quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

09.02.2023 - Missa de Encerramento do Pontificado

Amados irmãos e irmãs, estamos celebrando esta sagrada Eucaristia em ação de graças por estes sete meses que estive a frente da Cátedra de São Pedro. Hoje, concluímos este caminho de pastor e rebanho que nos trouxe até aqui. Quero, já no início desta, agradecer a todos aqueles que comigo fizeram este pontificado, todos que trabalharam, se empenharam e comigo construíram este tempo que vivemos na Igreja: Deus vos recompense. Celebrando esta missa em honra de Santa Maria Madalena, que acabamos de declarar co-padroeira de nossa Igreja, uma palavra marca profundamente a liturgia: amor. Deus é aquele pelo qual anseia nossa alma; é aquele pelo qual todo ser humano anseia mesmo que não saiba, mesmo que não reconheça. Ele é o amor que completa e satisfaz tudo aquilo que nossa humanidade sente de incompletude em seu ser. E é assim que Ele nos renova e nos faz novos pela força de sua Páscoa redentora, onde manifesta-se toda a força do seu amor. Santa Maria Madalena faz esse encontro profundo com o seu amor, com o seu Divino Mestre, Ressuscitado e seu corpo manifestou o desejo da sua alma de ir ao encontro do Senhor. Irmãos e irmãs, a Igreja nunca pode deixar este mesmo espírito de ir ao encontro do seu Mestre. Devemos lançarmo-nos e abandonarmo-nos neste ímpeto tão vital para a Igreja que é o de atrair-se pelo amor de Cristo. Às vezes este tema parece-nos tão batido, mas é cada vez mais necessário. O amor de Cristo nos impele e a Igreja nunca pode esquecer-se disso. Se nós nos esquecermos deste amor, e não termos nele a nossa motivação, poderemos fazer muitas coisas aqui, mas não seremos Igreja. E que este amor de Cristo, por nós experimentado, renove todas as coisas: todas as estruturas eclesiais, todos os clérigos, todos que nos encontrarem. Voltemos ao que é essencial, ou seja, à devota celebração da Eucaristia, sobretudo aos domingos, aos momentos de encontro, de evangelização e de missão, à formação presbiteral, à amizade bonita e sincera, à comunhão, deixando para trás todo pensamento de constante crise, de negatividade e de preguiça. Este é o futuro da Igreja. Mas, não se esqueçam, meus irmãos e irmãs, meus filhos e filhas, que é o amor do Senhor Jesus e pelo Senhor Jesus que tudo fez, que tudo faz e que tudo fará. Assim seja! Amém.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

08.02.2023 - Discurso aos Cardeais no Consistório Extraordinário

Meus amados irmãos, querido colégio cardinalício, vamos, por fim, ao principal motivo para tê-los convocado nesta tarde: agradecer-vos. Mas, permitam-me, antes disso, falar um pouco de mim e dizer-vos algumas palavras do coração. Amanhã eu encerro este meu pontificado: o meu mais longo, o segundo mais longo da história da Igreja, concluindo sete meses. Não foi fácil. Unindo todos os meus oito pontificados eu pontifiquei durante 28 meses da minha vida: 2 anos e 4 meses. Não digo isso para me engrandecer, de modo algum, mas digo para ressaltar que sinto como Deus é misericordioso para comigo. Como eu disse naquele 09 de julho do ano passado, na sacada das bênçãos: "É belo como Deus nos escolhe apesar de nossas fraquezas e limitações.". Vocês que me conhecem, sabem o quanto levo a sério este ministério, o quanto levo a sério a missão desta Igreja. Sim, temos uma missão, que não podemos perder de vista: fazer com que Jesus Cristo seja conhecido e amado. Todo o restante deve ser consequência disto, tanto o fortalecimento e surgimento de vocações, como o grandioso vínculo das amizades. Ah, meus irmãos, e como eu sou grato a Igreja do Habbo por isso. Se hoje sou o que sou na realidade, é graças ao Habbo. Conversando com minha mãe, esses tempos atrás, eu dizia pra ela que as vezes sinto um certo arrependimento por ter gastado tanto tempo e tanto dinheiro aqui. Ela, então, me recordou a minha alegria em fazer parte desta Igreja, o quanto isso vai satisfazendo, mesmo que as misérias, o meu gosto pela Igreja. E, de fato, tudo que aprendi e que aplico na Igreja da realidade, devo muito ao Habbo, especialmente em matéria de liturgia, a qual dediquei todos estes meus anos aqui e que é minha grande paixão. Não sei se chegarei ao presbiterado na realidade, mas sei que a Igreja do Habbo me trouxe ensinamentos não só dentro da Igreja, mas, também, como pessoa. Aqui eu aprendi a lidar com as diferenças, com o não ser gostado, com a conciliação, com a liderança, enfim, com micro-situações que estão presentes no macro do nosso cotidiano real. E isso é maravilhoso! Além disso, há os amigos. Amizades que sei que levarei para a vida toda. Pode ser que eu não fale com essas pessoas para sempre, mas sei que elas estarão para sempre impregnadas no meu ser, sempre guardas no meu coração. Faço esse discurso não como uma despedida, pois não estou me despedindo, ainda. Devo aparecer bastante, mas penso em não fazê-lo mais com tanta frequência. Digo-vos isso tudo, a fim de animar-vos e para que animados, vós também possais animar os mais jovens. Foi tão triste, em alguns momentos, ver este colégio desanimado. Tudo o que foi, simbolizou e tudo o que significará Bento VI para a história da Igreja, seja postivo ou negativo, tem parte de todos os senhores. Por isso, não só comigo, mas com todos os que pontificarem, lembrem-se dessa corresponsabilidade tão necessária. Infelizmente alguns projetos não foram concluídos, sobretudo os sinodais. Peço, desde já, com humildade, ao meu sucessor, que coloque esses projetos para sairem do papel. Eu tenho um defeito muito grande: não gosto de cobrar as coisas e não gosto de punir. Não gosto de cobrar pois não sou babá e não gosto de punir porque não faz parte do meu feitio. Mas, ao meu sucessor, eu recomendo que seja mais firme com certas questões. O que ficou feito pela metade, agora já ficou, e eu espero que seja concluído, não por minha causa, mas por causa da Igreja. Eu penso que o futuro da Igreja é este: lidar com naturalidade com os momentos de alta e de baixa de clérigos, sem querer ficar inventando crise em tudo, num caminho de comunhão, de reconciliação e de missão. Este caminho é o caminho de uma Igreja que sabe quem é, sabe para onde quer ir, e tem os meios de fazê-lo, basta um passo depois do outro. Passos iniciais foram dados, agora é hora de prosseguir com a caminhada. Ao que nos guiará neste prosseguimento de caminhada, ao meu sucessor, o futuro Sucessor de Pedro, que provavelmente está entre vós, eu prometo desde já minha filial reverência, respeito e obediência. Contudo, se vossas eminências tem culpa no que não deu certo, também tendes culpa em todas as coisas boas que puderam ser feitas, pois foram feitas pelas vossas mãos. Eu busquei um ritmo mais constante, uma Igreja que soubesse lidar com a normalidade. E isso em muitos momentos foi bem possível e proveitoso, mas em outros momentos, algumas ações foram realidas. Pois bem, quero colegialmente lamentar convosco o que não concluímos e agradecer-vos por todos os vossos trabalhos, pelo vosso empenho, pelo vosso esforço, em estarem comigo na condução desta Igreja nos diversos organismos curiais, nos trabalhos administrativos e pastorais, por tudo que os senhores fizeram pela nossa Igreja ao longo destes sete meses. Muito, muito, muito obrigado, eminências.

Permitam-me encerrar com um agradecimento nominal:

Dom Joseph Cardeal Ravassi, obrigado pelas tuas correções, por ser um contra-peso a mim e me ajudar a ver as coisas de outro ângulo.

Dom Odilo Pedro Cardeal Scherer, obrigado pelo teu trabalho com os seminaristas e os presbíteros, tão necessário e tão querido.

Dom Vito Alberti Cardeal Lavezzo, o senhor não queria que eu fosse eleito porque tinha medo dados nossos problemas passados, obrigado por aceitar retornar como ativo, pela tua proximidade e ajuda, sempre sendo o "policial ruim", como o senhor diz, quando eu não consigo.

Dom Raul Cardeal Gabriel, obrigado pelo teu trabalho sempre cheio de esmero com os Bispos, que os faz hoje entenderem melhor seu ministério.

Dom Giuseppe Maria Médici Cardeal Betori, obrigado por todo teu empenho canônico para conosco.

Dom Raul Alberti Cardeal Damasceno, obrigado pela tua doação alegre e generosa, na medida da sua possibilidade.

Dom Wesley Oliveira Médici Cardeal Ravassi, obrigado pelo teu esforço.

Dom Darllan Médici Cardeal Messias, obrigado pelo teu cuidado com as ordens, com os franciscanos, e recentemente com a unidade dos cristãos, possibilitando que a Igreja vislumbrasse um caminho distinto do habitual.

Dom Nadson Paixão Cardeal Médici, meu filho querido no episcopado, que vi crescer e amadurecer ao longo destes anos, obrigado por ter dado fruto onde quer que eu tenha te plantado, obrigado pelo teu carinho, pelas palavras de ânimo. Se fossem vocês os apóstolos, o senhor seria o meu João.

Dom Cristiano Cardeal Baptista, que tive a graça de elevá-lo ao cardinalato depois de tanto tempo, obrigado pelo teu trabalho em Aparecida, pelo tempo que foi meu Mestre das Celebrações, pelo teu trabalho sempre muito vivo.

Dom Francisco Cardeal Reis, meu diácono! Obrigado, eminência, porque quase nunca o senhor me deixou oferecer o sacrifício sem tua tão zelosa colaboração. O senhor vinha meio que vai e volta, mas, também, foram cinco anos só como diácono. Teu trabalho na nunciatura vem nos mostrado a profundidade do que é ser servo. Obrigado.

Por fim, quero agradecer a Dom Jorge Snaif Cardeal Médici, meu decano. Obrigado por ser meu amigo, conselheiro e irmão. É difícil achar as palavras para descrevê-lo. Obrigado pelas noites onde ficamos até tarde conversando sobre situações da Igreja. Obrigado pelo teu sigilo, o que sei que é bem difícil. Obrigado por nunca ter me deixado desamparado. Obrigado por ter ido onde eu não queria ou não podia estar. Sem todos os irmãos, esse pontificado não teria sido o que foi. Mas, sem o senhor, eminência, este pontificado nem existiria há muitos meses. Obrigado pelo ânimo. Obrigado por ser meu irmão!

A todos os senhores, eminências, meu paternal e fraternal afeto, meu carinho, minha gratidão. Deus vos abençoe. E vamos pedir a bênção Dele.

Dominus vobiscum.

Sit nomen Domini benedictum.

Adiutórium nostrum in nomine Domini.

Benedícat vos omnípotens Deus, Pater +, et Fílius +, et Spíritus + Sanctus.

sábado, 4 de fevereiro de 2023

05.02.2023 - V Domingo do Tempo Comum

Amados irmãos e irmãs, estamos celebrando o quinto Domingo do Tempo Comum, o dia da Ressurreição, o Dia do Senhor. Neste domingo, somos chamados a ser sal da terra e luz do mundo. Mas, o quê Jesus está querendo dizer com isso? No texto do Evangelho que acabamos de ouvir, Jesus diz que "se o sal perder o sabor...", "ninguém acende a luz e coloca debaixo de uma vasilha". Jesus está falando sobre a serventia do sal e sobre a serventia da luz. Ora, irmãos e irmãs, a grande pergunta aqui é: para que nós estamos servindo? Na primeira leitura, Isaías faz um grande apelo para que nos voltemos ao outro e que sirvamos ao outro, para que assim brilhe a nossa luz. Nossa luz não brilha por meio das bonitas palavras que podemos dizer, mas por meio de nossa atitude generosa de serviço. Serviço, aqui, que não é mero proseletismo. Qualquer um pode ir lá e fazer um discurso, fundar uma ONG, defender tal causa e tal causa, mas só quem ama verdadeiramente irá servir: dar do que tem para o que nada tem. Não é mero proseletismo, ainda, porque como diz São Paulo na segunda leitura, não devemos nos servir da eloquência nem da sabedoria humana para pregar o Evangelho, mas, antes do Espírito Santo, que é dom de amor, e que só age em quem é verdadeiramente capaz de experimentar a abertura ao outro concreto, que é o irmão, e ao outro transcendente, que é Deus. E vem ao encontro disto, no mesmo Evangelho de São Mateus que ouvimos, mas mais adiante, o discurso escatológico de Jesus: tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; esta doente, nu, prisioneiro... Logo, logo, começará a Campanha da Fraternidade que irá falar sobre a fome. Muitas de nossas Igrejas irão se encher de cartazes, o povo todo vai aprender a cantar o hino, mas corre-se o risco de nada mudar, nada. Poderemos falar do pobre, falar da fome, criticar governos e elaborarmos discursos sobre tantas e tantas situações, mas, na nossa casa, comida estraga na geladeira, no armário, e quando um pobre bate-nos a porta, já vamos logo dizendo que nada temos, sendo que estamos com nossos estoques transbordantes. Recentemente todos nós nos supreendemos com a situação das tribos Yanomani e eu me pergunto: onde estavam os cristãos que viam aquilo acontecer e nada fizeram? Onde estavam os católicos? E pra falar com ainda mais concretude: Onde estamos nós, que somos contrários ao aborto, quando temos que ajudar financeiramente instituições como orfanatos e quando vemos os pivetinhos correndo pela rua, todos sujos, mendigando uma moeda no semáforo e nós subimos o vidro do carro para dizer que nada temos? É claro que também temos nossos limites, por uma questão financeira também. Mas será que nunca podemos fazer nada? Viveremos sempre fechados no nosso mundinho ou vamos nos tornar sal da terra e luz do mundo, vamos servir um pouco para essa existência tantas vezes tão miserável para os que não encontraram o amor? Papa Francisco, neste sentido, está fazendo algo muito interessante: um Sumo Pontífice marca uma visita ecumênica, onde concomitantemente o Sudão do Sul, um país marcado pela guerra entre facções e a pobreza, recebe o papa católico, o arcebispo principal da Igreja anglicana e o lider da Igreja da Escócia. Eles foram ser o quê? Sal da terra e luz do mundo. Foram ter serventia. Foram mostrar o amor de Deus e num gesto concreto mostrar sua unidade, voltando os olhos do mundo todo para aquele povo sofredor. Deixemos para trás, irmãos e irmãs, uma fé meramente abstrata, descompromissada e assumamos a concretude da nossa fé, como Cristo assumiu a concretude da nossa humanidade, na encarnação, paixão, morte e ressurreição, aí teremos serventia e os outros se atrairão a Jesus Cristo não por pregações, mesmo que belas, mas por gestos salvíficos, como os do Senhor, que lava os pés e morre na Cruz para nos dar amor e ensinar a amar. Assim seja! Amém.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

02.02.2023 - Festa da Apresentação do Senhor

Amados irmãos e irmãs, estamos celebrando neste dia a Festa da Apresentação do Senhor, dia dedicado também aos membros dos Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica, ou seja, nossos irmãos e irmãs religiosos e religiosas. Esta festa de hoje ainda está em profunda relação com o Natal e se coloca no quadragésimo dia após a chegada do Salvador. A mensagem desta festa é muito clara: chegou a plenitude dos tempos e veio a luz. No velho Simeão e em Ana, presentes no Templo naquele dia, estão representados todos aqueles que esperaram o Senhor e que agora viam consumadas as suas esperanças. O Antigo Testamento preparou e esperou, a filosofia, a sociedade, os costumes, a política; tudo foi se preparando para aquele momento em que a nossa humanidade recebeu a presença de Deus. E agora, em Jesus, isso se cumpre. Todas as promessas, todas as profecias a respeito dele vão se cumprindo ao longo de sua vida. É a inauguração de um novo tempo, de modo que aqueles que viveram a expectativa podiam alcançar agora a liberdade, a salvação. E nós, que tanto tempo depois também vivemos cheios de esperança pela consumação do tempo do Senhor em nossas vidas, não podemos perder essa esperança e um dia diremos como Simeão: pois agora meus olhos viram a vossa salvação. Mas é como é difícil ver a salvação no meio deste mundo de trevas? Jesus vem ser luz. Jesus vem para salvar, mas sua salvação também é luz no meio do seu povo, pois é já transformadora. Diante das trevas de um mundo que se afastou de Deus, mas, ainda mais, diante das trevas do nosso coração quando se afasta de Deus, nós somos convidados a deixar que Cristo seja a luz. E como Jesus será a luz? Ele será luz quando sua Palavra iluminar a nossa existência. Quando isso acontece, conseguimos viver em equilíbrio com as divergências, com as dificuldades, porque tudo vai se enchendo de sentido. Talvez, hoje, uma das nossas maiores dificuldades para viver uma vida feliz, seja a falta de sentido, de entender o sentido das coisas. Quando Cristo ilumina as realidades, nelas se encontra sentido, mesmo no sofrimento. Vamos deixar que Cristo impregne o nosso ser com a sua suavidade, ilumine para nós quem somos, as situações da vida e o mundo onde estamos, para que possamos ver com clareza a Sua presença, os caminhos que devemos correr e como sermos, também nós, iluminadores no meio das trevas. Sim, iluminadores, pois mesmo a luz que é Jesus Cristo precisou chegar a nós por meio de outra luz, que hoje também é recordada em feliz memória: Maria Santíssima. Ela é ofuscada pela luz de Cristo, pois na verdade, nela resplandece como que num espelho a luz de seu Filho. Que Ela nos dê a graça de também irradiarmos a luz de Cristo, de acordo com nossos carismas e especificidades, para que a todos chegue está luz sem a qual o ser humano sempre caminhará na escuridão, sem a qual sempre estaremos perdidos, pois só nele encontramos o que sempre esperamos e sempre procuramos. Assim seja! Amém.