domingo, 27 de abril de 2025

27.04.2025 | II Domingo da Páscoa em Sufrágio do Papa Francisco

Eminentíssimo Dom Gregório D'Aniello Cardeal Baldisseri, Arcipreste desta Basílica Liberiana, amados irmãos e irmãs, estamos celebrando o segundo domingo da Páscoa, festa da Divina Misericórdia, encerrando a Oitava Pascal com esta Santa Missa em sufrágio do nosso amado Papa Francisco. Oprimeiro dom dado pelo Ressuscitado aos seus é o dom da paz. No Evangelho que ouvimos, devemos ter uma clara imagem do que acontecia com os apóstolos: na mente deles permanecia a imagem de Jesus crucificado. Por isso, eles tinham medo, medo de que o mesmo acontecesse com eles. Mas Jesus ressuscitado entra no meio deles e lhes dá a paz. Como é difícil, em nossos tempos, onde vivemos sempre na ansiedade, na pressa, na autocobrança, vivermos a paz! O mundo parece querer viver numa velocidade muito rápida, na qual nós não damos conta de acompanhar. Por isso, Jesus nos deixa a paz. Mas só quem faz a experiência de Jesus ressuscitado consegue viver esta paz de Jesus. Quando Tomé faz a experiência do Ressuscitado, é capaz de fazer sua profissão de fé: "Meu Senhor e meu Deus." Não foi Tomé quem precisou tocar em Jesus, foi Jesus quem precisou tocar em Tomé. O toque de Jesus na vida de Tomé foi a paz. Se não aprendermos a ter momentos de intimidade, de paz com o Senhor, de fecharmos os olhos e nos colocarmos na presença dele, viveremos uma vida de muita correria, em busca de algo que nunca encontraremos. Porque a alegria que procuramos está dada como dom na paz do Ressuscitado.
Nestes dias, um dos grandes símbolos da paz em nossos tempos fez a sua Páscoa com Cristo. Hoje, nós o colocamos nas mãos de Deus, com a firme convicção de que Jesus Cristo, que tem a chave da morte e que vive para sempre, acolhe também o seu servo Papa Francisco nas moradas eternas. Papa Francisco foi um grande construtor da paz. Ele nos ensinou que a paz é um processo artesanal. Ensinou-nos que as grandes coisas não acontecem de um dia para o outro, mas a partir de processos que devem ser iniciados. Mostrou-nos que o rosto de Deus é misericórdia. Fez a Igreja refletir sobre as fragilidades do próprio corpo eclesial. O caminho aberto por Bento XVI, que desejava uma reforma na Igreja, pôde ser trilhado pelo Papa Francisco. Mas, como sempre, onde há movimentação do Espírito Santo, gera-se certa desarmonia. Nem todos estavam prontos, ou melhor, muito poucos estavam prontos para o que Francisco foi na nossa Igreja. Enquanto para muitos Papa Francisco simbolizava a destruição do símbolo do papado, na verdade ele nos mostra que há muitos modos de ser Igreja. Não podemos, amados irmãos e irmãs, neste momento de dor e sofrimento, querer ficar colocando na balança este ou aquele Papa. Devemos rezar com convicção por este nosso Papa Francisco, que passa para junto do Pai. Sem dúvidas, muito em breve a Igreja verá também Papa Francisco sendo venerado sobre os altares. Sim, porque em nossos tempos, se era verdade o que dizia Karl Rahner, que no século XXI o cristão ou seria místico ou não seria cristão, também é verdade que, em nossos tempos, o Papa ou será santo ou não conseguirá guiar a Igreja. Ao mesmo tempo em que pedimos que Deus acolha o seu servo Francisco, pedimos humildemente que nos conceda outro homem de coração disponível e aberto, que guie, na realidade, a Igreja de Cristo rumo à Pátria definitiva, onde todos os santos Papas e toda a Igreja celeste nos encontraremos no Senhor Jesus, vencedor da morte.

quinta-feira, 24 de abril de 2025

24.04.2025 | Abertura do Caminho Sinodal

Eminentíssimos Dom Raul Gabriel Cardeal Steiner, Secretário geral do sínodo dos Bispos, Dom Felipe Cardeal Sampaio, Relator geral do sínodo, eminetíssimos senhores cardeais, excelentíssimos senhores bispos, amados irmãos e irmãs, nós estamos aqui reunidos nesta Quinta-feira da Oitava da Páscoa para iniciarmos nosso caminho sinodal rumo ao décimo terceiro sínodo geral dos Bispos, que se realizará em julho deste ano. Quis convocar para o sínodo deste ano um caminho preparatório. A imagem da Igreja da realidade e do sínodo dos últimos anos, quis que fossemos capazes de realizar um longo processo de escuta e de diálogo, para chegarmos a decisões maduras sobre o futuro de nossa Igreja. Mas, nenhum futuro ocorre sem base num passado. Diante do Ressuscitado, os discípulos do Evangelho de Lucas que acabamos de ouvir sentem medo. O medo é algo que nos estagna, nos torna inertes mediante a nova realidade que se impõe diante dos nossos olhos. Nossa Igreja não pode, amados irmãos, permanecer presa pelo medo. Não podemos deixar de correr riscos olhando para os fantasmas do passado. Precisamos ter coragem de correr os mesmos riscos, talvez até cometer os mesmos erros. E, quando Jesus Ressuscitado se revela aos discípulos os convida a olhar suas mãos e seus pés. Nas marcas do sofrimento e da cruz, Jesus revela que era ele mesmo. Porque, por mais que não possamos nos apegar ao passado, não podemos esquecê-lo. O Ressuscitado trás as marcas da cruz, porque são marcas de uma história de amor. Amor, amados irmãos, não é meramente um tema para quando não temos o que falar. Deus é amor. O amor deixa marcas profundas. O amor precisa marcar profundamente a nossa Igreja. As chagas da nossa história, precisam ser vistas phor nós como marcas de amor. O sofrimento e a dor do presente momento, onde lidamos com a baixa do Hotel, não pode ser motivo do nosso desânimo definitivo. Por isso este sínodo. Porque não é momento de desistir, mas, sim, de encontrar um novo jeito de ser Igreja. Diante de uma tendência que cresce dentro de nossa Igreja, quero conclama-los a amar a Igreja e persistirem nela. Enquanto alguns cismáticos já anunciam o fim da Igreja, eu vos anuncio diferente: persistiremos em Cristo Jesus, trazendo as marcas da Paixão na Ressurreição, mesmo que nos reduzamos aos poucos. E mesmo se nos reduzirmos a quase ninguém, amados irmãos, tenho certeza que seremos muito maiores do que qualquer outros pela qualidade e comprometimento dos nossos membros. É hora de abrirmos os nossos olhos para reconhecermos o futuro que está diante dos nossos olhos, que é momento de continuarmos no testemunho de Jesus. O reconhecimento de sermos povo sacerdotal neste sínodo será para todos nós um especial momento de reencontrarmos nossa vocação como oferecedores do sacrifício de louvor da nossa própria vida, como pregadores da Palavra de Deus e anunciadores de um amor capaz de vencer a própria morte. Enquanto há dois anos e meio, no último sínodo, falávamos de renovação eclesial, parece que esta renovação ainda não aconteceu. O tempo passado desde então trouxe-nos novos desafios que precisam ser refletidos. Mas, este sínodo também terá de ter os pés no chão. Ele exigirá de nós propormos algo que teremos o compromisso de concretizar logo. Tenho consciência, amados irmãos, que dado o tempo que levará até a realização deste sínodo provavelmente não serei eu a presidi-lo. Porém, permaneço convicto e cheio de esperança de que nele nós todos poderemos nos renovar como povo sacerdotal e fazer da nossa Igreja um reino de sacerdotes capazes de exercer verdadeiramente o próprio ministério. Confio que o Divino Espírito Santo, sob a intercessão da Bem-Aventurada Virgem Maria, de São José, dos Apóstolos Pedro e Paulo, de Santa Maria Madalena, nossa padroeira, conduzirá nosso caminho sinodal rumo a consciência da nossa missão sacerdotal e eclesial, no testemunho de Jesus Cristo, atentos aos sinais dos tempos, rumo a um novo tempo na nossa comunidade do Habbo Hotel.

quarta-feira, 23 de abril de 2025

23.04.2025 | Consistório Ordinário Público

Amados irmãos e irmãs, nós estamos reunidos nesta Quarta-feira da Oitava da Páscoa para este Consistório no qual iremos promover Dom Felipe Sampaio ao cardinalato. O Evangelho que ouvimos, próprio deste dia, coloca-nos na perspectiva do encontro com o Ressuscitado. Nesta noite, parece-nos oportuno meditar sobre estes dois discípulos de Emaús, que falam a Dom Felipe e a todos nós aqui reunidos. Porque não é possível seguir a Jesus Cristo sem antes fazer um encontro com ele Ressuscitado. Os discípulos caminham na tristeza e na desesperança mesmo diante do túmulo vazio. Falam de modo especial a todos nós que sabemos e até cremos na Ressurreição de Cristo, e mesmo assim deixamos que nosso coração se encha de desesperança. A desesperança, caros irmãos e irmãs, mata qualquer discipulado e apostolado. Vivemos em tempos inevitavelmente difíceis para a Igreja. Mas, uma Igreja que diante destes desafios permite que vaze a esperança e permaneça a ausência, na verdade revela que ainda estamos presos na visão do sepulcro. E, sequer o sepulcro vazio, mas, talvez, dele fechado. Os discípulos ficam sabendo do que estavam acontecendo, mas possivelmente não foram lá pessoalmente ver o que estava acontecendo. Não foram, talvez, por preguiça. Não foram, talvez, porque não estavam prontos. E, no caminho, deparam-se com Jesus, mas, não conseguem vê-lo. Este episódio é incrivelmente eclesiástico. Porque os cristãos eram chamados como aqueles que pertenciam ao Caminho. E é no caminho que o encontro acontece. Acontece quando os discípulos estão ali, quase desistindo. Jesus vem, explica a Palavra e ceia com eles. Jesus os dá novamente a esperança, a força e a coragem de voltar para onde estão os outros membros da comunidade. Amados irmãos e irmãs, amado Dom Felipe, quando pensarmos em desistir, quando não vermos mais sentido para nada, olhemos para Jesus. Olhemos e vejamos nele, de fato, o sentido do que realizamos. Quando aprendermos a fazer isso, não haverá desesperança, medo ou falta de coragem de continuar o discipulado, o apostolado. Aprendamos a no caminho, mesmo nos momentos difíceis e dolorosos do caminho, e reconhecermos Jesus Ressuscitado que caminha conosco e nos faz comunidade pascal, sempre viva nele. 

terça-feira, 22 de abril de 2025

22.04.2025 | Terça-feira da Oitava Pascal

Eminentíssimo Dom Erlei Cardeal Forgione, arcebispo metropolitano desta Arquidiocese de Aparecida, amados irmãos e irmãs, estamos reunidos nesta terça-feira da Oitava da Páscoa para celebrarmos a elevação desta Igreja à categoria de Arquidiocese Metropolitana. "Transborda em toda a terra a bondade do Senhor." Diante deste canto do salmista, podemos refletir toda a liturgia desta terça-feira. O transbordamento da graça de Deus aconteceu na vida de Maria Madalena, quando ela foi a primeira a ver Jesus ressuscitado. O transbordamento da bondade de Deus acontece em nossas vidas pelo batismo. Pedro, na primeira leitura, está anunciando Jesus Cristo e, diante da conversão daqueles que queriam seguir a Jesus Cristo, propõe-lhes o batismo. De fato, este tempo pascal é profundamente batismal, porque no batismo nós somos mergulhados na morte com Cristo, para vivermos com Ele uma vida nova. Algo muito importante do nosso batismo é o nosso nome. No batismo, nós inscrevemos os nossos nomes nas fileiras dos membros da Igreja. No Evangelho que ouvimos, o próprio Ressuscitado chama Maria pelo nome. Ela, que olhava para o vazio do sepulcro, chorando, pensa estar falando com o jardineiro. Quando Jesus a chama de "mulher", ela não o reconhece. Mas o reconhece logo que Ele a chama: "Maria". Ali, ela entende que Ele era o Mestre Ressuscitado. Ao chamar-lhe pelo nome, Jesus lembra a Maria que ela é filha amada. Deus não nos vê como uma massa de pessoas, de filhos e filhas. Nos vê, a cada um, como pessoas. Nos chama pelo nome e nos dá dignidade. Não somos desconhecidos para Deus. Lhe pertencemos. Fomos adquiridos pelo sangue precioso de Jesus Cristo. Amados irmãos e irmãs, quantas vezes nós também não ficamos parados, olhando para o túmulo? Este túmulo, que muitas vezes é o nosso passado, com tantas situações desastrosas? Que nós aprendamos com Maria Madalena a ouvir a voz de Deus que nos chama. E que, ao nos chamar, nos propõe um novo caminhar com Ele: o caminhar daqueles que se encontraram com o Ressuscitado, a vida nova que brota no coração do discípulo e da discípula que aprendeu a seguir Jesus Cristo.

domingo, 20 de abril de 2025

20.04.2025 | Domingo da Páscoa na Ressurreição do Senhor

Amados irmãos e irmãs estamos reunidos para celebrar o Domingo da Páscoa na Ressurreição do Senhor. Nesta, que é a principal solenidade do ano litúrgico, ouvimos não um relato de como foi a Ressurreição de Jesus, mas, os testemunhos de sua Ressurreição. Testemunho de Maria Madalena, a Apóstola dos Apóstolos, testemunho de João e de Pedro. Mesmo antes de verem o Ressuscitado, já acreditaram. Viram apenas os sinais, ouviram os sinais e acreditaram na Ressurreição. O seu Mestre não foi consumido pela morte, mas, mostrou a sua vitória. Nenhum de nós estava presente e ninguém viu como foi a Ressurreição do Senhor. Porque a Ressurreição aconteceu não na história, mas, para além da história. Cristo ultrapassa as barreiras do espaço e do tempo, e leva a nossa humanidade em seu Corpo glorioso. Se estivessemos dentro do sepulcro, algumas vertentes teológicas dizem que veríamos o lençol abaixar sobre um corpo que deixou de viver nesta realidade. Por isso, os discípulos de Jesus encontraram o sepulcro vazio e não o Cristo Ressuscitado ali dentro. O vazio do sepulcro, porém, já foi o suficiente para que eles professassem sua fé no grande mistério da Ressurreição. E, quando se encontram com o Ressuscitado, tornam-se ainda mais corajosos no testemunho de sua Ressurreição, como ouvimos na pregação de Pedro. Foi esta a verdade professada que levou os mártires a serem batizados no próprio sangue. Agora, pois, vivamos como testemunhas da Ressurreição, capazes de professar esta verdade, e experimentemos em nossas vidas os frutos da Ressurreição de Cristo, isto é, a vida nova e a proximidade com o Pai. Cristo Ressuscitou, aleluia, aleluia! Verdadeiramente Ressuscitou, aleluia, aleluia!

sábado, 19 de abril de 2025

19.04.2025 | Vigília Pascal na Noite Santa

Amados irmãos e irmãs, estamos reunidos nesta Noite Santa para celebrar a Vigília Pascal. Iniciamos com esta celebração o Domingo da Páscoa na Ressurreição do Senhor. Este é o ponto alto do nosso Tríduo Pascal, pois marca a confirmação de toda a obra redentora de Jesus Cristo. Sua morte reconciliou-nos com o Pai e sua Ressurreição nos abre a possibilidade de uma vida nova neste mundo e da eternidade na vida futura. O céu está novamente aberto para nós, pois todas as coisas foram renovadas na Páscoa de Cristo. A criação foi re-criada; nós fomos poupados da morte; fizemos novamente a experiência de passar pelo Mar no Batismo, pois fomos libertados da escravidão do pecado; vivemos na Jerusalém reconstruída, que é a Igreja, o novo povo de Deus, e viveremos na nova Jerusalém, a celeste. Ninguém sabe a exata hora, mas, no meio da escuridão e da frieza desta noite, as trevas são rompidas pela luz do Cristo Ressuscitado que ilumina a Terra inteira, com seu fogo, que arde no coração de cada discípulo e discípula que aguardava ansioso pela sua vitória final sobre o pecado e a morte. Jesus Cristo, que morto desce à mansão dos mortos para resgatar Adão e Eva e toda a sua descendência, cativa pelo pecado, levando consigo a Cruz gloriosa, agora ressuscita e restaura a nossa dignidade de filhos e filhas de Deus. Pelo Batismo, nós também somos mergulhados na morte de Cristo e vivemos a vida nova Nele. Por isso, nesta noite luminosa, renovemos o nosso Batismo não apenas em ritos, mas, sobretudo nos nossos corações. Abramo-nos e permitamos que a vida nova garantida para nós pelo mistério do Cristo Ressuscitado, nos torne sempre renovados no amor que foi a ruína da morte, no amor que é vitorioso para sempre. Cristo Ressuscitou, aleluia, aleluia! Verdadeiramente Ressuscitou, aleluia, aleluia!

quinta-feira, 17 de abril de 2025

17.04.2025 | Missa Vespertina da Ceia do Senhor

Amados irmãos e irmãs, estamos iniciando o Tríduo Pascal com a Missa Vespertina da Ceia do Senhor. O Tríduo está divido em três momentos: Cristo que se oferta, na Ceia e na Paixão e Morte; Cristo que entra na morte, no Sábado Santo; Cristo que Ressuscita, na Noite Santa e no Domingo da Páscoa. Com esta Missa Vespertina, iniciamos a celebração da Páscoa do Senhor, isto é, sua passagem. Vemos plenamente cumprida na Páscoa de Cristo a celebração litúrgica da Páscoa dos judeus. Cristo é o verdadeiro cordeiro, perfeito, oferecido em lugar de nossos pecados. Assim como os judeus celebravam a Páscoa com uma liturgia, neste dia Jesus instituí uma liturgia para a celebração de sua Páscoa, com o Sacramento da Eucaristia. Se a ceia dos judeus os levava a sentirem-se presentes no evento pascal do Êxodo, muito mais a Ceia do Senhor nos transporta para aqueles sacrossantos momentos de sua Paixão, Morte e Ressurreição a cada vez que celebramos a Eucaristia. No mais antigo relato da instituição da Eucaristia, narrado por Paulo que como nós não esteve na Ceia, mas a recebe da Igreja, vemos a instituição de um memorial. O memorial é instituído para ser experimentado phor nós. Por isso, a Eucaristia é o sacramento do amor. Amor de um Deus que tanto nos amou que se fez carne, e feito carne se fez pão, feito carne se fez sacrifício de amor, feito amor, amou-nos até o fim. O Senhor Jesus deixou-se a si mesmo sob os véus do Sacramento. Ele, que se derramou aos pés dos Apóstolos ao lavar os seus pés e os ensinou a fazer o mesmo, mostrou-nos que o verdadeiro serviço é amar. No Mandamento do amor, instituído nesta tarde, Jesus supera toda a lei da antiga aliança, firmando a nova aliança no seu sangue, ensina-nos que a medida do amor é amar sem medidas. Jesus nos dá como mandamento, não a observância de uma lei, mas, amar como Ele próprio amou. Que Eucaristizados, sejamos capazes de amar até o próprio de servir aos outros com a nossa própria vida, a exemplo de Cristo, nosso Senhor.

quarta-feira, 16 de abril de 2025

16.04.2025 | Missa do Crisma

Amados irmãos e irmãs, antecipando a celebração matinal da Quinta-feira Santa, estamos reunidos para a Missa do Crisma, na qual consagramos o Santo Crisma, abençoamos os óleos dos enfermos e dos catecúmenos e renovamos as promessas dos sacerdotes, comemorando a instituição do sacerdócio na Última Ceia de Jesus. Cristo é o único, verdadeiro, sumo e eterno sacerdote. Ele é o Messias, isto é, o Ungido. Todas as unções do Antigo Testamento preparam e prefiguram a unção real de Jesus Cristo, realizada não com o óleo, mas, com o próprio Espírito Santo. Por isso, na sinagoga de Nazaré, Jesus é capaz de pronunciar as palavras do profeta Isaías com tamanha autoridade, porque, como ele próprio diz, nele se cumpre a profecia. A unção é símbolo da fortaleza de Deus, da eleição, marca o escolhido. Jesus Cristo é, de fato, o ungido. Nele está toda a força de Deus, que nestes dias mostra-se para nós como fraqueza diante da Cruz. A pessoa do Filho, a segunda pessoa da Santíssima Trindade, desde toda a eternidade já planejava sua encarnação, pois Deus cria salvando e salva criando. A salvação não é determinada pelo pecado, mas, pela graça. Ele já era o escolhido, o ungido, que vem ao nosso encontro. E, como exerceu seu sacerdócio por meio do pão e do vinho, transformando-os em seu Corpo e Sangue pela força do sacramento e depois ofereceu este mesmo sacrifício na cruz, para que fosse perpetuado para toda a eternidade, tornou-se o único sacerdote. A função sacerdotal de oferecer sacrifícios é tomada para si por Cristo, quando ele torna-se sacerdote, altar e cordeiro. Ele é o único sacerdote capaz de oferecer sua vida como sacrifício agradável a Deus. Ele nos unge para sermos seus sacerdotes, para participarmos de seu sacerdócio. Os sacerdotes ministeriais, por meio do mesmo sacrifício do Corpo e Sangue de Cristo, oferecido pela salvação do mundo inteiro. Mas, nos unge também pelo batismo como povo sacerdotal, fazendo de todos nós, capazes de oferecermos a Deus o nosso próprio ser. Para renovarmos a nossa unção e nosso ministério, decidi convocar um caminho sinodal a ser vivido por toda a Igreja, a partir da próxima Quarta-feira, na Oitava Pascal. Com consultas a todas as instâncias da nossa Igreja, com o objetivo de escutar para renovar a nossa Igreja, nos prepararemos para o Sínodo dos Bispos, que se realizará entre 11 e 22 de julho deste Jubileu de 2025. Mas, agora, irmãos, renovemos as promessas sacerdotais dos nossos sacerdotes ministeriais, para depois, abençoarmos os óleos e consagrarmos o Crisma que nos ungem e nos marcam como partícipes do sacerdócio de Cristo. 

segunda-feira, 14 de abril de 2025

14.04.2025 | Segunda-feira Santa

Eminentíssimo Dom Raul Gabriel Cardeal Steiner, amados irmãos e irmãs, um gesto marca esta Segunda-feira da Semana Santa: seis dias antes da Páscoa, na casa de seus amigos, Jesus recebe a unção dos seus pés com perfumes de sua amiga Maria. Gesto que o próprio Jesus interpreta para nós, dizendo que ela fez isso em vista de sua sepultura. Um gesto ao mesmo tempo tão simples e tão nobre. Simples, porque aponta a acolhida a Jesus. Nobre, porque o perfume era caríssimo, porque era o reconhecimento dela da glória de Cristo. Um diálogo é colocado diante de nós, entre Jesus e Judas. Judas Iscariotes, incapaz de reconhecer a grandeza deste gesto, querendo embolsar e roubar o dinheiro deste perfume, diz que o dinheiro seria usado melhor para os pobres. Realidade esta que reflete uma infeliz parcela dos ministros de Deus, que utilizam-se dos pobres e do seu serviço caritativo para a auto-promoção. A caridade não deve ser mostrada, deve ser vivida. A resposta de Jesus - "pobres, sempre o tereis" - não deve ser interpretada como uma negativa de Jesus a ajuda econômica a estes. É, por outro lado, uma recordação de que a Igreja sempre deve cuidar dos pobres. E, neste momento, devemos cuidar do Corpo dele no altar e do Corpo dele nos pobres. Se fizermos isso, a fragância do perfume de Cristo será capaz de inebriar o mundo inteiro com o suave odor do amor, vindo de cada cristão e de cada cristã. Esta Segunda-feira Santa evoca para nós o nosso compromisso de ser a fragância do nosso Divino Redentor, o cheiro do Cristo Morto e Ressuscitado.

domingo, 13 de abril de 2025

13.04.2025 | Domingo de Ramos da Paixão do Senhor

Amados irmãos e irmãs, estamos celebrando o Domingo de Ramos da Paixão do Senhor, que une, numa só celebração, dois grandes mistérios: o da entrada do Senhor em Jerusalém para aquela Páscoa que Ele adotou como sua, e o da sua morte na cruz. O Evangelho de São Lucas, que escutamos no início da nossa procissão, nos dá a tônica da nossa Semana Santa. Enquanto Jesus entrava naquele jumentinho - bem diferente do esperado, pois muitos pensavam que o Messias viria montado num glorioso cavalo -, o povo o aclamava como o Rei que vem em nome do Senhor. Os fariseus, no entanto, pedem a Jesus que repreenda seus discípulos. Mas Jesus lhes responde com firmeza: "Eu vos declaro: se eles se calarem, as pedras gritarão." Essa frase, por si só, deve dar a tônica da nossa Semana Santa: nós temos a missão de anunciar Jesus Cristo, morto e ressuscitado. Essa é a glória de Deus: o Cristo que glorifica o Pai com a própria vida. Nossa missão é proclamar este Jesus, a partir da nossa própria experiência com Ele - como Mestre, como Servo, como o Cordeiro que passa pela cruz. A narrativa da Paixão do Senhor que ouvimos hoje coloca diante de nós vários personagens e diversos modos de proclamar Jesus Cristo: Há o povo, manipulado pelos mestres da Lei e pelos fariseus, que fala de Jesus como um malfeitor. Há Pôncio Pilatos, que fala de Jesus, mas com omissão. Há os soldados, que zombam e insultam. Há o mau ladrão, que também zomba. Mas há também o bom ladrão, que defende Jesus e lhe pede que se lembre dele. A este, Jesus promete: “Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso.” E há, ainda, o oficial romano, que proclama: “Este homem era justo.” Diante de tantos personagens, com quem nós nos identificamos? Qual é o nosso modo de falar de Jesus Cristo? Qual seria o nosso ideal? Amados irmãos e irmãs, se nós não falarmos de Jesus Cristo, morto e ressuscitado, as pedras falarão. Que Deus nos dê a coragem de proclamá-Lo com a nossa vida, o mistério pascal de sua paixão e vitória sobre o pecado e a morte. Num mundo de tantas omissões, de tantas mentiras, num mundo em que muitos pensam ter encontrado um sentido, mas permanecem no vazio, que nós tenhamos sempre a coragem de olhar para Jesus, pedir perdão e comprometer-nos com o anúncio do seu Evangelho, palavra de libertação e vida eterna.

quinta-feira, 10 de abril de 2025

10.04.2025 | Celebração Penitencial

Amados irmãos e irmãs,
Nós nos reunimos para a celebração penitencial nestes dias em que nos aproximamos da conclusão da Quaresma. Trilhados quase quarenta dias de penitência, oração e jejum, agora voltamos o nosso olhar para o interior, a fim de percebermos quais foram os efeitos da Quaresma em nós. Por vezes, fazemos uma Quaresma de práticas exteriores, mas, na verdade, todo o exercício quaresmal deve voltar-se ao nosso interior. Hoje é o dia de examinarmos os nossos corações para sabermos se, dentro de nós, a conversão de fato está acontecendo. Percebam que não digo que a conversão aconteceu em nós. Digo que a conversão está acontecendo. Por vezes, queremos que a conversão ocorra de um dia para o outro, como num estalar de dedos. Mas não é assim que acontece a conversão. Se analisarmos os três últimos domingos da Quaresma, veremos a importância da nossa decisão pela conversão. No terceiro domingo, não ouvimos se a figueira cresceu e deu frutos ou não. No quarto domingo, quando ouvimos a parábola do pai misericordioso, não sabemos - e continuamos sem saber - se o filho entrou ou não para a festa. No quinto domingo, não sabemos se a mulher perdoada voltou ou não a pecar. De fato, porque a nossa Quaresma nos encaminhou, não há respostas prontas, mas um caminho de sincera conversão e de conhecimento de Jesus Cristo. Se considerarmos que a figueira deu frutos, que o filho entrou para a festa e que a mulher não voltou a pecar, é porque nossa visão é a de quem confia na graça da misericórdia de Deus. A misericórdia de Deus é a sua ação. Se tudo aconteceu de modo bom, é sinal de que ali operou a graça de Deus. Insisto muito em falar da graça, porque o grande perigo é confiarmos mais em nós mesmos do que na graça e na ação de Deus. Sem a graça de Deus, a figueira morre. Sem a graça de Deus, o filho não entra para a festa. Sem a graça de Deus, a mulher volta a pecar. Sem a graça de Deus, podemos começar qualquer projeto, propósito ou processo de conversão — que ele não resultará em nada. Agora, se fizermos esse processo confiando na graça de Deus, saberemos que, mesmo caindo no meio do caminho, seremos resgatados. Se confiamos em Deus, sabemos que Ele continuará nos adubando. Se confiamos em Deus, sabemos que Ele nos colocará para dentro da festa. Se confiamos em Deus, sabemos que Aquele que não permitiu que fôssemos apedrejados nos sustentará no caminho. Hoje, somos nós, esses filhos que dizem: "Já não merecemos ser chamados, ó Deus, vossos filhos e filhas". Ainda assim, nos aproximamos de Deus, cheios de esperança de que a sua misericórdia será muito maior do que a nossa miséria, que o seu perdão será muito maior do que a nossa capacidade de perdoar, que o seu amor é muito maior do que a nossa incapacidade de corresponder ao seu amor. Amados irmãos e irmãs, não tenhamos medo, neste momento, de nos aproximar do Senhor, bater no peito e reconhecer a nossa miséria. Porque Ele virá ao nosso encontro com a sua misericórdia. Ele virá. O nosso encontro, nem tanto. Precisamos ir a Ele, porque Ele sempre vem, nos pega pela mão e nos conduz. No Mistério Pascal que celebraremos é o próprio Deus que pega em nossas mãos para nos ensinar o caminho do céu. Sigamos a Cristo no caminho da cruz e da ressurreição, e tenhamos a firme certeza de que, reconciliados com o Pai, faremos o mesmo caminho de Jesus.

quarta-feira, 9 de abril de 2025

09.04.2025 | Sermão das 7 palavras

1. Lc 23,34: “Pai, perdoa-lhes! Eles não sabem o que fazem!”

Amados irmãos e irmãs, reunimo-nos para este chamado sermão das sete palavras, que na verdade é uma meditação sobre as sete frases que os evangelistas expressam de Jesus Crucificado. Esta primeira frase é uma das três orações feitas por Jesus na cruz. Jesus que já havia assumido para si toda a culpa da humanidade para poder reconciliar-nos com o Pai, agora evoca nossa ignorância. Cristo só é capaz de pedir perdão ao Pai pelos seus algozes, porque antes, em seu coração, ele já os perdoou. E nós? Quantas vezes somos relutantes em perdoar. Fechamos o nosso coração e queremos, sempre, retribuir o mal com o mal. O caminho do Senhor Jesus não é este. Sua mensagem, mesmo no final da vida precisava ser confirmada. Andou pelos caminhos de Nazaré, da Galileia, da Judeia e por caminhos onde não era querido, como a Samaria e a região do outro lado do mar, junto aos pagãos, sempre demonstrando a misericórdia divina. Como poderá Jesus, agora desdizer essa verdade que Deus é misericordioso? Ele, que conhecia a intimidade do Pai e sabia que o Pai os perdoaria, ora pelos que o desprezavam. Jesus mesmo na eternidade continua a pedir ao Pai por todos nós. Jesus é o intercessor pelos que creem e pelos que ainda não chegaram a fé. Ele conhece o coração de cada homem e de cada mulher. Ele não se esquece de ninguém. 

2. Lc 23, 43: “Em verdade eu te digo: ainda hoje estarás comigo no Paraíso”.

Ao meu ver, esta é a mais bela destas frases. Na verdade, o diálogo como um todo expressa a ternura de Jesus. O chamado Bom Ladrão, Dimas, acabara de professar sua fé em Jesus: “Lembra-te de mim quando entrares no teu Reino.”. Provavelmente tinha ouvido falar desse tal de Jesus de Nazaré pelos caminhos, mas, agora o experimentava. O próprio Deus Santíssimo e Perfeitíssimo estava crucificado ao seu lado. Ele reconhece seu crime, mas quem disse que Jesus se importava com isso? Quem disse que Deus está com uma caneta na mão contando cada um de nossos pecados num pergaminho, para no momento do juízo nos condenar ou salvar? Já fomos salvos. O Paraíso já foi aberto para nós. O caminho da reconciliação, da comunhão com o Pai, no Espírito Santo, foi aberto para nós pelo Filho. Abraçarmos ou não esta salvação depende de nós. O Cristo com os braços abertos na cruz nos abraça, como abraçou aquele malfeitor ao seu lado. Imaginemos que olhar de ternura, de misericórdia, capaz de, mesmo com o rosto desfigurado, tomar para si um coração por tanto tempo desviado. Olhemos para os olhos de Jesus, ele nos chama a estar com ele no Paraíso.

3. Jo 19,26-27: Jesus, ao ver sua mãe e, ao lado dela, o discípulo que ele amava, disse à mãe: “Mulher, este é o teu filho”. Depois disse ao discípulo: “Esta é a tua mãe”.

O diálogo de Jesus com sua Mãe e o discípulo amado são o seu diálogo com toda a Igreja. O Concílio Vaticano II reafirmou que Maria é imagem da Igreja e Mãe da Igreja. Mãe dos discípulos e discípulas amados de seu Filho. É mãe porque nela Deus Pai se revela com amor de mãe. É mãe porque apenas a sua docilidade poderia gerar um filho em sua natureza humana tão dócil ao Pai. Ela nos ensina ainda hoje a docilidade de fazer tudo que Jesus nos disser. Maria nunca atraiu para si nenhuma glória por ser a Mãe de Deus. Pelo contrário, ela se tornou um exemplo de humildade. Hoje ela também quer ensinar à Igreja de seu Filho que é preciso reconhecer-se com humildade. Ensina a essa comunidade no Habbo Hotel que precisamos ser sensíveis aos sinais dos tempos, dóceis ao que Deus nos fala, para podermos continuar aqui exercendo o nosso ministério. E ela cuidará de nós como nossa mãe, a Mãe da Igreja, confiada a nós pelo nosso Divino Redentor, quando na cruz faz nascer a própria Igreja. A Igreja já nasce tendo uma mãe.

4. Mt 27,46: Pelas três horas da tarde, Jesus deu um forte grito: “Eli, Eli, lamá sabactâni?” Que quer dizer: Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?

O abandono de Deus. Quantas vezes nós também não o experimentamos? Jesus que sempre viveu na intimidade com o Pai, que viveu uma vida de oração, agora se questiona: Onde está Deus? No caminho da nossa humanidade muitas vezes nós nos perguntamos isso. Aqueles que não acreditam em Deus, tantas vezes argumentam que Deus parece inerte diante do sofrimento humano. Existem guerras, massacres, fome, miséria, ditaduras, perseguições, escravidão, doenças e tantas situações que desumanizam o ser humano. Onde está Deus? Por que Deus não responde? Por que não faz nada para resolver estas situações? Por que diante do sofrimento do Filho, o Pai se cala? Quão misterioso mistério é o silêncio de Deus. Podemos tentar e até nos esforçar por diversas explicações a este silêncio, mas, a verdade, é que só o compreendemos quando estamos prontos para compreender. Prontos para compreender que mesmo sendo o Todo-Poderoso, Deus nunca ultrapassa a nossa liberdade humana. Prontos para compreender que seu silêncio se dá porque ele sofre conosco e em nós. Prontos para compreender que quanto gritamos desesperados, na verdade, estamos chorando no seu colo maternal de Pai. Ainda não estamos prontos para compreender que a solução está nas nossas mãos e que depende de nós. Jesus sente o abandono do Pai por todos aqueles que ao longo de toda a história se sentiriam abandonados por Deus. Ele experimenta na sua solidão, a nossa solidão. Experimenta a solidão do coração humano que busca tantos amores, mas ainda não aprendeu a encontrar seu amor no supremo Amor.

5. Jo 19,28: “Tenho sede!”

Ter sede. Se por um lado Jesus está falando da sua sede física, por outro, fala de uma outra sede mais profunda. Como pode a própria fonte de água viva ter sede? Tem sede do que ele mesmo pode saciar. Sua sede é sede de justiça pelos empobrecidos e pelos pequeninos. Sua sede é sede pela salvação dos seus irmãos e irmãs. Sua sede é sede pela conversão dos pecadores. Sua sede é sede do Reino de Deus. Jesus é o próprio poço da água, mas, tantas vezes nós, cristãos, o deixamos ainda sedento. O deixamos sedento porque queremos escolher quais das suas sedes vamos saciar. Por um lado, parece que a única sede a saciar é a sede espiritual, de corações convertidos a ele. Por outro, parece que nenhuma realidade espiritual saciaria a Cristo senão a justiça. Perdemos a percepção de que a sede de Cristo é uma sede integral. E uma sede que só se saciará quando nós bebermos nele. Sua sede é saciada pela nossa saciedade, quando estivermos cheios da água da vida que ele nos dá. E nós só estaremos realmente cheios desta água, que nos lava no Batismo e nos sacia nos seus mistérios, quando entendermos que não há salvação parcial do ser humano. Ou é salvo o ser humano em sua integridade, espírito, alma e corpo, ou não há salvação. Quantas vezes nós não queremos saciar a sede de Cristo com o vinagre do nosso falso piedosismo, das nossas orações vazias ou do nosso assisentencialismo fingido de caridade? 

6. Jo 19,30: “Tudo está consumado”.

Popularmente dizemos que no final da vida nos encontramos com uma luz muito intensa. Esta frase, é como se Jesus já contemplasse esta luz. Ele está no final de sua vida. Dizemos, também, que nossa vida se passa como um filme diante dos nossos olhos. Se considerarmos como verdadeira esta tradição popular, este é o momento que Jesus olha para toda a sua trajetória. Jesus reconhece todos os momentos de sua vida desde sua concepção, seu nascimento, a fuga para o Egito, a infância, a vida oculta, o Batismo e o ministério público nas estradas deste mundo. Jesus se recorda de cada gota de suor e de cada lágrima derramada, de cada cura e cada ensinamento. Com certeza em sua mente já cansada por toda uma noite acordada, se passava também a dramática noite anterior vivida com os Apóstolos, o lava-pés e a Ceia, os discursos e sua oração por eles. Fato é, amados irmãos e irmãs, que por vezes dizemos que a salvação nos veio pela cruz e ressurreição. Este é sim o evento culminante, o ápice da nossa salvação. Mas, toda a vida de Cristo foi salvífica. Cada instante de sua existência salvou-nos. Ele tornou-se o ser humano perfeito, protótipo de uma nova humanidade. Deixou os seus passos na nossa história para que nós pudéssemos segui-lo. Ele nos salvou porque nos amou. Jesus sabe que a obra naquele momento havia se encerrado, mas, com certeza tinha consciência que aquele não era o final, não era a consumação de sua obra, era, na verdade o início de um grande projeto de amor que faria com que sua existência entre nós valesse não apenas a pena, mas, valesse sua própria vida.

7. Lc 23,46. “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito”.

A palavra final é amor. O Filho deposita todo o seu ser nas mãos do Pai. Entrega a ele o seu espírito, sua existência. Ama tanto o Pai e de tal modo se reconhece amado pelo Pai que confia extremamente. O próprio Jesus faz um ato de fé no Pai. Fé que lhe dá a esperança. Esperança que é um verbo. Esperançar é confiar e ultrapassa o confiar. Esperança é uma certeza. A promessa de Deus já é cumprimento. Deus não diz algo para depois voltar atrás. Ele é fiel apesar das nossas infidelidades. Ele nos ama mesmo que não consigamos corresponde com amor ao seu amor. Jesus, o Filho amado, confia-se ao Pai no último instante de sua existência humana antes de penetrar na morte. Ele se lança, ao mesmo tempo, ao Pai e na morte. Não que Jesus não pudesse, depois, ressuscitar pelas suas próprias forças. Mas, também a ressurreição é obra da Trindade. O antigo autor do século IV, ao fazer sua homilia no grande Sábado Santo, nos diz que Jesus ao entrar na mansão dos mortos, entra também com ele o Pai. O Pai e o Filho no Espírito Santo vão ao resgate da humanidade cativa pela morte. A morte adquire para nós um novo sentido. Já não é mais o fim. Ela se torna o lançar-se nas mãos do Deus da vida, do Deus-Amor, na certeza que ele nos acolherá numa existência muito maior do que esta que vivemos, pois Ele será tudo em todos nós.

domingo, 6 de abril de 2025

06.04.2025 | V Domingo da Quaresma

Amados irmãos e irmãs, estamos celebrando o Quinto Domingo da Quaresma, nos aproximando da Semana Santa. A liturgia da Palavra deste domingo continua a nos apontar a grandeza da misericórdia de Deus, destacando qual é o momento de experimenta-la: HOJE! Após os últimos domingos terem nos recordado as grandezas do Senhor em Noé, Abrão e Moisés, o profeta Isaías hoje nos fala para não nos apegarmos ao passado, mas olharmos para Deus que faz novas todas as coisas. Sim, o Senhor fez coisas grandiosas com o povo da antiga aliança, fez coisas maravilhosas aos nossos antepassados em todos estes anos de cristianismo, mas, ele continua fazendo obras estupendas diante de nossos olhos. Tantas e tantas vezes somos nós que fechamos os olhos e os ouvidos e não conseguimos nos abrir à experiência da bondade do Deus todo-poderoso nas nossas vidas na nossa história. E quando reconhecemos somos nós este povo que exclama com o salmista: Maravilhas fez conosco o Senhor! Mas, só somos capazes de reconhecer essas maravilhas, quando ouvimos a voz do Apóstolo Paulo que fala à comunidade dos Filipenses que tudo devemos ter como lixo diante de Deus. Só o coração que está livre, desapegado das coisas deste mundo, é capaz de  reconhecer as maravilhas de Deus. Muitas vezes ficamos ludibriados com tantas coisas, que nos esquecemos da simplicidade da ação de Deus. Reconhecendo a ação de Deus, temos coragem de deixar para trás o nosso passado e nos lançarmos em Cristo, que como diz São Paulo, é a nossa meta. Acolhemos, ainda, a nossa imperfeição. Paulo aceita ainda não ter alcançado a Cristo, a meta, mas, reconhece que Cristo já o acalçou. Assim como Jesus Cristo, no Evangelho de hoje, alcança com sua misericórdia a mulher pega em flagrante adultério. Esta perícope, embora joanina, tem características do Evangelho de São Lucas, por isso é lida neste domingo do ano C. Percebamos que a lei antiga já não era mais suficiente para Jesus. Alguns exegetas colocam no gesto de Jesus se escrever no chão, o gesto dele escrever uma nova lei. Assim como Deus escreveu na pedra as leis e as deu a Moisés, agora Jesus escreve na pedra do chão do Templo uma nova lei, que é a misericórdia. Mas, o próprio Jesus não descumpre a lei antiga, apenas a mostra insuficiente: "Quem não tiver pecado, atire a primeira pedra.". Ora, ninguém pode se colocar nesta posição, e a lei que outrora era usada para acusar, agora é usada para misericordiar. A maravilha realizada por Deus na vida daquela mulher, foi a maravilha da misericórdia. E Jesus dialoga com a mulher: "Ninguém te condenou?" "Ninguém, Senhor." "Nem eu te condeno. Vai e não peques mais.". Sim, amados irmãos e irmãs, diferente do que pensam muitos cristãos e cristãs sobretudo em nossos tempos, Deus não tem pedras nas mãos prontas para lançar em nós por cada pecado que fizermos. Deus não nos condena, mas, exige de nós um caminho de conversão. Não pecar mais, que tantas vezes parece impossível, nos demonstra que pecamos porque estamos confiando nas nossas forças e não na graça de Deus, somos neopelagianos. Achar impossível não voltar ao caminho do pecado é recusar o caminho do amor, o projeto de Jesus e não precisarmos que os outros nos apedrejem, mas, nós mesmos nos apedrejarmos, incapazes de perceber a maravilhosa misericórdia de Deus para conosco.