quarta-feira, 17 de agosto de 2022

17.08.2022 - Catequese: Orientação Litúrgica

Amados filhos e filhas, continuando nossa série de catequeses sobre a Liturgia como Mistério de Salvação, de sua excelência Mons. Guido Marini, falaremos hoje sobre a orientação litúrgica. Acima das mudanças que historicamente têm caracterizado a disposição arquitetônica das igrejas e espaços litúrgicos, uma convicção perdura sempre muito clara no interior da comunidade cristã, quase até nossos dias. Refere-se à oração voltada para o Oriente, tradição que remonta às origens do cristianismo. O que se entende com "oração voltada para o Oriente"? Entende-se o coração orante orientado para Cristo, do qual provém a salvação e para o qual todos tendem como para o Princípio e Termo da História. No Oriente nasce o sol. Ora, o sol é símbolo de Cristo, a Luz que surge no Oriente. Lembre-se a propósito a passagem do cântico messiânico do Benedictus: "O sol que surge no Oriente vem nos visitar" (Lc 1,78). Estudos muito sérios, e também recentíssimos, têm demonstrado que, em qualquer tempo da sua história, a comunidade cristã encontra a maneira de exprimir, também no sinal litúrgico exterior e visível, essa orientação fundamental para a vida na fé. De fato, encontramos as igrejas construídas de maneira tal que a abside esteja voltada para o Oriente. Quando tal orientação já não era possível na edificação do lugar sagrado, recorreu-se ao grande crucifixo colocado no altar e para o qual todos pudessem voltar os olhos. É de pensar também nas absides decoradas com esplêndidas representações do Senhor, para as quais todos eram convidados a erguer os olhos no momento da liturgia eucarística. Sem entrar nos detalhes de uma visão histórica, que nos colocaria no interior de uma reflexão sobre o desenvolvimento da arte cristã, neste contexto nos interessa afirmar que a oração orientada, ou melhor, voltada para o Senhor, é expressão típica do autêntico espírito litúrgico. Nesse sentido, como bem nos relembra o diálogo que introduz o Prefácio, no momento da liturgia eucarística somos convidados a voltar o coração para o Senhor: "Corações ao alto", exorta o sacerdote, ao que todos respondem: "O nosso coração está em Deus". Ora, se tal orientação deve ser sempre interiormente assumida por toda a comunidade cristã recolhida em oração, essa atitude deve ser expressa também com sinal exterior. De fato, o sinal exterior há de ser sempre verdadeiro, de modo que torne manifesta a correta atitude espiritual. Então, aí está o motivo da proposta feita a seu tempo pelo cardeal Ratzinger, e reafirmada no curso do seu pontificado: colocar o crucifixo no centro do altar, de maneira que todos, no momento da liturgia eucarística, possam efetivamente voltar os olhos para o Senhor, orientando assim a própria oração e coração. Vamos ouvir diretamente Bento XVI, que escreve, na introdução ao primeiro volume da sua Opera omnia, dedicado à liturgia: "A ideia de que sacerdote e povo deveriam, na oração, olhar um para o outro surgiu apenas no cristianismo moderno e é completamente estranha no antigo. Sacerdote e povo certamente não rezam voltados um para o outro, e sim para o único Senhor. Por isso é que, na oração, ambos olham na mesma direção: ou para o Oriente como símbolo cósmico do Senhor que vem, ou, nos lugares onde isso não é possível, para uma imagem de Cristo na abside, para uma cruz, ou simplesmente para o céu, como fez o Senhor durante a oração sacerdotal da última noite antes da Paixão (Jo 17.1). Entretanto, caminha-se cada dia mais, felizmente, rumo à proposta que fiz no final do capítulo em questão da minha obra [de Bento XVI] (Introdução ao espírito da liturgia, p. 70-80): não buscar novas transformações, mas colocar simplesmente a cruz no centro do altar, para a qual sacerdote e fiéis possam juntos olhar, para se deixarem guiar de tal maneira para o Senhor, a quem oramos todos unidos". E não se diga que a imagem do crucifixo obscurece a visão dos fiéis em relação ao celebrante. Os fiéis não devem olhar o celebrante, nesse momento litúrgico! Devem olhar para o Senhor! Assim também aquele que preside a celebração deve poder olhar para o Senhor. A cruz não impede a visão; ao contrário, lhe abre o horizonte para o mundo de Deus, e a faz contemplar o mistério, a introduz no céu, de onde provém a única luz capaz de dar sentido à vida neste mundo. Em verdade, a visão ficaria obscurecida, impedida, se os olhos permanecessem fixos naquilo que é apenas presença do homem e obra sua. Assim se compreende por que é ainda hoje possível celebrar a Missa nos altares antigos, quando as particulares características arquitetônicas e artísticas de nossas igrejas o devessem aconselhar. Também nisso o Papa nos dava um exemplo, quando celebrava a Eucaristia no antigo altar da Capela Sistina, na festa do Batismo do Senhor. Em nosso tempo, entrou em voga a expressão "celebrar voltado para o povo". É aceitável dizer assim, quando tal expressão entende descrever o aspecto topográfico, devido ao fato de que hoje o sacerdote, pela colocação do altar, se encontra em posição frontal em relação à assembleia. Mas, não se poderia absolutamente aceitar, se tal expressão tivesse conteúdo teológico. De fato, a Missa, teologicamente falando, está sempre voltada para Deus, através de Cristo nosso Senhor, e seria grave erro imaginar que a orientação principal da ação sacrifical fosse a comunidade. Por isso, tal orientação - voltada para o Senhor - deve animar em cada um a participação litúrgica interior. E é igualmente importante que isso possa ser bem visível também no sinal litúrgico... Nossa reflexão continua na próxima Audiência.

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