Amados irmãos e irmãs, neste dia em que tomo posse dessa cátedra do Bispo de Roma, quero saudá-los com alegria e afeto, especialmente aos clérigos que aqui residem, nesta Igreja que preside na caridade todas as Igrejas. A liturgia de hoje reforça para nós a figura de Deus como o Deus da aliança. Deus, cantou o salmista, se lembra sempre da aliança. Que aliança é essa? É a aliança firmada com nossos pais. Aliança firmada, primeiro com Noé. Aliança renovada em Abraão. Aliança renovada em Moisés. Ouvimos na primeira leitura a promessa da parte de Deus para a aliança: terra e descendência. Mas, a terra e a descendência não vieram com facilidade. A descendência porque Sara era estéril. Abraão, como sabemos engravida a escrava e tem seu filho Ismael. Mas, Ismael não é o filho da promessa. O filho da promessa viria de Sara, Isaac. Então, vem a descendência de Abraão. A terra prometida será ainda mais difícil de ser conquistada. O neto de Abraão, Jacó, já vai com seus filhos para o Egito e lá o povo será feito escravo. Deste povo, Deus suscita Moisés, com quem refaz a aliança. E o episódio simbólico e importante para essa aliança com Moisés é o episódio da sarça ardente, quando Moisés recebe sua missão e Deus revela seu nome, o tetagrama IHWH, impronunciável, mas, que diz: EU SOU. Deus é aquele que é, o que era, o que será. Deus é o existente. No diálogo do Evangelho, Jesus interliga as duas alianças e as duas figuras e experiências de Deus: de Abraão e Moisés. Se ontem Jesus dizia aos judeus que eles não eram filhos de Abraão por não terem as mesmas obras de Abraão, hoje Jesus diz que Abraão exultou por ver o dia de sua vinda. Jesus se revela como aquele no qual a promessa da descendência, da terra, serão plenamente cumpridas. Não mais uma descendência sanguínea e uma terra enquanto espaço, mas, todos somos feitos filhos e filhas de Deus, povo da aliança, herdeiros da terra prometida, que para nós é a Jerusalém celeste, é estarmos eternamente na presença de Deus. Diante da dúvida dos judeus, Jesus então afirma categoricamente: “Em verdade, em verdade vos digo, antes que Abraão existisse, EU SOU”. Sim, irmãos e irmãs, Jesus se revela, aqui, como Deus. Ele é o preexistente, o que era, o que é, o que será. Ele é o ser, Ele é o "EU SOU". Ser, para a filosofia, bem sabemos, é um tópico extremamente importante. De modo particular, o filósofo francês Emmanuel Mounier, pai do personalismo, diz que ser é amar. Assim, entendemos que o ser de Deus é ser Deus, e Deus é amor. Logo, o ser é amor. Só somos, de fato, só existimos, de fato, só temos uma existência autêntica de fato - numa linguagem heideggeriana - quando amamos. E, aqui, Heidegger diria que a existência autêntica é o cuidado. Mas, quem ama cuida. As duas realidades estão intrisicamente ligadas. Assumamos para nós a pertença a esta aliança de amor, para podermos viver em nossa vida o ser de Jesus Cristo, no amor e no cuidado. Neste dia da posse nesta cátedra de Latrão, quero dar-vos o meu "plano de governo" para este nosso pontificado. Primeiro, o nome. Pensei em Gregório pensando em nosso fundador, pensando que a Igreja sempre recomeça, sempre se renova, sempre se reforma. Gregório pensando, também, no papa da realidade, Gregório Magno, que foi um grande reformador da liturgia e que junto de Santo Ambrósio foi um dos grandes responsáveis por inserir o canto na liturgia latina, o canto gregoriano. Depois, sem dúvidas, Gregório de Nissa e Gregório de Naziazo, grandes padres da Igreja, presentes no Concílio de Constantinopla, que foi tão relevante para a nossa fé trinitária contra o arianismo. Mais tarde, irei me encontrar com os cardeais, mas ressalto a todos alguns objetivos nos quais devemos fixar os olhos - embora nossos olhos sempre devam estar fixos em Jesus - para fazermos nosso caminho eclesial: valorização do laicato; fortalecimento do colégio presbiteral; revitalização dos colégios episcopal e cardinalício e dos organismos curiais; conclusão das reformas litúrgicas do Missal Romano e do Pontifical Romano; tudo isso em vista daquele objetivo maior que é a restauração da Evangelização como centralidade da atividade da Igreja. Confesso reconhecer que a medida é alta, mas, ou fixamos os olhos no melhor possível, ou rastejaremos como cobras, olhando aos erros dos outros e não corrigindo os próprios. Este objetivo só é possível mediante a corresponsabilidade e a sinodalidade. Que a autenticidade do nosso ser enquanto seguidores de Jesus se traduza também na autenticidade do nosso ser nos ministérios da Igreja. Assim seja! Amém.
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