domingo, 3 de março de 2024

04.03 | Homilia abertura do retiro

Meus queridos irmãos, estamos aqui, com essa missa, iniciando o nosso retiro quaresmal neste ano de dois mil e vinte e quatro. Para fazermos bem o nosso retiro, precisamos entender o por que retirar-se. Retirar-se não é fuga do mundo e das suas preocupações. Retirar-se não é tempo de descanso. Retirar-se não é tempo de rezar juntos. Retirar-se não é momento de confraternização. Retirar-se é tudo isso, na verdade, mas não pode se resumir a isso. O tempo do retiro é um tempo de guerra do nosso coração. Estes três dias que viveremos deverão ser verdadeiros dias de luta interior, de um combate não espiritual e angélico do bem contra o mal no céu, mas um combate contra nós mesmos nos nossos corações. Quando nos retiramos, percebemos que o silêncio diz muito. Eu, como alguém ansioso, sei a dificuldade que temos com o silêncio. Mas, o silêncio diz muito. Um casal só percebe que se ama verdadeiramente quando podem se olhar, olhos nos olhos, em silêncio. O silêncio é inútil. Isso é uma verdade. Mas, não é porque é inútil, que não tem valor. Na sociedade em que estamos inseridos, onde o mais importante é produzirmos, produzirmos e produzirmos, o silêncio nos desestabiliza. E o silêncio não é apenas um silêncio exterior, mas é, sobretudo, um silêncio interior. Nosso retiro será feito por algumas colocações e algumas celebrações. Mas, este não é o essencial do retiro. Nosso objetivo é que passemos para a meditação em dois níveis: primeiro em nível Habbo; mas, depois, também em nível da realidade. O que vos proponho não é apenas útil aqui, mas útil também para a realidade. Por isso, será extremamente importante que deixemos que o retiro ecoe. Mas, para ecoar, precisamos ter um vazio. Já tentaram gritar num lugar cheio? Ele não produz eco. Para que a Palavra de Deus ecoe em nós, precisamos colocarmo-nos em sua presença vazios, esvaziados de nós mesmos, de nossos interesses. Por isso, é de extremo valor entendermos que se vamos a uma meditação, a uma oração, nós não encontraremos o que procuramos. Já perceberam isso? Que muitas vezes vamos para uma oração já pensando no que queremos como resposta? Vamos a procura do Senhor mas não lhe permitimos falar? Olhemos para as imagens de hoje: Naamã vai procurar Eliseu, com uma grande comitiva. Ele esperava que Eliseu ao menos fosse encontrá-lo. Ele esperava que o profeta de Deus agisse de um modo que não agiu. Então ele se desanima. Em Nazaré, esperavam um belo discurso de Jesus, mas Jesus já chega dizendo que ele não seria bem recebido ali e o povo já quer matá-lo por dizer que eles não eram dignos de nenhum sinal. Precisamos estar dispostos, nesse retiro, ao que Deus quer nos falar, mesmo que não entendamos o porquê. Por isso, o nosso método nesse retiro é o da meditação, que é uma conversação interior com Deus com a finalidade de unir-se a ele pelo amor. Ela pode ser feita em cima de uma imagem ou de uma frase, mas, o mais importante é permitir a ação do Espírito Santo. Às vezes o que nos desanima na oração é que estamos procurando consolação, que é aquele sentimento gostoso de preenchimento. Mas, não é porque não sentimos que a oração não faz efeitos. E aí eu pergunto: estamos buscando as consolações de Deus ou o Deus das consolações? Além disso, temos distrações intereriores e exteriores. É claro, não podemos deixar a nossa vida para trás, até porque Deus se revela na nossa história. Mas, não podemos deixar as preocupações assumirem o protagonismo. O tema do nosso retiro é "Por uma Igreja sinodal: 'levantou-se da mesa, tirou o manto, pegou uma toalha e amarrou-a na cintura.' (Jo 13, 4).". Que o Espírito Santo faça ecoar em nós a voz de Deus. Amém.

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