Meus queridos filhos, porque o Sumo pontificado me faz vosso pai enquanto cabeça deste colégio. E assumo com grande carinho essa paternidade. Meus queridos irmãos, porque como único colégio que eu presido, também sou vosso irmão e faço parte deste colégio. Penso que já falei demasiadamente sobre o sentido da corresponsabilidade episcopal e sua importância para a Igreja. Já falei sobre a importância da vossa comunhão, das vossas conversas enquanto membros de um único colégio. Já falei sobre a relação dos arcebispos e dos bispos auxiliares e desses com seus presbíteros. Já falei sobre a importância da formação sacerdotal. Já falei sobre a importância da relação com os leigos. Ainda assim, infelizmente, sinto que muito do que eu falei entrou por um lado e saiu pelo outro. Muitos passos ainda têm a serem dados. Hoje, gostaria de refletir convosco sobre a importância de iniciar processos. Às vezes nós corremos um risco de pensar que por que não vamos conseguir terminar aquilo que começamos, nós não devemos fazê-lo. A verdade é que “o semeador saiu a semear. Enquanto semeava, uma parte da semente caiu à beira do caminho; vieram os pássaros e a comeram. Outra parte caiu em terreno pedregoso, onde não havia muita terra; brotou logo, porque a terra não era profunda, mas, quando saiu o sol, ela foi queimada; e, como não tinha raiz, secou. Outra parte caiu no meio dos espinhos; os espinhos cresceram, a sufocaram, e ela não deu fruto. Outra parte caiu em terra boa e deu fruto, que foi crescendo e aumentando, chegando a render trinta, sessenta e até cem por um.”. O semeador que saiu a semear é Jesus Cristo. Ele não se importa com o terreno. Ele sai a semear. Ele sabe que alguns terrenos não estão prontos para a semente. Ainda assim, ele sai a semear. Ele sabe que muitos estão à beira do caminho. Mas sabe que as sementes que caírem ali serão comidas pelos pássaros. Ele sabe que alguns são um terreno pedregoso. Sabe que aí logo vai queimar a semente. Ainda assim, ele lança sementes. Ele sabe que alguns são cheios de espinhos. E que a semente vai ser sufocada. Ainda assim, ele lança a semente. Ele sabe que alguns são terra boa. E aí também lança a semente, esperando o fruto. Na verdade, todos os terrenos ele espera o fruto. Ele é o semeador. Mas ele também é a semente. Porque o que o Cristo semeador planta é ele mesmo. Ele se planta em nós. Não posso ignorar aquela pergunta tão simples, tão repetitiva, que às vezes nos parece até falta de criatividade para uma reflexão: Que terreno nós somos? Que terreno eu sou como bispo? Porque eu deveria ser o terreno onde pode-se plantar. Eu devia ser a Terra Boa. Mas muitas vezes eu sou aquela Terra da qual canta os lamentos do Senhor: preparei-te bela terra, tu a Cruz, para o teu rei. Como somos ingratos a semente recebida... Ingratos, porque a palavra certa é ingratidão. Nós, como bispos, recebemos o múnus de Deus. Nós fomos colocados num lugar de proximidade com Deus. Mas vemos claramente que não temos essa proximidade com Deus, porque se tivéssemos proximidade com Deus, daríamos frutos. Daríamos frutos como Terra Boa. Daríamos frutos como galhos da Videira. Nosso Ministério seria um Ministério Frutuoso. E aí percebemos que não é assim. Percebemos as nossas infidelidades. Percebemos a nossa preguiça. Percebemos o nosso apego ao status que o episcopado nos concede. Mas não apego a ministerialidade que ele nos exige. Exige. A palavra é exigência. Nós somos os que deveríamos ser a Terra Boa. Da Terra Boa se espera frutos. Nos outros terrenos, pode-se lançar a semente e não frutificar. Em nós se esperam frutos. E aí a nossa primeira tentação é olhar para cima, olhar para um colégio cardinalício com problemas, inegável, E dizer que porque eles não fazem, nós Também não faremos. Mas eu consigo que começo pressionando quem está acima Para que a própria pessoa reconheça a sua limitação. Limitação que todos temos. Limitação que não é problema. Mas que, quando reconhecida, pode nos ajudar A trabalhar melhor. Se eu reconheço a minha limitação com o tempo e me emerito, eu estou fazendo muito mais bem a igreja do que permanecer como um fardo pesado. Se eu reconheço que para mim é mais importante um título do que O Ministério eu me torno emérito e permaneço com esse título. Se eu reconheço a minha limitação intelectual, eu peço ajuda. Mas eu preciso reconhecer. Não posso ficar enchendo de desculpas para não fazer aquilo que eu deveria fazer. Eu tenho muita clareza, por exemplo, que como papa, devo cumprir uma agenda. Gostaria muito de passar mais tempo online. Mas meu estado de vida não permite. Mas sei o tempo que eu passo preparando textos. Porque é por meio das pregações que exerço meu múnus de ensinar. E vivo esse tríplice Munus. Santificou pelas celebrações que presido. Ensino por meio daquilo que prego. Governo por atos, por meio do diálogo e por meio daqueles que me são subordinados. Os senhores estão acompanhando as reformas litúrgica e canônica que estamos realizando. Reforma que também está se realizando no âmbito da formação presbiteral, por meio do Dicastério para os seminários, Com as vídeo aulas e podcast, que se aqueles que estão responsáveis por fazer já tivessem feito, já teríamos concluído. O que também me faz contar com a ajuda de todos vocês. Outro ponto importante é que confia moça todos os bispos, exceto aos arcebispos, ofícios dentro da Cúria romana. Estes encargos não vos devem ser apenas título. Mas deve também converter-se em ministério. É algo também que deve ser feito. Fiz isso para que os senhores sintam a vossa importância dentro das decisões da Igreja. E procurei fazer pensando também nas aptidões de cada um. Mas se essa semente lançada vai gerar frutos, é decisão vossa. Uma coisa que percebo como dificuldade é lançar as sementes. Eu sinto nos senhores também essa dificuldade de lançar as sementes. Quando nós vemos um leigo, alguém que se aproxima de nós, nós precisamos acolher. Conversar. Mandaram uma mensagem. Seminarista, por exemplo, não chega de mão beijada para a igreja. E se chega de mão beijada, pode duvidar porque pode ser cismático, pode ser fake. Nós precisamos lançar sementes. E por que eu digo lançar a semente, se não o famoso lançar as redes? Porque quando se lançam as redes, os peixes vêm na hora. Quando se lançam as sementes, não. Confesso que nunca plantei nada anão ser feijão no algodão. Cresci um homem da cidade. Mas sei que a semente precisa do cuidado. Precisa ser regada, precisa ser adubada e pode ou não dar frutos. Nosso trabalho, queridos irmãos, não podem se reduzir apenas aquilo que temos certeza que vai dar certo. Precisamos lançar sementes. Precisamos iniciar processos. E se não for concluído? Não tem problema. O importante é começar. Às vezes um grande perigo é já antes de iniciarmos ficarmos pensando que não vai dar certo. E às vezes somos de fato muito negativos. Por que não vai dar certo? Por que no passado não deu? Nós somos pessoas novas. O tempo é um tempo novo. Pode sim, muito bem dar certo. É claro, precisamos pensar com um bom discernimento. Mas não com negatividade. Se não estamos arriscando, o que estamos fazendo? A vida é feita de riscos. E a beleza da nossa vida está nos riscos que corremos. Nada excita mais o nosso coração do que os riscos que corremos. É um momento que o coração bate mais forte. Pensemos num homem apaixonado, prestes a dar um beijo na amada e seu coração bate mais forte. Vem aquele nervosismo, aquele friozinho gostoso na barriga. E acontece. Assim deve ser a nossa evangelização. Precisa ser arriscada! Precisamos fazer o coração bater mais forte, precisa nos dar aquele nervosismo, aquele friozinho na barriga. Precisa nos excitar o coração. O problema é que às vezes nós estamos acostumados. Eu escutei isso de um bispo e repito, todo o pontificado meu e repito mais uma vez, às vezes somos tentados a ser o bicho da goiaba. Para o bicho da goiaba, goiaba é o mundo. Não existe nada além da goiaba. Meu querido bispo, saia da goiaba. Meu querido bispo, você não foi feito para goiaba. Meu querido bispo, se arrisque. Meu querido bispo, saia desse mundinho onde você está vivendo, pensando em si mesmo e comece a pensar na igreja. Meu querido bispo, não tenha medo de iniciar processos, mesmo sem saber como vai terminar. Meu querido bispo, fosse feito bispo para ser sucessor dos apóstolos, recebeste o múnus de ensinar, governar, santificar, por isso viva de acordo com aquilo para o qual foste feito. Viva o seu episcopado. Recupere, querido bispo, o seu episcopado. O seu episcopado que perdeu o sentido, recupere. Seja a Terra Boa que dá frutos. Se permita apaixonar de novo pela igreja. Se permita apaixonar de novo pelo Senhor Jesus Cristo. Olhe para o anel que trazes em teu dedo e lembra-te da Igreja, tua esposa, esposa de Cristo, a qual prometeu este honrar e cuidar. E quando fizeres isso, perceberás sua a quantidade abundante de frutos do teu ministério. Mas me atrevo a dizê-los. Só sois capazes disso com a graça de Deus. Por isso peçam essa graça. Vos confesso que constantemente rezo na Realidade, pedindo a Deus a graça de ser um bom pastor aqui no habbo, para que ele vá consolidando em mim os dotes necessários para ser um verdadeiro e autêntico cristão, para ser seu ministro. E além disso, para que aqui eu possa ser um verdadeiro cristão, para que eu possa conduzi-los no caminho da salvação. Não podemos confundir a realidade e o habbo. Mas não nos esqueçamos que, quando falamos de Deus, já estamos exercendo um ofício em nome de Deus. Quando nos propomos a ser reflexo da Igreja, da realidade, precisamos ser instrumentos de Deus. Caso contrário, nós estamos brincando com o nome de Deus. Então, ou é para gerar os frutos, ou estamos no lugar errado. Que Deus nos ajude em nosso ministério, para que mesmo que sejamos capazes de dar apenas um fruto, possamos dá-lo com amor. Obrigado pela vossa atenção.
terça-feira, 30 de abril de 2024
domingo, 28 de abril de 2024
28.04 | V Domingo da Páscoa
Saúdo com estima e afeto Dom Vitor Cardeal Lavezzo, bispo titular desta Igreja, e em seu nome saúdo a cada um e cada uma aqui presente. Amados irmãos e irmãs, estamos celebrando o quinto domingo do tempo Pascal, onde somos chamados a permanecermos unidos a Jesus. na primeira leitura, temos presente o desafio de Saulo em ser aceito na comunidade. Aquele que outrora perseguia o povo de Jesus Cristo agora torna-se anunciador do Evangelho. Percebamos como já nas primeiras comunidades, havia uma dificuldade em acreditar na mudança das pessoas. Muitas vezes nós assumimos com negatividade a conversão dos outros. Achamos que as pessoas apenas se converteram em palavras e que não mudaram realmente de coração. Permanecemos julgando os outros. Saulo foi julgado. Porém, permaneceu na Igreja. Às vezes nós somos julgados e não queremos permanecer. Saulo permanece em Cristo. Saulo permanecia, mesmo que os judeus de língua grega procurassem matá-lo. E a Igreja se consolidava também graças a missão de Saulo. Somos então colocados diante do desafio de permanecer em Cristo. No capítulo 15 do evangelho de São João, o Evangelista narra para nós o discurso de Jesus sobre a Videira. Ele é a Videira, o Pai o agricultor, nós, os ramos. Esta imagem, fácil de assimilarmos na nossa cabeça, Enquanto uma imagem, É mais difícil de ser entendida enquanto plenitude, daquilo que quer dizer. Porque permanecerem Jesus e Jesus permanecer em nós parece muito abstrato. Porque às vezes, também nós corremos o risco de achar que, por que permanecemos na Igreja, permanecemos em Jesus. E nem sempre as duas coisas caminham juntas. Nós somos criados para dar frutos. E que frutos são esses? São frutos de amor. Na primeira carta de São João, o Apóstolo, o discípulo amado nos fala que devemos amar com ações e de verdade. Crer no nome de Jesus Cristo e amar uns aos outros é o mandamento que devemos seguir. Por quê? Porque quem guarda os mandamentos permanece em Deus e Deus permanece com ele. Permanecer. A verdade é que é tão difícil permanecer. É tão difícil permanecer unidos a Cristo. Porque para permanecermos unidos a Cristo, nós precisamos estimular a nossa relação com Cristo. Mas é também difícil permanecermos unidos uns aos outros. É difícil permanecermos unidos uns aos outros, porque o outro nos incomoda. O filósofo Sartre diz com maestria que o outro me incomoda. Porque o outro mostra aquilo que eu sou. E aí eu não quero permanecer unido ao outro. Não quero permanecer unido ao outro dentro da comunidade Igreja, mas também não quero permanecer unido ao outro na sociedade e muitas vezes também não quero permanecer unido ao outro nas micro-relações. Às vezes é muito mais fácil ir embora. Às vezes é muito mais fácil desistir de tudo, ir embora. Porque permanecer é doloroso. A própria vida nos mostra isso. Quantas vezes não parece mais fácil desistir de tudo ao invés de continuar o nosso caminho? Porque em alguns momentos da nossa vida, o próprio fato de existirmos se torna um fardo para nós. Às vezes, as relações se tornam um fardo para nós. Às vezes, os amigos se tornam um fardo para nós. Às vezes, os problemas da sociedade se tornam um fardo para nós. Às vezes, a nossa relação com Deus é um fardo para nós. Porque nós também não estamos dispostos a amar. Nós não estamos prontos para tanto amor. Estar dispostos a amar é estar dispostos a sofrer. Estarmos dispostos a amar, é estarmos dispostos a sentir a dor da ausência. Estarmos dispostos a amar é estarmos dispostos a ir até as últimas consequências daquilo que nós amamos. Mas precisamos ter uma régua, uma medida para amar. Primeiro a Deus. Depois, aos outros, por causa de Deus, e a mim mesmo, porque sou filho de Deus. E amar ao outro, e amar a mim mesmo, muitas vezes entra num conflito. O conflito de amar e querer permanecer com o outro, e, ao mesmo tempo, a dor de saber que é melhor deixar ir. É tão difícil permanecer. Mas não é impossível. Na relação com os outros, às vezes é. Na relação com Deus, não. Porque na relação com Deus eu posso não permanecer, mas eu posso voltar. Eu posso ir e voltar. Mas é só quando eu estou presente verdadeiramente em Deus, quando eu permaneço em Deus, que eu sou capaz de gerar frutos de amor. Quem não ama em Deus, não ama. Quem não ama em Deus pode estar apaixonado. Pode sentir amizade. Mas não ama. Porque Deus é amor! E só quem permanece nele, só quem ama nele ama verdadeiramente. Permanecer unidos a Jesus é o único caminho para dar frutose, e frutos que permaneçam. Assim seja! Amém.
quinta-feira, 25 de abril de 2024
25.04 | Festa de São Marcos, Evangelista
Amados irmãos e irmãs, estamos celebrando a festa de São Marcos Evangelista. São Marcos escreveu o seu evangelho por volta do ano 70 depois de Cristo. O evangelho de São Marcos é, na verdade, o evangelho de São Pedro. Segundo a tradição, acredita-se que Pedro narrava as histórias a Marcos, que depois as escreveu. Essa relação entre Pedro e Marcos está presente na primeira leitura que ouvimos quando, no final de sua carta, São Pedro envia saudações a Marcos. O evangelho de Marcos não segue uma ordem cronológica dos fatos. O objetivo é muito mais contar as histórias do que narrar a vida de Jesus. O objetivo é cumprir o mandato de Jesus de ir pelo mundo inteiro e anunciar o evangelho a toda criatura, batizar, realizar os sinais da presença de Deus, expulsar demônios, falar novas línguas, resistir aos venenos, im por as mãos para curar os doentes. Foi o próprio Senhor Jesus Cristo ressuscitado que deu aos seus discípulos esta missão antes de subir ao céu. Esta missão, que outrora era de Jesus, agora é a missão de cada discípulo e discípula. O próprio São Marcos não foi um seguidor de Jesus durante a sua vida. Acredita-se talvez que fosse da família de Marcos, da casa onde Jesus celebrou a última ceia, e que aquele homem que na narrativa de Marcos corre quando Jesus é preso seja o próprio Marcos. Mas ele não era alguém que acompanhava Jesus ao longo de sua trajetória. Ainda assim, a autoridade que tem para falar de Jesus e escrever seu evangelho é a autoridade daquele que fez uma experiência com Jesus Cristo ressuscitado por meio da ação da Igreja e, por isso, é capaz de seguir e realizar a missão que o Mestre confiou a todos nós. São Marcos é representado pelo leão, pois o evangelho de Marcos começa com João Batista rugindo no deserto, preparando os caminhos do Senhor. O leão também refere-se a Jesus Cristo, o Onipotente, o Rei. De fato, o evangelho de São Marcos tem como categoria central a figura de Jesus Cristo como o Messias. O Messias, em hebraico, que é o Cristo em grego, é o Ungido em português. O Messias é aquele esperado para realizar a libertação de Israel. São Marcos narra aos judeus como aquele que esperavam como Messias é Jesus Cristo. Ao mesmo tempo, Jesus subverte a imagem de messianismo existente em Israel. Ele não é o Messias que vem travar uma guerra política com o Império Romano, mas o Messias que vem para libertar da morte do pecado, trazer a vida e vida em abundância, e nesse sentido sim, torna-se um libertador político, mas não primeiro um libertador político. Percebamos, pois, que na história do povo de Deus, muitos foram ungidos, inclusive o primeiro a quem se deu o título de Messias, Ciro, o rei persa que libertou o povo do exílio na Babilônia. Na ação de Jesus Cristo, os judeus não conseguem reconhecê-lo como Messias por esperarem um Messias político. A libertação deste Messias, que é Jesus Cristo, é por meio do evangelho. A Boa Nova é a própria pessoa de Jesus Cristo. Que possamos nos abrir ao evangelho de Jesus Cristo e, tendo-O como nosso Messias, possamos seguir os seus passos, ir nos cristificando, e, a exemplo de São Marcos, ouvir as maravilhosas histórias desta ação de Deus na história humana, para podermos repeti-las e anunciar este Jesus Cristo com amor e fervor. Assim seja! Amém.
terça-feira, 23 de abril de 2024
23.04.2024 | Audiência Geral
domingo, 21 de abril de 2024
21.04.2022 | IV Domingo da Páscoa
Amados irmãos e irmãs, estamos celebrando o quarto domingo da Páscoa, o domingo do Bom Pastor. Na liturgia deste domingo, a cada ano escutamos o capítulo 10 do Evangelho de São João. No ano passado, Jesus dizia que Ele é a porta das ovelhas. Este ano, no cerne do capítulo 10, Jesus revela ser o Bom Pastor. E quem é este Bom Pastor? O Bom Pastor é aquele que, como a Pedra desprezada pelos construtores, se tornou a Pedra angular, diz São Pedro na primeira leitura. O Bom Pastor é aquele que nos torna filhos e filhas de Deus, como anuncia São João em sua primeira carta. O Bom Pastor, na dinâmica da antífona da comunhão da Missa de hoje, é aquele que ressurgiu, pois se ergueu o Bom Pastor que deu a vida por suas ovelhas e quis morrer pelo rebanho. De fato, no Evangelho que ouvimos, o Bom Pastor é aquele que dá a vida por suas ovelhas. O preço das ovelhas para o Bom Pastor é a própria vida. O Bom Pastor dá a própria vida. Jesus já anuncia aqui no capítulo 10 de São João: ninguém tira a sua vida, Ele a dá, a entrega e a recebe novamente, porque esta é a ordem que recebeu do Pai. No plano de salvação, já estava prevista a ressurreição de Jesus. Este é o seu pastoreio: dar a vida pelas ovelhas. As ovelhas não são apenas o sustento do pastor, que usa da sua lã para trocas. O pastor também é aquele que mora no meio das ovelhas. As ovelhas aquecem o pastor durante a noite. O pastor se desgasta pelas ovelhas. As conduz, ele as chama e elas conhecem a sua voz. Conhecer... Esta semana, na audiência geral de quarta-feira, já destaquei que conhecer para o tempo bíblico quer dizer intimidade. O Bom Pastor tem intimidade com as ovelhas. Ele as conhece. E elas O conhecem. Mas será que nós ouvimos a voz do Bom Pastor? Será que sabemos reconhecer a voz do nosso Bom Pastor? Será que conhecemos o nosso Bom Pastor? Será que temos intimidade com nosso Bom Pastor? Certa vez, um poeta estava declamando poemas no teatro e desafiou que algumas pessoas propusessem poemas para ele proferir, sem textos. Mas quem propusesse o poema depois deveria também levantar-se para declamar. Assim, testemunhariam que os dois conheciam o poema. Um humilde padre se levanta e pede para que o poeta proclame o Salmo 22. O poeta declama o Salmo com maestria. Quando termina, todos aplaudem ovacionando. Então o padre se levanta. Vai até a frente. E começa a declamar: "O Senhor é o meu pastor, nada me falta. Em verdes pastagens Ele me faz repousar. Conduz-me a águas tranquilas." Quando termina o Salmo 22, toda a plateia permanece em silêncio. Todos estão emocionados e não conseguem sequer dizer algo. Então o poeta diz: "Eu conheço o poema, mas este padre conhece o Bom Pastor." Nós podemos falar muito de Jesus. Mas não conhecer Jesus. Podemos até ser pastores. Mas não ter intimidade com o Bom Pastor. E às vezes, é aí que está o problema do nosso pastoreio. Se o meu pastoreio não gera frutos é porque eu não estou pastoreando conforme o Bom Pastor. E se não pastoreio conforme o Bom Pastor, é porque não tive intimidade com Ele. Conhecer a voz do Pastor, ouvir a voz do Pastor, deixar-se conduzir por Ele, pode se tornar conceitos muito abstratos em nossa vida. Entrar na intimidade do Bom Pastor é ouvir a suavidade de Sua voz, mesmo que com o cajado, às vezes, Ele precise nos puxar e conduzir. Entrar na intimidade do Bom Pastor é ouvir Sua voz e deixar-se atrair, deixar-se seduzir por este jeito diferente de Jesus Cristo e por este projeto de amor que Ele tem por cada um de nós. E só se entra na intimidade do Bom Pastor por meio da oração. Se na nossa vida de oração nós não fazemos uma experiência verdadeira com Jesus como o Bom Pastor, como aquele que nos aquece, que nós aquecemos, com o qual fazemos essa troca de carinho, de afeto, nós, verdadeiramente, ainda não conhecemos o Bom Pastor. Ainda somos as ovelhas que não pertencem ao Seu redil. E ainda assim, Ele continua a nos chamar pelo nome, esperando ansioso que ouçamos Sua voz e O sigamos para sempre. Assim seja! Amém.
quarta-feira, 17 de abril de 2024
17.04.2024 | Audiência Geral
Amados irmãos e irmãs, finalmente temos a nossa primeira audiência geral deste Pontificado e é com muita alegria que os acolho para iniciarmos as nossas catequeses. Nesta nossa primeira série de catequeses, irei falar sobre a nossa experiência com Deus. De fato, com esta série de catequeses, pretendo preparar o lançamento da minha primeira carta encíclica "Inefabilis Deus". Em nossos tempos, apesar de uma cultura muito líquida, ainda assim nós queremos tocar Deus. Queremos fazer uma experiência de Deus que seja sensível. Queremos tocar, queremos olhar, queremos sentir o cheiro, queremos ouvir, queremos provar. E é diante dessa experiência que nós nos colocamos todas as vezes que vamos pensar numa experiência de Deus. A experiência de Deus é muitas vezes uma experiência mística, uma experiência realmente sentida, contemplada. Mas tantas outras vezes e tantas outras pessoas nunca vão fazer essa experiência. E então, será que Deus não quer se deixar ser conhecido? Será que Deus não quer ser experimentado? Como crer em Deus como experimentar Deus sem que essa experiência passe pelos nossos sentidos? E aí que está em nosso tempo, parece que os sentidos não têm tanto valor, porque não nos apegamos a eles, passamos a uma realidade muito virtual. De fato, essa rede de comunicação que nós criamos e que possibilita a nossa comunicação neste momento é extremamente favorável, mas não pode substituir as relações. Nada substitui o toque de amor. Nada substitui o olhar nos olhos da pessoa. E neste mundo onde estamos substituindo tudo isso, nós queremos ter essa relação com Deus. E aí nós cobramos Deus porque tantas vezes ele não se dá conhecer desse modo. De fato, Deus se deu a conhecer, foi experimentado de um modo muito especial pelos discípulos, por aqueles que viram o Jesus histórico, por aqueles que caminharam com ele, por aqueles que foram tocados por ele. Esse modo tão singular de conhecimento, porém, é limitado àqueles que por pouco mais de 30 anos conviveram ou se encontraram com Jesus Cristo neste mundo. Nós somos convidados a fazer uma experiência diferente que é a experiência com Jesus ressuscitado. A experiência com Jesus ressuscitado é uma experiência, sem dúvidas, transformadora. Mas, ao mesmo tempo, é uma experiência um pouco diferente. Pois a experiência com Deus através da ressurreição de Jesus é uma experiência na graça. No Antigo Testamento, nós já temos muitos relatos dos patriarcas e dos profetas fazendo experiências pessoais com Deus. Deus se dá a conhecer, em primeiro lugar, a Adão e Eva, nossos primeiros pais. Deus se dá a conhecer a Noé quando lhe ordena construir a arca para que haja a purificação da Terra. Deus se dá a conhecer a Abraão, ao qual faz a sua Aliança. É Abraão quem estava embaixo do Carvalho de Mambré, quando se aproximam os 3 homens, representação já da Santíssima Trindade, e param para ficar ali. E é quando há a promessa de uma terra e uma descendência para Abraão. É assim que Abraão sai de Ur da Caldeia e vai até Canaã. É também aí que tem o primeiro filho com a escrava Hagar, o filho Ismael, e depois consegue finalmente ter o filho com Sara, o filho da promessa Isaac. E é de Isaac que nasce Jacó, do qual nasce José. E José é aquele que desce para o Egito num tempo onde Canaã passa por uma experiência de grande pobreza. E no Egito, Deus é experimentado por Moisés. E então o povo de Deus passa a viver uma experiência totalmente nova com esse seu Deus. Deus é o libertador. Deus é aquele que os tirou do Egito das mãos do faraó, que os fez passar pelo mar, que os alimentou no deserto e que lhes deu a lei. A Moisés, Deus se revela como "Eu sou". "Eu sou", quer dizer, eu sou aquele que é, que era e que serei. Eu sou. Quer dizer, eu estarei ao seu lado para aquilo que precisares, eu sou. É a presença de Deus no meio do seu povo. É um Deus que caminha com o seu povo. É um Deus que se faz presente na história do seu povo. É esta experiência de Deus que faz Israel no Santo dos Santos, na Arca da Aliança, na tenda da reunião e depois no templo no período da monarquia. Mas o povo de Israel também faz a experiência da ausência de Deus. Esta experiência é muito clara no exílio. É no exílio da Babilônia, que o povo sente a ausência de Deus. É na Babilônia que sentem-se as consequências do pecado, a consequência da infidelidade, a consequência da idolatria que tinha Israel. Porque a idolatria? Pois o ídolo não tem valor em si mesmo, o ídolo é aquele ao qual o fiel concede um valor, concede um poder que o próprio ídolo não tem. Aqueles que praticam a idolatria abandonam a Deus, e é por isso que Deus diz por meio do profeta Amós que o povo irá perder tudo aquilo que lhe foi dado pelos ídolos e que Deus lhe restituirá alguma coisa maior, mas para isso, a experiência necessária do povo de Deus é a experiência do exílio. Mas essa experiência do exílio também passa a ser uma experiência de amor. Quando o povo volta para a Terra e lá restabelece o templo, lá sente-se novamente amado por Deus. Lá faz a experiência com a palavra de Deus. Experiência de Deus de modo singular, fez Jesus Cristo. Ele, que era Deus, relaciona-se intimamente com o Pai. É ele quem nos ensina a fazer a experiência de Deus, um Deus amoroso, um Deus misericordioso, um Deus que se dá a conhecer. Um Deus que se entrega. Um Deus que ama. Ama, é misericordioso, se entrega, justamente porque isso é parte da sua própria natureza. É este Deus que Jesus Cristo nos ensina a chamar Pai. A experiência com Deus, portanto, por meio de Jesus Cristo, é renovada e nos permite uma experiência que é muito mais profunda. Mas falar de experiência de Deus também é falar da experiência da ausência de Deus. Ausência de Deus que nós sentimos em muitos momentos. E, às vezes, ausência de Deus é ausência da experiência de Deus. Deus parecia ausente aos mártires, mas a sua fé os fez permanecer fiéis a Deus, a experiência de Deus que tinham feito. Deus parecia ausente em Auschwitz. E a grande pergunta do século 20 foi, onde estava Deus em Auschwitz? E nós respondemos, Deus estava morrendo nas câmaras de gás. Este é o nosso Deus, é um Deus que sente conosco. As nossas dores, as nossas angústias, as nossas misérias, mesmo aquelas que são menores, mesmo aquelas que parecem mais bobas. São sentidas por Deus. Deus sente conosco. E se de fato fazemos a experiência de Deus em sua aparente ausência, muito mais fazemos a experiência de Deus quando o percebemos, quando o conhecemos. Reparem que no hebraico, conhecer tem uma conotação amorosa, sexual. Pois no conhecimento sexual, nós sentimos a outra pessoa por completa, uma pessoa se entrega totalmente a outra. Por isso que Maria diz que ainda não conhece homem algum. Conhecer é entrar na intimidade. E o que há de mais profundo em nós é apenas conhecido por Deus. Nem nós mesmos nos conhecemos profundamente, o que dá base a várias teorias psicológicas, como a de Freud. Mas Deus nos conhece. E ele quer ser conhecido por nós. Fazer a experiência de Deus é também conhecê-lo. Conhecemos a Deus por meio dos estudos. Mas este ainda não é o conhecimento em seu sentido mais estrito. Conhecimento de Deus aqui é uma experiência. Experiência não sensível. Experiência que acontece por meio da graça. Experiência de revelação. Experiência de percepção da ação e da presença de Deus em nossa vida, em nossa sociedade, em nosso mundo. E onde experimentamos a Deus, já que ele nem sempre é tangível aos nossos sentidos, nem sempre é sentido nas nossas emoções e a intelectualidade não é suficiente? Gostaria eu de ter uma resposta pronta para dar a vocês. Porque cada um de nós faz uma experiência diferente deste mesmo Deus. Isso não cai no relativismo, antes, nos mostra que Deus se revela de modos diferentes na experiência, não enquanto verdades, enquanto dados de fé. E, nesse sentido, não há experiência maior ou menor, mais ou menos importante. Há apenas Deus e nós e uma pequenininha experiência que pode mudar tudo.
domingo, 14 de abril de 2024
14.04.2024 | III Domingo da Páscoa
Amados irmãos e irmãs, estamos celebrando o Terceiro Domingo da Páscoa, onde somos convidados a sentir os efeitos da Ressurreição de Jesus em nossas vidas. A primeira leitura é o relato da pregação de São Pedro aos judeus, que os convida para a conversão a Jesus Cristo. São Pedro evoca os patriarcas, evoca as profecias, evoca aquilo que há de mais caro aos judeus para convencê-los a seguir Jesus Cristo. O Apóstolo está fazendo justamente aquilo que Jesus Ressuscitado ordenou no Evangelho que ouvimos. O próprio Jesus revela como nele se cumpre a lei e os profetas, e em seu nome serão anunciados o perdão e a conversão. Basta crermos em Jesus Cristo para sermos salvos. As obras, as ações, são consequências necessárias desta fé. Tanto que na segunda leitura, São João é claro ao dizer que só ama a Deus quem segue os seus mandamentos. Não dá pra amar a Deus e não viver os seus mandamentos. E quais são os mandamentos? Sim, é o decálogo, mas, sobretudo é o cumprimento perfeito no mandamento de Cristo: amai-vos uns aos outros como eu vos tenho amado. São João, na sua carta, diz que escreve para que não pequemos, mas se pecarmos, não nos esqueçamos que temos Jesus Cristo como Salvador. Talvez, depois de duas semanas, já tenha esmorecido em nós aquele fervor com o qual vivemos a quaresma e a Semana Santa. Mas, agora que nós fomos pascalizados é o momento de vivermos ainda mais profundamente a conversão e a vida nova e não de deixarmos esfriar os nossos corações. Hoje, Jesus aparece diante dos seus apóstolos e revela seu corpo glorioso, que por mais que ilimitado no espaço-tempo, não é um fantasma, pode comer, pode ser tocado. E os apóstolos fazem essa experiência da Ressurreição de Jesus em suas vidas, do perdão, da conversão a Jesus: passam de assustados e com medo para surpresos e alegres. A experiência da Ressurreição na nossa vida deve ser assim, sempre uma surpresa e sempre uma alegria. Surpresa porque sempre nos coloca novos desafios, porque lançar-se nas mãos de Deus, lançar-se na via do Ressuscitado é lançar-se no desconhecido, mas não um desconhecido que amedronta, um desconhecido cheio de esperança, um desconhecido de certeza de um Deus que não desampara. Deus foi fiel a tudo aquilo que ele prometeu aos pais na fé, aos profetas, ao seu povo. Lançar-se nas mãos dele é um ato de confiança naquele que é o vencedor da morte, do mundo. "Tende coragem, eu venci o mundo!", diz Jesus. Alegria é a consequência mais concreta da Ressurreição. Porque não dá pra ser triste aquele que descobriu em sua vida aquilo que a enche de sentido, aquele que experimentou o amor, aquele que se lançou e foi abraçado pelo amado, que nunca mais o soltou, o Senhor Jesus Cristo. Assim seja! Amém.
quarta-feira, 10 de abril de 2024
10.04.2024 | Reunião geral do clero
Excelentíssimos senhores bispos, reverendíssimos presbíteros, meus queridos filhos. Nesta noite, muito antes de querer fazer convosco uma exposição muito prolongada, em positiva daquilo que penso, quero dialogar convosco. Por isso, iniciarei sim com a minha colocação, mas depois. Quero provocá-los a perguntar, a conversarmos sobre o melhor caminho para a nossa igreja. Quando o Papa João Paulo VIII me convidou para pregar o retiro para a Cúria Romana e para toda a igreja, falei muito sobre a sinodalidade. E penso que este momento deve ser um momento sinodal. Penso sim, em comunhão com o Papa Francisco, que precisamos converter as estruturas da igreja numa estrutura sinodal e isso deve refletir também para a nossa igreja no Habbo Hotel. Talvez um dos nossos grandes problemas hoje seja justamente esperarmos uma grande seriedade no ser igreja. Os senhores sabem que em muitos momentos da história da igreja houve controvérsia sobre se deveria ou não haver uma igreja católica no Habbo Hotel. Tanto que no pontificado de Silvestre I, a igreja foi reduzida a um Ministério da Palavra. Nós sabemos bem o quanto alguns não entendem aquilo que nós fazemos, que não entendem a nossa missão, que acham que nós estamos simplesmente zuando. Quando eu cheguei na igreja, havia um clima muito mais descontraído do que o que nós possuímos hoje. Mas foi crescendo em nós a consciência de que, ao mesmo tempo que nós estamos aqui para satisfazer os nossos desejos pessoais, é a nossa realização de celebrar a Eucaristia e a nossa vivência fraterna. Existe também a dimensão eclesial que deve ser vivida com seriedade. Não podemos zombar das coisas de Deus. Não podemos simplesmente usar as coisas de Deus. Por isso, a nossa missão aqui deve ser uma missão séria. Devemos sempre levar em consideração que aquilo que nós fazemos é também um modo de evangelizar. E talvez a única crise existente na igreja, mesmo que muitos queiram, de vez em quando falar de alguma crise, a única crise existente é a crise de identidade. Crise essa que não deveria existir, uma vez que o Concílio de Jerusalém, já com muita clareza, definiu para nós o que é o ser da igreja. Em continuidade com o Concílio Vaticano Segundo, onde se fala da igreja como reflexo da realidade. O Concílio de Jerusalém também falou sobre a necessidade de ser igreja. Por que somos igreja? Por que celebramos os sacramentos? E foi tendo em vista essa seriedade também que nós pudemos recentemente, por meio da Constituição Apostólica Sacrossancta Liturgia, retornar as palavras próprias da narrativa da instituição, que são tão significativas, mas que haviam se perdido justamente pelo medo de simular sacramentos, mas que, na verdade, mostram como nós não entendíamos ainda o suficiente sobre a liturgia, sobre teologia. E nem mesmo sobre nós mesmos. Um tema que venho retomando com bastante persistência desde o dia do retiro do clero é o do autoconhecimento. Autoconhecimento nosso como igreja, mas também autoconhecimento nosso como pessoas. Não dá para fugirmos. Não dá para fugir de nós mesmos. A dificuldade é que quando nós não nos conhecemos, nós não conhecemos os nossos limites, acabamos por assumir coisas demais que não damos conta. Ou corremos o risco de nos menosprezarmos, de podermos dar muito mais de nós mesmos, mas não estarmos dispostos. Ainda assusta a quantidade de cardeais, bispos e padres que não estão dispostos ao que assumiram. Não basta dizer que a porta da rua é serventia da casa. Às vezes as pessoas não estão dispostas a sair, às vezes queremos dar o melhor de nós mesmos, mas não conseguimos. E aí falta a humildade de pedir ajuda. Ou então, estão tão habituados a essa situação que não se mexem para sair dela. Nesta visita apostólica, eu disse que queria priorizar a dinâmica do encontro. Penso que já falei o suficiente sobre isso logo no discurso de abertura. Mas, permitam-me ressaltar aqui convosco como sinto falta do encontro entre vós. Alguns não têm nem encontro comigo. Alguns padres nunca participam das minhas celebrações, nem das celebrações de outros, assim como bispos e cardeais. O que sinceramente me preocupa, porque se não estão nas celebrações do Romano Pontífice, penso que muitas vezes também não estão nas celebrações, nas arquidioceses. Penso que também não celebram. Não estão presentes na vida da igreja. Mas vocês também não têm encontro entre vocês. O grupo da igreja às vezes é movimentadíssimo. O grupo dos cardeais costuma ser movimentado. O grupo dos bispos conversa muito de vez em quando. O grupo dos presbíteros e dos diáconos só existe para aviso. Não sei como é o grupo das arquidioceses, mas espero que seja melhor. Porque isso mostra que falta-nos uma colegialidade. Falta-nos um sentimento de pertença, um sentimento de comunhão. E sem essa pertença, sem essa comunhão, não dá para sermos uma autêntica igreja. Eu sei e entendo que muitas vezes nós temos muitos afazeres na nossa vida real. Graças a Deus. Eu também tenho. Mas se nós não podemos nos dedicar à igreja do nosso Habbo Hotel, nós precisamos infelizmente deixá-la. Eu sei que sou abençoado por uma rotina um pouco mais tranquila, que me permite um pouco mais de atividades e, muitas vezes, um tempo livre para preparar homilias, discursos, nomeações. Mas que não me dá tempo livre o suficiente para estar aqui convivendo convosco o tempo todo. O Colégio Cardinalício sabia disso quando me elegeu. Agora, será que nunca tenho tempo livre? E se não há esse tempo livre, por que estamos insistindo em permanecer? Ou será que o problema é outro? Será que eu não me sinto pertencente à igreja? Será que aconteceu alguma coisa que me faça não me sentir pertencente? Será que eu não estava fazendo as coisas esperando uma promoção que não veio e então eu me desanimei? Sim. Todo padre é um bispo em potencial. Todo bispo é um cardeal em potencial. Todo cardeal é um papa em potencial. Mas nem toda potência vai virar ato. Nem todo padre vai ser bispo, nem todo bispo vai ser cardeal, nem todo cardeal vai ser papa. Às vezes nós só temos que fazer aquilo que temos que fazer onde estamos. A gente sabe muito bem quem é ganancioso. Não que a ganância ou a carreira seja um problema em si. Mas causam situações problemáticas. Porque às vezes, a pessoa nem por isso se esforça. A nossa motivação deve ser o amor por Jesus Cristo, deve ser o amor pela nossa igreja. Houve uma vez que fui exonerado do Colégio Cardinalício pelo Papa Bento Terceiro como condição para sair da emerititude, a fim de voltar a ser ativo. Não hesitei em abrir mão do cardinalato. Não me ponho como modelo para vocês. Mas vos digo que às vezes precisamos entender que temos algo a mais. Que o mais importante não é nos apegarmos aos títulos, mas nos apegarmos à igreja. Então, o que eu digo a vocês é isso. Unam-se mais como colégios ou não se mais como arquidioceses. Partilhem mais as coisas, vivam esse encontro entre vocês. Saibam que o Papa também está sempre disposto a encontrá-los. Foquem na formação presbiteral de acordo com a Ratio, e sejam vocês divulgadores da nossa igreja. Entendam que a igreja é de vocês. Ou melhor, que vocês são a Igreja. Como eu disse na abertura da nossa visita apostólica, é aqui no Brasil que está o que há de principal na igreja, que é a pastoralidade. E a pastoral deve estar em vocês. Vocês, padres e bispos, são imagens de Jesus Cristo, o Bom Pastor, e por isso devem ser pastores. Não são apenas ovelhas, são pastores. São protagonistas. São corresponsáveis. Assumamos, pois, todos nós este protagonismo ou admitamos a nossa limitação e permitamos que a igreja continue sem nós. O que mais importa não é a quantidade, é a qualidade. Esta percepção que vem crescendo dentro da igreja corre o risco de nos reduzir. Mas de que adianta muitos padres, muitos bispos, muitos cardeais e nomeações se na prática nós não temos essas pessoas? Sejamos protagonistas. Agora abro para as perguntas de vocês, os questionamentos não apenas sobre este tema, mas sobre tudo aquilo que envolve a vida da igreja, aquilo que vocês querem saber, aquilo que vocês enxergam como dificuldades que querem e que precisam de ajuda, enfim, é nosso momento de diálogo.
10.04.2024 | Missa em Aparecida
Excelentíssimo Dom Vitor Oliveira, arcebispo metropolitano de Aparecida, senhores concelebrantes aqui presentes, amados irmãos e irmãs, estamos celebrando a quarta-feira da segunda semana da Páscoa, recordando que o Senhor renovou a dignidade original da pessoa humana e nos deu a esperança da ressurreição. A missão da igreja, a nossa missão como cristãos deve atentar-se sobre estes dois tópicos. De fato, a missão de Cristo é a salvação, e a salvação é sempre a salvação integral da pessoa humana, lhe restitui a dignidade e lhe concede a vida eterna. Dignidade, que é a dignidade de filhos e filhas de Deus. Esta dignidade que se concretiza já na nossa humanidade, dignidade que nós devemos promover hoje. E a esperança da ressurreição, porque acreditamos que essa dignidade nos leva à eternidade. Lá, ela será plena. Por isso, nos Atos dos Apóstolos, quando foram presos os apóstolos, o Senhor não os deixou trancados, mas enviou o seu anjo para abrir as portas da prisão para que eles pudessem ir pregar. O anúncio do Reino de Deus faz parte da missão apostólica e não encontra seus limites nos limites humanos. Limites humanos são, sim, os limites da prisão, mas também são os limites da nossa própria fragilidade. Quantas vezes nós olhamos para nós mesmos e pensamos nas nossas limitações, naquilo que nos impossibilita de sermos autênticos apóstolos, naquilo que dificulta a nossa missão? Mas são justamente estas prisões que o Senhor quer abrir para nós, para nós podermos ir ensinar o povo, ensinar o caminho da salvação. Esta missão não é uma missão clerical, mas é uma missão de todo o povo de Deus; leigos leigas, religiosos, religiosas, diáconos, presbíteros, bispos. A missão é de todos. Porque Jesus Cristo veio para salvar a todos. Tanto nos amou que veio nos dar a vida eterna. E para que os outros conquistem a vida eterna, somos nós que precisamos deixar as nossas prisões para anunciá-lo. No evangelho de São João, que ouvimos, parece que há uma certa dicotomia entre o mundo e o Divino. Mas isso não quer dizer que o mundo seja ruim. O mundo, aqui, é aquele mundo que ainda não conheceu a Deus. Não a matéria, mas a escuridão presente no mundo, naqueles que ainda não foram atingidos pela luz de Jesus, pela luz do ressuscitado. Essa luz que crepita sobre o Círio Pascal ilumina as trevas do nosso coração e da nossa mente para sermos capazes de iluminar aos outros. Somos, irmãos e irmãs caríssimos, iluminados e iluminadores. Somos responsáveis pela evangelização, pelo anúncio do Reino de Deus, somos os responsáveis por fazer Jesus Cristo ser conhecido e amado entre os homens por todos os séculos dos séculos até o fim dos tempos. Mas não nos iludamos, não somos capazes disso. Deus vem em socorro de nossas fraquezas. O anúncio não acontece pela nossa força. A evangelização, a missão não acontece apenas pela nossa força, mas sempre Deus vem ao nosso Socorro para que nós possamos cumprir com a sua missão. E nossa missão, como disse no começo da nossa homilia, partindo da oração coleta de hoje é trabalhar pela dignidade da pessoa humana e pela sua participação na ressurreição de Cristo. Dignidade da pessoa humana, tantas vezes tão esquecidas por alguns grupos que não entendem a totalidade da pessoa humana, focando na salvação da alma, como se esta fosse independente de um corpo. Ressurreição, tantas vezes esquecida por outros grupos que acham que o que importa é apenas aqui e o agora. E no meio dessas correntes ideológicas está esquecido Deus e o seu povo. É Deus e o povo de Deus que está no centro da nossa missão evangelizadora. Que as celebrações pascais vividas com amor nos impulsione a voltarmos aquilo que é essencial de nossa missão como cristãos e que assim possamos ser iluminadores deste mundo onde ainda há tantas trevas. Assim seja! Amém.
terça-feira, 9 de abril de 2024
09.04.2024 | Missa na Catedral de São Paulo
Estimado Dom Pablo Maxi, Arcebispo Metropolitano de São Paulo, amados irmãos e irmãs, estamos celebrando a terça-feira da segunda semana da Páscoa. E neste dia, o Senhor Jesus nos pergunta: "Tu és mestre em Israel, mas não sabes estas coisas?" Sim, a pergunta feita a Nicodemos serve também para todos nós. Nicodemos é aquele dos sumos sacerdotes que se aproxima de Jesus, que vai à procura do Mestre, mas que ainda não compreende claramente as coisas que Jesus falava. Gosto muito daquela cena de "The Chosen" quando Jesus vê Nicodemos e diz: "Você chegou tão perto..." Sim, Nicodemos chega tão perto, mas não consegue entender, não consegue se aprofundar no mistério e não aprofunda no mistério porque estava preso à antiga lei. Não que a antiga lei seja ruim; pelo contrário, Jesus não veio substituir o Antigo Testamento, mas veio como seu pleno cumprimento. Muitos estavam presos à lei, ao legalismo, às palavras; o espírito da lei e o sentido da lei ficavam de fora. O diálogo de Jesus com Nicodemos, que ouvimos na perícope de hoje, é precedido por Jesus falando sobre a necessidade de o homem nascer de novo, nascer do alto, e quem nasce do alto é quem nasce do Espírito Santo. Hoje, é o Espírito Santo quem nos dá sentido às Escrituras, pois é ele quem inspirou os autores bíblicos e é ele quem inspira a Igreja na interpretação das Escrituras. As Escrituras não são uma palavra morta, mas uma palavra viva, sempre renovada e renovadora, que nos faz homens e mulheres nascidos do alto, herdeiros da vida eterna que Jesus, elevado sobre a Cruz, como a serpente no deserto, nos conquistou. Os cristãos da Igreja primitiva tinham isso muito claro: essa herança espiritual. Eles não consideravam como próprias as coisas que possuíam; não era a herança financeira que importava, mas o importante era que na comunidade ninguém passasse por necessidade. A herança que possuímos é diferente do que nos promete qualquer teologia da retribuição ou da prosperidade; é na verdade o Reino dos Céus. Assim, fazemos parte do reinado do Senhor, que se revestiu de esplendor, mas na verdade se revestiu de avental. Por isso, nossa vida deve ser revestida do avental do serviço. Que possamos não ficar na beirada do mistério do Senhor, mas como mestres do povo, clérigos, possamos fazer uma experiência profunda do Senhor Jesus Cristo ressuscitado, permitindo que o Espírito Santo nos faça renascer, soprando sobre nós e nos impulsionando ao serviço no qual já participamos como herdeiros da vida eterna, como herdeiros do Reino dos Céus aberto a nós por Jesus, e que já participamos na história humana e esperamos participar um dia na eternidade. Assim seja! Amém.
09.04.2024 | Discurso na chegada ao Brasil
Amados irmãos e irmãs, os quais saúdo de modo especial na pessoa de Dom Raul Cardeal Steiner, núncio apostólico para o Brasil, é com grande alegria que me encontro convosco nesta noite, onde nós iniciamos a nossa visita Apostólica ao Brasil. Este é um momento de encontro. Momento de encontro entre o bispo de Roma e o seu povo. Entre aquele que tem a missão de presidir a Igreja na caridade e aqueles que são o seu rebanho, as suas ovelhas. Por isso, não posso deixar de dizer, de destacar a minha grande alegria em estar convosco. Estar em território brasileiro, estar na Terra de Santa Cruz é estar junto deste povo tão fiel ao Senhor e que tanto o ama. Nesta noite venho para confirmar-vos na fé. Esta é a principal missão do sucessor de São Pedro, confirmar as comunidades na fé. E esta fé é a nossa fé no ressuscitado. É a nossa fé na pessoa de Jesus Cristo. E esta visita é um momento singular de encontro. Encontro é sempre o encontro entre duas pessoas. Encontro este que devemos ter feito com Jesus ressuscitado por ocasião da Páscoa, mas que também fazemos todos os dias, com as diversas pessoas. Talvez hoje um dos grandes problemas da nossa Igreja seja que nos falta esse encontro. Às vezes estamos tão fechados em nós mesmos que não criamos aquela necessária cultura do encontro. A cultura do encontro nos faz sair de nós mesmos para irmos até aquelas realidades tantas vezes desconhecidas, tantas vezes amedrontadoras. Mas que é necessária para a nossa missão. Sem o encontro, nós não podemos ser cristãos. Sem o encontro, nós não podemos ser Igreja. E como falta na nossa Igreja a cultura do encontro... Venho até vós para fomentar em voz essa cultura do encontro. Cultura do encontro do arcebispo e dos seus bispos auxiliares, cultura do encontro dos bispos com os presbíteros, cultura do encontro do clero brasileiro com a Cúria Romana. Cultura do encontro da Igreja com aqueles que estão fora da Igreja. Cultura do encontro com as outras comunidades cristãs que estão presentes e que fazem a sua missão de evangelização. Cultura do encontro com aqueles que se encontram desanimados, com aqueles que se encontram desesperados. Com aqueles que ainda não conhecem nosso Senhor Jesus Cristo. Com aqueles que ainda procuram aquele que é o maior sentido de suas vidas, de suas almas e não encontram. Cultura do encontro com os diversos campos da política, da sociedade. Cultura do encontro com aqueles que ainda se encontram desencontrados. Porque muitas vezes nós estamos desencontrados, não apenas com os outros, mas às vezes estamos desencontrados conosco mesmos. Então, primeiro, precisamos nos encontrar conosco mesmos, precisamos nos achar. E para a Igreja, urge esta missão de encontrar-se para poder encontrar. A Igreja do Brasil precisa ser justamente a Igreja do encontro. Pois é aqui que estão as pastorais, é aqui que está a nossa realidade mais próxima do povo de Deus. Mas se tantas vezes nós não nos encontramos como Igreja, se não estabelecemos diálogo entre nós como Igreja, se não participamos da nossa vida como Igreja, como autêntica comunidade, também não vamos nos encontrar com os outros. Algumas preocupações dos eminentíssimos senhores cardeais nas congregações gerais que prepararam a minha eleição eram: o que a Igreja está fazendo no ad extra, ou seja, no pra fora, na nossa relação com o povo de Deus. Confesso que esta realidade me preocupa muito, mas também me preocupa o ad intra, como nós estamos nos relacionando entre nós, como estamos nos encontrando. Sem um autêntico encontro interno entre as comunidades eclesiais, entre as estruturas eclesiais, entre os sujeitos eclesiais, que somos todos nós, não haverá encontro, não haverá missão evangelizadora, não haverá sequer Igreja. O auge da minha visita, é a reunião com os colégios episcopal e presbiteral, que obviamente será acompanhada também por diversos cardeais, inclusive nos reuniremos para fazer um balanço na quinta-feira. Mas o meu foco é estar na vossa realidade, entender a vossa realidade e as vossas dificuldades, conversar, dialogar convosco, bispos e presbíteros, para que possamos pensar nas melhores soluções para os problemas que assolam a nossa Igreja hoje. Não de um modo impositivo, não de um modo que seja a hierarquia impondo algo sobre vocês, mas todos juntos, com o sentido de co-responsabilidade e de pastoralidade, possamos pensar o melhor para a Igreja, que é de todos nós. Assim, nos ajude Deus, pela intercessão de São Pedro de Alcântara, co-padroeiro do Brasil, e de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil e padroeira do nosso Habbo Hotel. Ela que é a mãe do encontro, que sai apressadamente ao encontro de sua prima Isabel para servi-la, nos ensine a fazer do encontro com as realidades aqui presentes o nosso encontro com Deus. Obrigado pela vossa acolhida. Prossigamos em paz. Deus abençoe o Brasil e Deus abençoe o nosso clero brasileiro.
segunda-feira, 8 de abril de 2024
08.04.2024 | II Domingo da Páscoa
Estimado Dom Vitor Oliveira, que recebeu seu pálio pastoral, amados irmãos e irmãs, estamos celebrando o segundo domingo da Páscoa, o domingo da divina misericórdia, ou o domingo in albis. Três palavras marcam a nossa liturgia: mistério, fé e comunidade. Neste domingo, os recém-batizados, trajando vestes brancas tomavam seus lugares na comunidade para o tempo da mistagogia. O tempo da mistagogia é o Tempo Pascal, tempo de nos aprofundarmos no maravilhoso mistério da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor. E, por ser tempo de mergulhar no mistério, nós vamos nos aprofundando nas Escrituras e nas celebrações da Liturgia, na nossa experiência com o Ressuscitado. E quanto mais nos aprofundamos, mais percebemos que esse mistério é inexaurivel, não se esgota, sempre tem algo novo a revelar, sempre tem algo novo a mostrar para nós. Quanto mais nos aprofundamos no mistério, mais vemos que temos a nos aprofundar, mais percebemos que ainda não conhecemos quase nada sobre a imensidão de Deus. Diante dessa revelação do mistério a que somos chamados de modo especial nesse tempo Pascal a nos aprofundarmos, nossa resposta é a fé. A fé é um dom de Deus a nós. Ele se revela e a fé é nossa resposta, nossa adesão a essa Revelação, a essa pessoa-revelação que é Jesus Cristo. A fé é aquela fé dos apóstolos no Evangelho de hoje que afirmam: vimos o Senhor. A perícope evangélica se inicia no anoitecer daquele primeiro dia da semana, o domingo da Páscoa, com seus acontecimentos que ouvimos essa semana: as mulheres no túmulo, a ida de Pedro e João, a revelação de Jesus a Maria Madalena, o episódio dos discípulos de Emaús, enfim, aquele dia culmina em Jesus que entra onde estava os seus. Entra com seu corpo glorioso, tão bem representado pelo Círio Pascal, que é um corpo desconhecido para nós. Jesus se põe no meio deles, sopra sobre eles o Espírito Santo e os deseja a paz. Eles tem fé e reconhecem ter visto o Senhor e é isso que anunciam a Tomé. A maior dificuldade para Tomé não é meramente a falta de fé, mas é o fato que ele não estava na comunidade reunida naquele domingo da Páscoa. E é justamente por não estar na comunidade de fé, que lhe falta a fé. Irmãos e irmãs, somos católicos. A nossa experiência de fé é vivida na comunidade. Credo in Ecclesia, que rezamos no Creio, é creio na Igreja, com o duplo sentido de crer na Igreja, mas também de crer dentro da Igreja. É na comunidade de fé reunida que se experimenta o Ressuscitado. Mas, a comunidade não é apenas uma agremiação de pessoas, comunidade é onde vivem os que se amam. E o modo de amor vivido pelas comunidades da qual fala os atos dos apóstolos é a partilha dos bens. Os cristãos tinham tudo em comum e partilharam seus bens com alegria. Nós, como católicos, acreditamos na destinação universal dos bens. Não defendemos o capitalismo desmedido nunca. A Doutrina Social da Igreja é clara para nós. Os bens devem ser partilhados, senão pelo espírito de uma comunidade universal, pelos critérios da justiça. Mas, oxalá construíssemos essa nova humanidade, onde todos fossem de fato uma comunidade. Uma comunidade de fé, que mergulha no mistério do Senhor, que toca o Senhor. Tomé não precisou tocar para crer, bastou ver o Senhor com a comunidade e professa nele a sua fé. Nós, que muitas vezes precisamos tocar, tocamos no seu corpo Ressuscitado na Eucaristia, nos irmãos e irmãs, e quando estendemos as mãos para ajudar os que estão sofrendo. Aí tocamos o mistério, aí tocamos no lado de Jesus, aí a nossa fé alcança a concretude daquilo que professamos: Meu Senhor e meu Deus!