terça-feira, 21 de janeiro de 2025

23.01.2025 | Missa Exequial do Papa Bonifácio II

"Simão, filho de João, tu me amas?"; "Senhor, tu sabes tudo, tu sabes que eu te amo."; "Segue-me!".
Eminentíssimos irmãos no Colégio Cardinalício, excelentíssimos senhores Bispos, reverendíssimos presbíteros e diáconos, amados irmãos e irmãs, estamos reunidos para nos despedir do nosso amado Santo Padre, Bonifácio II. A liturgia que a Igreja sabiamente escolhe para o funeral de um Romano Pontífice começa, na profecia de Isaías, phor nos lembrar a grandeza de Deus diante da nossa pequenez. Ele, o oleiro, nós, o barro. Ele nos fez, ele tudo pode. Nele nós nos movemos, existimos e  somos. Mas, nos lembra também, que nele nós continuaremos a existir na eternidade. Esta é a  mensagem da carta aos Filipenses, que nos fala da ressurreição da carne. Mas, a carne que vai  ressuscitar não é como essa nossa. É o corpo glorioso. Seremos, eternamente, em Deus. Irmãos e irmãs,  não fomos criados para este mundo. Não fomos criados para este sofrimento. Fomos criados para o céu,  para a santidade, ou, como dizem os orientais, para a divinização, para sermos imagem e semelhança de  Deus. E, o que é ser imagem e semelhança de Deus, senão vivermos a comunhão com Ele? A comunhão  com Deus já é participação na vida divina, já é antecipação da vida eterna. "Vida eterna", que expressão  bela! Refere-se necessariamente a eternidade vivida em Deus. Àquele que quando morre está obstinado  em recusar a Deus, terá uma eternidade de morte, de inferno, de ausência de Deus. Mas, àquele que  fecha os olhos para este mundo em comunhão com Deus, buscando a Deus, ainda que falho, ainda que  limitado, ainda que carregando as suas culpas, este encontrará o Pai com os braços abertos, como o  Filho crucificado, que o abraçará e o convidará para entrar na vida eterna. Aqui, sim, vida. Pois só nele  temos a vida! E, neste momento de Páscoa, isto é, de passagem, o Senhor nos perguntará como  perguntou a Pedro no Evangelho que ouvimos: "Tu me amas?".  E, assim como no relato bíblico, nós  não somos capazes de responder com àquele amor divino que Jesus nos pergunta. Jesus pergunta a  Pedro: "Agapas me?". Isto é, pergunta se Pedro o ama com aquele amor divino, capaz de dar a vida.  Mas, Pedro só consegue responder: "Philo-se", ou seja, "Senhor, te amo como um amigo.". E isso por  duas vezes. Até que na terceira, o próprio Jesus desce ao nível que Pedro era capaz e pergunta: "Phileis  me?", e mesmo que Pedro se entristeça, apenas aí ele é capaz de corresponder ao amor do Cristo, no  mesmo nível. E Jesus, que anuncia a morte de Pedro, dizendo que outro o cingiria e o levaria para onde  ele não quer ir, acrescenta: "Segue-me!". Amados irmãos e irmãs, Deus não está interessado naquilo  que nós não podemos fazer, naquilo que não podemos oferecer. Ele quer saber o que podemos fazer, até  onde podemos ir, qual é o nosso limite, qual é o extremo do nosso amor por ele. E, mesmo que às vezes  a nossa fragilidade nos amedronte por causa do pecado, muito maior é a graça, é a misericórdia, desde  que o busquemos e procuremos amá-lo.  E, ama-lo, não é apenas dizer com palavras; ama-lo é vivê-lo.  Santo Alberto Hurtado, diz algo que gostaria de complementar: Deus nos dá a vida para procura-lo, "  [...] a morte para encontra-lo e a eternidade para possuí-lo.". Procurar a Deus é viver o seu amor. É,  muito mais fácil, irmãos e irmãs, viver sob o julgo da lei, do que sob o julgo do amor. É mais fácil  reconhecer nossos pecados, nossas falhas, por uma lista de "pode ou não pode", do que reconhecendo a  nossa infidelidade ao amor de Deus. Nosso amado e saudoso papa, por muito tempo foi canonista.  Veio lá nos idos de 2017, e tornou-se um homem fidelíssimo à Igreja. Seu gênio forte, sua  convicção - que percebi em tantas batalhas entre nós dois, antes e durante seus pontificados - marcam  um papa que foi autenticamente humano. Quando pontificou sob João Paulo VIII, que marco  memorável ficou para a Igreja com o Concílio de Jerusalém, celebrado, vivido nas veias da Igreja, um  verdadeiro tesouro para nossa história e para o nosso presente. Somos chamados a redescobrir o  Concílio de Jerusalém em sua profundidade, para podermos experimentar com profundidade nossa  Igreja. E a última marca desse pontificado foi o Código de Direito Canônico. Ravassi sempre teve uma  grande preocupação com a organização da Igreja e não tinha o Direito Canônico como um conjunto de  regras, mas, como um modo de vivenciar a Igreja. Viver a lei canônica, para ele, era viver o próprio  amor. Haveriam muitas histórias a serem contadas, por mim ou por qualquer um dos que estão aqui  presentes, que compõem esta grande história do nosso irmão, histórias boas e outras não tão boas. Padre, juiz, escritor, arquiteto,  marcas de um Joseph Ravassi que deixa o nosso convívio e se insere na nossa história, na fileira de  tantos que passaram por aqui. Muitos simplesmente passam e são esquecidos. Outros, deixam marcas,  deixam saudade e são lembrados por gerações de clérigos.  Assim será nosso querido Ravassi, nosso papa Bonifácio II.  Que nossos irmãos e irmãs falecidos, pela misericórdia de Deus, descansem em paz! Amém.

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