domingo, 30 de março de 2025

30.03.2025 | IV Domingo da Quaresma

Dom Fernando, amados irmãos e irmãs, estamos celebrando o IV Domingo da Quaresma, o Domingo Laetare, o domingo da alegria. Alegria porque nos aproximamos da Páscoa da Ressurreição. Alegria porque estamos provando e vendo como o Senhor é bom. Alegria porque experimentamos a misericórdia do Senhor. A primeira leitura, do livro de Josué, fala de um povo que faz a experiência de voltar à Terra Prometida e, pela primeira vez, comer dos frutos da terra. É a experiência da alegria e da misericórdia que Deus teve com eles. Essa mesma experiência está relatada no Evangelho que ouvimos, uma passagem bem conhecida por nós: a parábola do filho pródigo, ou melhor, do pai misericordioso. Essa parábola nos apresenta três figuras: o filho mais novo, o filho mais velho e o pai. O filho mais novo é aquele que, ao pedir sua herança e partir, simbolicamente mata o pai em seu coração. Depois de viver uma vida desregrada, sente saudade da casa paterna. Ele decide voltar, mas não como filho, e sim como servo. No caminho, ensaia o discurso que fará ao pai: "Pai, pequei contra Deus e contra ti. Já não mereço ser chamado teu filho. Trata-me como um dos teus empregados." O pai, no entanto, é aquele que permanece à espera. Ele não impediu o filho de partir, mas sempre aguardou seu retorno. E, quando o vê ao longe, corre ao seu encontro, abraça-o e o cobre de beijos. O filho começa a falar, mas, antes mesmo de terminar, o pai já ordena aos empregados que tragam a melhor túnica, coloquem um anel em seu dedo, sandálias em seus pés e matem o novilho gordo para celebrar. O filho que esperava ser aceito como servo é restituído à dignidade de filho amado. Essa experiência do filho mais novo é a mesma que São Paulo nos apresenta na segunda leitura, ao escrever aos Coríntios: "Se alguém está em Cristo, é uma nova criatura." O filho foi renovado pelo pai. E nós também podemos ser renovados e reconciliados com Deus, graças a Jesus Cristo, que assumiu nossa humanidade e se fez pecado para nos justificar. Mas esse pai misericordioso tem outro filho. Enquanto o filho mais novo celebra no banquete, o filho mais velho retorna do campo. Ele sempre esteve em casa, mas nunca viveu uma verdadeira intimidade com o pai. Ele representa aqueles que, mesmo dentro da Igreja, mesmo conhecendo a lei e os preceitos, ainda não fizeram a experiência do amor de Deus. Sua relação com o pai é fria, baseada apenas na obediência e no dever, sem alegria. Quantos de nossos irmãos e irmãs ainda fazem essa experiência de um Deus distante e rigoroso? O filho mais velho não quer entrar para a festa porque não compreende a misericórdia do pai. E o pai lhe recorda que há mais alegria no céu por um só pecador que se arrepende do que por noventa e nove justos que não precisam de conversão. Amados irmãos e irmãs, os que mais experimentam a misericórdia de Deus são aqueles que reconhecem sua necessidade dela. O que o filho mais velho não percebe é que, dentro ou fora de casa, ele também precisa da misericórdia do pai. Ele também precisa ser reconciliado. E nós? As festas que se aproximam são as festas da nossa reconciliação. Corremos para elas cheios de fervor e alegria, exultando na fé. Mas a grande questão é: entraremos e faremos juntos a experiência da misericórdia de Deus? Ou ficaremos do lado de fora, questionando se Deus realmente tem uma misericórdia sem limites?

quinta-feira, 27 de março de 2025

27.03.2025 | Consistório Extraordinário

Eminentíssimos senhores cardeais, lhes convoquei esta noite para juntos refletirmos sobre algumas questões que são cada vez mais essenciais para a vida da Igreja. 

Gostaria de iniciar resgatando alguns elementos das discussões ocorridas no Consistório Ordinário do último sábado. Falávamos sobre se a Igreja deve se aproximar mais ou menos de um RPG. Dom Odilo, na ocasião, nos ajudou com a compreensão de quando a Igreja passou a negar-se como RPG. Então, entendia-se que no RPG as pessoas poderiam ficar online e a partir de um dado momento, combinado, entrariam para os quartos do RPG e ali passariam a simulação. Enquanto isso, na Igreja não. Uma vez que entramos no clero, sempre que estamos online no Habbo, somos clérigos. Esta nossa explanação deveu-se a outro comentário, do Cardeal Lavezzo que criticava a quantidade de documentos expedidos nos últimos pontificados, sem uma verdadeira prática. De fato, em sua visão, e assim também o considero, nos aproxima muito dos RPG´s. 

E também esta reflexão se deu a partir de outra, de Dom Snaif.  Para este, nós estamos numa competição injusta com os hp´s. Lá eles tem paramentos e estruturas e para muito deles aquilo é o suficiente. Eminências, gostaria que pudessemos juntos refletir. O Habbo já não é mais um jogo de crianças ou de adolescentes. Pelo contrário, aqui, a maior parte de nós já somos adultos com as nossas obrigações fora desse jogo virtual. Portanto, como daremos prosseguimento à nossa Igreja? Se, por um lado, vemos em muitos uma boa vontade, por outro, percebemos que isso não é suficiente. Acredito que seja hora de revisitarmos as nossas estruturas e pensarmos, de fato, quais foram as nossas últimas metas.

No pontificado de Gregório IV, foi realizada a reforma de todos os livros litúrgicos por conta da nova tradução do Missal Romano. No pontificado de Bonifácio II, foi promulgado o novo Código de Direito Canônico. No pontificado de Lucas IV, houve a acolhida desse código com algumas reformas do ponto de vista do Colégio Cardinalício, que se fizeram necessárias, e, por outro lado, reformas na formação presbiteral solicitadas pela Congregação Geral dos Cardeais, na Sé Vacante que o precedeu. Mas fui eleito por vossas eminências para que possamos dar outros passos na vida da nossa Igreja. Passos que, como já conversamos, estão para além da produção de documentos. É uma reforma de mentalidade que precisamos assumir.

O Papa Bonifácio II fez, como um experimento, a redução de toda a Igreja ao clero de Roma. Se, por um lado, isso conseguiu aglutinar o clero, por outro, fez com que não houvesse motivação para novos passos a serem dados. Acredito que nossa perspectiva de termos nos tornado uma Igreja pequena, em muitos momentos, trouxe-nos uma dificuldade. Passamos a sonhar baixo. Passamos a esperar pouco. Nosso colégio episcopal se reduziu a quase nada nos últimos tempos. O Colégio Cardinalício, por sua vez, tornou-se cada vez mais preguiçoso. Os presbíteros não tiveram ânimo para sua missão.

Penso que devemos fazer o contrário. Devemos ampliar as estruturas. Penso que transformar dioceses em arquidioceses metropolitanas dará a elas um novo ânimo. Isso nos passa a imagem de que não basta ser uma diocese pequena, mas sim uma estrutura sempre em crescimento. Neste sentido, nossa exigência deve ser alta, nossa medida deve ser alta. Por outro lado, precisamos ser menos exigentes com os clérigos em si. Foi muito bom levarmos mais a sério o nosso ministério. Mas sabemos que nem todos estão dispostos a isso. E, à medida que nós, mais velhos, fomos amadurecendo e envelhecendo, ficamos menos pacientes para lidar com as atitudes infantis de clérigos jovens. Mas sejamos sinceros: não seremos nós a motivar esta Igreja. Isso será função dos clérigos jovens. Serão eles que darão um novo ardor missionário para nossa Igreja. Precisamos acolhê-los, formá-los, educá-los, ajudá-los, mas não conseguiremos fazer deles uma cópia nossa.

A burocratização da nossa Igreja, como falávamos no sábado, teve um grande valor. Mas, muitas vezes, as decisões deixaram de ser pastorais. Entendi, na crítica de Dom Lavezzo, algo que quero trazer aqui. Sempre fui muito crítico a documentos extensos. Fui crítico, inclusive, ao Código de Direito Canônico, dizendo a Bonifácio II que estava muito extenso. Mas acredito que precisamos desenvolver modelos que sejam utilizados em todas as circunstâncias. Modelos simples, nos quais bastará mudar o nome da pessoa ao invés de escrever todo um documento para reabilitar, integrar, demitir, e assim por diante. Dessa forma, o tempo que gastamos escrevendo documentos será reduzido, entendendo que os documentos não são a parte principal da nossa Igreja. Se, por um lado, não vale um site atualizado diariamente enquanto a Igreja permanece parada, por outro, não podemos simplesmente eliminar toda a burocracia, que é essencial para a nossa Igreja. Mas devemos saber administrá-la de modo comedido. Sabemos muito bem que todas as normas podem acabar sendo burladas, mas isso não significa que devemos deixar de tê-las.

Para mim, o principal fator que nos aproxima mais de um RPG é nossa mentalidade. Na verdade, acredito que o problema vai além disso. O problema está quando eu me coloco como o centro da Igreja, quando você se coloca como centro da Igreja. A Igreja não é nossa; a Igreja está para além de nós. Certamente, logo todos nós passaremos, e eu não acredito que esta Igreja passará tão facilmente. Acredito, de fato, que está na hora de muitos de nós largarmos o osso. Penso que precisamos deixar mais a Igreja nas mãos dos mais jovens. Inclusive, partilhava com Dom Snaif que acredito que este será o meu último pontificado. Queira Deus que assim seja. Na verdade, os senhores bem sabem que nem este mesmo eu gostaria. Sendo assim, o que nos cabe pensar é: como fazer a transição da Igreja para as mãos dos mais jovens? Como fazer essa passagem de gerações? Estamos preparados para isso?

Os planos que quero partilhar convosco e que desejo que me ajudem a desenvolver melhor, ou mesmo desistir de alguns deles, são, inicialmente: promover duas arquidioceses metropolitanas; criar uma arquidiocese para os militares; aumentar o colégio episcopal, buscando também que ele tenha qualidade. Penso ser necessário um novo reavivamento de carismas religiosos dentro da Igreja. Acredito que o trabalho realizado nas redes sociais poderá colaborar muito para atrair pessoas para nossa Igreja. Vejo no Dicastério para os Seminários um grande potencial, desde que consiga fazer com que o clero conviva com seminaristas. Acredito muito nessa necessária convivência, algo que já não temos mais tempo para fazer. E isso também desmotiva o clero, pois não se criam mais vínculos como antes. Quando nós entrávamos, conversávamos, batíamos papo, ficávamos online. Hoje, quase não temos mais tempo para isso. Isso faz muito mal para a Igreja.

Quero indicar ainda aos senhores o meu pensamento em promover, em breve, Dom Felipe Sampaio, atual prefeito do Dicastério para os Seminários, a membro deste Colégio Cardinalício, justamente dentro da perspectiva de passar a Igreja para um clero mais jovem. Perdemos excelentes oportunidades no passado que não podemos perder hoje. Acredito que a lista de eméritos do Colégio Cardinalício precisa aumentar, e isso não é um problema.

Além disso, o último aspecto que gostaria de ressaltar em minha fala, que também foi discutido entre nós no consistório do último sábado, é que precisamos cortar ao máximo o nosso diálogo ecumênico. Essa crítica, trazida por Dom Snaif, foi considerada por mim muito válida. Enquanto estamos promovendo um diálogo com verdadeiro esforço de nossa parte, eles estão promovendo um diálogo falso e vindo buscar nossos clérigos. Por isso, quero também delegar alguém de confiança para fazer o processo contrário. Porém, como falamos no início, infelizmente, as Igrejas de lá têm muito mais atrativos do que as nossas. E, por não terem bom senso, acabam atraindo muitos de nossos padres. Acho inclusive, muito difícil, no atual momento, estabelecer Igrejas Particulares lá, embora tenha cogitado isso já. Particularmente, acho injusto buscar alguém de lá para ser bispo aqui, quando temos padres capacitados para isso, o que quase não é o caso desta vez. Ou buscar cardeais de lá para serem cardeais aqui, enquanto temos bons bispos para serem elevados ao cardinalato. Esse tipo de coisa não compensa. E acredito que muitos se afastaram da nossa Igreja justamente por isso: por falta de consideração, por falta de se sentirem valorizados.

Por isso, eminências, aos que trabalham na Cúria Romana e aos nossos bispos diocesanos, gostaria que os senhores tornassem seus presbíteros membros ativos da Igreja. Que sejam inseridos nos ofícios diocesanos: vigário-geral, chanceler, vigários episcopais, mesmo que apenas como títulos. Isso tudo os anima. Além disso, devem assumir ofícios como oficiais na Cúria Romana. Eminências, por fim, acredito que temos passos consideráveis a serem dados, mas precisamos ter coragem para caminhar.

27.03.2025 | Posse de Dom Haddad

Mas, se é pelo dedo de Deus que eu expulso os demônios, então chegou para vós o Reino de Deus. Eminentíssimo Dom Fernando Cardeal Haddad, amados irmãos e irmãs, o Apóstolo São Paulo nos fala que a fé chega pelo ouvido. A primeira leitura, da profecia de Jeremias, vemos Deus criticando o seu povo por ter fechado os ouvidos e não escutado a voz de Deus que os falava, sobretudo pelos profetas. E, uma vez que não ouviam, não tinham fé. Por não terem fé, esta morreu e lhes foi tirada da boca. Por isso, Jesus começa o Evangelho de hoje expulsando um demônio que era mudo. Era o demônio da mudez, da falta de fé do antigo Israel. A falta de fé daqueles que se diziam crentes, que até podiam seguir a lei, mas não o faziam com o coração. Jesus quer por de volta na boca do povo de Deus a profissão de fé. Mas, ainda assim, o povo compara Jesus ao princípe dos demônios, Belzebu e lhe pede um sinal do céu. Sinal este, que não é dado. E mesmo quando foi dado, mesmo com os inúmeros sinais realizados por Jesus, muitos ainda assim lhe fecharam o coração. É daí que vem as divisões. Jesus sabia que a consequência de sua missão era união com o Pai, mas a divisão com todos aqueles que não aderissem o seu projeto. O seu projeto é o Reino de Deus. O que Jesus está dizendo é como se fosse: vejam, eu vos dei os sinais do Reino de Deus, quem acreditar nisso, venha comigo, quem não acreditar, está indo contra este Reino. Deus nos concede, amados irmãos e irmãs, a liberdade de crer ou não no seu Reino. Este Reino que já está entre nós, dentro de nós, e encarnado na pessoa de Jesus Cristo, como nos afirmava Orígenes. Mas, este Reino que ainda não é pleno aqui, pois não é deste mundo, como diz Jesus na Paixão segundo João. Fato é, amados irmãos e irmãs, que o dedo de Deus já traz esse Reino e nos dá a graça de participar dele, se ouvirmos sua voz, professarmos a fé com a boca e com a vida, fazendo de nós próprios sinais do céu e sua presença entre os homens e mulheres.

quarta-feira, 26 de março de 2025

26.03.25 | Audiência com o Colégio Episcopal

Excelências reverendíssimas, vos convoquei para esta audiência nesta tarde para juntos tratarmos de algumas questões sobre a vida da nossa Igreja. Os senhores bem sabem que o Colégio Cardinalício é aquele que coadjuva mais de perto o Romano Pontífice. Porém, o Romano Pontífice é a cabeça de um colégio, o Colégio Episcopal, do qual fazem parte, obviamente, também os cardeais. Mas preciso também me reunir com vocês, que são os membros deste Colégio Episcopal. Quero saber o vosso parecer e quero que vocês também se sintam corresponsáveis pela nossa Igreja.

Quando o Papa Bonifácio II diminuiu a Igreja à Diocese de Roma, passamos a um grande desafio: qual a função dos episcopais? Neste momento, o Colégio Episcopal se esvaziou. Passamos, de fato, a um desânimo. Este desânimo atingiu todas as estruturas da nossa Igreja, de modo especial o Colégio Episcopal. Atualmente, nós temos dois cardeais como bispos diocesanos, mas este não é o meu objetivo. Acredito que estamos passando por um momento de transição no clero. Clérigos mais antigos estão deixando o nosso convívio, e clérigos mais novos precisam assumir responsabilidades. E vocês são esses clérigos que precisam assumir novas realidades. Claro que há momentos em que a experiência é mais necessária do que em outros. Isto é natural. Mas quero que, já em vossas funções, os senhores se sintam responsáveis pela Igreja. Não é porque temos um bispo diocesano que os bispos auxiliares não têm função. Pelo contrário, os bispos auxiliares têm uma função quase equivalente à do bispo diocesano. Claro que, se algo der errado, eu cobrarei o diocesano, não o auxiliar. Mas, se as coisas não estiverem dando certo, a culpa também é vossa. Porém, não quero falar aqui de culpa, quero falar de mudança de estruturas.

Como eu dizia, passamos por um esvaziamento após a unificação do clero em Roma e, depois, voltamos para as dioceses no Brasil. Hoje, acredito que essas duas dioceses devem se tornar arquidioceses. Se por um lado esta minha atitude pode ser extremamente criticada porque ainda estamos com poucos padres, penso que nós ainda estamos sonhando muito baixo. Precisamos sonhar mais alto. São Francisco de Assis disse que devemos começar fazendo o que é necessário, depois faremos o possível e, por fim, estaremos fazendo o impossível. Ora, está na hora de fazer o possível. E o que é possível é elevarmos estas igrejas, colocando nelas uma medida alta. Basicamente, precisamos dobrar o número de padres das nossas igrejas. E esta missão é vossa. Claro que com a ajuda dos padres, mas a missão é vossa. Eu reintegrei e reabilitei alguns de vocês justamente para isso, para que trabalhem pela formação de um novo clero. A formação de um novo clero é essencial, é urgente e precisa acontecer rápido. Se cada um dos senhores formar ao menos mais um presbítero, nós já estaremos em bons caminhos. Mas não basta formá-los, é preciso mantê-los. E, para mantê-los, nós precisamos criar com eles relações de amizade.

Nós bem sabemos que, muitas vezes, as pessoas se afastam da nossa Igreja porque se sentem desvalorizadas. Precisamos também mantê-las longe das cismas, que vêm como lobos para roubar as nossas ovelhas. Essa gente maldosa precisa ser excluída do nosso meio. E precisamos fazer o trabalho oposto: precisamos ir lá também e tirar gente de lá. Mas como fazer isso se o nosso clero não tem tantos atrativos em estruturas e vestes como eles têm? Acredito não ser o caso de estabelecermos igrejas particulares nossas nos hospitais. Acredito que isso causaria um conflito para o qual não estamos prontos para lidar agora. Mas é possível trabalhar com aquilo que temos no momento: promover a formação presbiteral e fortalecer as nossas redes sociais. Promover, acima de tudo, a amizade entre nós. Amizade entre nós, clérigos, amizade entre nós e os leigos.

Espero que as arquidioceses promovam missões nos quartos e que essas missões sejam pessoais: uma conversa, algo que realmente consiga tocar o coração das pessoas. Muito mais do que conseguir clérigos - e isso é muito importante -, precisamos alcançar o coração das pessoas com a palavra de Jesus Cristo. Enfim, acredito que estas são as nossas urgências. De fato, excelências, todos nós já somos homens mais velhos do que éramos anos atrás. Não temos mais o mesmo tempo e talvez nem o mesmo ânimo. Mas estamos aqui e devemos nos comprometer para levar a nossa Igreja a um novo tempo: tempo de gente nova, tempo de uma Igreja que está sempre em reforma. Quero que o Colégio Episcopal se sinta verdadeiramente amado pelo Papa e que contem comigo, que me empenho na missão, para juntos fazermos da nossa Igreja uma Igreja que caminha para o futuro.

Agora quero ouvir as vossas opiniões: o que vocês pensam? Quais são os passos que juntos devemos dar?

terça-feira, 25 de março de 2025

25.03.2025 | Solenidade da Anunciação do Senhor

"Tu não quiseste vítima nem oferenda, mas formaste-me um corpo.". Amados irmãos e irmãs, que saúdo na pessoa de Dom Gregório D'Aniello Cardeal Baldisseri, arcipreste desta basílica, estamos celebrando a Solenidade da Anunciação do Senhor. Há nove meses da celebração do Natal do Senhor, celebramos o Cristo que assume um corpo humano no ventre de Maria. Esta solenidade de Cristo, é portanto, profundamente Mariana. Bonito refletirmos que a tradição aponta para vinte e cinco de março como o dia de diversas ações da nossa história da salvação: o dia da criação e o dia da desobediência dos primeiros pais, o dia que Isaac é poupado do sacrifício de Abraão, o dia da saída do povo de Israel do Egito, o dia da anunciação do anjo a Maria e o dia da Paixão e Morte do Senhor. Todos estes mistérios estão apontados para o dia de hoje, e mesmo que não o tenham sido, fica para nós como todos eles estão conectados. A liturgia da Palavra de hoje passa da promessa ao cumprimento. Começa com a promessa na profecia de Isaías, da virgem que conceberá e dará a luz a um filho, o Deus conosco. O salmo é o texto que o autor da carta aos Hebreus da segunda leitura coloca na boca de Jesus: "Eis que venho fazer, com prazer, a vossa vontade, Senhor!". Tanto o salmo como a segunda leitura nos recordam do amor de Deus que quis se encarnar. A própria encarnação já o sacrifício de Deus, pois, como nos diz São Paulo na carta aos Filipenses, Cristo não se apegou ciosamente a ser igual a Deus, mas humilhou-se a si mesmo. Em alguns dias estará diante de nós a cruz do Senhor, enquanto admiramos o lenho da Cruz, do qual pendeu a salvação do mundo. Não nos esqueçamos, porém, que toda a vida de Cristo foi sacrifício. Foi sacrifício de amor, oferecido phor nós, e sacrifício da nossa salvação. Pois o sacrifício dos animais da antiga aliança era apenas prefigurativos de um sacrifício muito maior. Este sacrifício que é a vida do Cristo precisava acontecer para que Ele, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, levasse a nossa humanidade de volta para junto do Pai, enfim reconciliada. E este sacrifício vivo começa no ventre de Maria. É naquele colo santíssimo que Deus toma forma de homem, que as duas naturezas, humana e divina, unem-se numa pessoa. Ela, Maria, é a cheia de graça porque a graça viria morar nela e, assim como ao povo de Israel na fuga do egito a coluna luminosa acompanhou, também o poder do Altíssimo a cobriu e fez dela imagem do novo Israel que é a Igreja, que porta hoje Jesus presente na Eucaristia e na Palavra proclamada, nos sacramentos e na vida do seu povo. Que Maria nos ajude hoje a, como diz a canção, gerar e formar Cristo em nós. E penetremos, irmãos e irmãs, com profundidade no mistério que é nosso Senhor Jesus Cristo. Nele, Deus e homem, aprendamos que não há outro caminho para a salvação do ser humano do que tornar-se imagem e semelhança de Deus, sacrifício de amor.

domingo, 23 de março de 2025

23.03.2025 | III Domingo da Quaresma

‘Senhor, deixa a figueira ainda este ano. Vou cavar em volta dela e colocar adubo. Pode ser que venha a dar fruto. Se não der, então tu a cortarás’. Amados irmãos e irmãs, neste III Domingo da Quaresma celebro esta Eucaristia na Basílica Lateranense e quero saudar a todos na pessoa de Dom Everton Andrade Cardeal de Moura, meu Vigário Geral para a Diocese de Roma. A liturgia da Palavra de hoje, dando sequência as leituras sobre a origem da Aliança, ressalta a Aliaça firmada com Moisés. Moisés que no monte Horeb, também chamado de Sinai, faz sua experiência com Deus. A narrativa do livro do Êxodo coloca para nós o grandioso mistério de Deus. Só que, Deus não se manifesta plenamente a Moisés, pois este não seria capaz de apreender. D diante do mistério, Moisés nada pode fazer senão tirar as sandálias dos pés. Amados irmãos e irmãs, as sandálias, segundo os padres do deserto, são as nossas paixões. Tirar as sandálias é deixar para trás toda poeira da vida antiga para poder se colocar na presença do Senhor. Deus não deixa de falar com o ser humano. Pelo contrário, Deus revela que viu a aflição do seu povo, ouviu seu clamor, conhece seus sofrimentos, desceu para libertá-lo e fazê-lo sair para uma terra onde corre leite e mel. Este Deus inatingível, faz-se próximo. Ainda assim, diante de Moisés que lhe pergunta o nome, Deus responde "Eu Sou aquele que sou", ou, numa outra tradução, "Eu Sou aquele que será". O nome de Deus nunca nos foi relevado, e mesmo no tetagrama fomos nós que adicionamos as vogais para poder pronunciar. O nome de Deus porém é impronunciável. Sempre, caríssimos irmãos e irmãs, Deus se faz próximo de nós, mas nos revela que nunca iremos compreender completamente a grandeza de seu mistério até que sejamos nele. São Paulo, na segunda leitura, evoca a figura de Moisés, mas já num momento posterior, depois da passagem pelo mar vermelho para falar da realidade do deserto. O apóstolo está nos falando de todos àqueles que não chegaram a terra prometida por sua infidelidade. Mas, não achemos que isso é castigo de Deus. É consequência da própria escolha humana. É disso que Jesus está nos falando no Evangelho que ouvimos. Quando vão lhe contar sobre os galileus que Pilatos mandou matar, ou quando Jesus fala sobre a torre de Siloé, ou seja, sobre situações de morte, Jesus nos revela um Deus que não castiga. Muitos ainda tem uma percepção errônea que a doença, a miséria, os males que nos acontecem, são castigos de Deus. As catástrofes que nos acontecem na sociedade ou na vida não são castigos de Deus, mas, consequência das nossas decisões. Jesus nos convida, portanto, à conversão. E a Campanha da Fraternidade deste ano nos fala que não basta convertermos apenas uma dimensão nossa. A conversão é integral. Do mesmo modo que sabemos que não podemos confessar alguns pecados e outros esconder na confissão, não dá pra se converter pela metade. Ou convertemos nosso ser por inteiro, ou não é o suficiente para Deus. Por fim, amados irmãos e irmãs, a parábola da figueira fala da nossa relação com Deus. Mesmo diante de um Deus que firmou a aliança conosco, que nos chama a uma conversão integral, tantas vezes nós fechamos o nosso coração e não damos frutos. O Pai é esse dono da vinha que vem procurar frutos em nós. Jesus é o vinhateiro, que assume a nossa culpa, a nossa falta de frutos e pede para que nós nos mantenhamos mais um ano. Amados irmãos e irmãs, logo será a Páscoa. Será que este ano a Páscoa do Senhor dará frutos em nós e seremos homens e mulheres novos? Ou, será que não daremos frutos agora e até ano que vem Deus já terá nos cortado mesmo sem que frutifiquemos nada? A salvação é graça de Deus, de fato, mas, acolher a salvação e fazer com que ela seja efetiva na nossa vida, isto é, dê frutos, depende de nós. O Senhor deixou a figueira ainda este ano, seremos capazes de dar frutos?

quarta-feira, 19 de março de 2025

19.03.2025 | Missa de início do ministério petrino

Eminentíssimos senhores cardeais, os quais saúdo no nome de Dom Fernando Cardeal Haddad, Vice-Decano do Colégio Cardinalício, excelentíssimos bispos, reverendíssimos presbíteros e diáconos, amados irmãos e irmãs, estamos reunidos para celebrar a Solenidade de São José, esposo da Bem-Aventurada Virgem Maria, neste dia em que início solenemente meu ministério petrino. A promessa de descendência que percorre toda a história da aliança, encontra em Abraão um ponto de referência, conforme nos apresenta São Paulo na carta aos Romanos. E é da descendência de Abraão, que vem Davi, do qual nos falou a leitura do segundo livro de Samuel. Davi é tido como o grande rei de Israel, apesar de seu pecado. A promessa de um trono estável e de uma descendência duradoura, porém, não encontra sua concretude como esperava o povo de Israel. Mas, da mesma descendência de Abraão e Davi, Jacó gerou José, conforme ouvimos no começo do Evangelho de hoje. Este Deus que fez a aliança lá atrás não se esqueceu dela. Muito mais abençoada foi a descendência de Davi, quando José, esposo de Maria, recebeu a missão de ser o pai adotivo de Jesus. Mesmo que Jesus não fosse seu filho pelo sangue, em Jesus estava a descendência de José. E este filho era uma bênção muito maior para José do que qualquer laço de consanguinidade, pois o filho era o Filho de Deus. As Sagradas Escrituras impõe sobre José a maior das qualidades ao dizer que ele era justo. De São José não sabemos quase nada. Foi homem simples, trabalhador e do silêncio. Nada o ouvimos dizer na Escritura. Mas, ouvimos que ele era justo. Justo quer dizer que ele era temente a Deus. Justo a ponto de, não entendendo e pensando em abandonar Maria, tem esse desejo para que ele saísse como o errado, como o homem que engravidou a mulher e fugiu. Justo a ponto de acordar e fazer conforme o anjo do Senhor havia mandado. E José foi justo em tudo, quando teve de preparar as coisas para o parto de Jesus as pressas em Belém, quando voltou para Nazaré, quando fugiu para o Egito, quando voltou de novo para sua terra. José foi justo quando satisfez a lei, quando levou Jesus aos doze anos ao Templo. E ali, Jesus manifestou a nós a grandiosidade de seus dos pais, o Pai e o pai. O Pai do Céu: "Não devo estar na casa de meu Pai?". E o pai da terra, porque se Jesus era capaz de discutir com os mestres da lei, não era por algum tipo de reminiscência, porque Jesus não nasceu sabendo de tudo, e certamente não apenas pela escola da sinagoga, mas, sobretudo por José e Maria. São José era um homem justo e um bom pai, que certamente ensinou a seu filho Jesus as palavras da lei e dos profetas. José ensinou a Palavra de Deus para a própria Palavra encarnada; ensinou o Filho que havia saído do Pai, a relacionar-se com Deus como Pai; ensinou quem é Deus ao próprio Deus. Mas, José também teve a bonita missão de ensinar a Deus a ser homem. Ensinou-lhe, certamente, a sua profissão, seus valores, a se portar, e talvez até a tomar banho. É por isso que a Igreja sem medo confiou-se a São José como seu padroeiro universal. Se ele cuidou de Jesus, criou a Jesus, certamente cuidará da Igreja de seu menino, que é hoje o corpo místico de Cristo. Que São José hoje nos ensine a sermos mais humanos e ao mesmo tempo a estarmos mais em relação com Deus, o nosso Pai. Que a paternidade de São José, inspire a nós, pais na humanidade ou pais na espiritualidade, a uma paternidade digna de conferir-nos também o título de justos. E rezemos, irmãos e irmãs, rezemos por intercessão do coração bondoso de São José, que era homem de oração, pois apenas a um homem de oração Deus se revelaria como se revelou a ele, nos ensine a sermos homens e mulheres de oração, capazes de ouvir a voz de Deus e vê-lo no dia a dia. Rezai, irmãos e irmãs, rezai pela nossa Igreja, rezai pelo mundo inteiro e rezai por mim vosso servo e pai e que São José reze por todos nós. Valei-nos, São José!

terça-feira, 18 de março de 2025

18.03.2025 | Missa pro Ecclesia

Eminentíssimos cardeais, excelentíssimos senhores bispos, reverendos presbíteros e diáconos, senhores leigos, estamos reunidos nesta noite para a Missa pro Ecclesia, quando nos reunimos para rezar por toda a Igreja. Uma imagem que aparece na liturgia de hoje é a casa, o monte da casa do Senhor, a casa de Jacó, o edifício espiritual do qual Cristo é a pedra angular. A casa é lugar de acolhida. A nossa casa é àquele lugar que vamos no final do nosso dia, quando já estamos cansados. Ali nós nos esticamos, colocamos uma roupa mais leve, nos deitamos no sofá e descansamos. Assim também deve ser nossa Igreja: lugar de acolhida, lugar para os que estão de coração cansado, lugar para que se revistam de leveza àqueles que dia a dia são oprimidos pelo pecado e pelas suas consequências. A Igreja do Habbo Hotel será um lugar de acolhida a todos, especialmente aos que estão separados de nós. A Igreja deve, também, ser lugar de descanso. Sermos clérigos, amados irmãos, não pode se tornar para nós um fardo pesado. Precisa ser leve. Devemos viver nossa Igreja com leveza. Isso não significa que não teremos compromisso sério com ela. Teremos sim! Mas este nosso compromisso fluirá tão naturalmente, que não precisaremos ser cobrados, exigidos. Pelo contrário, como a Igreja é nossa casa e todos nós somos responsáveis por ela, a abraçaremos e abraçaremos a sua missão como nossa missão. Esta missão é a missão não apenas da Igreja. Na verdade, só é missão da Igreja porque antes é missão de Cristo e ele a confia a nós. Jesus confia a sua missão a um Simão Pedro ainda incapaz de corresponder plenamente o seu amor. Ele também a confia a nós, ao dizer a cada dia a nós, pastores, "apascenta as minhas ovelhas". Confia a nós sua missão, mesmo que ainda não correspondamos seu amor com o mesmo amor a que fomos chamados. É missão nossa encher a casa de Deus. Não enchê-la de números, mas, enchê-la de coração ardentes, ansiosos por amar a Deus, ansiosos por servi-lo, ansiosos por experimentá-lo neste nosso apostolado. E que o nosso coração aqui na Igreja se sinta em casa para que façamos dela cada vez mais o lugar da comunhão com Deus e com nossos irmãos e irmãs.

segunda-feira, 17 de março de 2025

17.03.2025 | Missa pro eligendo

Eminentíssimos senhores cardeais, os quais saúdo em nome de Dom Fernando Haddad, Vice-Decano, excelentíssimos senhores bispos, reverendíssimos presbíteros e diáconos, leigos e leigas, toda a Igreja de Cristo que saúdo em nome de Dom Raul Cardeal Steiner, nosso Camerlengo, "motivados pelo amor queremos ater-nos à verdade e crescer em tudo até atingirmos aquele que é a Cabeça, Cristo.". Este versículo da carta de São Paulo aos Efésios deve dar a tônica desta Missa pro eligendo Romano Pontifice, bem como do conclave que se se seguirá. SOMOS MOTIVADOS PELO AMOR:  A Igreja que nasce do lado aberto do seu Divino Redentor, Jesus Cristo, quando ele expira o Espírito, quando seu lado jorram sangue e água, nasce do coração do próprio Deus, nasce de seu amor. Porque o Filho que se entrega a morte, e estamos nos preparando nesta quaresma para celebrar este mistério na Páscoa, não se entrega por mera consequência dos pecados, mas, num ato de amor, pois "tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim.". O fator determinante da Igreja, o fator determinante da História da Salvação, é o amor. Parece-nos tão batido, tão repetitivo falarmos da experiência do amor, que tantas vezes tangenciamos este tema central da nossa fé. E, para São Paulo, na carta aos Efésios, a nossa ministerialidade depende da motivação pelo amor. Cristo que nos instituiu para os ministérios a fim de edifcarmos o seu Corpo, que nos conduz à verdade que é Ele próprio, foi alguém que cumpriu sua missão, seu ministério no amor. Por isso, só cumpriremos a nossa missão, só concretizamos o nosso ministério no amor. Se não exercemos no amor, motivados pelo amor, tudo aquilo que fizermos permanecerá sem frutos, permanecerá seco, não terá sentido. Jesus no Evangelho, na cena da última ceia, diz: “Como meu Pai me amou, assim também eu vos amei. Permanecei no meu amor.". Só é capaz de permanecer na missão, irmãos e irmãs, quem permanece no amor. Se hoje a nossa Igreja lamenta a falta de compromisso, a baixa de clérigos, bem como a baixa do próprio Hotel, é porque antes esteve em baixa o amor. Faltou-nos por primeiro, a tantos daqueles que por aqui passaram, o amor pela nossa Igreja. E a falta do amor faz com que nós nos tornemos funcionários do sagrado e da Igreja façamos da Igreja uma estrutura aos nossos gostos, aos nossos moldes, do nosso jeitinho. Se hoje nos falta motivação, é porque nos falta amor. Precisamos, também, ser guiados pelo amor, guiados por alguém que ama a nossa Igreja. E seremos guiados para onde? PARA CRESCER EM TUDO ATÉ ATINGIRMOS AQUELE QUE É A CABEÇA, CRISTO. Àquele sobre o qual repousa o Espírito do Senhor é a nossa meta.  Nossa meta é sermos como Cristo. O amor nos impele a sermos como Cristo. O próprio Jesus no Evangelho nos dá o mandamento do amor "amai-vos uns aos outros". Esta noite elegeremos um papa, se Deus quiser, para ser imagem do Cristo-Cabeça, que governa e deve governar a Igreja no amor, em autêntico espírito de caridade. Santa Teresa de Lisieux em sua célebre frase "Dans le cœur de l’Eglise, je serai l’Amour", "No coração da Igreja, minha Mãe, eu serei o amor", evoca para nós nesta noite uma autêntica interpretação da nossa liturgia. Precisamos ser, na Igreja, amor. Que Maria, nossa mãe e mãe da Igreja, mãe do amor, nos ensine faça entender que ou amaremos a Igreja e seremos nela o amor, ou estamos destinando a Igreja a ser nada. 

sexta-feira, 14 de março de 2025

Eminentíssimos senhores cardeais, como já foi transmitido aos senhores na manhã de ontem nossas pautas de hoje são: “Qual deve ser o perfil do próximo pontificado?" e "Como a Igreja do Habbo Hotel deve agir diante das cismas dos outros hotéis que cada dia mais levam nossos membros?”. Fará a secretaria desta Congregação o nosso Vice-Decano, Dom Fernando Cardeal Haddad.

Diante dessas duas pautas quero eu mesmo iniciar a reflexão apontando para como é complexa a reflexão deste momento. Deveríamos eleger um papa mais experiente ou alguém que traga novidade? Com o fim do pontificado do Papa Lucas IV, podemos pensar que alguém com mais experiência pode já saber colocar as coisas no trilhos, ao mesmo tempo pode ser desmotivador por ser mais do mesmo. Alguém novo é capaz de movimentar, mesmo que terá de lidar com as frustraçõe próprias de um pontificado e aceitar que sua condição não é de um sabe tudo que fará tudo sozinho, com toda a dificuldade de um primeiro pontificado, o que Lucas IV não conseguiu lidar.  O papa terá que lidar com a baixa do clero e do próprio Hotel, isto é fato. Vejo no que foi falado na última quinta-feira colocações interessantes para a movimentação eclesial, principalmente no que se refere ao pagamento do clero. Tema esse, porém, que eu também vejo com certa dualidade: por um lado, anima, sem dúvidas, mas, por outro, nos coloca no mesmo nível dos RPG´s. Creio, ainda, que o papa terá que lidar com a nossa velhice e ter a capacidade de tornar mais ôrganica a nossa Igreja, envolvendo a todos. As dioceses precisarão voltar a ser arquidioceses, ao meu ver, para promover uma estrutura maior, mesmo que mais difícil de se manter. Um curso para os bispos se torna cada vez mais indispensável.

No que se refere as cismas penso que precisamos estreitar os laços e começar a fazer o mesmo que eles. Mas, o Habbo não tem mais atração. O HP onde estão os cismáticos teve toda uma estrutura construída para eles. Dificilmente quem está lá vai querer voltar para cá. E, se por um lado devemos resguardar nossa Igreja no Habbo Hotel, por outro, deveríamos sim, nessas condições propor unidade plena com uma das Igrejas e fazer dela uma arquidiocese. Isso me geraria dúvidas do modus operandi disso: onde ficaria Roma e onde ficaria o Brasil? Eu penso que aqui ficaria Roma, mas daí eles estariam dispostos a deixar suas estruturas romanas, por exemplo? Quais serão os pontos de unidade plena, concelebração e presença deles aqui? Estariam dispostos a se submeter ao novo CDC? Há de fato uma proposta ministerial e pastoral nas Igrejas lá? Os dois lados estariam dispostos a ceder certas coisas? E, o mais importante, temos consciência que eles podem simplesmente não estar interessados justamente porque eles não precisam? Dom Wesley Ravassi pediu para ir para a sicar, fui comunicado ontem. Isso não é um sinal para nós que algo está errado em algum lugar? Não iniciar aqui uma discussão minuciosa sobre algo que pode nem acontecer, penso que tudo isso daria um sínodo ou um pequeno concílio. Mas, quero provocar-vos à reflexão.

Lamento em trazer mais perguntas do que respostas. 

terça-feira, 11 de março de 2025

12.03.2025 | Despedida Lucas IV

Santo Padre, apenas quarenta e dois dias se passaram desde que na praça que está diante desta Basílica, vossa santidade apontou para a Igreja com o nome de Lucas IV e hoje rendemos graças a Deus por este pontificado, que em sua brevidade foi capaz de corresponder com os compromissos assumidos no próprio início. Não acho justo e nem suficiente, santidade, comparar o final de nenhum pontificado a João Batista que diz que não é ele quem deveria vir. Penso, justamente o contrário: cada papa está para o seu tempo. O papa é aquilo que a Igreja precisa para àquele momento mediante a sua possibilidade. Nenhum pontificado está para preparar o caminho para um sucessor, mas, está para exercer o seu ministério de sucessor de Pedro com beleza e seriedade. Por isso, não quero lhe associar a imagem do último dos profetas, mas, ao profeta que gritou na liturgia deste dia: Jonas. Foi um longo processo para Deus formar Jonas para que ele chegue a Nínive. O profeta tenta fugir, vai para o outro lado, murmura contra Deus, pois não estava ainda pronto para assumir a missão. E, assim também foi com vossa santidade. Não é um clérigo recém chegado na Igreja, mas, um homem experimentado com muitos anos de vida apostólica, sendo preparado não por algum de nós, mas, pelo próprio Deus. Os percalços do caminho vieram, sem dúvidas com muito menos murmuração do que com Jonas, mas aconteceram. Porém, quando Jonas chegou a Nínive, para onde Deus tinha lhe enviado, e quando vossa santidade assumiu a cátedra, para onde Deus tinha lhe guiado, ambos perceberam que a obra não é do profeta, não é do papa, não é do homem: a obra é de Deus. Àquela cidade que deveria ser percorrida em três dias e foi percorrida em um. Esse pontificado poderia tem um percurso maior a ser feito, mas quarenta e dois dias foram o suficiente para cumprir com a sua missão. Por quê? Porque se a obra fosse de vossa santidade certamente não se cumpriria. Não pelas vossas capacidades, que tão bem conhecemos, mas, porque a obra não lhe percente. A obra é de Deus. Este é, também, o sinal do Evangelho de hoje: a obra de Deus é a conversão. E a conversão foi promovida por vossa santidade em nossa Igreja. Uma conversão de corações. Deste modo, mesmo diante da dificuldade dos instrumentos, a obra de Deus aconteceu e continuará a acontecer. Que este capítulo da nossa história seja sempre visto com beleza, Santo Padre. E que o senhor seja recompensado por ter sido instrumento da ação de Deus em nossa Igreja. Nossa ação de graças ao Senhor é pelo senhor. Obrigado!