domingo, 12 de novembro de 2023

12.11.23 | Aniversário de Ordenação Episcopal

Beatíssimo pai, Papa Paulo, que preside esta celebração eucarística, reverendíssimos irmãos concelebrantes, Dom Jorge Snaif Cardeal Médici que hoje, comigo, também comemora seu aniversário de ordenação episcopal, celebramos hoje o trigésimo segundo Domingo do Tempo Comum. Antes de nos voltarmos a liturgia do dia de hoje, quero agradecer a vocês pela presença para renderem graças a Deus, comigo e com Dom Snaif, pelo nosso ministério episcopal. Aqui há amigos queridos e especiais, pessoas importantes para nós e àqueles que se unem a nós para partilhar desta alegria do ministério. Digo em nome dos dois, que buscamos exercer os nossos ministérios, eu há 9 anos e Dom Snaif há 5 anos, num espírito de caridade e de serviço. Com nossas falhas e nossas misérias, chegamos até aqui e não chegaríamos se não reconhecessemos que o ministério do episcopado é um ministério do serviço. Não chegaríamos aqui se não fossemos dois homens apaixonados pela Igreja de Jesus Cristo e por este apostolado que aqui exercemos, se não acreditassemos e fossemos felizes com o que aqui realizamos. Dom Snaif, mal sabia eu que no dia que escolhi te ordenar bispo no meu quarto aniversário de ordenação episcopal, eu ganharia um irmão no ministério. E meu ministério nos últimos anos é inimaginável sem sua figura, sua presença e amizade. Por isso, Dom Snaif, a ti a minha gratidão. E a nossa gratidão conjunta aos amigos e amigas que ao longo destes anos fizeram parte dos nossos ministérios, que colaboraram conosco, que enxergaram em nosso exercicío ministerial sinais do Cristo Bom Pastor. Irmãos e irmãs, neste domingo a Igreja nos convida a sermos inteiramente disponíveis para o serviço do Senhor. Este tom escatológico da liturgia seguirá até a metade do Advento, conosco refletindo sobre o nosso encontro definitivo com o Senhor e sua segunda vinda. Agora, no Tempo Comum, pensando mais sobre o nosso encontro pessoal com Ele e no Advento na perspectiva da segunda vinda. A Sabedoria, meus irmãos, que aparece na primeira leitura de hoje, é imagem do próprio Jesus. É ele que quem por ele madruga não se cansará, pois o encontrará sentado à sua porta. Nesta perspectiva do autor veterotestamentário, é o Senhor quem espera sentado a porta, mas nós devemos madrugar. Sim, irmãos e irmãs, o Senhor espera ansioso por nós, mas nós precisamos nos levantar antes da aurora para irmos ao seu encontro. A dinâmica da madrugada é a dinâmica das vigílias. Às vezes nós sentimos isso no nosso dia a dia, quando ficamos angustiados, ansiosos por algo e sequer conseguimos dormir. O olhar do livro da Sabedoria se aproxima desta visão, pois, é como se nós não descansassemos enquanto não se encontrasse com o Senhor. Nós somos inquietos procurando um lugar para nós. Tantas vezes queremos um lugar na sociedade, queremos um lugar num grupo, queremos nos sentir pertencentes a algo. Mas, nós somos profundamente ansiosos pelo Senhor, como diz o salmo: "A minh’alma tem sede de vós e vos deseja, ó Senhor!" . E, às vezes, podemos nem ter o encontro com o Senhor dentro da Igreja. Aí, irmãos e irmãs, continuamos a procurar e encontramos fagulhas desta realização, mas, ela é ilusória. Só somos satisfeitos e plenos em Deus. E nós precisamos madrugar para o encontrarmos a nossa porta. Ou seja, o momento do nosso encontro com o Senhor nessa vida precisa ser logo, para que possamos nos encontrar com Ele na eternidade. O Evangelho das jovens previdentes segue a mesma dinâmica: "Portanto, ficai vigiando, pois não sabeis qual será o dia, nem a hora". Não adianta, irmãos e irmãs, se não estivermos sempre renovados no encontro com o Senhor, se não o buscarmos em vida, se não enchermos nossas lâmpadas com o óleo, não encontraremos o Senhor na eternidade: ele nos dirá que não nos conhece. Este Evangelho está no capítulo 25 de São Mateus, já caminhando para a grande conclusão dos discursos de Jesus e que ouviremos em Cristo Rei: o que fizestes a um dos pequeninos foi a mim que fizestes. Tendo esta imagem como plano de fundo, entendemos melhor o Evangelho que ouvimos, já que nos dá um caminho concreto para o seguimento do Senhor. Irmãos e irmãs, Deus nos dá a vida para procurá-lo, a morte para encontrá-lo e a eternidade para possuí-lo. Por isso, mesmo quando dizemos não a Deus, ele vai sempre tentar buscar contornar o nosso não em sim. Nós não podemos, porém, relaxar por conta disso e deixar para procurar o Senhor ou para sermos pessoas melhores amanhã. O amanhã pode não chegar. As virgens prudentes e as improdudentes lidam com um problema que era o problema das primeiras comunidades: o Noivo está demorando Jesus estava demorando pra voltar e alguns acabaram dormindo na comunidade. Muitas vezes nós também temos esse sentimento de que o Senhor está demorando, e ficamos nos perguntando até quando precisamos persistir nessa vida, até quando temos que ficar seguindo a Jesus Cristo, até quando temos que ficar sofrendo e chorando nesta vida sendo persistentes na Palavra do Senhor? E alguns de nós acabamos dormindo. E às vezes todos nós cansamos e acabamos dormindo. Mas, no meio da noite, veio o Noivo e todas as dez jovens se levantaram. Mas, aí está a diferença: as previdentes são àquelas que esperaram o Senhor durante a vida e as imprevidentes não o esperaram, não o seguiram. E as imprevidentes pedem o óleo às outras e na parábola elas até mandam ir comprar com os vendedores, ou seja, ter uma outra oportunidade, só que não deu tempo delas voltarem a tempo. O amor, irmãos e irmãs, a luz de Deus, não se pede emprestado, se vive. Não dá pra pegarmos o óleo, a luz do outro, o encontro com Deus do outro, a experiência de Deus do outro, emprestado. Depende de nós. Nenhum de nós sabe quando vai fechar os olhos para este mundo e abri-los para a eternidade. Portanto, aproveitemos bem a nossa vida para procurar o Senhor e para levá-lo por meio das nossas obras aos outros que o procuram mesmo sem saber, se não, se amanhã nossa vida aqui acabar, corremos o risco de não sermos reconhecidos pelo Senhor. Mas, se o encontrarmos agora, acontecerá conosco aquilo que promete São Paulo aos Tessalonicenses, que ouvimos na segunda leitura: "estaremos sempre com o Senhor.". Assim seja! Amém.

domingo, 5 de novembro de 2023

05.11 | Missa por ocasião do dia de São Carlos Borromeu

 Beatíssimo pai, amados irmãos e irmãs, celebramos hoje o trigésimo primeiro Domingo do Tempo Comum e honramos o padroeiro dessa nossa capela, São Carlos Borromeu, celebrado ontem. O grande pedido da liturgia deste domingo é de servirmos a Deus como devemos. É nesta dinâmica que é colocado diante de nós as correções do profeta Malaquias aos sacerdotes. Os sacerdotes, em todas as religiões, são homens separados para o culto. E assim era também com os judeus. Mas, cada vez mais o povo pôde dizer adeus aos homens de Deus. Sim, porque aqueles que eram separados para o serviço do Senhor começaram, com o tempo, a afastar-se do Senhor e a distanciar dele o seu coração. Isso manifesta-se pela infecundidade do seu culto, que passou à exterioridade, já que no seu interior eles quebraram o pacto com Deus e passaram a discriminar as pessoas, a serem desonestos, desonrando o Senhor. E assim, Deus promete a maldição para os homens que outrora eram homens da bênção. Pois, quando a bênção não é abraçada e vivida, só nos resta uma existência amaldiçoada. No Evangelho, Jesus também adverte às multidões e aos discípulos sobre as figuras de autoridade religiosa: os mestres da Lei e os fariseus. Estes eram os homens que deviam guardar a lei no seu coração e também não guardaram. Eram homens que deviam abraçar a simplicidade, mas preferiram a suntuosidade. Eram homens que gostavam de chamar a atenção para si. Suas vestes eram para o seu louvor; seus lugares de honra eram para o seu louvor. E assim, louvando a si mesmos, esqueceram-se de louvar a Deus. E o que, para mim, parece ser o começo dessa desgrhaça toda: Eles "marram pesados fardos e os colocam nos ombros dos outros, mas eles mesmos não estão dispostos a movê-los, nem sequer com um dedo.". Irmãos e irmãs, como essa Palavra deve nos tocar. Sim, porque muitas vezes somos nós que vivemos colocando sobre os outros fardos pesadíssimos e impondo para eles uma moral que nós não conseguimos suportar. Não podemos, claro, cair num laxismo. Mas, não podemos ir para um moralismo rigorista, que cumpre a lei pela lei, que impõe a lei com falsidade, que beira o puritanismo protestante. Essa tendência de muitos grupos dentro da Igreja, antes de defendê-la, a destrói, porque a destrói de dentro para fora. O Senhor nos quer santos, mas, santos pela liberdade do amor, e não pela imposição e pelo medo. Além disso, quando pensamos numa Igreja que não queira os lugares de honra, pensamos numa Igreja que assuma os últimos lugares. E, quantas vezes na história da Igreja não vimos os membros da Igreja querendo que a Igreja ocupe um lugar de honra e de estima, tão contrária àquilo que Jesus pensou para a sua Igreja? Hoje, além do rigorismo moral, um outro perigo é o fenômeno do tridentinismo. E, falar de tridentinismo, é falar de pessoas que querem viver uma realidade que nem o próprio Concílio de Trento pensou e imaginou. Falarmos disso, é pensarmos também na figura de São Carlos Borromeu, que é para nós um exemplo daquilo que escreveu São Paulo na segunda leitura: um homem que deu não só a Palavra de Deus, mas, a própria vida. São Carlos era sobrinho de Pio IV, o papa que presidiu a última sessão e encerrou o Concílio de Trento. Quando criança, de família nobre, dizem que era comum ver o menino Carlos brincando de celebrar missa no Castelo dos Borromeu. Mais tarde, antes mesmo de receber a ordenação, seu tio o fez cardeal. O jovem Carlos foi para o Concílio de Trento e atuou lado a lado com seu tio para construções na cidade de Roma e no termino do Concílio. Foi ordenado presbítero e bispo e foi ser Arcebispo de Milão, que hoje é a maior Arquidiocese em número de padres e uma das três maiores em número de fiéis. Ali, o Cardeal Carlos Borromeu desgastou a sua vida. Num tempo onde os padres nem sabiam rezar missa - que era a realidade anterior a Trento - São Carlos fundou seminários. Num tempo onde os Bispos nem viviam na sua diocese, ele viveu em Milão e realizou inúmeras visitas pastorais, sínodos provinciais e arquidiocesanos. Ele escreveu catecismos aos párocos e foi um homem preocupado com a pregação da Palavra. São Carlos, ainda, defendeu os direitos da Igreja frente os poderes temporais. Ele fez com que a Igreja passasse da contrarreforma protestante, onde apenas revidava o que diziam os protestantes, para uma verdadeira reforma católica. O fim de sua vida, foi o fim da vida de um Bom Pastor. Quando a peste chegou em Milão e fugiram os governantes e os ricos, o Cardeal ficou na cidade para organizar o cuidado com os empestados. São Carlos andava pela cidade com uma grande cruz, abençoando a todos, e lembrando-os de unirem seus sofrimentos ao de Cristo. Aos 46 anos, com peste, o Arcebispo e Cardeal Carlos Borromeu fez a sua Páscoa. 18 anos após sua morte, foi beatificado e 8 anos depois, foi canonizado. São Carlos Borromeu nos ensina a sensibilidade dos pastores: de rico fez-se servidor, sem precisar abandonar tudo e sendo um homem bem aos moldes do contexto de seu tempo, ele não se tornou hipócrita à Palavra de Deus, mas transformou-a em regra de vida e é para nós hoje exemplo e intercessor. São Carlos Borromeu, rogai phor nós.