Deus eterno e todo-poderoso, dai-nos celebrar de tal modo os mistérios da Paixão do Senhor, que possamos receber vosso perdão. Amado Dom Jorge Snaif Cardeal Médici, Bispo Titular desta igreja de Palestrina, em nome do qual saúdo todos os irmãos e irmãs aqui presentes. Nesta Terça-feira Santa, pedimos a Deus, por meio da celebração da Paixão do Senhor, o perdão dos nossos pecados. O reconhecimento de ser pecador é o início do caminho da misericórdia. Pois não dá pra recebermos o perdão de Deus se antes não reconhecermos que precisamos deste perdão. O Evangelho de São João que hoje ouvimos está contextualizado dentro da última ceia, após o lava-pés. Estão presentes na narrativa dois traidores: Judas e Simão Pedro. Parece-nos estranho dizer isso, mas, também Pedro traiu Jesus aquela noite. Pedro traiu quando negou Jesus, quando disse que não o conhecia, quando preferiu a si mesmo e não ao Senhor. De fato, Pedro não entendia muito bem as coisas. Era um homem muito afobado. Pedro é aquele que afunda nas águas por duvidar, que diz a Jesus que nunca aconteça que ele passe pela paixão, que corta a orelha do servo do sumo sacerdote, que nega o seu Senhor. Pedro mostra que não entendeu. Ainda assim, é ele quem Jesus coloca como pedra da Igreja, pescador de homens, que confessa Jesus como o filho de Deus, como aquele que tem palavras de vida eterna, que corre ao túmulo para o ver vazio, que se joga ao mar ao reconhecer o Senhor ressuscitado e que revela entender os seus limites, os limites de seu amor, quando Jesus pergunta se Pedro o amava com um amor incondicional e Pedro só consegue responder que amava Jesus como um amigo. Pedro usou e abusou da misericórdia. Não foi um homem perfeito, mas foi alguém que atraiu para si o perdão de Deus. Nós também precisamos ter consciência da nossa fragilidade. Quem não tem conhecimento da própria fragilidade é como Judas Iscariotes. Judas era um dos doze, caminhava com Jesus, tinha a confiança, pois cuidava do dinheiro. Penso que Jesus o deixou com o dinheiro mesmo sabendo que Judas a roubava, esperando que ele reconhecesse seu erro e mudasse. Não me resta dúvidas que até o último momento, Jesus tentou salvar Judas. Mas, Judas não consegue dar esse salto para dentro de si, que o levaria a reconhecer sua miséria para recorrer à misericórdia. Porque, irmãos e irmãs, a traição de Judas Iscariotes não era necessária à salvação, como também não era necessário o julgamento de Pilatos e nem mesmo a condenação dos sacerdotes. Uma única gota de sangue de Deus derramado por amor à humanidade necessitada da misericórdia, necessitada da reconciliação, já seria capaz de nos salvar, já seria um sacrifício perfeito. Mas, Jesus permite-se ir até o extremo. Deste modo, Judas Iscariotes é o traidor, que melhor seria que não tivesse nascido. Nele estava Satanás, o espírito de divisão, e em seu coração era noite. Quando João fala: era noite, ele não fala apenas do horário do dia, fala também da escuridão no coração de Judas, da escuridão no coração que está distante de Deus, daqueles tão longe de experimentar a infinita misericórdia e o infinito amor de Deus. E na noite do coração de Judas, bem sabemos, ele se mata. Mas, Judas não se arrepende, de acordo com as narrativas bíblicas, o que nos levaria talvez a canonizar o Iscariotes. Judas sente remorso. Remorso não é arrependimento e não é fruto do amor. Aí, destaco um terceiro personagem que é o discípulo amado, que repousa no peito de Jesus. O discípulo amado sou eu, é você, é todo aquele que repousa, que deita no peito, no coração chagado por amor, naquele que tanto nos amou, naquele que nos mostrou pela sua cruz como é grande seu amor e sua misericórdia. Que nós saibamos, como João, repousar no coração de Jesus, como Pedro, insistir na misericórdia de Deus, para que em nossos corações nunca reine a noite que havia na coração do traidor. Assim seja! Amém.
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