quarta-feira, 9 de abril de 2025

09.04.2025 | Sermão das 7 palavras

1. Lc 23,34: “Pai, perdoa-lhes! Eles não sabem o que fazem!”

Amados irmãos e irmãs, reunimo-nos para este chamado sermão das sete palavras, que na verdade é uma meditação sobre as sete frases que os evangelistas expressam de Jesus Crucificado. Esta primeira frase é uma das três orações feitas por Jesus na cruz. Jesus que já havia assumido para si toda a culpa da humanidade para poder reconciliar-nos com o Pai, agora evoca nossa ignorância. Cristo só é capaz de pedir perdão ao Pai pelos seus algozes, porque antes, em seu coração, ele já os perdoou. E nós? Quantas vezes somos relutantes em perdoar. Fechamos o nosso coração e queremos, sempre, retribuir o mal com o mal. O caminho do Senhor Jesus não é este. Sua mensagem, mesmo no final da vida precisava ser confirmada. Andou pelos caminhos de Nazaré, da Galileia, da Judeia e por caminhos onde não era querido, como a Samaria e a região do outro lado do mar, junto aos pagãos, sempre demonstrando a misericórdia divina. Como poderá Jesus, agora desdizer essa verdade que Deus é misericordioso? Ele, que conhecia a intimidade do Pai e sabia que o Pai os perdoaria, ora pelos que o desprezavam. Jesus mesmo na eternidade continua a pedir ao Pai por todos nós. Jesus é o intercessor pelos que creem e pelos que ainda não chegaram a fé. Ele conhece o coração de cada homem e de cada mulher. Ele não se esquece de ninguém. 

2. Lc 23, 43: “Em verdade eu te digo: ainda hoje estarás comigo no Paraíso”.

Ao meu ver, esta é a mais bela destas frases. Na verdade, o diálogo como um todo expressa a ternura de Jesus. O chamado Bom Ladrão, Dimas, acabara de professar sua fé em Jesus: “Lembra-te de mim quando entrares no teu Reino.”. Provavelmente tinha ouvido falar desse tal de Jesus de Nazaré pelos caminhos, mas, agora o experimentava. O próprio Deus Santíssimo e Perfeitíssimo estava crucificado ao seu lado. Ele reconhece seu crime, mas quem disse que Jesus se importava com isso? Quem disse que Deus está com uma caneta na mão contando cada um de nossos pecados num pergaminho, para no momento do juízo nos condenar ou salvar? Já fomos salvos. O Paraíso já foi aberto para nós. O caminho da reconciliação, da comunhão com o Pai, no Espírito Santo, foi aberto para nós pelo Filho. Abraçarmos ou não esta salvação depende de nós. O Cristo com os braços abertos na cruz nos abraça, como abraçou aquele malfeitor ao seu lado. Imaginemos que olhar de ternura, de misericórdia, capaz de, mesmo com o rosto desfigurado, tomar para si um coração por tanto tempo desviado. Olhemos para os olhos de Jesus, ele nos chama a estar com ele no Paraíso.

3. Jo 19,26-27: Jesus, ao ver sua mãe e, ao lado dela, o discípulo que ele amava, disse à mãe: “Mulher, este é o teu filho”. Depois disse ao discípulo: “Esta é a tua mãe”.

O diálogo de Jesus com sua Mãe e o discípulo amado são o seu diálogo com toda a Igreja. O Concílio Vaticano II reafirmou que Maria é imagem da Igreja e Mãe da Igreja. Mãe dos discípulos e discípulas amados de seu Filho. É mãe porque nela Deus Pai se revela com amor de mãe. É mãe porque apenas a sua docilidade poderia gerar um filho em sua natureza humana tão dócil ao Pai. Ela nos ensina ainda hoje a docilidade de fazer tudo que Jesus nos disser. Maria nunca atraiu para si nenhuma glória por ser a Mãe de Deus. Pelo contrário, ela se tornou um exemplo de humildade. Hoje ela também quer ensinar à Igreja de seu Filho que é preciso reconhecer-se com humildade. Ensina a essa comunidade no Habbo Hotel que precisamos ser sensíveis aos sinais dos tempos, dóceis ao que Deus nos fala, para podermos continuar aqui exercendo o nosso ministério. E ela cuidará de nós como nossa mãe, a Mãe da Igreja, confiada a nós pelo nosso Divino Redentor, quando na cruz faz nascer a própria Igreja. A Igreja já nasce tendo uma mãe.

4. Mt 27,46: Pelas três horas da tarde, Jesus deu um forte grito: “Eli, Eli, lamá sabactâni?” Que quer dizer: Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?

O abandono de Deus. Quantas vezes nós também não o experimentamos? Jesus que sempre viveu na intimidade com o Pai, que viveu uma vida de oração, agora se questiona: Onde está Deus? No caminho da nossa humanidade muitas vezes nós nos perguntamos isso. Aqueles que não acreditam em Deus, tantas vezes argumentam que Deus parece inerte diante do sofrimento humano. Existem guerras, massacres, fome, miséria, ditaduras, perseguições, escravidão, doenças e tantas situações que desumanizam o ser humano. Onde está Deus? Por que Deus não responde? Por que não faz nada para resolver estas situações? Por que diante do sofrimento do Filho, o Pai se cala? Quão misterioso mistério é o silêncio de Deus. Podemos tentar e até nos esforçar por diversas explicações a este silêncio, mas, a verdade, é que só o compreendemos quando estamos prontos para compreender. Prontos para compreender que mesmo sendo o Todo-Poderoso, Deus nunca ultrapassa a nossa liberdade humana. Prontos para compreender que seu silêncio se dá porque ele sofre conosco e em nós. Prontos para compreender que quanto gritamos desesperados, na verdade, estamos chorando no seu colo maternal de Pai. Ainda não estamos prontos para compreender que a solução está nas nossas mãos e que depende de nós. Jesus sente o abandono do Pai por todos aqueles que ao longo de toda a história se sentiriam abandonados por Deus. Ele experimenta na sua solidão, a nossa solidão. Experimenta a solidão do coração humano que busca tantos amores, mas ainda não aprendeu a encontrar seu amor no supremo Amor.

5. Jo 19,28: “Tenho sede!”

Ter sede. Se por um lado Jesus está falando da sua sede física, por outro, fala de uma outra sede mais profunda. Como pode a própria fonte de água viva ter sede? Tem sede do que ele mesmo pode saciar. Sua sede é sede de justiça pelos empobrecidos e pelos pequeninos. Sua sede é sede pela salvação dos seus irmãos e irmãs. Sua sede é sede pela conversão dos pecadores. Sua sede é sede do Reino de Deus. Jesus é o próprio poço da água, mas, tantas vezes nós, cristãos, o deixamos ainda sedento. O deixamos sedento porque queremos escolher quais das suas sedes vamos saciar. Por um lado, parece que a única sede a saciar é a sede espiritual, de corações convertidos a ele. Por outro, parece que nenhuma realidade espiritual saciaria a Cristo senão a justiça. Perdemos a percepção de que a sede de Cristo é uma sede integral. E uma sede que só se saciará quando nós bebermos nele. Sua sede é saciada pela nossa saciedade, quando estivermos cheios da água da vida que ele nos dá. E nós só estaremos realmente cheios desta água, que nos lava no Batismo e nos sacia nos seus mistérios, quando entendermos que não há salvação parcial do ser humano. Ou é salvo o ser humano em sua integridade, espírito, alma e corpo, ou não há salvação. Quantas vezes nós não queremos saciar a sede de Cristo com o vinagre do nosso falso piedosismo, das nossas orações vazias ou do nosso assisentencialismo fingido de caridade? 

6. Jo 19,30: “Tudo está consumado”.

Popularmente dizemos que no final da vida nos encontramos com uma luz muito intensa. Esta frase, é como se Jesus já contemplasse esta luz. Ele está no final de sua vida. Dizemos, também, que nossa vida se passa como um filme diante dos nossos olhos. Se considerarmos como verdadeira esta tradição popular, este é o momento que Jesus olha para toda a sua trajetória. Jesus reconhece todos os momentos de sua vida desde sua concepção, seu nascimento, a fuga para o Egito, a infância, a vida oculta, o Batismo e o ministério público nas estradas deste mundo. Jesus se recorda de cada gota de suor e de cada lágrima derramada, de cada cura e cada ensinamento. Com certeza em sua mente já cansada por toda uma noite acordada, se passava também a dramática noite anterior vivida com os Apóstolos, o lava-pés e a Ceia, os discursos e sua oração por eles. Fato é, amados irmãos e irmãs, que por vezes dizemos que a salvação nos veio pela cruz e ressurreição. Este é sim o evento culminante, o ápice da nossa salvação. Mas, toda a vida de Cristo foi salvífica. Cada instante de sua existência salvou-nos. Ele tornou-se o ser humano perfeito, protótipo de uma nova humanidade. Deixou os seus passos na nossa história para que nós pudéssemos segui-lo. Ele nos salvou porque nos amou. Jesus sabe que a obra naquele momento havia se encerrado, mas, com certeza tinha consciência que aquele não era o final, não era a consumação de sua obra, era, na verdade o início de um grande projeto de amor que faria com que sua existência entre nós valesse não apenas a pena, mas, valesse sua própria vida.

7. Lc 23,46. “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito”.

A palavra final é amor. O Filho deposita todo o seu ser nas mãos do Pai. Entrega a ele o seu espírito, sua existência. Ama tanto o Pai e de tal modo se reconhece amado pelo Pai que confia extremamente. O próprio Jesus faz um ato de fé no Pai. Fé que lhe dá a esperança. Esperança que é um verbo. Esperançar é confiar e ultrapassa o confiar. Esperança é uma certeza. A promessa de Deus já é cumprimento. Deus não diz algo para depois voltar atrás. Ele é fiel apesar das nossas infidelidades. Ele nos ama mesmo que não consigamos corresponde com amor ao seu amor. Jesus, o Filho amado, confia-se ao Pai no último instante de sua existência humana antes de penetrar na morte. Ele se lança, ao mesmo tempo, ao Pai e na morte. Não que Jesus não pudesse, depois, ressuscitar pelas suas próprias forças. Mas, também a ressurreição é obra da Trindade. O antigo autor do século IV, ao fazer sua homilia no grande Sábado Santo, nos diz que Jesus ao entrar na mansão dos mortos, entra também com ele o Pai. O Pai e o Filho no Espírito Santo vão ao resgate da humanidade cativa pela morte. A morte adquire para nós um novo sentido. Já não é mais o fim. Ela se torna o lançar-se nas mãos do Deus da vida, do Deus-Amor, na certeza que ele nos acolherá numa existência muito maior do que esta que vivemos, pois Ele será tudo em todos nós.

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