terça-feira, 13 de agosto de 2024

13.08.2024 | Saudação ao Papa Bonifácio II

Santo Padre, Bonifácio, "aqui entramos para amar a Deus e saímos para amar os irmãos". Esta frase que há anos marca a entrada de cada pessoa nesta basílica, hoje saúda também vossa santidade. Originalmente, ela está na igreja do Pateo do Colégio, na capital paulistana, uma igreja jesuíta. Neste dia em que celebramos Santa Dulce Lopes Pontes, acolho vossa santidade nesta Basílica Papal dedicada a São João Paulo II, sé do título cardinalício do Espírito Santo em Sassia, igreja que em nossa realidade cede lugar a esta. Tão próxima da Basílica Vaticana pela localização, é também uma casa dos romanos pontífices, que há tantos anos tenho o prazer de acolher aqui, como vossa santidade bem sabe, desde os idos tempos de 2015. Sem querer me alongar, mas, já me alongando, santidade, amar a Deus e amar aos irmãos parece-nos algo tão intrínseco uma realidade a outra que se torna difícil separar. Ao lhe receber nesta noite, caro pai, peço-te filialmente que não permita que estes vossos filhos se esqueçam do amor. Às vezes, sombreados pela noite do medo, desesperançados, poderemos esquecer de amar a Deus, aos irmãos, a Igreja, a vós, Santo Padre. Exorta-nos com paciência e pastorea-nos com amor, para seguirmos os teus passos e juntos servimos à Igreja, que é o Povo de Deus. Bonifácio é aquele que "faz o bem". Pois, então, Bonifácio, faz bem o bem, e o Bom Deus nos ajudará.

Hoje, Santo Padre, ainda te peço que rogues a bênção de Deus sobre estas imagens que agora farão parte do nosso espaço litúrgico: a do Divino Espírito Santo, que do alto do baldaquino olha, guia e inspira a Igreja; a Bem-Aventurada Virgem Maria da Conceição Aparecida, padroeira do Habbo Hotel; São Carlos Borromeu, o santo arcebispo de Milão; Sant´Ana, Mãe da Virgem Maria, onomástico de minha avó materna; São Francisco, o reformador da Igreja, que desde cedo aprendi a amar; e São João XXIII, que trouxe a Igreja ao aggiornamento, a um tempo de mudança em diálogo com a modernidade.

segunda-feira, 5 de agosto de 2024

05.08.2024 | Missa em Ação de Graças pelo Pontificado

Amados irmãos e irmãs, estamos reunidos para celebrarmos a Missa em Ação de Graças pelo nosso pontificado. Isto é, antes de tudo, um pleonasmo, pois, a própria palavra Eucaristia quer dizer ação de graças. E, pelo que rendemos graças em nossas vidas? Nesta noite, quero brevemente partilhar convosco que rendo graças a Deus pela dificuldade e dureza deste pontificado. Apenas alguns dos irmãos mais próximos sabem, mas, ainda nos primeiros dias de meu pontificado, na metade da Semana Santa, entrei num dos períodos que vem sido, sem dúvidas, um dos mais difíceis da minha vida pessoal. E, se logo na época, a grande vontade já foi deixar o Sumo Pontificado ainda antes de completar seu primeiro mês, foi o apoio dos irmãos, a presença de todos os senhores, que me fez permanecer na cátedra de Roma. Porque logo percebi que aquilo seria, sem dúvidas, fonte de crescimento para mim e que poderia de modo singular partilhar convosco. Por isso, logo a homilia da Vigília Pascal mudou o tom deste meu pontificado, pois foi um convite à coragem. Naquela ocasião, dizia sobre a coragem de recomeçar, de viver a vida nova em Deus, pois toda tristeza passa. De fato, esta é também a mensagem da Palavra de Deus que acabamos de ouvir. Enquanto na primeira leitura, o profeta Sofonias nos fala da alegria por termos Deus no meio de nós, o Evangelho de São João nos traz o discurso da despedida de Jesus. Jesus sabe que o coração dos discípulos vai se angustiar, mas, sempre haverá alegria quando ele estiver presente. Amados irmãos e irmãs, sempre teremos situações difíceis em nossa vida. Há uma inevitabilidade da tristeza, do luto, do sofrimento. A vida não é um mar de rosas. Nos sentiremos, às vezes, até mesmo, abandonados pelo Senhor. Ninguém é capaz de mensurar aquilo que nós sentimos, nem de entender. Ainda assim, o Senhor o é capaz de entender. Porque ele, antes mesmo de nós, já sentiu cada uma de nossas dores. Até mesmo aquelas que parecebem mais triviais, ele as sentiu. Nada em nossa vida é pequeno diante do Senhor. Não importa pelo que passemos, ele já sentiu essa dor. O Senhor Jesus já se sujou na nossa lama. E eu, meus irmãos queridos, posso partilhar aos senhores com sinceridade de coração, que só quem já mergulhou na própria lama, no próprio sofrimento, no próprio ser, é capaz de resgatar os outros, é capaz de ir aos outros, é capaz de tocar os outros. Apenas quem sabe quem é, em sua pior versão, é capaz de oferecer o melhor de si aos outros. Tantas vezes gostamos da ilusão de que somos pessoas maravilhosas. Mas, dentro de nós há sempre luzes e trevas, coisas boas e coisas não boas, males que fizemos e bens que deixamos de fazer. Render graças a Deus também por isso, pela nossa miséria, é um ato de coragem. É saber que apesar do que acontece em nossas vidas, nós damos graças a Deus. Não só dar graças por aquilo que é bom. Mas, também dar graças por aquilo que, mesmo que não seja bom de ser vivido, forma quem nós somos. Não somos apenas quem queremos ser. Somos quem somos. E, a partir de quem somos, deixamos a graça de Deus agir. Dar graças a Deus é, também, deixar que Deus haja. Porque a graça supõe e se sobrepõe a natureza humana. Dar graças por este pontificado é darmos graças por aquilo que pudemos fazer de bom, por aquilo que não pudemos fazer, e também por aquilo que não deveríamos ter feito e acabamos fazendo. Como já disse anteriormente, e não posso deixar de repetir: o que fizemos, foi graças ao serviço de todos, e o que não fizemos foi porque faltou o serviço de todos. O principal, porém, não é o que foi feito ou o que deixamos de fazer. O principal é o que devemos fazer. Devemos continuar dando graças a Deus por meio da nossa própria vida. Fazermos da nossa vida um ato de louvor e gratidão a Deus. Levarmos a frente a nossa Igreja, com esperança, com a certeza de que ela ainda tem uma missão e um papel a ser cumprido. O principal, irmãos e irmãs, é Jesus Cristo. Ele é a razão da nossa alegria, da nossa esperança, da nossa ação de graças. Ele é o Pastor Supremo da Igreja, sem o qual, nada podemos fazer. Ele deve ser a nossa razão, hoje e para sempre. 

05.08.2024 | Consistório Ordinário Público

Eminentíssimo Dom Jorge Snaif Cardeal Médici, que em breve irá completar dois anos como Decano do Colégio Cardinalício, amados irmãos e irmãs, estamos aqui reunidos para concedermos o barrete cardinalício ao eminentíssimo Dom Junior Assis. A leitura que ouvimos nos leva ao dia de Pentecostes, quando pela ação do Espírito Santo, os discípulos começam a anunciar o Evangelho em diversas línguas, de modo que todos entendiam. Esta perícope nos remete à universalidade da Igreja. Embora sejamos muitos, falemos muitas línguas, formamos um só corpo, o Corpo de Cristo. E, nesta mesma universalidade, onde destaca-se a unidade como dom, está presente também o dom da diversidade. Formamos uma unidade na pluralidade. Nenhum de nós é igual ao outro. Somos todos diferentes. Cada um de nós com a sua história própria, com uma caminhada de vida. Cada um de nós olha para a realidade a partir de uma perspectiva. Cada um de nós possui um dom e um carisma diferente. Cada um de nós, dentro dos diversos carismas existentes dentro da Igreja, fazemos nosso encontro com Jesus Cristo do nosso modo. E isso, antes de ser um problema, é, na verdade, uma bênção. Caríssimo Dom Junior Assis, é a essa diversidade que o senhor, bem como todos os cardeais, deve estar a serviço. O cardeal não impõe seu modo à Igreja, como nem o papa o faz. A perspectiva é a do serviço. Saiba, Dom Junior, que recebes o cardinalato como uma honra. Pois, de fato, o cardinalato é uma honraria, um mérito, um título. Mas, ao mesmo tempo que é um título, traz acarretado consigo uma ministerialidade, um serviço, que não pode ser separado da honra. Até porque, no mesmo livro dos Atos dos Apóstolos que ouvimos, mais adiante, o autor sagrado recorda um dito de Jesus: "É mais feliz quem dá do que quem recebe.". É mais feliz, Dom Junior, aquele que serve. O senhor recebe esse cardinalato hoje por causa de vosso serviço a Igreja por meio da minha pessoa, da pessoa do Romano Pontífice, ao longo deste pontificado. Vossa fidelidade foi comprovada há muito tempo, embora instável. Agora, lhe conferimos esta honra com grande alegria. Mas, não posso deixar de dizer, que não deixe o cardinalato lhe distanciar dos bons propósitos. Porque, dhiscordando de Maquiavel, que em O Príncipe diz que o príncipe deve ser amado e temido, eu lhe digo que o cardeal deve ser amado e respeitado. E o respeito é consequência imediata de ser amado. Olhamos, sempre, sob uma perspectiva cristã, da Boa Nova de Jesus Cristo. E, aí, o principal é amar e ser amado. O respeito não se impõe, se conquista. Se conquista pelo exemplo. E hoje percebemos que os cardeais não são mais aquelas figuras que eram em tempos passados. Longe disso ser negativo, nos mostra que não é a cor que usamos que deve nos destacar, nos fazer ser respeitados, mas, o quanto somos testemunhas de Jesus Cristo pela nossa vida, ação e ministério. Que o senhor, Dom Junior, e todo o colégio cardinalício, seja essa testemunha, que como o vermelho de vossas vestes, estejam dispostos a ir até as últimas consequências do seguimento de Jesus Cristo, que é o amor.

domingo, 4 de agosto de 2024

04.08.2024 | XVIII Domingo do Tempo Comum

Amados irmãos e irmãs, estamos celebrando o décimo oitvavo domingo do Tempo Comum. Quem ou o quê estamos procurando? O Evangelho de hoje segue imediatamente o milagre da multiplicação dos pães que ouvimos no domingo passado. A perícope anterior terminava dizendo que Jesus fugiu porque queriam coroa-lo rei. Hoje, a multidão percebe que Jesus sumiu e vai a sua procura. Quando encontram Jesus, ele próprio os diz que o procuram porque comeram pão e ficaram satisfeitos, não pela pessoa de Jesus Cristo. A isto, a multidão pede um sinal, e rememora aquele sinal da primeira leitura, no livro do Êxodo, quando Deus dá ao povo no deserto, o maná e as cordonizes. De fato, ali na primeira leitura, diante da murmuração do povo de Israel, que começa a dizer que era melhor ter permanecido na escravidão do Egito do que ter fugido para morrer de fome no deserto, Deus lhes dá uma comida. Mas, não nos iludemos que isso vá interromper a murmuração do povo contra Deus não. Eles olham para o maná, que era aquele grão miúdo e para aqueles pássaros de nem cem gramas que eram as codornizes, e ainda se perguntam que era aquilo. E no capítulo seguinte do livro do Êxodo, voltam a reclamar, agora porque querem água. E Deus dará outro sinal, ordenando que Moisés fira a rocha para que dela saia água. Depois disto, ainda, Deus dará a Lei, e o povo não a seguirá. A história segue com tantas infidelidades, que até entre os primeiros cristãos, São Paulo tem que chamar a atenção da comunidade dos Efésios para não continuarem a viver como os pagãos, ou seja, não viverem como se Deus não existisse. Nesta perpectiva, quando no Evangelho Jesus se diz o pão da vida, é porque ele é o pão que dá a vida. Dá a vida enquanto dá a própria vida. Mas, dá a vida enquanto promove a vida. Nossa Eucaristia deve nos trazer vida. Vida em abundância, vida em plenitude. Deve ir nos transformando, de pouquinho em pouquinho. E, então, quem ou o quê estamos procurando? Estamos procurando Deus por ser Deus, propondo-nos a seguir seu caminho, a vivermos nele, ou estamos procurando a Deus por aquilo que ele pode nos dar? É muito fácil procurar a Deus em nossas necessidades, mas viver a vida como se Deus não existisse. É muito fácil tratar a Deus como um mercado, onde procuramos aquilo que queremos e desprezamos o restante. Só que este não é o nosso Deus. Não é um Deus com o qual precisamos ficar fazendo escambo, nem um Deus que só existe enquanto um ser que está para satisfazer nossas necessidades ou desejos. Sim, irmãos e irmãs, Deus opera milagres. Mas, nós estamos procurando os milagres de Deus ou o Deus dos milagres?

quinta-feira, 1 de agosto de 2024

02.08.2024 | Missa Exequial de Dom João Pedro Cardeal Silva

Amados irmãos e irmãs, estamos aqui reunidos para nos despedirmos de nosso amado Dom João Pedro Cardeal Silva. Nos despedirmos desse querido irmão, é nos despedirmos de um homem muito simples, que sempre agiu no silêncio. Dom João Pedro não precisou de palcos, de grandes catedrais, nem de tantas coisas superficiais, para falar de Jesus Cristo. Era um homem que pouco falava, mas, que quando falava, era pra espalhar o doce odor do Cristo. Seu exemplo permanecerá entre nós, como modelo de simplicidade. Amados irmãos, a morte sempre causa em nós um processo de luto. De fato, o luto faz parte de nossas vidas e é vivido de diversos modos e por diversas circunstâncias. O processo do luto nem sempre está ligado a um ente querido falecido. Às vezes vivemos o luto pelos términos de ciclos na vida social, profissional, amorosa, ou outros ciclos em nossas vidas. Fato é, que o luto faz parte de nossas vidas e não podemos fugir dele. Mas, para nós, cristãos, o luto pela morte é um luto revestido pela esperança. A primeira leitura, retirada do Segundo Livro dos Macabeus, é um relato de como Judas Macabeu oferece um sacrifício pelos mortos, pois crê na ressurreição final. De fato, é neste período, que surge o judaísmo como a religião que conhecemos - pois antes eram muito mais exclusivamente uma etnia e moradores de uma região - e com ele a fé na ressurreição. E sua fé não era desamparada. Pois, na plenitude dos tempos, o Filho de Deus, morreu e ressuscitou por primeiro, para que nós pudessemos seguir, também, o mesmo caminho. O Evangelho é justamente essa Páscoa do Senhor, sua Passagem, sua Morte e Ressurreição. A narrativa de São Lucas diz que cortina do santuário rasga-se, ou seja, estamos reconciliados com o Pai, e podemos entrar em contato com Ele, e Jesus morre na cruz. O Evangelho traz aquele texto que cantamos como refrão do salmo. Este é o grito de Jesus Cristo que se lança confiadamente nas mãos do Pai. Ele sabe que o Pai não o deixará na morte. O Pai não o desamparará. Ele se lança e o Pai o acolhe. Como a criança que não tem medo, pois confia no pai. Assim foi Jesus. Ele nos ensina a confiar em Deus. Confiar em Deus durante a nossa vida, mas, também confiar em Deus na hora de nossa morte. Porque um dia os nossos olhos vão se fechar para este mundo. E aí, confiamos em Deus. Ninguém sabe como será. O filósofo Blaise Pascal defendia que a crença em Deus era uma aposta. Podemos crer em Deus, viver a vida toda como crentes, morrermos e Deus não existir. Mas, aí, não haverá arrependimento, nem possibilidade de arrependimento. Porém, se apostarmos que Deus não existe, vivermos a vida do nosso jeito, e na morte nos encontrarmos com Deus, nos arrependeremos, mas não haverá mais possibilidade de remissão. Portanto, mesmo que assustador pensarmos na morte, apostemos em Deus. O Evangelho continua com a narrativa da manhã do domingo, quando as mulheres encontram-se com os anjos que anunciam que Jesus Ressuscitou. Nossa fé está embasada em Jesus Cristo Ressuscitado. Nós cremos e professamos um Senhor que é vencedor sobre o pecado e a morte. Ele, com sua Páscoa, destruiu a morte, o Diabo, o inferno. Portanto, confiemos, tenhamos fé em nosso Senhor Jesus Cristo Ressuscitado, que nos revelou o Pai, e que nos precede no céu, para que, quando fizermos a nossa páscoa, nos uniremos a sua Páscoa. Tenhamos essa esperança e certeza, de que, quem se lançar ao Pai durante a vida, no fim dela será acolhido em seus braços e abraços. Assim seja! Amém.