Amados filhos e filhas, dos quais saúdo de modo especial o pároco Padre Bruno Serafins, estamos reunidos para dedicarmos a Deus esta Igreja em honra do Senhor Bom Jesus dos Perdões. Este belo título nos evoca a intimidade com o Senhor que nos perdoa. E é justamente por nos perdoar, que Deus nos chama à alegria de viver em sua casa. Desde a saída de Israel do Egito, e sobretudo com a recepção das tábuas da lei, o povo passa a se reunir na Tenda da Reunião, papel que depois assumirá o Templo de Jerusalém. O Templo era o lugar onde estava a arca da aliança, no Santo dos Santos, encoberto por um véu. O Santo dos Santos era o lugar próprio da habitação de Deus. Mas, com a invasão de Nabucodonosor e o exílio do povo para a Babilônia, a arca foi roubada e o templo foi profanado. É no exílio em Babilônia que o povo de Deus sentiu-se mais abandonado por Deus, experimentando a consequência do seu pecado, a solidão de não ter onde se reunir com Deus e com os irmãos. É na volta do exílio que se dá este texto bíblico que ouvimos na primeira leitura. Este belíssimo texto, que confesso muito me encantar, é revelador da proximidade de Deus com seu povo. Neemias convida o povo à alegria: eles não tinham o Templo operante, este precisaria ser restaurado e rededicado, mas eles tinham a Palavra de Deus. O povo chorava e se agitava: o próprio Deus estava com eles. A Palavra de Deus é apresentada, assim, como a própria presença de Deus no meio do povo. Foi assim que surgiu em toda a Judéia as sinagogas, como lugares do encontro da comunidade com a Palavra de Deus. Ainda assim, o lugar mais digno de adoração era o Templo em Jerusalém. Contudo, com a Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo rompe-se o véu do Templo, rasga-se aquele véu que separava o povo que estava no Templo e o Santo dos Santos. Se antes o Santo dos Santos, de certo modo "aprisionava" a presença de Deus, o véu rasgado simboliza a presença de Deus em todas as partes, em espírito e verdade, como nos aponta Jesus no Evangelho de São João, em todas igrejas, altares, tabernáculos substancialmente, e espiritualmente no coração de cada um e cada uma que segue sua Palavra e se faz templo vivo do seu Espírito. Na igreja sempre ocupa um lugar especial o altar. O altar é o mais lugar sagrado em todas as celebrações. No Antigo Testamento, era sobre o altar de pedra, no pátio do Templo de Jerusalém que se ofereciam os cordeiros, gados, pássaros, enfim, os animais sacrificados a Deus. Com Jesus Cristo, porém, a cruz torna-se altar, onde o Filho de Deus se faz sacerdote, altar e cordeiro, sacrificando-se e banhando a cruz com seu Sangue, levando a remissão dos pecados do mundo inteiro, uma vez por todas. Deste modo, o altar passa a ocupar um lugar central na vida do cristão: é o lugar da renovação da aliança, da presentificação do mistério Pascal, mistério da vida, mistério da fé e do amor, mistério da Salvação do mundo. Dentre tudo que temos dentro da igreja, nenhum lugar, nem mesmo o sacrário, é mais importante do que o altar. Sem o altar e sem o sacrifício, a oferta oferecida sobre o altar pelo próprio Deus, a igreja, o templo físico não teria sentido algum. É a mesa do altar, a mesa do banquete Divino e celeste no meio do seu povo, o centro de toda celebração e vida da Igreja, que tem como fonte e ápice a celebração da Eucaristia. Por isso, filhos e filhas, ao dedicarmos essa igreja, nós somos chamados em primeiro lugar a cuidarmos do templo físico, a termos por ela um zelo que nos consome. Sim, pois este é o lugar da nossa reunião com os irmãos e de união com Deus do modo mais íntimo e completo, que é pela celebração dos Sagrados Mistérios, na escuta comunitária de sua Palavra. A Igreja sempre teve um cuidado particular com a dignidade dos templos físicos, pois neles resplandece uma pequena parcela e fração, materialmente, do que é a glória majestosa e infinita de Deus. As igrejas, portanto, são sinais sensíveis, para nós que ainda estamos limitados ao mundo sensível, da presença de Deus e nós as dedicamos a Deus e pedimos que Ele, em sua glória, digne-se habitar nelas. Mas, não queremos com isso aprisionar Deus, pois entendemos que em sua onipresença Ele já está em todos os lugares, porém fazemos deste lugar um lugar singular do culto, da ação de graças, da reunião e da expiação. Necessitamos, porém, ir além. Como membros do Corpo de Cristo, precisamos constituir a comunidade que frequentará essa igreja para o louvor de Deus. E, para sermos membros desse Corpo, precisamos dedicar o nosso coração a Deus, oferecer a Ele o sacrifício do nosso coração, para que nos tornemos pedras vivas de sua Igreja. Como aqui na igreja física, o altar simboliza o coração, o ambão a boca de Deus, a cadeira presidencial é a cabeça do Corpo, a pia batismal é o útero dessa Igreja que é mãe, todos nós somos os membros desse Corpo. Por isso, cada um de nós é importante para a Igreja, que não seria completa sem quaisquer um de seus membros. Nós, como Igreja, como povo de Deus, temos Cristo como Pedra angular - aquela que os pedreiros rejeitaram e mataram na cruz, mas que Ressuscitou vitorioso - e os apóstolos como alicerce, constituímo-nos sobre as bases das Escrituras, da Tradição e do Magistério, mas, somos cada um de nós que devemos ser pedras vivas da Igreja. Que a dedicação desta igreja nos ajude a dignifica-la como lugar próprio da adoração: A prece, a unção, a incensação e a iluminação que marcam este rito, oferecem a Deus, em primeiro lugar, este lugar que é todo oferecido para Ele; e que nós dediquemos também o nosso coração, unjamos nosso ser, nos ofereçamos como a fumaça do incenso, para que, unidos ao Corpo de Cristo como povo de Deus, um dia nos unamos a Ele na Jerusalém celeste, no banquete da vida na eternidade. Assim seja! Amém.
terça-feira, 27 de setembro de 2022
sábado, 24 de setembro de 2022
25.09.2022 - XXVI Domingo do Tempo Comum
Amados filhos e filhas, dos quais saúdo de modo especial Dom Jorge Snaif Cardeal Médici, Decano do Colégio Cardinalício, estamos celebrando o vigésimo sexto Domingo do Tempo Comum. O Evangelho do domingo passado nos falava sobre usarmos o dinheiro injusto para fazermos os pobres como amigos. Já no Evangelho deste domingo, nós somos apresentados a parábola do rico e de Lázaro. Percebemos, assim, já de cara, o erro do rico: ele não usou do seu dinheiro para fazer de Lázaro um amigo. O rico pode não ter roubado, não ter matado e ter conquistado todo seu dinheiro de modo justo, ainda, assim ele não olhou para Lázaro, não se sensibilizou com sua situação e permaneceu inerte mediante daquele que, no limiar de sua casa, passava sede e fome. Amós, lá no Antigo Testamento, já exortava os ricos, os poderosos: Ai dos que vivem despreocupados, em altos tronos, comendo e bebendo, se perfumando e nem aí para os pobres. Aqui, filhos e filhas, corremos um risco de achar que só os ricos, extremamente ricos, tem obrigação com os mais pobres. Não! Todos nós que vivemos bem, que não passamos necessidade, que temos mesmo que apenas um pouco em excesso, precisamos olhar para os mais pobres. E como fazer isso? Levando alimentos ou outros bens de consumo para os vicentinos ou para as entidades que trabalham com pessoas em situação de vulnerabilidade, fazendo parte destas instituições, dando um prato de comida a quem pedir e muito mais: é preciso olhar também às periferias existenciais, dos pobres e dos não-pobres, que muitas vezes precisam de um abraço, de uma palavra amiga, de um ombro para chorar, e da Palavra de Esperança que só nós, cristãos, podemos dar. Vejam, filhos e filhas, no modo de Jesus contar a parábola poderíamos dizer até que em vida o rico não sabia o nome de Lázaro. Mas, Jesus só nos diz o nome de Lázaro e nunca o do rico: é Deus que sempre olha com preferência aos oprimidos, e não aos opressores; aos que nada tem, e não aos que fecham a mão e o coração; aos que não tem ninguém por eles, e não aos poderosos. Nossa fé nos interpela e nos impulsiona a essas atitudes para fazer uma revolução do amor. Como dizia Clemente II: "Ser jovem e não ser revolucionário é uma contradição genética!". Sim, pois precisamos fazer uma revolução e esta revolução é a revolução do amor. Quando todos os homens se amarem, quando não houverem necessitados entre nós, nem oprimidos e nem opressores, é porque o Reino de Deus está no meio de nós. E não nos iludamos ou nos alienemos, pensando que esta é uma realidade para além do tempo, na eternidade, ela precisa começar aqui e agora, com uma conversão sincera de cada um de nós. Depois da morte, depois do julgamento particular, não temos mais chance de voltar atrás: há um abismo intransponível entre o céu e aqueles que amam a Deus e os irmãos, e o inferno com aqueles que preferiram viver sem Deus e sem caridade. Assim, irmãos e irmãs, o próprio Jesus no Evangelho que ouvimos recusa qualquer tendência na crença em reencarnação. Nós católicos não cremos em reencarnação, não cremos em duas vidas nesta terra. A vida é uma só e deve ser bem aproveitada! Por isso, amamos também os irmãos por conta de nosso amor a Deus. Conquistar o céu com Deus, no amor, é o combate para a vida eterna que São Paulo convida a Timóteo a combater: e o mandamento que ele deve guardar é o mandamento do amor. Deste modo, filhos e filhas, nós nos preparamos para a vida eterna, assim: amando. Se Deus é amor e o céu é nossa união com Ele no amor, o único modo de antecipar e conquistar o céu é pelo amor. E é assim que nós vamos nos preparando para o nosso encontro definitivo com Deus, no dia em que fecharmos nossos olhos para este mundo e entrarmos na morte: amando a todos, sem discriminação e amando principalmente os que menos são amados neste mundo. Mas, só alguns de nós somos capazes disso, pois há aqueles que não acreditarão mesmo que "alguém ressuscite dos mortos"! Cristo já ressuscitou como primícias dos que morreram. Ainda assim é tão difícil para nós amarmos a todos. Mesmo para nós que cremos na Ressurreição de Cristo, não entendemos a plenitude da força do amor aí manifesta. Cristo Ressuscitado, porém, é a prova de que o amor é vitorioso para sempre e que, para sermos vencedores, venceremos no amor. Assim seja! Amém.
terça-feira, 20 de setembro de 2022
20.09.2022 - Santo André Kim Taegon, presb., e Paulo Chóng Hasang e comps. mártires, Memória
Amados filhos e filhas, os quais saúdo em nome de Dom Vito Alberti Cardeal Lavezzo, nosso Arcipreste, Secretário de Estado, estamos celebrando a memória de Santo André Kim Taegon, presbítero, Paulo Chóng Hasang e seus companheiros mártires, isto é, os mártires coreanos. Somos convidados pela liturgia de hoje a discernirmos: qual é o papel da Palavra de Deus na nossa vida? É a força da Palavra de Deus, filhos e filhas, que nos faz família de Deus. O que motivou os santos que hoje celebramos no apostolado, no seguimento de Jesus Cristo, foi a força da Palavra de Deus. A própria Palavra foi sendo disseminada na Coreia, pelos leigos. E aí percebemos a força que tem a Palavra de Deus, por si só, de levar a Salvação de Jesus Cristo, de constituir aqueles coreanos como família de Deus. Essa família, porém, já teve necessidade de se unir a grande família dos filhos e filhas de Deus, dos seguidores das Palavras, dos discípulos de Jesus, isto é, a Igreja. Foi assim que os primeiros missionários, vindos da França, chegaram ao território coreano. O primeiro presbítero coreano ordenado, André Kim e o grande apóstolo leigo, Paulo Chóng, resplandeceram entre os cento e cinquenta mártires que hoje celebramos. Eles mostram para nós que a Palavra de Deus precisa ter uma consequência na nossa vida, até mesmo a entrega da própria vida, o derramamento do sangue, se for o caso. A Palavra de Deus, filhos e filhas, não pode passar por nós sem causar transformação. Quando Jesus fala no Evangelho de hoje que sua mãe e seus irmãos são os que ouvem a Palavra de Deus e a praticam, em primeiro lugar ele eleva Maria, como aquela que, depois dele, seguiu mais fielmente a Palavra de Deus, e em segundo lugar nos convida a sermos, também nós, praticantes da Palavra, para sermos seus irmãos e irmãs. Ouçamos, acolhamos e pratiquemos a Palavra de Deus, assumindo os compromissos que ela nos interpela até as últimas consequências. Assim seja! Amém.
segunda-feira, 19 de setembro de 2022
19.09.2022 - Missa em Sufrágio de Elizabeth II
Amados filhos e filhas, estamos celebrando esta liturgia em rito católico de uso anglicano, ou seja, o rito que os católicos Romanos, advindos da Igreja Anglicana, usam para celebrar a missa, em sufrágio da rainha Elizabeth II do Reino Unido, que hoje foi sepultada. Esta Liturgia remete para nós o sentido da morte e do luto. O luto é, para nós, cristãos, um momento de dor e de tristeza. Sim, o é porque nós sabemos que a consequência do pecado é a morte. Todos nós, batizados em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, já morremos para o pecado e ressurgimos para uma vida nova. Mas, mesmo regenerados nas águas batismais e apagadas de nós as manchas do pecado original, continuamos com a tendência para o pecado. Temos, porém, a firme esperança que um dia a morte será totalmente destruída, e já não haverá nem pranto e nem sofrimento, pois nosso Deus é o Deus da vida. Nosso Cristo Redentor é aquele que na noite da Páscoa venceu a morte e renovou a vida. Por isso, podemos com São Paulo gargalhar na cara da morte e tirar sarro dizendo "Ó morte, onde está a tua vitória? Onde está o teu aguilhão?". Nós nos vestimos, sim, de luto, cientes da nossa fragilidade humana, mas nos revestimos de esperança, firmes na fé na ressurreição. Essa esperança já existia antes da Ressurreição de Jesus, entre os judeus, e vemos isto no livro de Macabeus: esta presença orante nossa junto dos mortos, pois cremos que eles ressuscitarão. E para nós, cristãos, isso praticamente passa de esperança para certeza, pois nosso Cristo já ressuscitou como primícias dos que morreram. Rezamos, portanto, para que o lugar que Cristo foi preparar para nós, ressuscitado, junto do Pai, seja ocupado pelos nossos irmãos e irmãs falecidos. De modo especial, hoje rezamos para que a serva de Deus e de seu povo, Elizabeth II, ocupe o lugar para ela preparado. E que todos nós, que continuamos nossa peregrinação nessa terra, possamos ir ao encontro de Cristo, seguindo seu caminho, reconhecendo nele a verdade e fazendo dele a nossa vida e razão de existir. Até que um dia, todos nós nos encontremos, Ressuscitados em Cristo. Assim seja! Amém.
domingo, 18 de setembro de 2022
18.09.2022 - XXV Domingo do Tempo Comum
Amados filhos e filhas, saúdo com estima especial Dom Miguel Maria Dolezzio, que hoje comemora conosco seu aniversário de ordenação episcopal, estamos celebrando o vigésimo quinto domingo do tempo comum. A Liturgia deste Domingo nos interpela a nos questionarmos: estamos servindo a Deus, ou fazendo do dinheiro o nosso deus? Jesus nos diz que não se pode servir a Deus e ao dinheiro. Mas, o dinheiro em si não é um mal. Pelo contrário, o dinheiro é muito útil na sociedade, para termos os bens que são necessários a nossa sobrevivência, e, além disso, para o nosso bem estar. Então, o dinheiro ajuda a garantir a nossa dignidade. O problema é quando o dinheiro faz justamente o oposto e tira a nossa dignidade. Vimos no livro do profeta Amós, a denuncia do profeta aos comerciantes que oprimiam os pobres. Esses comerciantes tiravam, cobrando excessivamente dos pobres, toda a sua dignidade e se tornavam, eles próprios pecadores. O problema é que esses comerciantes não se importavam. Eles iam ao culto, cumpriam todas as normas das festas do Senhor, tanto que estavam querendo que passasse logo o tempo de festa da lua nova, que passasse logo o sábado, para poderem voltar às suas obras injustas, suas obras de opressão. O sistema capitalista em que vivemos tem muito disso. Prova disso é o quanto de nossos irmãos e irmãs trabalham aos domingos e não conseguem nem ao menos santificá-lo com a participação na Eucaristia. Os comerciantes exploravam o povo e não tinham peso na consciência por isso diante de Deus. Nos tempos de corrida eleitoral que vivemos, temos muita gente usando o nome de Deus em vão. Cuidado! Cuidado! Qualquer um pode entrar numa igreja, erguer as mãos, mas depois trabalhar pela opressão do povo. Deus nunca foi tão instrumentalizado politicamente na democracia como estamos vendo hoje. Mas, nosso Deus não é um Deus que está do lado dos opressores, e sim, do lado dos oprimidos. Assim, ele também nos convida a estarmos do lado dos pobres. Na parábola do administrador injusto que nós ouvimos, o Senhor nos manda empenhar os nossos bens em favor dos pobres. Mesmo que o dinheiro seja injusto, que se volte para os pobres. Mas, cuidado, isso não é uma autorização para o estelionato, para o furto, ou qualquer coisa do tipo. Com isto Jesus nos diz que o modo de sermos desapegados ao dinheiro é fazermos com ele o bem. Muitas vezes recebemos uma determinada quantia e já saímos pensando: que vou comprar para mim? E aí nós nos esquecemos que pode ser que haja um irmão ou uma irmã que passe fome, alguém que precise de uma consulta, de um remédio, até mesmo dentro de nossas famílias. Aí nos fechamos o nosso coração e dizemos: não é minha obrigação. Será que não é mesmo? Será que não temos responsabilidade numa fraternidade universal? São Paulo no final da segunda leitura nos exorta a fazermos a oração erguendo as mãos santas. Mão santa é aquela mão que sabe dar, que sabe partilhar o pouco que tem; mão santa é aquela mão que não se sujou na injustiça, na opressão; mão santa é a mão na qual não se derramou o sangue do inocente e do oprimido. Que neste tempo de corrida eleitoral, saibamos analisar com sabedoria os nossos candidatos; puxemos suas fichas, olhemos para as suas mãos e vejamos, ao menos, quais são as menos sujas. E na nossa vida pessoal, que possamos cuidar para não tornarmos o dinheiro um ídolo, que nos apegamos mais do que a Deus, e fazemos de tudo, damos todo jeitinho e usamos de toda malandragem para possuí-lo; pois se isto fizermos, ganharemos o dinheiro, mas, perderemos a Deus. Assim seja! Amém.
quarta-feira, 14 de setembro de 2022
14.09.2022 - Festa da Exaltação da Santa Cruz
segunda-feira, 12 de setembro de 2022
12.09.2022 - Memória do Santíssimo nome de Maria
Amados filhos e filhas, aos quais saúdo em nome da Sra. Kate Alberti Rosseti, digníssima responsável por esta igreja, estamos reunidos celebrando a memória do Santíssimo Nome de Maria. Para o povo hebreu, para os judeus, povo do qual Nossa Senhora fazia parte, o nome tinha um significado muito especial, pois representava a missão de uma determinada pessoa. Passados alguns dias da Festa da Natividade de Nossa Senhora, celebramos o nome que lhe deram seus pais: Maria, ou, no mais próximo do hebraico, Miriam. De fato, o nome, em suas raízes, já traduz a grande missão de Maria em ser "Senhora", em ser "Soberana", pois este é o significado do nome de Maria. Indo mais a fundo poderíamos dizer até que ela é a "Senhora amada", ou, ainda, para alguns entendedores da etimologia "Senhora da luz". Percebemos, então, que a missão de Maria, já destinada a ela por Deus, era a de ser a Senhora, mãe do Senhor, mãe do Logos Divino, mãe do Amor, mãe da Luz. Essa missão, portanto, já era uma promessa. Mas, não era uma predestinação rígida que Nossa Senhora devesse seguir. Ela poderia dizer não ao anjo, poderia não aceitar ser a mãe de Jesus Cristo, o Logos encarnado. Mas, ela aceita, e, ao aceitar, toma, assume para si toda aquela missão que o Pai lhe preparou e trouxe ao mundo aquilo que era a promessa de Deus. Por isso, Santa Isabel pôde com toda certeza dizer que "Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu". Nossa Senhora confiou em Deus e abraçou a missão, e Deus não a deixou abandonada, mas, cumpriu nela tudo aquilo que era esperado ao longo de todos os séculos anteriores a plenitude dos tempos, a Jesus Cristo. Assim, o canto de Maria que foi prefigurado na primeira leitura, por Isaías; introduzido no Evangelho; cantado como cântico responsorial; e que repetimos todos os dias nas vésperas: é esse grande louvor de Maria a Deus porque Ele não se esqueceu de cumprir as suas promessas. Este é o grande significado que deve assumir esta celebração de hoje em nossas vidas: assim como a Maria Deus confiou uma missão especialíssima e ela abraça, esperando o cumprimento fiel da promessa do Senhor, e por isso pôde cantar os louvores do Senhor, a nós também Deus confia uma missão, que devemos aceitar e abraçar. Enfim, um dia poderemos cantar com Maria os louvores do Senhor, com aquela certeza que tinha São Paulo: "Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o amam.". Assim seja! Amém.
domingo, 11 de setembro de 2022
11.09.2022 - XXIV Domingo do Tempo Comum
Amados filhos e filhas, aos quais saúdo em nome de Dom Miguel Dolezzio, excelentíssimo Arcebispo de São Paulo, estamos celebrando Nossa Senhora da Penha neste vigésimo quarto domingo do Tempo Comum. A Liturgia deste domingo nos recorda que o rosto de Deus é a misericórdia. Esta realidade aparece para nós já na primeira leitura: Quando Moisés estava no alto do Sinai e acabara de receber a Lei, o povo já havia se esquecido que Deus os havia feito sair do Egito e estava adorando ao bezerro de ouro. Deus é, então, antropomorfizando Deus, um Deus ciumento. Ele não permite que o seu povo adore a nenhum outro Deus. O povo, de fato, acabara de quebrar a Aliança com Deus. Mesmo que o povo tenha se esquecido da Aliança, Deus não se esqueceu. Ele permaneceu fiel a Aliança. E, como consequência da quebra da Aliança por parte do povo, seria possível que Deus os destruísse. Moisés, porém, apela à misericórdia de Deus justamente por conta da Aliança, e Deus é misericordioso por aquele povo. As parábolas da misericórdia que ouvimos no Evangelho revelam esta mesma dimensão de Deus: de ser misericordioso. E poderíamos dizer mais; poderíamos dizer que que Deus É misericórdia! O coração de Deus, o ser de Deus se enche de amor, de compaixão, por nós e por nossa miséria e sempre se move ao nosso encontro. Não é possível, portanto, imaginarmos um Deus estático, uma Igreja estática. Não! Nosso Deus é o pastor que procura a ovelha desgarrada; a mulher que procura a moeda perdida; o pai amoroso que corre ao encontro do filho desmiolado que havia pedido para deixar a casa. Deus está sempre em movimento, por isso ele é infinito. E se Ele é infinito, infinita também é sua misericórdia. Por isso, amado filho, amada filha, se você é a ovelha desgarrada, eu não sei por quais pastagens você tem andado; se você é a moeda perdida, eu não sei onde você tem se escondido de Deus; se você é o filho pródigo, eu não sei que lavagem você tem comido: mas, eu te digo com toda a certeza, ESTÁ NA HORA DE VOCÊ PERMITIR QUE O SENHOR TE ENCONTRE! Cuidado, pois você pode pensar que não precisa ser encontrado pelo Senhor, pois não está perdido. Cuidado! Cuidado! O irmão do filho pródigo, o irmão mais velho, pensou a mesma coisa. Mas, ele sempre esteve na casa do pai e mesmo assim estava perdido: consumido pela inveja, pela prepotência. Ele estava na casa do pai mas não se sentia pertencente a casa do pai. Corremos o risco de fazer o mesmo: estarmos na Igreja já e acharmos que não precisamos ser encontrados por Deus, e não corremos em sua direção, não queremos ser colocados em seus braços. É aí que precisamos tomar para nós aquela opção de Paulo ao dizer que Ele é o primeiro dos pecadores salvos por Jesus. Se eu perguntasse aqui quem de nós é o mais pecador, talvez nós iriamos apontar para um, para outro ou para outro. Mas, a verdade é que cada um de nós deveria olhar para si mesmo e dizer: "EU SOU O MAIS PECADOR, EU SOU O MAIS NECESSITADO DA MISERICÓRDIA! SOU EU!". Não tenha medo, Deus irá te salvar, pois o sacrifício do Filho já foi realizado. Deus vai ser misericordioso com você! Que Maria Santíssima nos ajude a reconhecer o quanto somos necessitados da misericórdia de Deus, para com ela dizermos: "Ele olhou com misericórdia à sua serva, ao seu servo". Assim seja! Amém.
sexta-feira, 9 de setembro de 2022
09.09.2022 - Imposição do Pálio Pastoral de Dom Eugênio
Amados filhos e filhas, estimado Dom Eugênio Loscheider, que hoje recebe o pálio pastoral, a Liturgia de hoje cai como uma luva diante do ato que realizamos. Sim, pois os pastores da Igreja devem ser homens que pregam o Evangelho unicamente por pregar o Evangelho. Nunca devemos anunciar Jesus Cristo aos outros esperando algo em troca: nem reconhecimento por aplausos, promoções ou bens materiais. Não! Os pastores, Cardeais, Bispos, Padres, de modo especial, mas todos nós, filhos e filhas, devemos ser discípulos e discípulas de Jesus pelo amor a Cristo e como consequência natural ao nosso conhecimento Dele. Sim, pois, em primeiro lugar, tudo depende da nossa experiência com Jesus. Não pode um cego guiar outro cego. Por isso, caríssimo Dom Eugênio e caríssimos filhos e irmãos no episcopado, eu vos pergunto como questionou o Papa Francisco: será que ainda nos maravilhamos diante de Deus? Sem uma experiência nossa que seja profunda, que seja concreta, que seja maravilhada e rica de amor por Deus nós não seremos capazes de promover uma ação evangelizadora eficaz. Por quê? Porque sem Jesus nós estamos anunciando apenas a nós próprios. Aí tudo se torna uma autopromoção, uma busca por títulos, por cargos, por um reconhecimento que pode até chegar, mas que nunca satisfará o coração do prepotente. É preciso que diante do Mestre que é Cristo nós nos coloquemos como discípulos e não como protagonistas. Não somos nós o centro, Cristo é o centro. Por isso, no nosso múnus, somos chamados a aquela correção que Jesus pede no Evangelho. Mas, cuidado, pois antes de tudo é preciso olharmos para nós mesmos. Muitas vezes eu gostaria de corrigir alguns pontos nos irmãos Bispos e Cardeais, mas, aí, eu olho para a minha vida e me pergunto: "como corrigi-los?". É claro que, em função do nosso múnus, somos obrigados a corrigir. Porém, é preciso corrigir também a nós próprios, corrigir a mim em primeiro lugar. É assim que se busca aquela coroa da qual falou-nos o apóstolo hoje: é a coroa que Deus dará, não que eu me darei ou que os outros me darão. Queira Deus que conquistemos, um dia, esta coroa imperecível, como consequência de nosso amor a Ele e a sua Igreja, e de nosso humilde discipulado e serviço à Evangelização. Assim seja! Amém.
quinta-feira, 8 de setembro de 2022
08.09.2022 - Missa da Festa da Natividade de Nossa Senhora e Bênção Abacial
Saúdo com alegria e afeto a Dom Abade Karol Wojtyla e em seu nome saúdo os demais filhos e filhas aqui presentes. Estamos celebrando a Festa da Natividade de Nossa Senhora. Com esta festa recordamos que a chegada do Filho de Deus, a chegada de Jesus Cristo na natureza humana foi profunda e longamente preparada ao longo da história, com o passar dos séculos e essa preparação vai atingindo seu ponto alto no nascimento de Maria. Mas, não podemos pensar que essa preparação foi fácil. A humanidade não seria capaz de gerar em si o Salvador. Por isso, foi preciso que o próprio Filho viesse a este mundo. Era preciso, porém, que o próprio tempo fosse sendo preparado. Assim, Jesus Cristo se encarna no que chamamos de "a plenitude dos tempos". O tempo da encarnação do Verbo Divino e da nossa salvação foi como um lento e doloroso parto. Mas, era precisamente naquele momento histórico em que Deus deveria vir ao mundo, a pessoa do Filho deveria se tornar Jesus de Nazaré e a salvação deveria chegar, por sua obra, a todo o gênero humano. E o povo de Deus esperava ansiosamente por esse momento. O povo tinha esperança que uma hora chegaria o Salvador e isto já começa a se concretizar com o nascimento de Maria. Como diz Santo André de Creta, ela, agora, vai sendo plasmada, amamentada, cuidada, para se tornar a Mãe do Deus eterno. Com o nascimento de Maria, está mais próxima do que nunca a Salvação e o coração do povo de Deus pôde se encher de esperança, embora não soubessem que Ela seria a Mãe do Redentor. Toda a história humana conduziu para aquele momento de esperança e já de concretização da promessa de Deus. Quase encerrando esta minha visita apostólica ao Brasil por ocasião do Bicentenário da Independência, esta Liturgia nos convida a sermos cheios de esperança. Não desanimemos frente aos obstáculos que a vida e a sociedade nos impõe: somos o povo da esperança. Reconheçamos, pois, a ação de Deus que já acontece em nosso meio e nos coloquemos, em nosso tempo, como seus discípulos e discípulas, preparadores dos corações para que todos entrem na comunhão do Deus amor. Nessa ocasião estamos reunidos para a bênção Abacial de Dom Karol Wojtyla, eleito no último sábado como abade beneditino. Esta bênção é dada a aquele que será pai e que ao mesmo tempo é irmão da comunidade. Em nossa realidade, onde mesmo os religiosos contemplativos estão inseridos na vida pastoral, vós, monges e tu, querido abade, sois convidados a testemunhar ainda mais o seguimento dos conselhos Evangélicos: a pobreza, a castidade e a obediência. Assim, cumprireis ainda mais o desejo de vosso fundador, São Bento, de que sejais homens de trabalho e de oração. Sois chamados a viver a meditação e a oração em comunidade. Dentre vós, monges, deveis ser irmãos. É preciso propor mesmo aos que não gostamos, o amor de Jesus Cristo e testemunharmos sua bondade, sua atitude de perdão, sua misericórdia. Assim, a ordem beneditina deve ser uma ordem aberta a todos e convidar todos os que encontrarem a fazer parte da Igreja. A realidade religiosa que vos propondes a viver como família religiosa deve se alastrar também para toda a Igreja, pois devemos ser uma Igreja de irmãos. E ainda assim nunca podemos nos esquecer que, mesmo entre irmãos, deve haver uma hierarquia. Deste modo, a obediência de todo monge ao prior e ao abade, deve ser também a obediência de toda ordem ao Romano Pontífice. Assim, a ordem não deve e não pode viver isolada, mas deve estar sempre em comunhão com a Igreja, nos eventos, nas atividades, sem perder o que lhes é próprio. Nesta Festa da Natividade de Nossa Senhora, sois ainda mais interpelados a trazerem para a sua espiritualidade esta dimensão do escondimento de Maria. Ela nasce humilde, de pais idosos, e na sua pequenez Deus a vocaciona para ser Mãe do Salvador. Maria é a mulher que soube viver completamente em sua vida o "ora et labora": era mulher da comunhão com Deus e mulher do serviço. Que neste mesmo caminho, Dom Abade Karol, possa tu conduzir os irmãos a ti confiados: caminho da comunhão com Deus e com os irmãos, caminho da humildade e do obediente serviço a Igreja do Senhor. Assim seja! Amém.
08.09.2022 - Festa da Natividade de Nossa Senhora
Saúdo com alegria e afeto a Dom Miguel Dolezzio, excelentíssimo Arcebispo de São Paulo e em seu nome saúdo os filhos e filhas aqui presentes. Estamos celebrando a Festa da Natividade de Nossa Senhora. Com esta festa recordamos que a chegada do Filho de Deus, a chegada de Jesus Cristo na natureza humana foi profunda e longamente preparada ao longo da história, com o passar dos séculos e essa preparação vai atingindo seu ponto alto no nascimento de Maria. Mas, não podemos pensar que essa preparação foi fácil. A humanidade não seria capaz de gerar em si o Salvador. Por isso, foi preciso que o próprio Filho viesse a este mundo. Era preciso, porém, que o próprio tempo fosse sendo preparado. Assim, Jesus Cristo se encarna no que chamamos de "a plenitude dos tempos". O tempo da encarnação do Verbo Divino e da nossa salvação foi como um lento e doloroso parto. Mas, era precisamente naquele momento histórico em que Deus deveria vir ao mundo, a pessoa do Filho deveria se tornar Jesus de Nazaré e a salvação deveria chegar, por sua obra, a todo o gênero humano. E o povo de Deus esperava ansiosamente por esse momento. O povo tinha esperança que uma hora chegaria o Salvador e isto já começa a se concretizar com o nascimento de Maria. Como diz Santo André de Creta, ela, agora, vai sendo plasmada, amamentada, cuidada, para se tornar a Mãe do Deus eterno. Com o nascimento de Maria, está mais próxima do que nunca a Salvação e o coração do povo de Deus pôde se encher de esperança, embora não soubessem que Ela seria a Mãe do Redentor. Toda a história humana conduziu para aquele momento de esperança e já de concretização da promessa de Deus. Quase encerrando esta minha visita apostólica ao Brasil por ocasião do Bicentenário da Independência, esta Liturgia nos convida a sermos cheios de esperança. Não desanimemos frente aos obstáculos que a vida e a sociedade nos impõe: somos o povo da esperança. Reconheçamos, pois, a ação de Deus que já acontece em nosso meio e nos coloquemos, em nosso tempo, como seus discípulos e discípulas, preparadores dos corações para que todos entrem na comunhão do Deus amor. Assim seja! Amém.
quarta-feira, 7 de setembro de 2022
07.09.2022 - Missa em Brasília no Bicentenário da Independência
terça-feira, 6 de setembro de 2022
06.09.2022 - Missa em Aparecida
Saúdo com alegria e afeto a Dom Eugênio Loscheider, excelentíssimo Arcebispo da Igreja de Aparecida, e em seu nome saúdo a cada um e a cada uma aqui presente. As vésperas da celebração do bicentenário da independência de nosso país, estamos aqui aos pés da Mãe Aparecida. Estamos aos pés daquela que é rainha e padroeira do Brasil, e, por consequência também de nosso Hotel, generalíssima do exército, e enfim, todos os títulos que podemos atribuir a Senhora da Conceição Aparecida. Com essa Liturgia toda votiva, toda voltada a Ela, a reconhecemos como a grande intercessora do povo brasileiro. A rainha Ester que ouvimos na primeira leitura já a prefigurava, quando indo contra todas as possibilidades e podendo até mesmo ser morta por aquele ato, ela vai e pede ao rei a vida de seu povo, a salvação de seu povo. Assim, também Maria quando faltou a alegria naquela festa de casamento, pede que seu Filho Jesus os conceda o vinho novo, a alegria. Nossa Senhora é, assim, a grande intercessora em favor de seu povo. Aqui no Brasil, ela decide aparecer nas águas do Paraíba do Sul. Das águas, que sempre representam a morte, mas que também representam o Batismo, brota a Senhora Aparecida. Ela aparece do modo mais simples: numa pequena imagem, preta, nas mãos dos pescadores, isto é, dos humildes. Hoje é momento de lembrarmos nós também aos nossos governantes, aos grandes do povo, e fazermos nós os papéis de intercessores para dizer: LEMBRAI-VOS DOS POBRES, DOS MENORES DO REINO! A Igreja nunca pode se esquecer de sua opção preferencial pelos pobres. E a pequena Imagem de Aparecida grita conosco! Em sua humildade, em sua simplicidade, em sua pequenez, ela grita junto de nós para que a vida humana seja preservada em nosso país; grita conosco pela dignidade de seus filhos e filhas. Este grito, porém, não pode ser só aos grandes da sociedade. É preciso que comecemos por nós. Precisamos começar a debater as pautas sociais não com um olhar sociológico, como fazem alguns, mas precisamos debater esses assuntos olhando para o alto, para os céus. Não somos sociólogos, não somos ONG, não somos militantes nem de partido X e nem de partido Y, somos Igreja COMO IGREJA DEVEMOS AGIR. A Igreja não pode só olhar para o alto e se esquecer da concretude da vida, tantas vezes dura, de nossos irmãos. Se fosse assim, nem Maria e nem Ester teriam intercedido como ouvimos na Palavra de Deus. A intercessão, o grito, sempre brota da concretude da realidade que estamos inseridos. A mudança passa pelas nossas mãos, pelas nossas ações: quanto tratamos com dignidade a todos os irmãos, dando atenção e alcançando-lhes com um testemunho vivo do Evangelho de Jesus. Que nos unamos nessa mudança de atitude e ergamos nossa voz em defesa dos menores de Deus, pois assim quis nos ensinar a Mãe Aparecida. Ela, da grandeza dos seus títulos e da humildade de sua imagem, quer retirar e quer que retiremos da situação de morte, todos aqueles que convivem conosco. Assim seja! Amém.
06.09.2022 - Discurso na Tribuna Bento XVI
É com muita alegria que chego ao Brasil nesta noite para, convosco, comemorar os duzentos anos da independência nacional. Este evento marcante para nosso amado povo brasileiro é singular momento de confiarmos a Deus e ao patrocínio de Nossa Senhora Aparecida esta pátria amada. O Brasil tem profundas raízes cristãs. No início, essa terra foi chamada de Terra de Santa Cruz e depois se tornou um dos poucos territórios nacionais no mundo a trazer o nome de uma espécie de planta: o Pau-Brasil. Importante é considerarmos como desde os primórdios dessa nação esteve presente a graça de Deus. Reconhecemos, sim, com infelicidade, a questão da escravidão que marcou o passado. Reconhecemos, ainda, quantos missionários que nestas terras usurparam do seu ofício. Mas, ao mesmo tempo, aqui exaltamos figuras como São José de Anchieta, que inculturou a cultura indígena para a pregação do Evangelho. Mesmo assim, ainda hoje, aqui sofrem os povos originários e outras minorias. Ser católico no Brasil hoje é uma missão difícil, principalmente no contexto em que nosso país se insere de bipolaridade política. Nunca em nossa nação a fé foi tão instrumentalizada pela política e isso é totalmente contrário aos valores do Evangelho. A escolha que cada brasileiro tem que fazer esse ano precisa sair da bipolaridade entre os dois que bem sabeis. E, se em algum momento for preciso escolher entre os dois, não se poderá esquecer a integridade dos valores evangélicos: a Igreja ao mesmo tempo defende a dignidade da vida humana desde a concepção até a morte natural. Não defendemos apenas o direito de todos a nascerem e somos contrários ao aborto; somos contrários também a pena de morte, ao armamento, a pobreza, a miséria, a tudo aquilo que contraria a dignidade humana. Não podemos, como cristãos e católicos, deixar de levar tudo isso em consideração, ou faremos uma escolha muito parcial. Acima de tudo, é preciso que cada cristão vote este ano com a consciência tranquila, depois de uma boa reflexão e acima de tudo, de muita oração. Nesta terra de tantas riquezas de matérias-primas, de beleza, e no meio deste povo de tanta alegria, podemos contemplar a beleza do Criador e a alegria do Evangelho. Não podemos deixar que isso se perca! Lembramo-nos de que mesmo este país tão jovem foi marcado pelo derramamento do sangue dos mártires, que aqui continua fecundando a Igreja: André de Soveral, Ambrósio Francisco Ferro e seus companheiros mártires do nordeste, e tantos outros que doam sua vida aqui por Jesus Cristo. Além disso, tantos santos, São Frei Galvão, Santa Dulce dos Pobres, Santa Madre Paulina, isto é, homens e mulheres que nos inspiram. Que possamos fazer desta minha visita um momento de reflexão sobre o futuro e de louvor a Deus por este país, para que aqui ele seja cada vez mais conhecido, amado, testemunhado e louvado com a alegria tão própria do nosso povo brasileiro, pois de fato, diz o ditado: Deus é brasileiro! Podemos testemunhar isso na alegria do Evangelho que vivemos. Assim seja! Amém.
segunda-feira, 5 de setembro de 2022
05.09.2022 - Catequese: Música Sacra
Queridos filhos e filhas, estamos encerrando com esta catequese a nossa série de catequeses sobre o tema da Liturgia e o Mistério da Salvação, que teve como base o livro de mesmo nome do Monsenhor Guido Marini. Hoje, trataremos sobre a música sacra, ou litúrgica. Para uma introdução de maneira autêntica no espírito da liturgia, não se pode prescindir do discurso sobre a música sacra ou litúrgica. A respeito, Marino se permite apenas uma breve reflexão orientadora. Seria até possível questionar o motivo pelo qual a Igreja, em documentos mais ou menos recentes, insiste em apontar certo tipo de música e canto como particularmente concordes com a celebração litúrgica. O Concílio de Trento já tinha intervindo no conflito cultural da época, restabelecendo a norma pela qual era prioritário na música aderir à palavra, limitando o uso dos instrumentos e indicando clara diferença entre música profana e música sacra. De fato, a música sacra não pode nunca ser entendida como expressão da pura subjetividade. Deve ancorar-se nos textos da Bíblia ou da Tradição, para ser celebrada em forma de canto. Em tempos mais recentes, o papa São Pio X fez intervenção semelhante, procurando afastar da liturgia a música operística e indicando o canto gregoriano e a polifonia dos tempos da renovação católica, como critério da música litúrgica, para distingui-la da música religiosa em geral. O Concilio Vaticano II não fez mais que reiterar as mesmas indicações, como também as mais recentes intervenções do magistério. Então, por que essa insistência da Igreja no apresentar as características tipicas da música e canto litúrgicos, de tal forma que continuem distintos de qualquer outra forma musical? E por que o canto gregoriano e a polifonia sacra clássica continuam sendo formas musicais exemplares, à luz das quais se deve hoje continuar produzindo música litúrgica também popular? A resposta a essa questão se encontra exatamente em tudo quanto temos procurado afirmar em relação ao espírito da liturgia. Essas formas musicais - na sua santidade, bondade e universalidade- são precisamente as que traduzem o autêntico espírito litúrgico em notas, melodia e canto: encaminhando para a adoração do mistério celebrado; tornando-se exegese musicada da palavra de Deus; favorecendo autêntica e integral participação; ajudando a colher o sagra do e, por isso, o primado essencial do agir de Deus em Cristo; consentindo no progresso musical não desligado da vida da Igreja e da contemplação do mistério. Ele faz uma última citação de Joseph Ratzinger: "Gandhi evidencia três espaços na vida do cosmo e mostra como cada um deles também comunica o seu próprio modo de ser. No mar, vi vem os peixes e se calam. Os animais na terra gritam. E as aves, cujo espaço vital é o céu, cantam. Próprio do mar é o calar, da terra o gritar, e do céu o cantar. O homem, porém, participa dos três: leva em si a profundidade do mar, o peso da terra e a altura do céu; e são suas, por isso, as três propriedades: calar, gritar e cantar. Hoje [...] vemos que ao homem privado de transcendência resta apenas o gritar, pois quer ser somente terra e procura tornar sua terra também o céu e a profundidade do mar. A verdadeira liturgia, a liturgia da comunhão dos santos, lhe restitui a sua totalidade. Ensina-lhe outra vez o calar e o cantar, abrindo-lhe a profundidade do mar e ensinando-o a voar, a ser anjo. Elevando-lhe o coração, faz de novo ressoar nele o canto que se havia apagado. Mais ainda, podemos até dizer que a verdadeira liturgia se reconhece exatamente no fato de que ela nos liberta do agir comum e nos restitui profundidade e altura, silêncio e canto. A verdadeira liturgia se reconhece pelo fato de ser cósmica, e não é medida por um grupo. Ela canta com os anjos. Cala -se com a profundidade do universo que espera. E assim redime a terra" (Cantai ao Senhor um canto novo, p. 153-154). Já faz alguns anos que numerosas vozes na Igreja falam da necessidade de uma nova renovação litúrgica. De algum movimento semelhante ao que lançou as bases para a reforma promovida pelo Concílio Vaticano II, movimento este capaz de promover novo passo adiante na compreensão do autêntico espírito litúrgico e da sua celebração. Levaria assim a cumprimento a reforma providencial da liturgia que os Padres conciliares tinham encaminhado, e que nem sempre, na atuação prática, encontrou feliz realização pontual. Não há dúvida, nessa reiterada renovação litúrgica, todos nós, a começar dos sacerdotes, podemos e devemos ser protagonistas. Com ajuda do Senhor e da santíssima Virgem Maria, possa o novo desenvolvimento da reforma ser também fruto do nosso amor sincero pela liturgia, na fidelidade à Igreja e ao Papa. Assim seja! Amém.
domingo, 4 de setembro de 2022
04.09.2022 - XXIII Domingo do Tempo Comum
Amados filhos e filhas, neste vigésimo terceiro domingo do Tempo Comum nós somos questionados: Será que Deus é, de fato, nossa prioridade? Será que estamos sabendo renunciar as outras coisas para sermos discípulos do Senhor? O Evangelho que ouvimos pode nos assustar: é preciso renunciar ao pai, mãe, filho, filha e a si mesmo para ser discípulo do Senhor. De fato, isso não é só para os que tendem para o ministério ordenado. Esta renúncia é para todos. E diante disso, penso em Abraão, quando Deus lhe pediu o filho em sacrifício, Abraão não recusou. Isso é colocar Deus em primeiro lugar. E, se pensarmos que isso é muito duro, muito extremista, lembremo-nos que o próprio Deus, o Pai Eterno, nos amou de tal modo que não poupou o próprio Filho Unigênito, Jesus. Nós, de fato, não compreendemos isso como disse-nos o autor do livro da Sabedoria. Não compreendemos o grande amor de Deus. Foi Sabedoria de Deus em oferecer o Filho pela nossa salvação. E nós nos perguntamos: Que sabedoria é esta? Pois é, é uma sabedoria que está muito além do nosso pensamento, pois mesmo a loucura de Deus é mais sábia do que a nossa loucura. E foi designío de Deus que nossa Salvação chegasse pelo extremo do amor. Que outro deus, além do nosso Deus, fez isto pelo seu povo? Que divindade de qualquer religião senão o nosso Deus ofereceu o próprio Filho para resgatar a criatura? Que Deus se oferece para a morte de cruz por amor daqueles que tinham a condição de pecadores, de desobedientes? O Pai colocou em nossas mãos o seu Filho. O Filho Eterno renunciou a sua vida, abnegou-se, para que nós fossemos salvos. O Espírito foi derramado sobre nós na cruz do Senhor. Ficaremos, nós, inertes a este mistério? Iremos assistir simplesmente, e mesmo que maravilhados, permanecer parados? Não podemos, filhos e filhas. São Paulo, na Carta a Filêmon, essa carta de um único capítulo e que ouvimos hoje, pede a Filêmon que liberte Onésimo. Onésimo era escravo de Filêmon e Paulo o pede que renuncie seu direito sobre esse escravo para que ambos sejam ainda mais irmãos, em Jesus Cristo. Na dinâmica de Deus, um não poderia ser escravo do outro, pois o próprio Jesus já nos libertou de toda escravidão, agora todos devemos ser irmãos e irmãs. Que saibamos renunciar a tudo aquilo que colocamos em primeiro lugar e que não seja Deus, para assim Ele ser nosso motivo, nossa razão de viver e de ser. Assim seja! Amém.
quinta-feira, 1 de setembro de 2022
01.09.2022 - Catequese: Participação Ativa
Queridos filhos e filhas, estamos caminhando para o encerramento desta nossa série de catequeses sobre a Liturgia como Mistério de Salvação, baseados no livro do Mons. Guido Marini. Hoje trataremos sobre a participação ativa. Sabemos que os santos, exatamente eles é que celebraram e viveram o ato litúrgico, participando dele de maneira ativa. A santidade, como êxito na vida deles, é o testemunho mais belo de uma participação realmente viva na liturgia da Igreja. Precisamente por isso, e providencialmente, é que o Concílio Vaticano II, ao recordar o chamado universal para a santidade, insistiu sobre a necessidade de favorecer uma autêntica participação dos fiéis na celebração dos santos mistérios. Essa indicação autorizada tem encontrado até nossos dias pontual confirmação e relançamento em numerosos e sucessivos documentos do magistério. Apesar disso, nem sempre tem havido compreensão correta da "participação ativa", tal como a Igreja ensina e exorta a viver. Claro que se participa ativamente também quando se cumpre, no interior da celebração litúrgica, o serviço próprio de cada um; participa-se ativamente também quando existe melhor compreensão da palavra de Deus ouvida e da oração recitada; participa-se ativa mente também quando se une a própria voz à dos outros no canto coral... Mas, tudo isso não significaria participação verdadeiramente ativa, se não conduzisse para a adoração do mistério da salvação em Cristo Jesus, morto e ressuscita do por nós. De fato, somente quem adora o mistério, acolhendo-o na própria vida, demonstra ter compreendido o que está celebrando e, portanto, ser verdadeira mente participante da graça do ato litúrgico. Comprovando e apoiando o que se afirma aqui, ouçamos ainda o cardeal Ratzinger numa passagem do seu fundamental volume Introdução ao espírito da liturgia: "Em que consiste [...] essa participação ativa? O que é preciso fazer? Infelizmente essa expressão tem sido entendida superficialmente e reduzida somente a uma significação exterior, ou seja, no sentido de que é necessário um agir comum, como se tratasse de fazer que entre em ação de maneira concreta o maior número possível de pessoas, e o mais depressa possível. O termo participação, no entanto, remete a uma ação principal, na qual todos devem tomar parte. Portanto, querendo-se descobrir de qual agir se trata, antes de tudo é preciso saber qual seja essa actio (ação) central, na qual devem tomar parte todos os membros da comunidade. Com o termo actio referido à liturgia, entende-se o cânon eucarístico. A verdadeira ação litúrgica, o verdadeiro ato litúrgico, é a oratio (oração). Esta oratio - a solene oração eucarística, o cânon- é mais que um discurso, é actio no sentido mais alto do termo. Nela se torna presente Cristo mesmo e toda a sua obra de salvação. Por esse motivo, a actio humana passa para segundo plano e deixa espaço para a actio divina, o agir de Deus". Assim, a verdadeira ação que se realiza na liturgia é ação do próprio Deus, é sua obra salvífica em Cristo, na qual recebemos participação. O próprio Deus age e cumpre o que é essencial, enquanto o homem é chamado a uma abertura diante da ação de Deus, para ser transforma do por esta. Consequentemente, o ponto essencial da participação ativa é que se supere a diferença entre o agir de Deus e o nosso, para que possamos tornar-nos uma coisa só com Cristo. Então, para reafirmar o que já foi dito, não é possível participar sem adorar. Vamos ouvir mais um trecho da Sacrosanctum Concilium: "Por isso, a Igreja se preocupa vivamente que os fiéis não assistam a esse mistério de fé como espectadores estranhos ou mudos, mas que lhe compreendam bem os ritos e orações, e participem da ação sagrada de maneira plena e consciente, piedosa e ativa; sejam formados pela palavra de Deus; nutram-se da mesa do Corpo do Senhor; rendam graças a Deus; e oferecendo a vítima sem mancha, não somente pelas mãos do sacerdote, mas unidos a ele, aprendam a fazer oferenda de si mesmos; e no dia a dia, pela mediação de Cristo, se aperfeiçoem na unidade com Deus e entre si, de tal maneira que Deus seja finalmente tudo em todos" (n. 48). Diante disso, todo o restante é secundário. Refere-se em particular às ações exteriores, por mais importantes e necessárias que sejam, previstas sobretudo durante a liturgia da Palavra. A essas, Marini faz referência, porque caso se tornem o essencial da liturgia, que com isso se reduz a simples agir genérico, então foi mal interpretado o autêntico espírito da liturgia. Consequentemente, a verdadeira educação litúrgica não pode consistir simplesmente na aprendizagem e exercício de atividades exteriores, e sim no introduzir-se na ação essencial, na obra de Deus, no mistério pascal de Cristo. É por esse mistério que o fiel precisa deixar-se alcançar, envolver e transformar. E que não se confunda a execução de gestos externos com o justo envolvimento da corporeidade no ato litúrgico. Sem nada tirar do significado e da importância do gesto externo que acompanha o ato interior, a liturgia pede muito mais ao corpo humano. De fato, pede o seu total e renovado empenho no dia a dia da vida. É o que Bento XVI denomina "coerência eucarística". O exercício pontual e fiel dessa coerência é precisamente a expressão mais autêntica da participação também corporal no ato litúrgico, na união salvífica de Cristo. Mons. Marini, então questiona: Será que estamos realmente convictos de que a promoção dessa participação ativa consiste em tornar tudo da forma melhor possível e imediatamente compreensível? Será que o ingresso no mistério de Deus pode também ser acompanhado, e às vezes até mais bem acompanhado, por aquilo que atinge as razões do coração? Em alguns casos, será que não acontece dar espaço desproporcionado à palavra, esvaziada e banalizada, esquecendo que à liturgia pertencem palavra e silêncio, canto e música, imagens, símbolos e gestos? E, talvez, será que não pertencem a essa múltipla linguagem que introduz ao centro do mistério, e por isso à verdadeira participação, também a língua latina, o canto gregoriano, a polifonia sagrada? É sobre isso que trataremos na próxima Audiência.