quarta-feira, 10 de agosto de 2022

10.08.2022 - Audiência Geral

Amados irmãos e irmãs, desde 09 de julho, estou tentando iniciar convosco as nossas Audiências Gerais. Acredito que elas são um momento muito bom de interação entre o Bispo de Roma e os irmãos e irmãs. Passadas as cerimônias inaugurais do pontificado, tivemos as festividades do aniversário da Igreja, logo em seguida uma semana cheia, depois a Jornada Sacerdotal e finalmente hoje podemos iniciar com nossas Audiências Gerais que ocorrerão semanalmente. Nestas primeiras catequeses gostaria de tratar convosco sobre o tema da Sagrada Liturgia como mistério da salvação. Para isso, vamos fazer um estudo do texto sobre o assunto de Mons. Guido Marini. O então Monsenhor tenciona, com esta reflexão, discorrer sobre alguns temas que se referem ao espírito da liturgia. Sua proposta é grande, diria até grandíssima. Não só porque falar do espírito da liturgia exige empenho e é bem complexo, mas também porque, sobre o tema, autores de indubitável e alta expressão litúrgica e teológica apresentam obras importantíssimas. Pensemos apenas em dois exemplos, entre outros: Romano Guardini e Joseph Ratzinger. Por outro lado, é um fato que tratar hoje do espírito da liturgia é mais do que necessário, sobretudo entre os sacerdotes. Também porque é urgente reafirmar o "autêntico" espírito da liturgia, tal como está presente na tradição ininterrupta da Igreja e testemunhado, em continuidade com o passado, no mais recente magistério, a partir do Concílio Vaticano II até Bento XVI e Papa Francisco. Digo "continuidade", termo benquisto ao Papa Bento XVI, que fez dele, com autoridade, o critério para a única interpretação correta da vida da Igreja, e em particular dos documentos conciliares, como também dos propósitos de reforma em todos os níveis neles contidos. E não poderia ser de outra maneira. Será que se pode imaginar uma Igreja de ontem e outra de hoje, como se tivesse havido uma ruptura na história do corpo eclesial? Ou será possível afirmar que a Esposa de Cristo, no passado, tenha transcorrido algum tempo histórico em que o Espírito não tenha dado assistência a ela, como se tal tempo devesse ser esquecido e cancelado? No entanto, às vezes, alguns dão a impressão de aderir a uma que se pode definir verdadeira e própria ideologia, ou ainda a uma ideia preconcebida que se aplique à história da Igreja e que nada tenha a ver com a fé autêntica. Fruto dessa ideologia desviante, por exemplo, é a corrente distinção entre Igreja pré-conciliar e Igreja pós-conciliar. Pode até ser legítima tal linguagem, na condição porém de não dar a entender com isso duas Igrejas: uma - pré -conciliar que já não teria nada para dizer ou dar, porque irremediavelmente superada; e a outra - pós-conciliar - que seria uma realidade nova nascida do Concilio e de algum presumido espírito seu, que se tenha rompido com o passa do. Esse modo de falar, e até de "sentir", não há de ser o nosso. Além de errôneo, é superado e datado, talvez até compreensível historicamente, porém ligado a uma estação eclesial já concluída. O que até aqui se afirmou a respeito da "continuidade", será que tem algo a ver com o tema que somos convidados a tratar? Absolutamente sim. Pois não pode existir o autêntico espírito da liturgia, quando não buscada com ânimo sereno e nada polêmico a respeito do passado, tanto remoto quanto próximo. A liturgia não pode nem deve ser terre no de choque entre os que só encontram o bem naquilo que havia antes de nós, e, por outro lado, aqueles que só enxergam o mal naquilo que existia antes. Somente a disposição de olhar o presente e o passado da liturgia da Igreja, como patrimônio único que se desenvolve homogêneo, é que pode levar-nos a obter, com alegria e prazer espiritual, o autêntico espírito da liturgia. Um espírito que precisamos acolher da Igreja e que não é fruto de nossas invenções. Um espírito, digo mais, que nos leva ao essencial da liturgia, ou seja, a uma oração inspirada e guiada pelo Espírito Santo, na qual Cristo continua a ser nosso contemporâneo, irrompendo em nossa vida. De fato, o espírito da liturgia é a liturgia do Espírito. Quanto ao tema proposto, claro que não pretendemos ser conclusivos. Nem mesmo pretendemos tratar todos os temas que seria útil desenvolver em abrangente panorâmica da questão. Limitamo-nos a considerar alguns aspectos da essência da liturgia, com referência específica à Celebração eucarística, tal como a Igreja os apresenta e da maneira como Mons. Guido Marini aprendeu a aprofundá-los nos primeiros dois anos de serviço junto a Bento XVI, que ele considerou como verdadeiro mestre de espírito litúrgico, seja através do seu ensinamento, seja mediante o exemplo de sua celebração. Ao considerar alguns aspectos da essência da liturgia, o Monsenhor considera que se perceber que estará apontando algum comportamento que considera não estar plenamente em sintonia com o autêntico espírito litúrgico, o fará tão somente para oferecer sua pequena contribuição a fim de que esse espírito possa aparecer ainda mais em toda a sua beleza e verdade. 
Nossa primeira catequese desta série, portanto, é: A SAGRADA LITURGIA, GRANDE DOM DE DEUS À IGREJA.
Como bem sabemos, o Concílio Vaticano II dedicou à liturgia todo um documento, aliás o primeiro na ordem de publicação. Seu nome é Sacrosanctum Concilium, que se define como a Constituição da sagrada liturgia. É o termo sagrado que pretendemos sublinhar como ligado à "liturgia". A respeito, não se trata de um caso ou de um aspecto de pouca importância. De fato, foi assim que os Padres conciliares entenderam dar força ao caráter sagrado da liturgia. Mas, o que se entende por caráter sagrado? Os orientais falariam de uma dimensão divina da liturgia. Ou seja, daquela dimensão que não se deixa ao arbítrio do homem, porque é dom que vem do alto. Em outras palavras, trata-se do mistério da salvação em Cristo, mistério confiado à Igreja, para que esta o torne disponível em qualquer tempo e lugar, através da objetividade do rito litúrgico-sacramental. Uma realidade, portanto, que nos supera e que se há de acolher como dom, e pela qual nos deixamos transformar. Realmente, como afirma o Concilio Vaticano II, "toda celebração litúrgica, enquanto obra de Cristo sacerdote e do seu Corpo que é a Igreja, é ação sagrada por excelência..." (Sacrosanctum Concilium, n. 7). Colocando-nos nessa perspectiva, não é difícil convencer-nos da distância que vai entre alguns modos de agir e o autêntico espírito da liturgia. De fato, sob o pretexto de criatividade mal concebida, às vezes chega-se a distorcer, nas mais variadas maneiras, a liturgia da Igreja. Em nome do princípio de adaptação a situações locais e a necessidades da comunidade, assume-se o direito de tirar, acrescentar ou modificar o rito litúrgico de acordo com a própria subjetividade ou emoção. A esse respeito, nós sacerdotes temos grande responsabilidade. A propósito, assim já dizia o cardeal Ratzinger em 2001: "No mínimo, necessita-se de uma nova consciência litúrgica, é preciso subtrair espaço à tendência de agir sobre a liturgia como se fosse objeto de nossa habilidade manipuladora. Chegamos ao ponto de alguns grupos litúrgicos, por própria iniciativa, se apropriarem da liturgia dominical. O resultado é certamente fruto da inventividade de um grupo de pessoas hábeis e capazes. No entanto, dessa maneira se reduz o lugar onde se encontra comigo o totalmente Outro, e no qual o sagrado se oferece a nós como dom. O que estou enfrentando é apenas a habilidade de um grupo de pessoas. Então se percebe que não é o que estamos procurando. É muito pouco, e também algo diferente. Hoje é bem mais importante readquirir o respeito pela liturgia e a consciência de que ela não pode ser manipulada. É preciso reaprender a reconhecê-la no seu ser de criatura vivente que cresce e nos foi confiada, através da qual nós tomamos parte na liturgia celeste. Renunciar ao desejo de buscar nela a própria autor realização, para ao contrário ver nela um dom. Esta, creio eu, é a primeira coisa: vencer a tentação de um agir despótico, que concebe a liturgia como objeto de propriedade do homem, e despertar o senso interior do sagrado" (Dio e il mon do, Edizioni Paolo, Cinisello Bal samo, 2001). Portanto, afirmar que a liturgia é sagrada significa sublinhar o fato de que ela não vive de invenções esporádicas e "descobertas" sempre novas de alguma pessoa ou grupo. Ela não é um círculo fechado, no qual decidimos encontrar -nos, talvez para nos encorajarmos mutuamente e sentir-nos protagonistas de uma festa. A liturgia é convocação que provém de Deus, para estarmos em sua presença; é a vinda de Deus até nós, é Deus que se torna presente em nosso mundo. Certa forma de adaptação a situações particulares está prevista, e é ótimo que esteja. O próprio Missal a indica em algumas partes. No entanto, nessas partes, e somente nelas, não arbitrariamente em outras. O motivo é importante, e é preciso reafirmá-lo: a liturgia é dom que nos precede, tesouro precioso que nos foi confiado pela oração secular da Igreja, é lugar em que a fé da Igreja encontrou forma e expressão orante no tempo. Nada disso fica à nossa disposição subjetiva. Não está disponível para nós, por estar integralmente à disposição de todos, ontem como hoje, e ainda amanhã. "Em nossos tempos também - como escreveu João Paulo II na Encíclica Ecclesia de Eucharistia a obediência às normas litúrgicas deveria ser redescoberta e valorizada como reflexo e testemunho da Igreja una e universal, que está presente em cada celebração da Eucaristia". Na estupenda Encíclica Mediator Dei, citada com frequência na Sacrosanctum Concilium, Pio XII definia a liturgia como "o culto público... o culto integral do corpo místico de Jesus Cristo, isto é, da cabeça e de seus membros". Era como dizer, entre outras coisas, que na liturgia a Igreja reconhece "oficialmente" a si mesma, o seu mistério de união esponsal com Cristo, e aí "oficialmente" se manifesta. Portanto, com que insana falta de senso poderíamos nós arrogar-nos o direito de alterar, de maneira subjetiva, esses sinais santos que o tempo avalizou, e através dos quais a Igreja fala de si, de sua própria identidade, de sua própria fé? Existe um direito do povo de Deus que não pode jamais ser menosprezado. Em virtude de tal direito, todos precisamos estar em condições de alcançar o que não é simplesmente fruto pobre do agir humano, e sim obra de Deus, exatamente por isso é fonte de salvação e vida nova. Alongamo-nos ainda um momento sobre esse tema que, Monsenhor Guido testemunha, está bem no coração do Papa, ouvindo mais uma vez o trecho de Sacramentum caritatis, exortação apostólica de Bento XVI, que brotou do Sínodo dos Bispos sobre a Eucaristia: "Sublinhando a importância da 'arte de celebrar' – afirma o Papa -, coloca-se em luz, por conseguinte, o valor das normas litúrgicas... A celebração eucarística é valorizada exatamente onde os sacerdotes e os responsáveis da pastoral litúrgica se esforçam para tornar conhecidos os livros litúrgicos e relativas normas em vigor... Nas comunidades eclesiais, talvez se considere como algo usual o conhecimento deles e sua justa valorização, mas com frequência não é isso que acontece. Na realidade, são textos onde estão contidas riquezas que guardam e exprimem a fé e o caminho do povo de Deus ao longo de dois milênios da sua história".

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