terça-feira, 28 de janeiro de 2025

28.01.25 | Missa Pro eligendo Romano Pontifice

Eminentíssimos senhores cardeais, amados irmãos e irmãs, como é tremenda esta hora da Missa Pro Eligendo Romano Pontífice quando nossos corações e vozes se unem num só pedido: Vinde, Espírito Santo. O vermelho desta noite já não é mais o vermelho do luto pelo nosso falecido Romano Pontífice, mas, o vermelho do fogo do Espírito Santo a quem pedimos esta noite que dê a este colégio cardinalício os seus dons, para que possamos eleger um novo Bispo para Roma e pastor para a Igreja universal. Precisamos sentir nesta noite, eminentíssimos pares no colégio cardinalício, quase que o sopro do Espírito Santo sobre nós. Deus próprio em nós. É ele quem suaviza os nossos corações, nos infla os pulmões de um novo respiro e nos dará capacidade para cumprirmos com a nossa obrigação. Este Espírito é Espírito da unção. Unção profetizada em Isaías, na primeira leitura que ouvimos, e tão marcante para nós. Pois, o próprio Jesus anuncia que nele está o cumprimento profecia. Ele é o ungido, o messias. Ele nos unge com o seu Espírito, no Batismo, na Crisma, nas Ordenações. Este Espírito é Espírito de amor. A graça de vivermos aquilo ao qual Jesus nos chama no Evangelho de hoje, o amor entre nós e a amizade com Ele, é ação do Espírito em nós. Na primeira carta aos Coríntios, São Paulo diz que ninguém pode dizer que Jesus é o Senhor senão por ação do Espírito. E como é difícil sentirmos e permitirmos esta ação do Espírito em nós, que promove a amizade com Deus e o amor entre nós. Primeiro porque nós ocidentais perdemos muito desta característica pneumatologica e de mistério. Queremos explicações para tudo, sem entendermos que nem tudo tem uma explicação. Deixamos, por vezes, o Espírito Santo de lado e às vezes até o tornamos um semi-Deus. Não, o Espírito Santo é uma pessoa da Trindade, procede do Pai e do Filho. É Deus. Não o fiquemos invocando como se fosse um servo nosso, às vezes com desrespeito, esperando dele meramente um sentimento, em espetáculos religiosos sentimentalistas. O honremos como Deus que é com o Pai e o Filho! O Espírito nos faz amigos de Jesus porque é o nosso elo com Deus. Quando rezamos, e como não sabemos rezar como convém, é o Espírito que ora em nós e phor nós. O Espírito nos coloca em comunhão com o Pai. E aí, ser amigo, é entrar na comunhão, na intimidade. Estamos na intimidade de Deus pois ouvimos sua Palavra, porque ele se revela a nós. E, não apenas se revela a nós, mas, nos revela a nós. Jesus Cristo, nos ensina o Concílio Vaticano II, revela o homem ao próprio homem e descobre-lhe sua sublime vocação. E, acima de moções individualistas e particulares, o Espírito nos leva a abraçar a nossa vocação de sermos o amor. Deus é amor! Nós existimos em Deus. Portanto, também somos feitos de amor. Quando o homem se fecha ao amor-amizade com Deus ou com o amor com os irmãos, fecha-se a um ciclo de relações que é capaz de corresponder a sua própria vocação, aos seus profundos anseios. Por fim, na Carta aos Efésios que ouvimos na segunda leitura, São Paulo nos recorda que o crescimento da Igreja é no amor. Na diversidade de dons e na unidade da fé, somos chamados a nos edificar como Corpo de Cristo no amor. Eminentíssimos irmãos cardeais, esta perícope paulina fala muito a nós esta noite. Nós somos estes apóstolos instituídos por Cristo, que devemos, com maturidade e no Espírito da verdade, motivamos pelo amor, eleger um pastor segundo o coração de Cristo, que segundo o mesmo Cristo e o mesmo Espírito de Cristo, coordene e una as articulações do Corpo de Cristo para que possa em harmonia crescer e se edificar no amor. Certamente, o Espírito nos inspirará, apoiará e sustentará nesta missão. Assim seja! Amém.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

Eminentíssimos senhores cardeais, diante das pautas desta nossa Congregação Geral noturna, como já vos disse na carta, sereis livres para deliberar sobre àquelas que desejarem. Ressalto que as pautas são: “Um novo pontificado: transição ou durável?; a formação continuada; o diálogo ecumênico com outras Igrejas virtuais; e a reabilitação de antigos clérigos.”

Quero, como na última Congregação Geral, eu mesmo iniciar com as reflexões desta noite. Primeiro no que se refere a durabilidade de um pontificado para este momento. Concordo que papados menores tenham uma certa magia, que a renovação gera um certo ânimo e que longos pontificados, sobretudo com a ausência dos papas tendem a ser cansativos. O próximo papa precisará, acima de tudo, ser um homem presente no cotidiano da Igreja para dialogar com os clérigos, estar presente na vida deles. Precisará ser alguém interessado em seus clérigos e com coragem para puxar a Igreja para seguir seus caminhos. Se for um bom papa, com estas características, um pontificado transitório não seria tão urgente e necessário ao meu ver. Embora eu mesmo tenha refletido muito sobre isso ultimamente e já tenha mudado de opinião umas duas ou três vezes. Um papa de transição não poderia durar até a segunda semana da Quaresma, pontificando por 35 ou 40 dias. Mas, vivemos num momento que não sei ao certo se conclaves movimentariam como gostaríamos a Igreja. As exéquias de Bonifácio II certamente trouxeram certo movimento. Mas, no fundo, percebo que o que de fato movimentou foi muito mais a nossa presença e atividade, nossa motivação para que tudo corresse com beleza. Será que não poderia ser assim também em outros momentos? Acho que vale a pena refletirmos sobre isso de hoje para amanhã.

A formação continuada é um tema que não poderia ficar de fora, principalmente considerando que Bonifácio manteve vago por um bom tempo o Dicastério para a Cultura e a Educação. E o fez por quê? Porque justamente não havia trabalho. Com raras exceções, não vemos cursos para aprofundamento acontecerem e nem deliberações muito válidas para formarmos o nosso clero e nem a nós mesmos. Penso nem serem necessárias novas universidadess, mas um Dicastério para a Educação que promova em consonância com os outros Dicastérios, a formação continuada de nosso clero. Iniciativa deste Dicastério, que tantas vezes faltou.

O diálogo ecumênico, ao meu ver, deve ser, de fato, diálogo. Não com a intenção de se degladiar, como vimos os cismáticos fazendo durante as exéquias de Bonifácio II, nem com a intenção de converter ninguém. Mas, acima de tudo, amizade. Celebrações conjuntas, visitas fraternas, espírito de unidade, já seria testemunho cristão. Sem pensarmos, irmãos, no retorno ou vinda de clérigos e nem anexação de HP´s a nossa Igreja. Se no tempo do Concílio Vaticano VII já temíamos o esvaziamento de clérigos do nosso hotel pelas facilidades do HP, muito mais hoje, onde a beleza dos seus paramentos, mobis, são muito mais atraentes do que aquilo que nós aqui simbolizamos.

Sobre a reabilitação de antigos clérigos, penso que o próximo papa deverá ser uma figura de solidez e firmeza. Não é mais a solução buscarmos antigos clérigos como fizemos outrora, para voltarem e ficarem um ou dois meses na Igreja, enchendo nossas listas de nomeações por algum tempo ou até trabalhando um pouco para depois ficarem eméritos de novo. E estamos cheios de ex-clérigos assim. Primeiro que qualquer reabilitação deveria ocorrer no mesmo nível hierarquico com que o ex-clérigo nos deixou ou menor. Nunca permitirmos usar a reabilitação como instrumento de autopromoção. Devemos ser fiéis aos que permaneceram fiéis a Igreja, na labuta. Principalmente precisamos ver se a pessoa leva ou não a Igreja a sério. Vindo da pessoa que reabilitou Dolezzio 782 vezes: não vale a pena trazermos gente para brincar, para zuar. Isso não evangeliza, isso nos tira do caminho da missão.

Obrigado!

sexta-feira, 24 de janeiro de 2025

Eminentissímos irmãos, estamos nessa nossa Congregação Geral e vamos refletir sobre a nossa vida como Igreja. Muitas vezes nós pensamos que a Congregação Geral se refere apenas a traçar um perfil para o futuro Romano Pontífice, mas, antes disso, é para tratar sobre o futuro da nossa Igreja, que é muito mais do que a figura do Bispo de Roma. Claro, o Santo Padre terá a função de nos conduzir nestes mares. Mares que são sempre tempestuosos. Os pares sabem que eu sou contrário a qualquer ideia de crise, mas, é inegável que ao longo de toda a nossa história, nós somos atingidos por tempestades. E, hoje, a nossa Congregação Geral tem como pauta "Os desafios para a pastoralidade e a missionariedade na Igreja do Habbo Hotel no ano de 2025". E, começo eu por dizer-vos o meu parecer sobre o assunto.  Nossa pastoralidade foi colocada em risco quando admitimos fechar as Igrejas Particulares no Brasil. Nossa missionariedade é fajuta. O Dicastério para a Evangelização nunca conseguiu cumprir com sua obrigação de promover a missão ad gentes, sob nenhuma das administrações, e isso também foi falha dos Romanos Pontífices e dos Pró-Prefeitos. Na pastoralidade, nós não damos atenção aos nossos leigos. Confesso que há coisas que eu mesmo não me proponho a fazer porque não gosto. Mas, precisamos ter quem faça. Porque se todos nós ficamos presos nas mesmas coisas, não rende em nada. Penso, caríssimos irmãos, que os desafios que se colocam partem do próprio esvaziamento do Habbo Hotel. E o Dicastério para a Comunicação nada fez nos últimos tempos para promover a nossa imagem. O ig, atualmente, seria uma grande ferramenta de divulgação, mas que não foi posta em uso. O que aconteceu há poucos dias com o Pe. Vinicius Soares, nosso fundador, no Flow Podcast, por pior e mais vergonhoso que tenha sido, foi uma oportunidade para nós. Então, eu penso que o maior dos desafios que se colocam diante de nós, somos nós próprios. Nós somos o desafio para a Igreja e o desafio para o próximo Romano Pontífice. Somos o desafio quando não cumprimos com nossas obrigações, mas vivemos reclamando de tudo, quando nada está bom, nada presta e nós, os suprassumos, nada fazemos daquilo que está ao nosso alcance. A pastoralidade depende de uma conversão pastoral que todos nós precisamos fazer. A missionariedade, que deveria ser parte intrinseca da nossa Igreja, que se diz um apostolado virtual, está trancada conosco em nossas sacristias. Precisamos, irmãos caríssimos, expandir nossos horizontes e quebrar com certos paradigmas que temos definidos em nós de como as coisas deveriam ser. Olhemos pra como as coisas são, para a crueza da realidade, e quem sabe possamos definir certos rumos de como as coisas de fato serão, a partir de nossas atitudes.

terça-feira, 21 de janeiro de 2025

23.01.2025 | Missa Exequial do Papa Bonifácio II

"Simão, filho de João, tu me amas?"; "Senhor, tu sabes tudo, tu sabes que eu te amo."; "Segue-me!".
Eminentíssimos irmãos no Colégio Cardinalício, excelentíssimos senhores Bispos, reverendíssimos presbíteros e diáconos, amados irmãos e irmãs, estamos reunidos para nos despedir do nosso amado Santo Padre, Bonifácio II. A liturgia que a Igreja sabiamente escolhe para o funeral de um Romano Pontífice começa, na profecia de Isaías, phor nos lembrar a grandeza de Deus diante da nossa pequenez. Ele, o oleiro, nós, o barro. Ele nos fez, ele tudo pode. Nele nós nos movemos, existimos e  somos. Mas, nos lembra também, que nele nós continuaremos a existir na eternidade. Esta é a  mensagem da carta aos Filipenses, que nos fala da ressurreição da carne. Mas, a carne que vai  ressuscitar não é como essa nossa. É o corpo glorioso. Seremos, eternamente, em Deus. Irmãos e irmãs,  não fomos criados para este mundo. Não fomos criados para este sofrimento. Fomos criados para o céu,  para a santidade, ou, como dizem os orientais, para a divinização, para sermos imagem e semelhança de  Deus. E, o que é ser imagem e semelhança de Deus, senão vivermos a comunhão com Ele? A comunhão  com Deus já é participação na vida divina, já é antecipação da vida eterna. "Vida eterna", que expressão  bela! Refere-se necessariamente a eternidade vivida em Deus. Àquele que quando morre está obstinado  em recusar a Deus, terá uma eternidade de morte, de inferno, de ausência de Deus. Mas, àquele que  fecha os olhos para este mundo em comunhão com Deus, buscando a Deus, ainda que falho, ainda que  limitado, ainda que carregando as suas culpas, este encontrará o Pai com os braços abertos, como o  Filho crucificado, que o abraçará e o convidará para entrar na vida eterna. Aqui, sim, vida. Pois só nele  temos a vida! E, neste momento de Páscoa, isto é, de passagem, o Senhor nos perguntará como  perguntou a Pedro no Evangelho que ouvimos: "Tu me amas?".  E, assim como no relato bíblico, nós  não somos capazes de responder com àquele amor divino que Jesus nos pergunta. Jesus pergunta a  Pedro: "Agapas me?". Isto é, pergunta se Pedro o ama com aquele amor divino, capaz de dar a vida.  Mas, Pedro só consegue responder: "Philo-se", ou seja, "Senhor, te amo como um amigo.". E isso por  duas vezes. Até que na terceira, o próprio Jesus desce ao nível que Pedro era capaz e pergunta: "Phileis  me?", e mesmo que Pedro se entristeça, apenas aí ele é capaz de corresponder ao amor do Cristo, no  mesmo nível. E Jesus, que anuncia a morte de Pedro, dizendo que outro o cingiria e o levaria para onde  ele não quer ir, acrescenta: "Segue-me!". Amados irmãos e irmãs, Deus não está interessado naquilo  que nós não podemos fazer, naquilo que não podemos oferecer. Ele quer saber o que podemos fazer, até  onde podemos ir, qual é o nosso limite, qual é o extremo do nosso amor por ele. E, mesmo que às vezes  a nossa fragilidade nos amedronte por causa do pecado, muito maior é a graça, é a misericórdia, desde  que o busquemos e procuremos amá-lo.  E, ama-lo, não é apenas dizer com palavras; ama-lo é vivê-lo.  Santo Alberto Hurtado, diz algo que gostaria de complementar: Deus nos dá a vida para procura-lo, "  [...] a morte para encontra-lo e a eternidade para possuí-lo.". Procurar a Deus é viver o seu amor. É,  muito mais fácil, irmãos e irmãs, viver sob o julgo da lei, do que sob o julgo do amor. É mais fácil  reconhecer nossos pecados, nossas falhas, por uma lista de "pode ou não pode", do que reconhecendo a  nossa infidelidade ao amor de Deus. Nosso amado e saudoso papa, por muito tempo foi canonista.  Veio lá nos idos de 2017, e tornou-se um homem fidelíssimo à Igreja. Seu gênio forte, sua  convicção - que percebi em tantas batalhas entre nós dois, antes e durante seus pontificados - marcam  um papa que foi autenticamente humano. Quando pontificou sob João Paulo VIII, que marco  memorável ficou para a Igreja com o Concílio de Jerusalém, celebrado, vivido nas veias da Igreja, um  verdadeiro tesouro para nossa história e para o nosso presente. Somos chamados a redescobrir o  Concílio de Jerusalém em sua profundidade, para podermos experimentar com profundidade nossa  Igreja. E a última marca desse pontificado foi o Código de Direito Canônico. Ravassi sempre teve uma  grande preocupação com a organização da Igreja e não tinha o Direito Canônico como um conjunto de  regras, mas, como um modo de vivenciar a Igreja. Viver a lei canônica, para ele, era viver o próprio  amor. Haveriam muitas histórias a serem contadas, por mim ou por qualquer um dos que estão aqui  presentes, que compõem esta grande história do nosso irmão, histórias boas e outras não tão boas. Padre, juiz, escritor, arquiteto,  marcas de um Joseph Ravassi que deixa o nosso convívio e se insere na nossa história, na fileira de  tantos que passaram por aqui. Muitos simplesmente passam e são esquecidos. Outros, deixam marcas,  deixam saudade e são lembrados por gerações de clérigos.  Assim será nosso querido Ravassi, nosso papa Bonifácio II.  Que nossos irmãos e irmãs falecidos, pela misericórdia de Deus, descansem em paz! Amém.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2025

15.01.2025 | Abertura da Porta Santa da Basílica São João Paulo II

Amados irmãos e irmãs, estamos reunidos na abertura desta porta santa, a quinta e última do nosso Jubileu. Celebramos a missa própria para este Jubileu, que apresenta para nós a esperança não apenas como chave de leitura de uma liturgia, mas, sim, como bem-aventurança. Nossa esperança, de fato, tem um nome, Jesus Cristo e esta é a mensagem de São Paulo à comunidade de Roma. Nossa esperança é uma pessoa viva e não uma ideia, ou idealismo. Tantas vezes nós nos perdemos em tantos ideais. Ideais, muitas vezes, até bons. Ideais transformadores, ideais carregados de expectativas, mas, não de esperança. Nossa esperança é porque fomos salvos em Jesus Cristo. Porque ele morreu phor nós e ressuscitou phor nós! Nossa esperança é porque o amor nos amou. O Evangelho que ouvimos é Jesus na sinagoga de Cafarnaum, inaugurando justamente este tempo que estamos vivendo: o ano da graça do Senhor. É claro, irmãos e irmãs, o jubileu é um ano de misericórdia, perdão e de graça de Deus. Mas, todos os anos, todos os dias o são. O tempo inaugurado por Jesus Cristo é um tempo que durará eternamente. É para sempre o dia de Cristo. Então, podemos nos perguntar, para quê um jubileu? Porque, por mais que sempre seja tempo de Cristo, nem sempre nós nos lembramos de experimentar o perdão e a graça de Deus. Porque, nem sempre o nosso coração se rejubila no Senhor. Porque, tantas vezes, nós perdemos a esperança. Que o jubileu seja para nós um momento de reavivamento e que possamos vivê-lo na graça do Espírito Santo, enchendo-nos de esperança, aproveitando este tempo favorável que Deus preparou para nós. Assim seja! Amém.