sábado, 23 de março de 2024

24.03.2024 | Sermão das 7 palavras

Queridos irmãos e irmãs, estamos aqui neste Domingo de Ramos da Paixão do Senhor, para meditar as sete palavras de Jesus na cruz. A reflexão que escolhi fazer não é de minha autoria, mas, foi elaborada pelo jesuíta Pe. Adroaldo Palaoro, com alguns pouquíssimos acréscimos de minha parte. Não quero propor uma reflexão, mas, quero refletir convosco. Deixemo-nos, pois, penetrar no mistério da Paixão do nosso redentor, que solenemente celebramos neste domingo.
 
1. Primeira palavra: “Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem” (Lc 23,34)
Jesus, na sua vida pública, sempre revelou o perdão do Pai; no encontro com os pecadores deixou transparecer a misericórdia reconstrutora de Deus. O perdão foi a marca de sua vida e deve ser também a marca dos seus seguidores. É difícil perdoar: a dor, o orgulho, a própria dignidade, quando é violentada, grita pedindo “justiça”, buscando “reparação”, exigindo “vingança”... Mas, perdão? Surpreende-nos que Jesus na Cruz seja capaz de continuar vendo humanidade em seus verdugos; Ele é capaz de continuar crendo que há esperança para aqueles que cravam seus semelhantes na Cruz. Porque, esta palavra de perdão, dita a partir do madeiro, é sobretudo uma declaração eterna: o ser humano, todo homem e toda mulher, conserva sua capacidade de amar nas circunstâncias mais adversas. E todo ser humano, até aquele que é capaz das ações mais atrozes, continua tendo um germe de humanidade em seu interior e que permite que haja esperança para ele. Perdoar é atrever-se a ver o que há de verdadeiro, de beleza em cada um. O perdão é capaz de ver dignidade e faísca de humanidade escondida no coração do verdugo. O perdão abre futuro, destrava a vida e não se deixa determinar pelos erros do passado; ele quebra distâncias, nos faz descer em direção à fragilidade do outro, ao mesmo tempo que revela nossa fragilidade. É enquanto pecadores que somos chamados a perdoar e não enquanto justos. Por isso, no perdão é onde mais nos assemelhamos a Deus, pois só Ele podia inventar o perdão.
 
2. Segunda palavra: “Hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23,43) 
Jesus sempre viveu “em más companhias” e agora morre entre dois ladrões. Mais uma vez, não assume o papel de juiz sobre dos outros mas oferece uma nova chance de salvação. O moribundo que dá vida: presença solidária, que, mesmo em meio ao pior sofrimento, oferece companhia a outros sofredores. Um dos ladrões, impactado pela serenidade e testemunho de Jesus “rouba o paraíso”. Ou, ainda, Jesus rouba o ladrão para si. Só sua presença, seu olhar, é capaz de converter àquele homem. Ali, crucificado, Jesus nos mostra como é grande o amor. Jesus revela uma promessa que muitas pessoas precisam ouvir hoje, sobretudo aqueles que carregam cruzes injustas e pesadas, que vivem realidades atravessadas pela dor, pela solidão, dúvida, incompreensão ou pranto... Como soarão estas palavras no interior de cada um de nós: “Hoje estarás comigo no Paraíso” 
Hoje: porque as mudanças, a nova criação, a humanidade reconciliada, não tem que esperar mais; hoje, agora, já...; talvez esse “hoje” não chega é por causa de tantas pessoas que não decidem, não optam, esperam sentadas...
Comigo: promessa de viver em sua companhia e desperta ecos de uma plenitude que não conseguimos entender.
No paraiso: que não é um mítico Eden, mas lugar de plenitude de vida, onde não haverá mais pranto, nem dor; realidade já presente onde habitará a justiça e a paz.

3. Terceira palavra: "Mulher, eis o teu filho; filho, eis a tua mãe” (Jo 19,26)
Maria, mulher do “sim”; “sim” que se prolonga até à Cruz, onde, de pé, revela sua presença materna e consoladora junto a seu Filho Jesus. A presença de Maria na vida de Jesus não é acidental: foi aquela que mais amou, conheceu e seguiu Jesus. Ela agora é nossa referência fiel no seguimento do seu Filho
 
5. Quinta palavra: “Tenho sede...” (Jo 19,28)
Jesus sempre foi um homem “sedento”: fazer a vontade do Pai, realizar o Reino, compromisso com a vida, presença solidária junto aos sofredores, fazer conhecido a Deus como Pai. Agora grita sua derradeira sede: um mundo sem dor, sem exclusão, sem violência. Jesus tem sede de justiça, sede de paz, sede de amor, sede de corações. Grita o homem com a garganta ressequida: sede na garganta e sede no coração. Sede expansiva, sede que descentra. Há alaridos, e também sussurros, todos carregados de sensibilidade dolorida. O grito de Jesus na Cruz recolhe todos esses brados da humanidade quebrada. E não há explicação; não há sentido; não há justiça. Só um grito a mais. A sede de Jesus desperta em nós outras “sedes”: de quê tenho sede? Sede de sonhos, de mundo novo... Sede mobilizadora que ativa as melhores energias dentro de nós, que desperta nossa criatividade... Sede que purifica nossa capacidade de escutar os gritos, de perto e de longe. O quê fazer? “Quem tem sede venha a mim e beba”. Quem não tem sede não busca, não cria.
 
6. Sexta palavra: “Tudo está consumado” (Jo 19,30)
Parece contradição alguém dependurado na Cruz afirmar que tudo está consumado; tem-se a impressão de fracasso total. Mas na Cruz Jesus leva até às últimas consequências sua Encarnação: mergulha e se faz solidário com todos os crucificados da história. “Desce” até às profundezas do sofrimento humano e ali revela a presença do Deus compassivo. No alto da Cruz, Jesus tem consciência que não viveu em vão; sua presença fez a diferença; viveu para os outros. Jesus morre com as mãos cheias de vida; gastou a vida a serviço da vida; deixou pegadas nos corações de quem encontrou pela vida. “Jesus morreu de tanto viver”. Morreu de bondade, de compaixão, de justiça. Jesus teve um “caso de amor” com a vida; viveu intensamente. Uma vida consumada faz fecunda a morte. Uma história consumada de Amor. Vida consumada quando se consome no serviço aos outros. Jesus desencadeou um movimento de vida. Está consumada a obra da reconciliação de Deus com os homens: o paraíso fechado a nós pelo pecado, agora foi aberto. O preço da nossa culpa, da ofensa infinita que realizamos contra Deus, foi paga pela oferta infinita do Filho, de Deus mesmo. A nossa desobediência cedeu lugar à obediência do Filho, que consuma em sua vida o projeto de amor da Trindade.
 
7. Sétima palavra: “Pai, em tuas mãos entrego meu espírito” (Lc 23,46)
Só quem viveu intensamente uma vida expansiva pode acolher a própria morte com paz, confiança, serenidade e abandono nos braços do Pai. Jesus morre como tinha vivido: ancorado na confiança do Pai. Jesus, que sempre prolongou as mãos do Pai, agora entrega-se confiadamente nos braços do mesmo Pai. Jesus sempre viveu em profunda sintonia com o Pai; agora Ele dá um “salto vital” nos braços do Pai. Ao “entregar seu espírito” Jesus é “aspirado” para dentro de Deus. A morte nos inspira medo; mas na morte, somos todos iguais, sozinho diante de Deus. A morte é a última ponte que nos conduz ao Pai. Seremos abraçados do outro lado da ponte. Nosso destino é o coração de Deus. Não só na hora da morte, mas a cada dia somos chamados a “entregar o espírito”; num mundo em que todos buscam seguranças, que em tudo querem ter “salva-vidas”, num mundo que nos convida a ter as costas cobertas... queremos arriscar, apostar pelo Reino; queremos nos sentir confiados, atravessar tormentas ou espaços serenos, sentindo-nos protegidos pelas mãos do Pai. Mãos que curam, acariciam, sustentam... Jesus não simplesmente entra na morte, ele se lança nela, para que nós nunca saibamos o que é se distanciar de Deus eternamente, ele experimenta a distância do Pai em quem confiou plenamente. E o Pai não o deixará desamparado, mas, numa ação de plena comunhão Trinitária, o Filho ressuscita e estará para sempre com o Pai e o Espírito Santo, onde vivem e reinam pelos séculos dos séculos.

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