todos sacerdotes ministerialmente. Isto é, pelo ministério que desempenhamos como serviço a Igreja, somos configurados a Cristo Sumo e Eterno Sacerdote. Ele, Jesus Cristo, é o sacerdote para sempre segundo a ordem de Melquisedec, não nós. Nós somos participantes neste sacerdócio. Por isso que este momento é momento de nos reunirmos para fazer comunhão. Mas, não apenas isso. É momento também de nos colocarmos em "Jornada". Este termo, "jornada" se aplica para nós também como caminho que percorremos. Não só que percorremos, mas, um caminho que percorreremos. E percorreremos não apenas nestes dias, mas que devemos percorrer em todos os dias. E qual caminho é este? Qual é esta Jornada? Esta Jornada é a Jornada de sermos sacerdotes. O sacerdote, desde o antigo testamento, é àquele que oferece sacrifícios. O serviço sacerdotal era justamente o de oferecer o sacrifício no templo. O sacerdócio de Jesus, porém, foi oferecer-se a si mesmo. É esta dimensão que nós devemos assumir. Sabemos que não ofertamos sacramentalmente o Cristo ao Pai, mas, por nossa dedicação, nosso esforço, nosso tempo gasto, somos capazes de nos oferecer somo vítimas. Tornamo-nos, assim sacerdotes-vítimas como afirmava o Venerável Dom Fulton Sheen. Esquecer-se da realidade do "ser vítima" aliena nosso trabalho, nossa missão, faz com que a Igreja se enfraqueça e somos nós próprios que a prejudicamos. Não prejudiquemos a Igreja! Precisamos sim reconhecer os momentos onde não podemos nos doar em nossa Igreja virtual e aí nos afastamos de modos lícitos. Isso não só é válido, é bom. Mas, quando nós não nos sacrificamos um pouco, nós tornamos nossa missão aqui, que tantos prazeres podem trazer para nós, tanta santificação e tanto crescimento pessoal, apenas num simples "tanto faz, tanto fez"; desviamos nossos olhos do foco. É nesta dinâmica que falo do Evangelho de hoje, com a figura que tanto gosto da barca na tempestade. A barca é a Igreja de Pedro, em meio ao mar que é o mundo, a realidade onde estamos inseridos. Não sejamos nós, caríssimos irmãos, as ondas fortes que tentam virar a barca. Não carreguemos esta culpa. Outra dimensão que apresento é a dimensão batismal deste Evangelho: o mar é símbolo da morte, mas é também representação das águas batismais. Pedro vai ao encontro de Cristo, mas quando afunda nas águas da morte, como todo batizado, confia em Cristo e o Senhor o puxa para fora, o salva. Mas, sobretudo, irmãos, quando Pedro falha na fé, é confiando no Senhor e pedindo que Ele o salvasse, que Pedro é salvo. Imagino a cena: Pedro se agarrando nas mãos do Senhor e olhando profundamente naqueles olhos amorosos do Mestre e clamando por misericórdia. Nunca, nunca, deixemos de olhar nos olhos de Jesus e assim nunca perderemos de vista a nossa meta e a nossa missão. Assim seja! Amém.

segunda-feira, 1 de agosto de 2022

01.08.2022 - Santo Afonso Maria de Ligório

Saúdo Dom Vito Cardeal Lavezzo, superior geral dos Redentoristas e em seu nome saúdo todos os membros da Congregação do Santíssimo Redentor e todos os que estão aqui presentes celebrando conosco Santo Afonso Maria de Ligório. Irmãos e irmãs, neste santo que hoje a Igreja nos coloca como exemplo, iniciando o mês vocacional, recebemos um caro exemplo de esforço pela salvação. De fato, fazer com que todos cheguem a Salvação em Jesus Cristo, nosso Redentor, é a missão suprema da qual a Igreja nunca pode se esquivar. Mas, além de levar a Salvação, Santo Afonso queria levá-la sobretudo aos pobres e abandonados. Por isso, a tradicional cruz levada pelos Redentoristas em missão dizia: "Salva a tua alma.". Porém, não podemos pensar com isso que a realidade seja dividida simplesmente entre corpo e alma. As realidades da alma não são só as realidades espirituais, mas, a alma é a vida da pessoa. Por conta disso que a missão de Jesus, como vimos no Evangelho, foi também de cura física, isto é, de salvação e redenção das mazelas corporais e sociais. Deste modo, salvar a alma é salvar a vida; é prezar pelo cuidado para com todas as realidades da vida e, especialmente, a realidade espiritual. Leve-se em conta, porém, que para chegar a realidade espiritual é preciso antes passar pela realidade corporal: ninguém vai querer ouvir falar de Jesus enquanto está sofrendo de fome ou pela opressão. Justamente por isso Isaias profetiza que o Espírito do Senhor o unge para dar a boa-nova aos humildes e curar as feridas da alma, mas, ao mesmo tempo, pregar redenção aos cativos e consolar os que sofrem. Só que só alguém que alimenta-se constantemente do próprio Deus consegue realizar essa missão. Só alguém de profunda espiritualidade consegue levar a salvação. Por isso Santo Afonso não só tinha uma profunda espiritualidade, mas divulgou essa profunda espiritualidade. Este santo que foi um grande escritor tem muito a contribuir ainda com o homem moderno, sua espiritualidade, sua missão, seus valores e sua moral. Santo Afonso é ainda considerado como um grande moralista. Assim que todos nós, e de modo especial os Redentoristas, possamos nos esforçar para fazer deste Hotel um terreno de missões e, cheios do Senhor, possamos nos esforçar por encontrar e salvar, em todas as dimensões, cada um e cada uma que Deus colocar em nosso caminho. Assim seja! Amém.