Dedicação da Igreja e do Altar

Amados irmãos e irmãs, estamos reunidos para dedicarmos a Deus esta Igreja. O Senhor nos chama à alegria de viver em sua casa. Desde a saída de Israel do Egito, e sobretudo com a recepção das tábuas da lei, o povo passa a se reunir na Tenda da Reunião, papel que depois assumirá o Templo de Jerusalém. O Templo era o lugar onde estava a arca da aliança, no Santo dos Santos, encoberto por um véu. O Santo dos Santos era o lugar próprio da habitação de Deus. Mas, com a invasão de Nabucodonosor e o exílio do povo para a Babilônia, a arca foi roubada e o templo foi profanado. É no exílio em Babilônia que o povo de Deus sentiu-se mais abandonado por Deus, experimentando a consequência do seu pecado, a solidão de não ter onde se reunir com Deus e com os irmãos. É na volta do exílio que se dá este texto bíblico que ouvimos na primeira leitura. Este belíssimo texto, que muito me encanta, é revelador da proximidade de Deus com seu povo. Neemias convida o povo à alegria: eles não tinham o Templo operante, este precisaria ser restaurado e rededicado, mas eles tinham a Palavra de Deus. O povo chorava e se agitava: o próprio Deus estava com eles. A Palavra de Deus é apresentada, assim, como a própria presença de Deus no meio do povo. Foi assim que surgiu em toda a Judéia as sinagogas, como lugares do encontro da comunidade com a Palavra de Deus. Ainda assim, o lugar mais digno de adoração era o Templo em Jerusalém. Contudo, com a Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo rompe-se o véu do Templo, rasga-se aquele véu que separava o povo que estava no Templo e o Santo dos Santos. Se antes o Santo dos Santos, de certo modo "aprisionava" a presença de Deus, o véu rasgado simboliza a presença de Deus em todas as partes, em espírito e verdade, como nos aponta Jesus no Evangelho de São João, em todas igrejas, altares, tabernáculos substancialmente, e espiritualmente no coração de cada um e cada uma que segue sua Palavra e se faz templo vivo do seu Espírito. Na igreja sempre ocupa um lugar especial o altar. O altar é o mais lugar sagrado em todas as celebrações. No Antigo Testamento, era sobre o altar de pedra, no pátio do Templo de Jerusalém que se ofereciam os cordeiros, gados, pássaros, enfim, os animais sacrificados a Deus. Com Jesus Cristo, porém, a cruz torna-se altar, onde o Filho de Deus se faz sacerdote, altar e cordeiro, sacrificando-se e banhando a cruz com seu Sangue, levando a remissão dos pecados do mundo inteiro, uma vez por todas. Deste modo, o altar passa a ocupar um lugar central na vida do cristão: é o lugar da renovação da aliança, da presentificação do mistério Pascal, mistério da vida, mistério da fé e do amor, mistério da Salvação do mundo. Dentre tudo que temos dentro da igreja, nenhum lugar, nem mesmo o sacrário, é mais importante do que o altar. Sem o altar e sem o sacrifício, a oferta oferecida sobre o altar pelo próprio Deus, a igreja, o templo físico não teria sentido algum. É a mesa do altar, a mesa do banquete Divino e celeste no meio do seu povo, o centro de toda celebração e vida da Igreja, que tem como fonte e ápice a celebração da Eucaristia. Por isso, filhos e filhas, ao dedicarmos essa igreja, nós somos chamados em primeiro lugar a cuidarmos do templo físico, a termos por ela um zelo que nos consome. Sim, pois este é o lugar da nossa reunião com os irmãos e de união com Deus do modo mais íntimo e completo, que é pela celebração dos Sagrados Mistérios, na escuta comunitária de sua Palavra. A Igreja sempre teve um cuidado particular com a dignidade dos templos físicos, pois neles resplandece uma pequena parcela e fração, materialmente, do que é a glória majestosa e infinita de Deus. As igrejas, portanto, são sinais sensíveis, para nós que ainda estamos limitados ao mundo sensível, da presença de Deus e nós as dedicamos a Deus e pedimos que Ele, em sua glória, digne-se habitar nelas. Mas, não queremos com isso aprisionar Deus, pois entendemos que em sua onipresença Ele já está em todos os lugares, porém fazemos deste lugar um lugar singular do culto, da ação de graças, da reunião e da expiação. Necessitamos, porém, ir além. Como membros do Corpo de Cristo, precisamos constituir a comunidade que frequentará essa igreja para o louvor de Deus. E, para sermos membros desse Corpo, precisamos dedicar o nosso coração a Deus, oferecer a Ele o sacrifício do nosso coração, para que nos tornemos pedras vivas de sua Igreja. Como aqui na igreja física, o altar simboliza o coração, o ambão a boca de Deus, a cadeira presidencial é a cabeça do Corpo, a pia batismal é o útero dessa Igreja que é mãe, todos nós somos os membros desse Corpo. Por isso, cada um de nós é importante para a Igreja, que não seria completa sem quaisquer um de seus membros. Nós, como Igreja, como povo de Deus, temos Cristo como Pedra angular - aquela que os pedreiros rejeitaram e mataram na cruz, mas que Ressuscitou vitorioso - e os apóstolos como alicerce, constituímo-nos sobre as bases das Escrituras, da Tradição e do Magistério, mas, somos cada um de nós que devemos ser pedras vivas da Igreja. Que a dedicação desta igreja nos ajude a dignifica-la como lugar próprio da adoração: A prece, a unção, a incensação e a iluminação que marcam este rito, oferecem a Deus, em primeiro lugar, este lugar que é todo oferecido para Ele; e que nós dediquemos também o nosso coração, unjamos nosso ser, nos ofereçamos como a fumaça do incenso, para que, unidos ao Corpo de Cristo como povo de Deus, um dia nos unamos a Ele na Jerusalém celeste, no banquete da vida na eternidade. Assim seja! Amém.

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