Cristo ressuscitou, aleluia, aleluia! Verdadeiramente ressuscitou, aleluia, aleluia! Sim, amados irmãos e irmãs, não estamos celebrando uma ressurreição apenas como um conto, ou como algo simbólico, como se Cristo ressuscitasse na vida de seu povo apenas, celebramos que verdadeiramente Jesus Cristo fez sua Páscoa, sua passagem, entrou na morte e ressuscitou de verdade, ressuscitou de fato, e nos abriu as portas da vida eterna. E como constatamos sua ressurreição? Eu repito isso todo ano e não me cansarei de repetir: cremos que Cristo ressuscitou porque os apóstolos morreram para dar testemunho dessa verdade. Se fosse mentira, ninguém iria tão longe por uma mentira, por um ideal. Mas, se é capaz de ir muito mais longe do que a morte, do que o martírio, por amor a um Deus que é amante dos homens, por amor a Jesus de Nazaré, que eles reconheceram como o fundamental de sua vida, de sua existência, sem o qual não há vida, não há existência, não há esperança. Não basta fazer a experiência do Ressuscitado, não basta a experiência da ressurreição nas nossas vidas, nós devemos nos tornar testemunhas da ressurreição, como foi Pedro na primeira leitura que ouvimos. Martírio é ser testemunha. Mas, só é capaz de ser testemunha, quem antes se enamorou por Jesus, quem se apaixonou por Jesus. No Evangelho que ouvimos temos três amantes: Maria Madalena, Pedro e João. Maria Madalena é a primeira testemunha da ressurreição segundo São João, é aquela que reconhece Jesus como mestre e a primeira a anunciar o Ressuscitado. Mulher doce, sensível a ponto de reconhecer a voz do seu amado só por ele a chamar. Pedro, o primeiro entre os Apóstolos, é o primeiro a entrar e ver o túmulo vazio. João, o discípulo que se considerava o amado, que corre mais rápido, que nos mostra que o amor tem pressa, Ele viu e acreditou. Testemunhemos, pois, com nossas palavras e nossas vidas que Jesus Cristo realmente ressuscitou! Abramos o nosso ser à ação do Ressuscitado, permitamos que Ele ilumine com sua luz a nossa escuridão, o nosso desespero, as nossas angústias e tristezas. Assim, seremos capazes de testemunhar a alegria do Ressuscitado, o amor daquele que amou-nos infinitamente, esta verdade fundamental da nossa fé, razão de nossa esperança, razão de nossa fé, que fortalece o nosso amor: Cristo Ressuscitou, aleluia, aleluia! Verdadeiramente ressuscitou, aleluia, aleluia!
domingo, 31 de março de 2024
sábado, 30 de março de 2024
30.03.2024 | Vigília Pascal
quinta-feira, 28 de março de 2024
28.03.2024 | Quinta-feira na Ceia do Senhor
Amados irmãos e irmãs, estamos reunidos para a santa Ceia na qual o Senhor Jesus Cristo, ao entregar-se à morte, deu à sua Igreja um novo e eterno sacrifício, como banquete do seu amor. Com esta oração coleta nos é dada a tônica de toda esta celebração que inicia o Tríduo Pascal. Já é Páscoa. Páscoa, pessach, quer dizer passagem. De fato, o Tríduo é não simplesmente uma única celebração, mas um tempo litúrgico, o menor e ao mesmo tempo o mais importante. A noite da quinta e a sexta são o primeiro dia do tríduo, seguido pela noite da sexta e o sábado, o segundo dia, e a noite do sábado e o domingo, o terceiro dia. Nós mergulhamos nestes dias no mistério da Paixão, Morte e Ressurreição e as celebramos como memorial na sagrada liturgia e em nossas vidas. Assim, unem-se a nossa vida e a nossa liturgia. Assim era a vida de Cristo, toda ela era litúrgica. Tão litúrgica que antes de entregar-se fisicamente à Paixão, ele já se entrega liturgicamente na Ceia. É este o relato que ouvimos na segunda leitura, na primeira Carta aos Coríntios, onde São Paulo escreve a narrativa mais antiga que temos contato da instituição da Eucaristia. Ele narra sem ter estado na Ceia. Como nós, que não estivemos lá fisicamente, mas que estamos lá a cada Eucaristia. Jesus, antes de se entregar na cruz, se entrega já verdadeiramente na liturgia da Ceia que ele institui, como sinal perpétuo, como perpétuo memorial, o sacramento da Eucaristia. Ele se imola, primeiro, na lituegia e , de fato, a vida do povo de Deus é uma vida litúrgica. A primeira leitura narra para nós a preparação para a celebração litúrgica da Páscoa da Ressurreição. Essa descrição, sem dúvidas muito posterior ao Êxodo histórico, descreve com exatidão como celebrar a Páscoa. A Páscoa do Êxodo, não nos custa lembrar, acontece porque no tempo onde faltavam alimentos na região de Israel, José desce para o Egito, interpreta os sonhos do Faraó, ocupa um lugar importante na corte e desce também sua família, no final do Gênesis. O livro do Êxodo nos conta que assumiu um faraó no Egito que se esqueceu do bem que o povo hebreu havia feito e que se tornava muito populoso, então era uma ameaça e começa a perseguir os hebreus. Mas, um filho de hebreia, lançado no rio, é encontrado e criado na corte. A este, Moisés, Deus escolheu se revelar e fazer uma aliança com ele. Deus diz a Moisés que viu, viu a aflição de seu povo, ouviu seus clamores, desceu para liberta-los e para conduzi-los a uma terra onde correm leite e mel. Então, inicia-se um embate com o Faraó para que o povo hebreu saia do Egito e Deus quer ser glorificado por esta saída. É neste contexto que está a preparação para a Páscoa. Está antes da última praga enviada ao Egito que era a morte dos primogênitos. Por quê? Porque os filhos dos hebreus não seriam mortos, e, para marcar que aquela casa era uma casa hebreia, a fim de que o anjo exterminador não entrasse ali quando passasse, o sangue do cordeiro comido para celebrar a Páscoa, com vinho, pães ázimos e ervas amargas, deveria untar o batente das portas e ali o anjo não mataria o primogênito. Isto tudo é figura de Jesus Cristo: ele é o cordeiro, que untou com o próprio sangue o madeiro da cruz para nos poupar da morte, sinal mais verdadeiro e concreto do que nunca que Deus viu, ouviu o seu povo, desceu e o libertou, o salvando do pecado e da morte, dando-lhe vida e vida em plenitude. Isto porque amou, e amou até o extremo. É com estas palavras que ouvimos no Evangelho que São João inicia a narrativa da Ceia do Senhor. Narra não a Eucaristia, porque todos já a celebravam nas comunidades, mas, narra o Lava-pés. O Lava-pés mais do que um sinal de humildade, é um sinal de entrega. Jesus se rebaixa para lavar os pés dos discípulos, sinalizando o seu serviço. Jesus tira o manto e se reveste apenas de uma toalha, sua dalmática, seu avental,…
terça-feira, 26 de março de 2024
26.03.2024 | Terça-feira santa
Deus eterno e todo-poderoso, dai-nos celebrar de tal modo os mistérios da Paixão do Senhor, que possamos receber vosso perdão. Amado Dom Jorge Snaif Cardeal Médici, Bispo Titular desta igreja de Palestrina, em nome do qual saúdo todos os irmãos e irmãs aqui presentes. Nesta Terça-feira Santa, pedimos a Deus, por meio da celebração da Paixão do Senhor, o perdão dos nossos pecados. O reconhecimento de ser pecador é o início do caminho da misericórdia. Pois não dá pra recebermos o perdão de Deus se antes não reconhecermos que precisamos deste perdão. O Evangelho de São João que hoje ouvimos está contextualizado dentro da última ceia, após o lava-pés. Estão presentes na narrativa dois traidores: Judas e Simão Pedro. Parece-nos estranho dizer isso, mas, também Pedro traiu Jesus aquela noite. Pedro traiu quando negou Jesus, quando disse que não o conhecia, quando preferiu a si mesmo e não ao Senhor. De fato, Pedro não entendia muito bem as coisas. Era um homem muito afobado. Pedro é aquele que afunda nas águas por duvidar, que diz a Jesus que nunca aconteça que ele passe pela paixão, que corta a orelha do servo do sumo sacerdote, que nega o seu Senhor. Pedro mostra que não entendeu. Ainda assim, é ele quem Jesus coloca como pedra da Igreja, pescador de homens, que confessa Jesus como o filho de Deus, como aquele que tem palavras de vida eterna, que corre ao túmulo para o ver vazio, que se joga ao mar ao reconhecer o Senhor ressuscitado e que revela entender os seus limites, os limites de seu amor, quando Jesus pergunta se Pedro o amava com um amor incondicional e Pedro só consegue responder que amava Jesus como um amigo. Pedro usou e abusou da misericórdia. Não foi um homem perfeito, mas foi alguém que atraiu para si o perdão de Deus. Nós também precisamos ter consciência da nossa fragilidade. Quem não tem conhecimento da própria fragilidade é como Judas Iscariotes. Judas era um dos doze, caminhava com Jesus, tinha a confiança, pois cuidava do dinheiro. Penso que Jesus o deixou com o dinheiro mesmo sabendo que Judas a roubava, esperando que ele reconhecesse seu erro e mudasse. Não me resta dúvidas que até o último momento, Jesus tentou salvar Judas. Mas, Judas não consegue dar esse salto para dentro de si, que o levaria a reconhecer sua miséria para recorrer à misericórdia. Porque, irmãos e irmãs, a traição de Judas Iscariotes não era necessária à salvação, como também não era necessário o julgamento de Pilatos e nem mesmo a condenação dos sacerdotes. Uma única gota de sangue de Deus derramado por amor à humanidade necessitada da misericórdia, necessitada da reconciliação, já seria capaz de nos salvar, já seria um sacrifício perfeito. Mas, Jesus permite-se ir até o extremo. Deste modo, Judas Iscariotes é o traidor, que melhor seria que não tivesse nascido. Nele estava Satanás, o espírito de divisão, e em seu coração era noite. Quando João fala: era noite, ele não fala apenas do horário do dia, fala também da escuridão no coração de Judas, da escuridão no coração que está distante de Deus, daqueles tão longe de experimentar a infinita misericórdia e o infinito amor de Deus. E na noite do coração de Judas, bem sabemos, ele se mata. Mas, Judas não se arrepende, de acordo com as narrativas bíblicas, o que nos levaria talvez a canonizar o Iscariotes. Judas sente remorso. Remorso não é arrependimento e não é fruto do amor. Aí, destaco um terceiro personagem que é o discípulo amado, que repousa no peito de Jesus. O discípulo amado sou eu, é você, é todo aquele que repousa, que deita no peito, no coração chagado por amor, naquele que tanto nos amou, naquele que nos mostrou pela sua cruz como é grande seu amor e sua misericórdia. Que nós saibamos, como João, repousar no coração de Jesus, como Pedro, insistir na misericórdia de Deus, para que em nossos corações nunca reine a noite que havia na coração do traidor. Assim seja! Amém.
segunda-feira, 25 de março de 2024
25.03.2024 | Missa do Crisma
sábado, 23 de março de 2024
24.03.2024 | Sermão das 7 palavras
23.03.2024 | Domingo de Ramos da Paixão do Senhor
Amados irmãos e irmãs, estamos celebrando o Domingo de Ramos da Paixão do Senhor. Este dia que une numa só celebração estes dois grandes momentos: o da entrada triunfal de Jesus em Jerusalém e de sua Paixão. Na verdade, falamos de duas entradas aqui, a entrada em Jerusalém e a entrada na morte. Estas duas entradas estão intrisicamente ligadas. Jesus, ao entrar na cidade de Jerusalém, está entrando para morrer. Ele já tem consciência que a sua missão culminaria ali, que a oferta de sua vida a ser concretizada no alto da cruz, começaria com sua entrada em Jerusalém. No Evangelho de São Marcos que ouvimos no início da procissão, o evangelista coloca na boca do povo ali reunido: "Bendito o rei que vai começar". Jesus iniciaria seu reinado pela cruz. Aclamamos hoje o Cristo Rei, mas não nos esqueçamos que aclamamos a um rei diferente, cujo trono foi a cruz, cuja coroa é de espinhos, cuja capa é seu próprio sangue, cujo cetro em suas mãos são os pregos, mas, que inaugura um reino sem fim, um reino que não conhece ocaso, um reino de justiça. E o inaugura em sua cruz. Tudo o que veio antes, toda a pregação, foi anuncio deste reino, foi preparação para este reino. Agora ele será concretizado na cruz, estabelecido, firmado. Porque na cruz nós recuperamos a aliança com Deus. Na cruz nós fomos reconciliados. Na aparente derrota, Jesus sabe que não será humilhado, como o servo do terceiro cântico que ouvimos na primeira leitura. Ele foi exaltado na obediência até a morte e morte de cruz, como canta São Paulo no hino da Kênosis, na carta aos filipenses que ouvimos. Dentre tudo que poderíamos dizer do Evangelho de São Marcos, pensemos na experiência de abandono de Jesus em dois momentos. O primeiro momento é o pedido ao Pai que afaste dele o cálice, mas que se fizesse a vontade de Deus. O segundo momento é o grito do salmista colocado por São Marcos na boca de Jesus: Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste? Sim, irmãos e irmãs, àquele que havia vivido na comunhão plena com o Pai, àquele que conversava com Deus de um modo superior ao de qualquer outro que outrora tinha existido, agora sente a experiência do distanciamento do Pai. Jesus experimenta o silêncio de Deus. E nós também o experimentamos. Muitas vezes experimentamos o silêncio de Deus nas nossas doenças, nos nossos sofrimentos, nas nossas dificuldades, nos momentos onde nos sentimos sozinhos e abandonados. Experimentamos o silêncio de Deus enquanto humanidade, quando nos perguntamos, onde estava Deus em Auschwitz? Onde está Deus nas crianças que morrem de fome ou de câncer? Onde está Deus nos que morrem nos terremotos e tsunamis? Onde está Deus naquela pessoa em situação de rua que morre de frio? Hoje, Jesus nos responde que Deus está sofrendo em todas essas situações. Porque o Filho não foi abandonado pelo Pai, mas ressuscitou. Porque o Filho que grita o abandono de Deus, é o próprio Deus. Deus está naquele que sofre. Ele pode não responder. Mas, está no que sofre, sofrendo junto. Deus sofre conosco e sofre em nós. Além daquele poema que coloca Deus ao lado do que sofre, Ele está no que sofre. Nunca estamos abandonados. Nunca estamos sozinhos. Os que pertencem ao reino inaugurado por Jesus na cruz, nunca experimentarão a completa solidão. Os judeus gritaram Hosana, que quer dizer, "salva-nos", e fomos, de fato, na cruz e ressurreição, salvos para sempre, salvos para a vida, e a vida em Deus. Assim seja! Amém.
quinta-feira, 21 de março de 2024
21.03.2024 | Posse na Cátedra de Latrão
Amados irmãos e irmãs, neste dia em que tomo posse dessa cátedra do Bispo de Roma, quero saudá-los com alegria e afeto, especialmente aos clérigos que aqui residem, nesta Igreja que preside na caridade todas as Igrejas. A liturgia de hoje reforça para nós a figura de Deus como o Deus da aliança. Deus, cantou o salmista, se lembra sempre da aliança. Que aliança é essa? É a aliança firmada com nossos pais. Aliança firmada, primeiro com Noé. Aliança renovada em Abraão. Aliança renovada em Moisés. Ouvimos na primeira leitura a promessa da parte de Deus para a aliança: terra e descendência. Mas, a terra e a descendência não vieram com facilidade. A descendência porque Sara era estéril. Abraão, como sabemos engravida a escrava e tem seu filho Ismael. Mas, Ismael não é o filho da promessa. O filho da promessa viria de Sara, Isaac. Então, vem a descendência de Abraão. A terra prometida será ainda mais difícil de ser conquistada. O neto de Abraão, Jacó, já vai com seus filhos para o Egito e lá o povo será feito escravo. Deste povo, Deus suscita Moisés, com quem refaz a aliança. E o episódio simbólico e importante para essa aliança com Moisés é o episódio da sarça ardente, quando Moisés recebe sua missão e Deus revela seu nome, o tetagrama IHWH, impronunciável, mas, que diz: EU SOU. Deus é aquele que é, o que era, o que será. Deus é o existente. No diálogo do Evangelho, Jesus interliga as duas alianças e as duas figuras e experiências de Deus: de Abraão e Moisés. Se ontem Jesus dizia aos judeus que eles não eram filhos de Abraão por não terem as mesmas obras de Abraão, hoje Jesus diz que Abraão exultou por ver o dia de sua vinda. Jesus se revela como aquele no qual a promessa da descendência, da terra, serão plenamente cumpridas. Não mais uma descendência sanguínea e uma terra enquanto espaço, mas, todos somos feitos filhos e filhas de Deus, povo da aliança, herdeiros da terra prometida, que para nós é a Jerusalém celeste, é estarmos eternamente na presença de Deus. Diante da dúvida dos judeus, Jesus então afirma categoricamente: “Em verdade, em verdade vos digo, antes que Abraão existisse, EU SOU”. Sim, irmãos e irmãs, Jesus se revela, aqui, como Deus. Ele é o preexistente, o que era, o que é, o que será. Ele é o ser, Ele é o "EU SOU". Ser, para a filosofia, bem sabemos, é um tópico extremamente importante. De modo particular, o filósofo francês Emmanuel Mounier, pai do personalismo, diz que ser é amar. Assim, entendemos que o ser de Deus é ser Deus, e Deus é amor. Logo, o ser é amor. Só somos, de fato, só existimos, de fato, só temos uma existência autêntica de fato - numa linguagem heideggeriana - quando amamos. E, aqui, Heidegger diria que a existência autêntica é o cuidado. Mas, quem ama cuida. As duas realidades estão intrisicamente ligadas. Assumamos para nós a pertença a esta aliança de amor, para podermos viver em nossa vida o ser de Jesus Cristo, no amor e no cuidado. Neste dia da posse nesta cátedra de Latrão, quero dar-vos o meu "plano de governo" para este nosso pontificado. Primeiro, o nome. Pensei em Gregório pensando em nosso fundador, pensando que a Igreja sempre recomeça, sempre se renova, sempre se reforma. Gregório pensando, também, no papa da realidade, Gregório Magno, que foi um grande reformador da liturgia e que junto de Santo Ambrósio foi um dos grandes responsáveis por inserir o canto na liturgia latina, o canto gregoriano. Depois, sem dúvidas, Gregório de Nissa e Gregório de Naziazo, grandes padres da Igreja, presentes no Concílio de Constantinopla, que foi tão relevante para a nossa fé trinitária contra o arianismo. Mais tarde, irei me encontrar com os cardeais, mas ressalto a todos alguns objetivos nos quais devemos fixar os olhos - embora nossos olhos sempre devam estar fixos em Jesus - para fazermos nosso caminho eclesial: valorização do laicato; fortalecimento do colégio presbiteral; revitalização dos colégios episcopal e cardinalício e dos organismos curiais; conclusão das reformas litúrgicas do Missal Romano e do Pontifical Romano; tudo isso em vista daquele objetivo maior que é a restauração da Evangelização como centralidade da atividade da Igreja. Confesso reconhecer que a medida é alta, mas, ou fixamos os olhos no melhor possível, ou rastejaremos como cobras, olhando aos erros dos outros e não corrigindo os próprios. Este objetivo só é possível mediante a corresponsabilidade e a sinodalidade. Que a autenticidade do nosso ser enquanto seguidores de Jesus se traduza também na autenticidade do nosso ser nos ministérios da Igreja. Assim seja! Amém.
quarta-feira, 20 de março de 2024
20.03.2024 | Dedicação do Altar de Velletri-Segni
Estimado Dom Odilo Pedro Cardeal Scherer, bispo titular desta Igreja de Velletri-Segni, amados irmãos e irmãs, estamos reunidos para dedicarmos a Deus este altar. Na igreja sempre ocupa um lugar especial o altar. O altar é o mais lugar sagrado em todas as celebrações. Jacó, na primeira leitura, prefigura a imagem do altar com àquela pedra, usada de travesseiro, que ungiu para usá-la de coluna sagrada, ou seja, de altar. No Antigo Testamento, era sobre o altar de pedra, no pátio do Templo de Jerusalém que se ofereciam os cordeiros, gados, pássaros, enfim, os animais sacrificados a Deus. Com Jesus Cristo, porém, a cruz torna-se altar, onde o Filho de Deus se faz sacerdote, altar e cordeiro, sacrificando-se e banhando a cruz com seu Sangue, levando a remissão dos pecados do mundo inteiro, uma vez por todas. Deste modo, o altar passa a ocupar um lugar central na vida do cristão: é o lugar da renovação da aliança, da presentificação do mistério Pascal, mistério da vida, mistério da fé e do amor, mistério da Salvação do mundo. Dentre tudo que temos dentro da igreja, nenhum lugar, nem mesmo o sacrário, é mais importante do que o altar. Sem o altar e sem o sacrifício, a oferta oferecida sobre o altar pelo próprio Deus, a igreja, o templo físico não teria sentido algum. É a mesa do altar, a mesa do banquete Divino e celeste no meio do seu povo, o centro de toda celebração e vida da Igreja, que tem como fonte e ápice a celebração da Eucaristia. Precisamos dedicar o nosso coração a Deus, oferecer a Ele o sacrifício do nosso coração, para que nos tornemos pedras vivas de sua Igreja. Porque, como disse Jesus à Samaritana no Evangelho: a adoração a Deus é em espírito e verdade. O altar é sim, importantíssimo. Mas, sem a comunidade entorno, reunida na fé, lhe falta algo. E o Concílio Vaticano II quis restaurar este costume justamente do altar como mesa e todos nós ao redor. Assim, o altar simboliza o coração, o ambão a boca de Deus, a cadeira presidencial é a cabeça do Corpo, a pia batismal é o útero dessa Igreja que é mãe, todos nós somos os membros desse Corpo. Por isso, cada um de nós é importante para a Igreja, que não seria completa sem quaisquer um de seus membros. E, o sacrifício que nós oferecemos sobre o altar, junto com o pão e o vinho, é nossa alma penitente, como diz o salmista: "Meu sacrifício é minha alma penitente!". A prece, a unção, a incensação e a iluminação que marcam este rito, oferecem a Deus, em primeiro lugar, este altar que é todo oferecido para Ele para ser seu sinal; e que nós dediquemos também o nosso coração, unjamos nosso ser, nos ofereçamos como a fumaça do incenso, para que, unidos ao Corpo de Cristo como povo de Deus, um dia nos unamos a Ele no banquete da vida, no altar do céu. Assim seja! Amém.
20.03.2024 | Reunião com os Bispos
Reunimo-nos hoje, não apenas como líderes da Igreja, mas como guardiões de uma fé viva e vibrante que é o coração pulsante de nossas comunidades. É com um espírito de fraternidade e responsabilidade que vos exorto a reacenderem a chama do vosso chamado episcopal. Como Bispos, sois chamados a serem mais do que figuras distantes; sois convocados a serem pastores visíveis e atuantes, presentes nas atividades da Igreja, nas missas do papa, dos arcebispos, e em cada celebração que une os fiéis em oração e adoração. Vós deveis ser vistos, excelências. Não recebestes as vossas mitras para deixá-las guardadas embaixo do colchão. Não! Vós tendes a missão de serem presentes e presença. Ser presença é ser marcante, e a nossa marca deve ser o doce odor do Cristo Bom Pastor. Por onde passamos, devemos deixar nossa marca de alegria, marca de esperança, marca de fé, marca de amor, de caridade. Recordai-vos, excelências, que o Bispo não é um mero padre, pároco ou capelão. Sois sucessores dos apóstolos, investidos com o tríplice múnus de ensinar, governar e santificar. Ao refletirmos sobre o nosso papel enquanto Bispos, é imperativo que compreendamos plenamente o tríplice múnus que nos foi confiado: o múnus de ensinar refere-se à nossa responsabilidade de pregar o Evangelho e ensinar como mestres. Somos os arautos da fé, chamados a trazer Cristo aos novos discípulos e a sermos os doutores autênticos da fé apostólica, munidos da autoridade de Cristo. Nós somos os guardiões do despositum fidei. O múnus de santificar nos lembra que como Bispos, somos encarregados de dispensar a graça do sumo sacerdócio, especialmente na Eucaristia, que oferecemos pessoalmente ou cuja celebração garantimos por meio dos presbíteros nossos cooperadores. Por isso que não se pode - algo que já vi reclamações - o Bispo concelebrar um presbítero. O presbítero é extensão do nosso braço. "Ah, mas na vida real eu já vi isso acontecer." Eu também já e mostra duas coisas: não temos clareza nem da teologia do sacramento da ordem e nem da Eucaristia. A Eucaristia é o centro da vida da Igreja particular, e por meio dela, juntamente com a nossa oração e trabalho, santificamos a Igreja. Por fim, o múnus de governar envolve dirigir as nossas Igrejas particulares como vigários e legados de Cristo, utilizando nossos conselhos, incitamentos e exemplos, mas também com autoridade e poder sagrado, que devem ser exercidos para edificação e no espírito de serviço do nosso Mestre. Talvez vossa excelência seja um bispo auxiliar, mas este múnus é partilhado pelo arcebispo com vossa excelência. Vejam, auxiliares, vós deveis ter proximidade com vosso arcebispo. Conversem, levem questões, partilhem do ministério. Muitas vezes o ministério é pesado porque não partilhamos. Vejam o papa tem a toda a chúria romana. Vós também deveis dividir as funções, partilhar o ministério. Se a arquidiocese vai mal, é culpa não só do arcebispo, mas culpa de todos, em primeiro lugar dos bispos. Tanto que nosso critério sempre é: fulano não sabe nem ser bispo auxiliar, como vai assumir um outro trabalho mais exigente? Não que ser bispo auxiliar seja simples, não. Mas, você está sobre o amparo de outro. Irmãos, sejam unidos e partilhem do ministério. Redescubram o papel do episcopado, que é fundamental para a orientação e crescimento espiritual do povo de Deus. No âmbito da formação presbiteral, urge que sejais ativos e próximos dos seminaristas. Acompanhai-os com sabedoria e amor, sendo vós mesmos formadores que inspiram e preparam a próxima geração de sacerdotes para os desafios e alegrias do ministério. Quantos seminaristas cada um aqui formou nos últimos meses? Os senhores podem e devem ser formadores diretos e se for o caso podem até ser reitores dos seminários. Isto, em nossa realidade, é função do bispo auxiliar também. Porque, às vezes, mal tem padre para o bispo auxiliar ajudar a cuidar, aí o bispo fica com as perninhas pra cima, descansando. Esta função também é dos arcebispos, a quem eu exorto a terem também seus seminaristas para formar. A atual apostila de formação só exige o acompanhamento e ainda assim a gente não acompanha. E, se não acompanha os seminaristas, muito menos acompanha os padres. Aí eles se dispersam, desistem, e ninguém sabe porquê. Porque falta, justamente, proximidade, meus queridos, proximidade. A Igreja clama por um senso renovado de corresponsabilidade. Este deve ser o alicerce de nosso serviço: uma colaboração frutífera que reflete o amor de Cristo pelo seu rebanho. A corresponsabilidade na Igreja, por sua vez, é um conceito que reflete a responsabilidade compartilhada entre todos os membros da comunidade eclesial. Significa que cada um de nós, impulsionado pelo Espírito Santo, deve contribuir ativa e generosamente para o bem comum, apoiando uns aos outros. Quando alguém se perde, quando algo deixa de ser feito, quando a missão não é bem cumprida, a culpa é de todos nós. Por isso, também a missão é de todos nós! Que este encontro reafirme nosso compromisso comum e fortaleça nossos laços de unidade e propósitos. Assim seja! Amém.
segunda-feira, 18 de março de 2024
19.03.2024 | Início do ministério de Bispo de Roma
Eminentíssimos senhores cardeais, excelentíssimos senhores bispos, reverendíssimos presbíteros, diáconos, religiosos e religiosas, amados irmãos e irmãs, estamos celebrando a Solenidade de São José, Esposo da Bem-Aventurada Virgem Maria, Padroeiro da Igreja Universal e dando início ao meu ministério como Bispo de Roma com a recepção do anel do pescador e do pálio pastoral. O anel nas antigas famílias vinha marcado com o brasão de família. Era uma herança que ia se passando, era sinal de pertencimento. O anel do pescador, por sua vez, novo a cada papa, também é sinal de uma herança e de pertencimento aos que sucedem daquele humilde pescador da Galileia, que tem sua imagem cravada no anel, e que se chama Pedro. A Pedro não foi prometida herança alguma, descendência alguma, mas ele teve sua sucessão initerrupta até os nossos dias. Esta Igreja, fundada sobre a rocha que é Pedro, foi confiada também a um homem, antes mesmo de ser Igreja: a José. A este homem, da descendência de Davi, que ia receber Maria como esposa, foi confiado Cristo. São José assumiu esta missão de ser o pai adotivo de Jesus como a missão de sua vida. Permanece ao lado de Maria para que ela não seja passada por infiel, não a abandona, cuida dela no parto, foge com ela para o Egito para que o menino não fosse morto... Um pobre carpinteiro. Ele ensinou ao Senhor Sapientíssimo, a ler as Escrituras, conhecer a Torá. Ensinou ao que vivia na intimidade do Pai a como rezar. Ensinou a Palavra que fez todas as coisas do mundo a profissão de carpinteiro. Ensinou ao que pediu licença para se encarnar, a respeitar sua mãe. A promessa feita pelo Senhor a Davi lá no livro de Samuel se cumpre em José. Que mesmo não sendo pai bilógico de Jesus, o transmite a sua descendência. E porque a ele foi confiado o cuidado de Jesus Cristo, foi confiada também a ele o Corpo místico de Cristo que é a Igreja. A oração coleta de hoje diz ainda mais forte: a ele foi confiado o cuidado dos mistérios da salvação humana e a Igreja deve conservá-los e levá-los a plenitude. Porque nós somos a descendência também de Abraão, da qual fala São Paulo na Carta aos Romanos, somos também herdeiros da promessa e povo da aliança. Somos essa posteridade inimaginável, incontável como as estrelas do céu, por meio da fé. Trazemos como Igreja, como cristãos, e pessoalmente, esta missão de cuidar da Igreja, de cuidar de Jesus. Cuidar da Igreja é cuidarmos desta nossa instituição, que é tão divina mesmo sendo tão humana. Cuidar de Jesus é cuidarmos da nossa fé, mas é também cuidarmos dos nossos irmãos e irmãs. Esta dupla característica nunca pode ser esquecida, senão caímos numa fé falsa. Temos que salvar as almas e os corpos. São João Crisóstomo diz para não adornarmos o altar e desprezarmos o corpo dos nossos irmãos e irmãs pobres, porque isso seria incoerência. A palavra-chave aqui é cuidado: cuidar da Igreja, cuidar da fé, cuidar do que está marginalizado. Mas, e aqui tem um mais muito importante, só é capaz disso quem tem coragem. O Evangelho que ouvimos nos diz que quando José resolve abandonar Maria, ainda em segredo, o anjo lhe aparece e diz: "Não tenhas medo de receber Maria como tua esposa.". Hoje o anjo nos diz:"Gregório - e diz o nome de cada um de nós - não tenha medo de tomar esta Igreja, de abraça-la como tua responsabilidade e de cuidar dela, de cuidar da fé, do depósito da fé e da vivência da fé, de cuidar dos que precisam de ti." Não tenhamos medo! Sejamos homens e mulheres corajosos para correspondermos a este chamado! Este chamado que é para todos nós, porque eu não sou a Igreja. Gregório IV é o papa, é o primeiro, é o que guia, mas a Igreja não se reduz a mim e nem toda a responsabilidade pela Igreja é minha. A Igreja é de Cristo e a Igreja é nossa! Por isso, todos somos corresponsáveis pela nossa Igreja. E vamos continuar patinando em tantas coisas enquanto não assumirmos essa corresponsabilidade, enquanto não entendermos que todos nós temos uma missão e devemos cumpri-la. Não há missão mais ou menos importante na Igreja, cada missão é única, especial e irrepetível, cada missão é modo de exercermos esse cuidado com o Corpo Místico de Cristo. Que São José nos ensine a sermos fiéis a Deus e a cuidarmos - todos juntos - desta nossa Igreja que é para nós herança dos que passaram e presença de Deus no nosso meio. Assim seja! Amém.
18.03.2024 | Missa pro Ecclesia
Saúdo Dom Jorge Snaif Cardeal Médici, digníssimo decano do Colégio Cardinalício, em nome do qual saúdo todos os eminentíssimos senhores cardeais aqui presentes e todos os demais irmãos que participam desta Eucaristia neste dia em que rezamos esta missa pela Igreja. A liturgia da Palavra que ouvimos, neste dia em que comemoramos a memória de São Cirilo de Jerusalém, nesta quinta semana da Quaresma, nos conta na primeira leitura a história de Susana. Não quero me tornar enfadonho na repetição da longa história de Susana, narrada pela profecia de Daniel, mas desejo que possamos colocar esta história na celebração que realizamos. Susana é a mulher bonita e temente a Deus. E dois anciãos foram nomeados juízes. Os dois, apaixonados por ela, queriam possuí-la. Por não poderem, fazem de tudo para acabar com ela. Daniel é aquele que pega os "dois velhos encarquilhados no mal" na mentira. Pois bem, Susana é a Igreja: bela, sempre exuberante, é a Igreja do Senhor. Os anciãos são os clérigos não mais velhos, mas, os que veem na Igreja um objeto de poder, de carreirismo, de crescimento. Estes não podem possuir a Igreja porque ela já pertence aos que a amam e acima de tudo pertence ao Senhor. Daniel é todo aquele que promove a Igreja. Talvez não tenha ficado muito claro o que quero dizer, portanto explico: a história de Susana, hoje, para nós, devem nos lembrar que no nosso meio pode ter gente que queira a Igreja para si, uma Igreja do seu jeito, uma Igreja de acordo com seus ideais, uma Igreja que faça as coisas conforme a pessoa pensa que deva ser. Mas, não é assim que funciona. E por mais que estes queiram desmerecer os outros, por mais que não queiram colaborar no ministério dos outros, por mais que fiquem como crianças emburradas que não conseguem o que querem e por isso fiquem prejudicando a Igreja, a Igreja é de Cristo, não se vende e não se compra. Mas a justiça sempre é feita. Àqueles que não amam a Igreja não tem lugar nela. Não tem! Além disso, o caso de Susana é um caso de tentativa de abuso sexhual. Por isso, ao rezar hoje pela Igreja, rezemos por todas as vítimas de abuso sexhual, de poder e de consciência por parte dos membros do clero, e por parte dos membros do nosso clero. Infelizmente achamos que isso não existe no nosso meio. Porém, existe e é nossa missão tirar quem soubermos dessa situação de nosso convívio. No Evangelho de hoje, esta perícope tão conhecida phor nós da mulher adúltera. Vejam como o caso de Susana se repete: os velhos, mesmo pecadores, foram levar àquela mulher para ser apedrejada. Isso é comprovado pelo fato de que quando Jesus diz que quem não tiver pecados deve ser o primeiro a atirar a pedra, eles não atiram. Eles se reconhecem pecadores. E nem Jesus condena a mulher, ele a perdoa e a ama. Percebamos, pois, que na Igreja não há espaço para julgar ninguém. Não há espaço para condenar alguns como os mais pecadores e elevar outros como os mais santos. - Mulher, ninguém te condenou? - Ninguém, Senhor. - Nem eu te condeno, vai e não peques mais. Quando chegam as pessoas até nós, na Igreja, nós não condenamos, não lascamos a doutrina em cima delas. Antes, primeiro nós as acolhemos e as amamos. Mesmo pecadoras. Mesmo "indignas" (como se nós fossemos mais dignos). Mesmo feridas e machucadas pelas estradas da vida que as fizeram chegar até aqui. Mesmo com tudo isso, nós acolhemos. A conversão vem depois, como um processo. Antes, acolher. Quando ver a fragilidade do teu irmão aqui dentro da Igreja, olha primeiro pra ti e veja se é lícito você condená-lo. Oxalá na nossa Igreja todos nos ajudassemos, oxalá ninguém quisesse tê-la para si, mas todos sermos para ela e sermos uns para os outros, como verdadeira comunidade dos filhos de Deus: Igreja santa, constituída por nós, homens tão fracos e pecadores, mas a caminho da santidade. Assim seja! Amém.
domingo, 17 de março de 2024
17.03.2024 | V Domingo da Quaresma
Meus amados irmãos, celebramos hoje o quinto Domingo da Quaresma. Relembremos dos domingos anteriores. Os primeiros três domingos ouvimos a narrativa das três primeiras alianças: Noé, Abraão e Moisés. No domingo passado vimos essa aliança rompida pelo povo, que teve como consequência o exílio na Babilônia. Hoje, nós estamos voltando deste exílio. Deus, pela boca do profeta Jeremias anuncia que firmará uma nova aliança. Esta nova aliança não precisará ser ensinada - como era o Shemá Israel - não precisará ser firmada, porque a pertença do povo a Deus, agora, será por um vínculo no coração, tão profundo e forte que nada pode romper. Isso posto, ouvimos no Evangelho que os gregos queriam ver Jesus por ocasião da festa da Páscoa. Estamos no Evangelho de São João já na terceira Páscoa de Jesus em Jerusalém, esta que foi a sua Páscoa. Os gregos não eram simplesmente gregos, pois ele foram adorar em Jerusalém. Então, ainda podiam ser politeístas, mas também já podiam ser gregos convertidos ao judaísmo. De qualquer modo percebemos que seja por uma tendência a fé ou seja já pela fé no Deus único, esses gregos já tinham cravada no seu coração a aliança. E Jesus, quando vai falar, não ensina com um discurso aos gregos, tão dotados de entendimento, mas usa as palavras mais simples para descrever àquele momento que estava chegando. De fato, irmãos, Jesus coloca o desapego da vida como critério aos que o querem seguir. Hoje, o que falta em nossa Igreja não é gente, não é uma questão de números. Falta-nos gente interessada e compromissada com a Igreja. Temos nomeações cheias, mas sempre estamos reclamando que falta gente para assumir as coisas. Entendemos que algo está errado? Quando reclamamos que sempre as mesmas pessoas ocupam as mesmas coisas; quando reclamamos que alguém mais jovem ocupou um posto hierarquicamente mais alto; não percebemos que algo está errado também conosco? Que talvez falte da minha parte demonstrar interesse, compromisso, desapego? E como é difícil nos desapegarmos da nossa vida, irmãos queridos! O próprio Senhor Jesus sentiu a angustia. Mas, ele próprio se questiona como se livrar disso, se esta é exatamente a sua missão? Meus irmãos, como não sermos compromissados com a Igreja se esta é nossa missão? Quando somos nós compromissados com a Igreja, nós glorificamos a Deus, assim como Jesus veio para em sua missão glorificar o Pai. A voz do Pai, no Evangelho que ouvimos, confirma a missão do seu Filho. Deus que outrora era inatingível, que pouquíssimos podiam ouvir falar, agora falou diretamente conosco, e fala ainda mais pela boca do Filho, e continua a falar hoje por meio das Escrituras. O Evangelho termina com Jesus falando que quando for levantado da terra, atraíra todos a sí. Somos atraídos por Jesus? Se fossemos, seriamos comprometidos com Jesus. Nós nos deixamos encantar por Jesus? Irmãos queridos, é preciso se encantar, se apaixonar pela pessoa de Jesus Cristo para poder desapegar-se da sua vida, para poder ser seu discípulo, para viver na nova e eterna aliança. Esta nova e eterna aliança, recorda-nos o autor da Carta aos Hebreus, foi firmada pela obediência do Filho ao Pai, não poupando a própria vida, para ser causa de salvação aos que lhe obedessem. Que nesta caminhada quaresmal, este êxodo para a Páscoa da Ressurreição, o Senhor crie em nós um coração que seja puro, capaz de atraír-se, capaz de encantar-se, capaz de compromissar-se, capaz de desapegar-se, capaz de firmar com Deus um pacto, uma aliança de amor, no Sangue de Jesus. Assim seja! Amém.
sábado, 16 de março de 2024
16.03.2024 | Discurso na sacada
quarta-feira, 6 de março de 2024
06.03.2024 | 3ª Colocação
"Jesus, sabendo que o Pai tinha colocado tudo em suas mãos e que de Deus tinha saído e para Deus voltava, levantou-se da mesa, tirou o manto, pegou uma toalha e amarrou-a na cintura.": Jesus só pode servir porque sabe seu lugar. Sabe o que ele era diante do Pai. Sabe que era Deus e sabe qual é sua missão. Por isso, ele é capaz de tirar o manto, ou seja, despojar-se de sua dignidade e assumir aquilo que era próprio de um servo. Se nós não tivermos consciência de quem somos, nós sempre vamos nos ter em alta conta e nunca seremos capazes de servir. Porque sempre nos acharemos mais importantes, sempre nos acharemos superiores, sempre acharemos que aquilo não nos cabe. E mesmo nossos ofícios importantes nós faremos mal feito, pois não os temos por serviço.
"Derramou água numa bacia e começou a lavar os pés dos discípulos, enxugando-os com a toalha com que estava cingido.":
segunda-feira, 4 de março de 2024
05.03.2024 | 2ª Colocação
Meus amados irmãos, estamos na segunda colocação do nosso retiro, cujo tema é "Por uma Igreja sinodal: 'levantou-se da mesa, tirou o manto, pegou uma toalha e amarrou-a na cintura.' (Jo 13, 4).". Ontem a tarde falamos sobre a pessoa sinodal e a conversão. Agora, vamos falar sobre os atributos da pessoa sinodal. Entendemos que precisamos nos converter. Mas, nos converter a quê? O primeiro e principal ponto é que a pessoa sinodal é capaz de escutar. O que o outro tem a nos dizer é sempre importante. Às vezes nós desvalorizamos demais as falas dos outros. Claro, tem outros que testam nossa paciência. Mas, mesmo que o outro nos fale algo que pareça-nos abobrinha, nos revela quem é o outro, como o outro pensa. A escuta é um valor profundamente humano. É próprio de Deus comunicar. No processo da Revelação, Deus é o primeiro que fala e abre a comunicação. Sempre é Deus que fala primeiro, e, a partir da nossa resposta, ele também nos escuta. Mas, primeiro ele fala e nós escutamos. Por isso, a escuta é um valor profundamente humano. Devemos ouvir em primeiro lugar a palavra de Deus e em seguida ouvir os que caminham conosco. Mas, escutar o outro nos provoca. Porque a própria presença e existência daquele que caminha conosco nos faz nos desinstalarmos. Nos desintamos primeiro pela Palavra de Deus. A Palavra de Deus nos move em uma direção, não nos deixa inerter. Mas, desinstalar-se e instalar-se são experiências sofridas no campo físico, muito mais é complexo no campo interior. E o que nos leva ao desinstalar-se é a própria Palavra de Deus. Se não escutarmos a palavra de Deus, não escutaremos os outros. Escutar é um modo de interessar-se pelo outro, é um modo de dizer-lhe: "a Igreja se importa com o seu sofrimento; você importa para a Igreja". Falhamos tanto quando não nos importamos com os outros... A escuta tem a ver com a prontidão. Estamos prontos e a espera. A qualidade da escuta define a qualidade da nossa resposta às pessoas e as suas situações. Na escuta e na resposta, nós devemos nos descentralizar para dar espaço a Cristo, para que ele escute e responda phor nós. Mas, isso não nos isenta da nossa obrigação da escuta. Pelo contrário, nos obriga a escutarmos como Jesus escutaria, a respondermos como Jesus responderia. O número 16 do relatório síntese da primeira sessão do Sínodo sobre a sinodalidade que está acontecendo na Igreja da realidade nos fala sobre a prioridade da escuta. Ao longo do processo sinodal, a Igreja encontrou-se com muitas pessoas e muitos grupos que pedem para ser escutados e acompanhados. Em primeiro lugar, os jovens, cujo pois há necessidade de uma opção preferencial pelos jovens. A Igreja deve escutar com particular atenção e sensibilidade a voz das vítimas e dos sobreviventes aos abusos sehxuais, espirituais, econômicos, institucionais, de poder e de consciência por parte de membros do clero ou de pessoas com cargos eclesiais. Devemos escutar, também a todos os que vivem uma condição de solidão como escolha de fidelidade à tradição e ao magistério da Igreja em matéria matrimonial e de ética sexhual, na qual reconhecem uma fonte de vida, ou seja, os homossexuais que querem viver conforme a moral da Igreja. Devemos escutar, também, as pessoas que se sentem marginalizadas ou excluídas pela Igreja, devido à sua situação matrimonial, identidade e sexualidade, pedem para ser escutadas e acompanhadas e que seja defendida a sua dignidade. Devemos escutar as pessoas que sofrem diferentes formas de pobreza, exclusão e marginalização dentro da sociedade na qual cresce inexoravelmente a desigualdade. Devemos escutar os idosos e os doentes e todos os que vivem sem dignidade. Mas, a escuta requer um acolhimento incondicional. Isto não significa abdicar da clareza ao apresentar a mensagem de salvação do Evangelho, nem apoiar qualquer opinião ou posição. O Senhor Jesus abria novos horizontes àqueles que escutava sem condições e somos chamados a fazer do mesmo modo para partilhar a Boa Nova com as pessoas com quem nos encontramos. Os novos tempos exigem de nós, porém, novas respostas. Além da escuta, outra característica da pessoa sinodal é o diálogo. O maior obstáculo ao diálogo, hoje, é que nos encontramos numa sociedade polarizada. Esta é um problema de visão de mundo dualista, onde acreditamos que há um lado essencialmente bom e outro essencialmente mau. Mas, não é assim que acontece entre as pessoas. Todas as pessoas são capazes do bem e do mal. Estamos no meio da ambiguidade da história, onde coexiste o bem e o mal. Se não tivermos isso como pressuposto, sempre iremos ao diálogo já armados, com respostas prontas, pensando que o outro lado é mau. Será que é mesmo? Ou será que eles só entenderam de um modo diferente que nós? E aí, correríamos o risco de afirmar que o meu lado é o certo. Sobretudo quando falamos sobre Deus, essa afirmação é perigosa. Deus é o absconditus et revelatus, ou seja, é o escondido que se revela. E, quando se revela, mostra que é inexaurível, que ainda há muito mais a revelar, e permanece como mistério. Mistério este que quanto mais nos aprofundamos, mas temos a nos aprofundar. Quando nos colocamos do lado certo em nossa perspectiva sobre Deus, nós nos fechamos a dimensão do mistério. Sem dúvidas, cremos que a revelação fundante de Deus encerrou-se com a morte do último dos apóstolos e o auge da Revelação é Jesus Cristo, e nada de novo há de ser revelado que não esteja de acordo como aquilo que já conhecemos sobre Deus. Mas, nas relações de diálogo, não podemos agir como detentores da razão e da plena ciência. Devemos escutar e responder não como conhecedores melhores de Deus, mas, como irmãos que se põem a caminhar juntos. Nem sempre se chegará a alguma conclusão. É mais fácil me apegar a verdades do que me abrir ao diálogo. Mas, aqui, corremos o risco de pensar que esse diálogo que falo está sobre ad extra ecclesia, só para fora da Igreja, mas, está também ad intra. Quando olhamos para dentro da Igreja, quando olhamos para dentro de nossas comunidades, percebemos que dentro delas há muita gente que não sabe dialogar. O diálogo revitaliza a comunhão e a Igreja é essencialmente comunhão. Às vezes, não temos diálogos, mas temos monólogos que correm em paralelo. De fato "no mais íntimo dos diálogos, a coincidência perfeita não nos é dada; nada me pode dar a certeza de que não haja qualquer coisa de mal-entendido, nada a não ser em raros e milagrosos momentos em que a certeza da comunhão é mais forte do que todas as análises, e que servem de viático para a vida inteira. Tal é a profunda solidão do amor; quanto mais perfeito este, mais aquela é sentida.", afirma o filósofo francês Emmanuel Mounier, pai do personalismo. O caminho do diálogo parte de uma experiência de auto-conhecimento. Às vezes, somos inseguros sobre nós mesmos. Então preciso olhar para mim, pois sem me conhecer ao me lanço ao outro, me firo e firo o outro. O outro não apenas confirma me confirma quando eu afirmo o outro, mas também pelo ser que o outro me entrega. Isto é, o outro me perturba, desestabiliza o que eu tinha como convicção e como hábito, e mesmo quando a presença do outro é hostil, o outro é o mais seguro revelador de quem eu sou. Entendida assim, a relação interpessoal positiva é aquela onde há uma recíproca provocação e fecundação. O outro, então, me despoja, retira dela uma opacidade egocêntrica e me leva pelo caminho mais curto ao conhecimento de mim mesmo. Sozinho, o homem se afirmaria cega e rigidamente, se consideraria autossuficiente. Mas, para que seja desvelado a si mesmo como outro, eu preciso aceitar o outro e aceitá-lo com o respeito pelo mistério que ele é, entendendo que ele me é semelhante e me mostra quem eu sou. Preciso me conhecer e preciso renunciar a mim mesmo. Preciso suspender-me para buscar o que pode unir-me ao outro. Isso não quer dizer que devo me abdicar dos meus valores e crenças, mas, quer dizer que não irei pô-los entre mim e o outro. O nosso exercício de meditação desta noite, antes da celebração penitencial, pode basear-se em Jo 4, 1-42, o diálogo com a samaritana. Então, nos perguntemos: eu dialógo como Jesus dialogava ou tem algo me impede de tornar o outro concreto e presente de tal modo que o diálogo e a comunhão possa acontecer, sem exceções? Além disso, podemos nos questionar nós, como clérigos, com o peso do Código de Direito Canônico, com os mandamentos da Lei de Deus, com a doutrina e uma moral a defender, como podemos acolher incondicionalmente? E, para cada um de nós: eu acolho incondicionalmente ou coloco limitações à minha escuta e acolhimento? Estou disposto a ter as mesmas feições de Jesus, que era pessoa sinodal? Um exercício ainda pode nos fazer bem: pensemos no grupo mais desafiador que foram apresentados pelo sínodo e pensemos: como eu posso acolher esta pessoa incondicionalmente, como Jesus acolheu a Samaritana?
04.03.2024 | 1ª Colocação
domingo, 3 de março de 2024
04.03 | Homilia abertura do retiro
Meus queridos irmãos, estamos aqui, com essa missa, iniciando o nosso retiro quaresmal neste ano de dois mil e vinte e quatro. Para fazermos bem o nosso retiro, precisamos entender o por que retirar-se. Retirar-se não é fuga do mundo e das suas preocupações. Retirar-se não é tempo de descanso. Retirar-se não é tempo de rezar juntos. Retirar-se não é momento de confraternização. Retirar-se é tudo isso, na verdade, mas não pode se resumir a isso. O tempo do retiro é um tempo de guerra do nosso coração. Estes três dias que viveremos deverão ser verdadeiros dias de luta interior, de um combate não espiritual e angélico do bem contra o mal no céu, mas um combate contra nós mesmos nos nossos corações. Quando nos retiramos, percebemos que o silêncio diz muito. Eu, como alguém ansioso, sei a dificuldade que temos com o silêncio. Mas, o silêncio diz muito. Um casal só percebe que se ama verdadeiramente quando podem se olhar, olhos nos olhos, em silêncio. O silêncio é inútil. Isso é uma verdade. Mas, não é porque é inútil, que não tem valor. Na sociedade em que estamos inseridos, onde o mais importante é produzirmos, produzirmos e produzirmos, o silêncio nos desestabiliza. E o silêncio não é apenas um silêncio exterior, mas é, sobretudo, um silêncio interior. Nosso retiro será feito por algumas colocações e algumas celebrações. Mas, este não é o essencial do retiro. Nosso objetivo é que passemos para a meditação em dois níveis: primeiro em nível Habbo; mas, depois, também em nível da realidade. O que vos proponho não é apenas útil aqui, mas útil também para a realidade. Por isso, será extremamente importante que deixemos que o retiro ecoe. Mas, para ecoar, precisamos ter um vazio. Já tentaram gritar num lugar cheio? Ele não produz eco. Para que a Palavra de Deus ecoe em nós, precisamos colocarmo-nos em sua presença vazios, esvaziados de nós mesmos, de nossos interesses. Por isso, é de extremo valor entendermos que se vamos a uma meditação, a uma oração, nós não encontraremos o que procuramos. Já perceberam isso? Que muitas vezes vamos para uma oração já pensando no que queremos como resposta? Vamos a procura do Senhor mas não lhe permitimos falar? Olhemos para as imagens de hoje: Naamã vai procurar Eliseu, com uma grande comitiva. Ele esperava que Eliseu ao menos fosse encontrá-lo. Ele esperava que o profeta de Deus agisse de um modo que não agiu. Então ele se desanima. Em Nazaré, esperavam um belo discurso de Jesus, mas Jesus já chega dizendo que ele não seria bem recebido ali e o povo já quer matá-lo por dizer que eles não eram dignos de nenhum sinal. Precisamos estar dispostos, nesse retiro, ao que Deus quer nos falar, mesmo que não entendamos o porquê. Por isso, o nosso método nesse retiro é o da meditação, que é uma conversação interior com Deus com a finalidade de unir-se a ele pelo amor. Ela pode ser feita em cima de uma imagem ou de uma frase, mas, o mais importante é permitir a ação do Espírito Santo. Às vezes o que nos desanima na oração é que estamos procurando consolação, que é aquele sentimento gostoso de preenchimento. Mas, não é porque não sentimos que a oração não faz efeitos. E aí eu pergunto: estamos buscando as consolações de Deus ou o Deus das consolações? Além disso, temos distrações intereriores e exteriores. É claro, não podemos deixar a nossa vida para trás, até porque Deus se revela na nossa história. Mas, não podemos deixar as preocupações assumirem o protagonismo. O tema do nosso retiro é "Por uma Igreja sinodal: 'levantou-se da mesa, tirou o manto, pegou uma toalha e amarrou-a na cintura.' (Jo 13, 4).". Que o Espírito Santo faça ecoar em nós a voz de Deus. Amém.