Amados irmãos e irmãs, estamos reunidos para celebrarmos a Missa em Ação de Graças pelo nosso pontificado. Isto é, antes de tudo, um pleonasmo, pois, a própria palavra Eucaristia quer dizer ação de graças. E, pelo que rendemos graças em nossas vidas? Nesta noite, quero brevemente partilhar convosco que rendo graças a Deus pela dificuldade e dureza deste pontificado. Apenas alguns dos irmãos mais próximos sabem, mas, ainda nos primeiros dias de meu pontificado, na metade da Semana Santa, entrei num dos períodos que vem sido, sem dúvidas, um dos mais difíceis da minha vida pessoal. E, se logo na época, a grande vontade já foi deixar o Sumo Pontificado ainda antes de completar seu primeiro mês, foi o apoio dos irmãos, a presença de todos os senhores, que me fez permanecer na cátedra de Roma. Porque logo percebi que aquilo seria, sem dúvidas, fonte de crescimento para mim e que poderia de modo singular partilhar convosco. Por isso, logo a homilia da Vigília Pascal mudou o tom deste meu pontificado, pois foi um convite à coragem. Naquela ocasião, dizia sobre a coragem de recomeçar, de viver a vida nova em Deus, pois toda tristeza passa. De fato, esta é também a mensagem da Palavra de Deus que acabamos de ouvir. Enquanto na primeira leitura, o profeta Sofonias nos fala da alegria por termos Deus no meio de nós, o Evangelho de São João nos traz o discurso da despedida de Jesus. Jesus sabe que o coração dos discípulos vai se angustiar, mas, sempre haverá alegria quando ele estiver presente. Amados irmãos e irmãs, sempre teremos situações difíceis em nossa vida. Há uma inevitabilidade da tristeza, do luto, do sofrimento. A vida não é um mar de rosas. Nos sentiremos, às vezes, até mesmo, abandonados pelo Senhor. Ninguém é capaz de mensurar aquilo que nós sentimos, nem de entender. Ainda assim, o Senhor o é capaz de entender. Porque ele, antes mesmo de nós, já sentiu cada uma de nossas dores. Até mesmo aquelas que parecebem mais triviais, ele as sentiu. Nada em nossa vida é pequeno diante do Senhor. Não importa pelo que passemos, ele já sentiu essa dor. O Senhor Jesus já se sujou na nossa lama. E eu, meus irmãos queridos, posso partilhar aos senhores com sinceridade de coração, que só quem já mergulhou na própria lama, no próprio sofrimento, no próprio ser, é capaz de resgatar os outros, é capaz de ir aos outros, é capaz de tocar os outros. Apenas quem sabe quem é, em sua pior versão, é capaz de oferecer o melhor de si aos outros. Tantas vezes gostamos da ilusão de que somos pessoas maravilhosas. Mas, dentro de nós há sempre luzes e trevas, coisas boas e coisas não boas, males que fizemos e bens que deixamos de fazer. Render graças a Deus também por isso, pela nossa miséria, é um ato de coragem. É saber que apesar do que acontece em nossas vidas, nós damos graças a Deus. Não só dar graças por aquilo que é bom. Mas, também dar graças por aquilo que, mesmo que não seja bom de ser vivido, forma quem nós somos. Não somos apenas quem queremos ser. Somos quem somos. E, a partir de quem somos, deixamos a graça de Deus agir. Dar graças a Deus é, também, deixar que Deus haja. Porque a graça supõe e se sobrepõe a natureza humana. Dar graças por este pontificado é darmos graças por aquilo que pudemos fazer de bom, por aquilo que não pudemos fazer, e também por aquilo que não deveríamos ter feito e acabamos fazendo. Como já disse anteriormente, e não posso deixar de repetir: o que fizemos, foi graças ao serviço de todos, e o que não fizemos foi porque faltou o serviço de todos. O principal, porém, não é o que foi feito ou o que deixamos de fazer. O principal é o que devemos fazer. Devemos continuar dando graças a Deus por meio da nossa própria vida. Fazermos da nossa vida um ato de louvor e gratidão a Deus. Levarmos a frente a nossa Igreja, com esperança, com a certeza de que ela ainda tem uma missão e um papel a ser cumprido. O principal, irmãos e irmãs, é Jesus Cristo. Ele é a razão da nossa alegria, da nossa esperança, da nossa ação de graças. Ele é o Pastor Supremo da Igreja, sem o qual, nada podemos fazer. Ele deve ser a nossa razão, hoje e para sempre.