quarta-feira, 6 de março de 2024

06.03.2024 | 3ª Colocação

Meus amados irmãos, estamos na terceira e última colocação do nosso retiro, cujo tema é "Por uma Igreja sinodal: 'levantou-se da mesa, tirou o manto, pegou uma toalha e amarrou-a na cintura.' (Jo 13, 4).". Finalmente chegamos na reflexão do texto bíblico que está no tema do nosso retiro. Se nosso objetivo foi falar de pessoa sinodal, de conversão sinodal, agora devemos falar desta perspectiva sinodal no humilde serviço e este serviço contraposto ao clericalismo. E, estamos num momento muito propício para esta reflexão por estarmos há alguns instantes de iniciarmos uma Ordenação Episcopal. Um obstáculo ao ministério e a missão dentro da Igreja é o clericalismo. O clericalismo é uma má compreensão da vocação, que nasce da compreensão do ministério ordenado como um privilégio, como um poder humano. A atitude clericalista pode se manifestar também nos leigos. Clericalismo não está ligado ao jeito de se vestir ou de celebrar, embora ligarmos um com outro muitas vezes é por causa do mal testemunho dos que usam as vestes clericais. O sinal faz sentido quando precisa ser mostrado. A veste diferente do clérigo não é para se impor. O clérigo não está para se impor. E o único remédio para o clericalismo é considerarmos a igual dignidade Batismal. Entendamos, aqui, queridos irmãos e irmãs, o principal não é a ordem ou o matrimônio, o principal é o Batismo. O Batismo é a ação da graça de Deus em nós que nos faz membros do Corpo de Cristo que é a Igreja, e nos torna reis, profetas e sacerdotes, rainhas, profetizas e sacerdotizas. E esse sacerdócio já é participação no sacrifício de Cristo, nos capacitando para oferecermos a Deus sacrifícios de louvor. O sacerdócio ministerial, que é dos Bispos e dos padres como uma extensão do Bispo, é o sacerdócio como serviço a comunidade, pois em nome da comunidade o presidente da celebração eucarística, oferece ao Pai o sacrifício de Cristo e na pessoa de Cristo. Mas, esse poder não é um poder do padre ou do Bispo, é um poder de Cristo, que a Igreja lhe confere pela ação do Espírito Santo. Isto não torna o sacerdote ministerial superior a nenhum leigo ou a nenhum religioso. Dentro da Igreja não há superiores e inferiores, todos temos a mesma dignidade batismal. O que existe, são diferentes ministérios. E os ministérios existem para servirem-se multualmente. Santo Agostinho dizia aos seus fiéis: "se me amedronta o que sou para vós, consola-me o estar convosco. Para vós sou Bispo; convosco sou cristão. Aquele é nome de ofício, este o da graça." O santo Bispo compreende que é mais importante é a ação da graça que o faz cristão do que o ofício de Bispo. Ele era mais feliz por ser cristão do que por ser Bispo. E, aqui, pensemos no termo usado: ofício. Cargo é honra. Santo Agostinho usa ofício, que é comprometimento e missão. Nosso ofício nos compromete. Se pensarmos a constituição hierarquica da Igreja, a imagem triangular que temos deveria ser invertida. Nesta pirâmide invertida, o papa é o que está abaixo de todos, como servo dos servos de Deus e os leigos estão acima de todos. Mas, talvez nem esta imagem caiba. Eu prefiro desenhar com um círculo grande, e dentro deste estão três outros círculos: os clérigos, os religiosos e os leigos. E dentro deste círculo dos clérigos, outro que é dos diáconos, e dentro deste outro que é dos presbíteros, dentro deste outro que é dos Bispos, dentro deste outro que é do Romano Pontífice. Ou seja, não é uma hierarquia organizada para dominar, mas, para servir. São Charles de Foucauld dizia que devemos, sim, assumir o ultimo lugar como manda Jesus, mas, Jesus Cristo já assumiu de tão modo o últomo lugar que ninguém mais lhe pode tirar. Então, teremos que nos contentar como o penúltimo lugar. Isto é humildade. Devemos estar abaixo de todo homem, como plena consciência de nós mesmos. Consciência de si é não ter alta conta de si mesmo. Consiência de si não é ter baixa alto-estima. Quem tem consciência de quem é, sabe o que é, e não tem medo de se abaixar. Às vezes podemos ser elogiados, mas, não podemos nos ensoberbecer. Precisamos deixar de lado tudo que não convém, mesmo que seja digno, para o seguimento de Cristo. E, aqui, há uma imagem tão conhecida por nós, mas, às vezes, tão mal entendida que é a do lava-pés. 
"Jesus, sabendo que o Pai tinha colocado tudo em suas mãos e que de Deus tinha saído e para Deus voltava, levantou-se da mesa, tirou o manto, pegou uma toalha e amarrou-a na cintura.": Jesus só pode servir porque sabe seu lugar. Sabe o que ele era diante do Pai. Sabe que era Deus e sabe qual é sua missão. Por isso, ele é capaz de tirar o manto, ou seja, despojar-se de sua dignidade e assumir aquilo que era próprio de um servo. Se nós não tivermos consciência de quem somos, nós sempre vamos nos ter em alta conta e nunca seremos capazes de servir. Porque sempre nos acharemos mais importantes, sempre nos acharemos superiores, sempre acharemos que aquilo não nos cabe. E mesmo nossos ofícios importantes nós faremos mal feito, pois não os temos por serviço.
"Derramou água numa bacia e começou a lavar os pés dos discípulos, enxugando-os com a toalha com que estava cingido.":
Para lavar os pés, é preciso se abaixar. Não dá pra lavar os pés em pé. Se abaixar é fazer-se menor que os outros. Somos capazes de nos fazermos menores ou na nossa visão de clérigos por sermos quem somos, somos mais importantes?
"Depois de ter lavado os pés dos discípulos, Jesus vestiu o manto e sentou-se de novo. E disse aos discípulos: “Compreendeis o que acabo de fazer? Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, pois eu o sou. Portanto, se eu, o Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Dei-vos o exemplo, para que façais a mesma coisa que eu fiz.”"
Nem sou capaz de, na dinâmica deste retiro, comentar este último trecho. Ele deveria ecoar forte em nós pelo restante desta Quaresma. Fazer o que Jesus fez é coisa para gente muito corajosa. Ser pessoa sinodal e se converter é para quem tem coragem. Escutar, dialogar e acolher incondicionalmente é para quem tem coragem de ir contra si mesmo se for preciso. Ocupar o último lugar, ser humilde, deixar de lado o clericalismo, é para quem tem coragem. Ser cristão é para quem tem coragem. Pergunte-se e medite: Eu tenho coragem de seguir Jesus Cristo, até as últimas consequências do seu seguimento? Tomando suas feições? Me assemelhando a ele? Ou, estou sendo um falso cristão? Não há meio termo. Que este retiro nos anime e dê coragem para fazermos uma Igreja sinodal, mas, sobretudo, para seguirmos Jesus Cristo. Amém.

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