sábado, 23 de março de 2024

23.03.2024 | Domingo de Ramos da Paixão do Senhor

Amados irmãos e irmãs, estamos celebrando o Domingo de Ramos da Paixão do Senhor. Este dia que une numa só celebração estes dois grandes momentos: o da entrada triunfal de Jesus em Jerusalém e de sua Paixão. Na verdade, falamos de duas entradas aqui, a entrada em Jerusalém e a entrada na morte. Estas duas entradas estão intrisicamente ligadas. Jesus, ao entrar na cidade de Jerusalém, está entrando para morrer. Ele já tem consciência que a sua missão culminaria ali, que a oferta de sua vida a ser concretizada no alto da cruz, começaria com sua entrada em Jerusalém. No Evangelho de São Marcos que ouvimos no início da procissão, o evangelista coloca na boca do povo ali reunido: "Bendito o rei que vai começar". Jesus iniciaria seu reinado pela cruz. Aclamamos hoje o Cristo Rei, mas não nos esqueçamos que aclamamos a um rei diferente, cujo trono foi a cruz, cuja coroa é de espinhos, cuja capa é seu próprio sangue, cujo cetro em suas mãos são os pregos, mas, que inaugura um reino sem fim, um reino que não conhece ocaso, um reino de justiça. E o inaugura em sua cruz. Tudo o que veio antes, toda a pregação, foi anuncio deste reino, foi preparação para este reino. Agora ele será concretizado na cruz, estabelecido, firmado. Porque na cruz nós recuperamos a aliança com Deus. Na cruz nós fomos reconciliados. Na aparente derrota, Jesus sabe que não será humilhado, como o servo do terceiro cântico que ouvimos na primeira leitura. Ele foi exaltado na obediência até a morte e morte de cruz, como canta São Paulo no hino da Kênosis, na carta aos filipenses que ouvimos. Dentre tudo que poderíamos dizer do Evangelho de São Marcos, pensemos na experiência de abandono de Jesus em dois momentos. O primeiro momento é o pedido ao Pai que afaste dele o cálice, mas que se fizesse a vontade de Deus. O segundo momento é o grito do salmista colocado por São Marcos na boca de Jesus: Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste? Sim, irmãos e irmãs, àquele que havia vivido na comunhão plena com o Pai, àquele que conversava com Deus de um modo superior ao de qualquer outro que outrora tinha existido, agora sente a experiência do distanciamento do Pai. Jesus experimenta o silêncio de Deus. E nós também o experimentamos. Muitas vezes experimentamos o silêncio de Deus nas nossas doenças, nos nossos sofrimentos, nas nossas dificuldades, nos momentos onde nos sentimos sozinhos e abandonados. Experimentamos o silêncio de Deus enquanto humanidade, quando nos perguntamos, onde estava Deus em Auschwitz? Onde está Deus nas crianças que morrem de fome ou de câncer? Onde está Deus nos que morrem nos terremotos e tsunamis? Onde está Deus naquela pessoa em situação de rua que morre de frio? Hoje, Jesus nos responde que Deus está sofrendo em todas essas situações. Porque o Filho não foi abandonado pelo Pai, mas ressuscitou. Porque o Filho que grita o abandono de Deus, é o próprio Deus. Deus está naquele que sofre. Ele pode não responder. Mas, está no que sofre, sofrendo junto. Deus sofre conosco e sofre em nós. Além daquele poema que coloca Deus ao lado do que sofre, Ele está no que sofre. Nunca estamos abandonados. Nunca estamos sozinhos. Os que pertencem ao reino inaugurado por Jesus na cruz, nunca experimentarão a completa solidão. Os judeus gritaram Hosana, que quer dizer, "salva-nos", e fomos, de fato, na cruz e ressurreição, salvos para sempre, salvos para a vida, e a vida em Deus. Assim seja! Amém.

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