Amados filhos e filhas, os quais saúdo em nome do Mons. Ruan Oliveira, pároco deste Santuário, a quem agradeço pela deferência e amizade. Na tarde de ontem iniciamos um novo ano litúrgico com o Tempo do Advento. Este é o primeiro dia do ano litúrgico e o primeiro domingo do Advento. Este ano é o ano A, no ciclo dominical de leituras, e estaremos sendo conduzidos pelo evangelho de São Mateus em quase todos os domingos deste ano. São Mateus apresenta Jesus Cristo como o Emanuel, o Deus conosco. Esta é principal característica do seu Evangelho. São Mateus apresenta para nós o intinerário do discípulo de Jesus e ressalta a figura do nosso divino Salvador como nosso Mestre. Somos convidados, portanto, neste novo ano, a acompanhar a vida de Jesus, próximos Dele como seus discípulos e discípulas, crendo que Deus está no meio de nós e Ele próprio é nosso Mestre e Redentor. Este primeiro domingo do Advento que celebramos traz-nos o tema da vigilância. Muitas vezes este tema passa tão batido por nós, pois consideramos esgotado tudo aquilo que poderiamos falar sobre ele. Mas, devemos sempre nos recordar que mistério grandioso é este da vinda do nosso Salvador. São Cirilo de Jerusalém nos recorda que nós estamos num tempo específico de refletirmos as duas vindas de Cristo: a primeira, quando encarnou-se em Maria, e a segunda, quando vier pela segunda vez revestido de poder e glória. Nós, que estamos entre estas duas vindas, devemos viver sempre preparados para o momento do nosso encontro definitivo com o Senhor, quer pela morte, quer pela segunda vinda. Há uma tradição judaíca que diz que não sabemos qual o último dia de nossa vida, por isso, devemos viver sempre como se fosse o último dia. Chegará o momento em que o dia sem fim do Cristo será a nossa eterna realidade, e nós devemos aguardar ansiosos por esse momento. É o próprio Jesus que no Evangelho que ouvimos nos diz: vigiai! Um outro aspecto desta liturgia, filhos e filhas, é a luz. O livro da Sabedoria falou de deixar-se guiar pela luz e São Paulo nos interpelou a revestirmo-nos das armas da luz. Que luz é essa? É a luz do próprio Cristo. Neste Advento, quando aguardamos em alegre expectativa a vinda do Senhor, possamos mudar as nossas atitudes. Deixemos de ser filhos das trevas, deixemos para trás as atitudes das trevas, as fofocas, as brigas, o desamor, o ódio, os discursos que ferem, os exageros que ferem a nossa dignidade humana, e vivamos como filhos da luz. Que é vivermos como filhos da luz? É não sermos pessoas amargar, mal amadas, mas, pelo contrário, resplandecermos onde estivermos, levando a alegria, fazendo bem aos que estão ao nosso redor, irradiando e iluminando a todos com um sorriso fraterno, uma amizade sincera, uma palavra de perdão, um abraço carinhoso e o amor que só Deus nos concede. Se vivermos assim, estaremos mais do que vigilantes, e, filhos da luz, revestidos da luz, experimentaremos a luz de Cristo que nunca se apagará. Assim seja! Amém.
domingo, 27 de novembro de 2022
terça-feira, 22 de novembro de 2022
22.11.2022 - Imposição do Pálio Pastoral em Dom Cristiano
Amados filhos e filhas, estamos aqui reunidos nesta memória de Santa Cecília, celebrando a Eucaristia, quando concedemos o Pálio Pastoral a Dom Cristiano Tavares, Arcebispo Metropolitano de Aparecida. Minha saudação a Dom Cristiano e a todo o clero aparecidense. Chegou a hora da ceifa: esta é a mensagem de São João na primeira leitura que escutamos. Sim, filhos e filhas, infeliz o ser humano que se esquece que chegará a hora onde seremos ceifados e julgados de acordo com o nosso amor. Quando chegar a hora, Deus nos levará para o tribunal. No tribunal, Cristo será o justo e misericordioso juiz: justo, sim, mas, a justiça de Deus é misericórdia. Seremos misericordiados de acordo com a nossa misericórdia. É assim que o Senhor vem para julgar. Por isso, não precisamos ter medo. No Evangelho que ouvimos, Jesus fala de diversos sinais, mas, sinais que acontecem o tempo todo na história humana. Isso para dizer: ficai preparados. Um aspecto interessante deste Evangelho é que Jesus destaca dois tipos de pregadores que não devem ser ouvidos: os que dizem "sou eu" e os que dizem "o tempo está próximo". Os pregadores que ficam constantemente afirmando que o tempo do final está chegando, trabalham para colocar medo no rebanho. São, no fundo, lobos, que não estão preocupados com a salvação do povo de Deus, mas, que repetem estes discursos com insistência para manter suas igrejas cheias, justamente por causa do medo. Apenas o Pai sabe quando terminará o tempo e a história. Isso não quer dizer que devamos viver despreocupados, sem temor. Temor é diferente de medo. O temor é um temor de Deus, é um respeito aos preceitos, é a sensação de estar diante do justo juiz; o medo é infundando, é ansioso, não só tira a tranquilidade, mas tira a paz. O medo é o sentimento dos culpados, que sabem que serão punidos. O temor é aquilo que nos faz pensar: e se eu não for digno? Enfim, não sejamos propagadores do medo. O outro tipo de pregador que não pode ser ouvido é o que aponta a si mesmo e não ao Evangelho. E aqui, uma palavra a todos os clérigos, de modo especial a Dom Cristiano: nós nunca pregamos a nós mesmos, nós pregamos Cristo. Não somos nós que devemos aparecer e resplandecer em nossas pregações, é Cristo. O grande medo de São Francisco em ter pregadores na sua ordem é que isso os tirasse a humildade. Nossa pregação deve ser uma pregação humilde, que conduza a Cristo Senhor. Nossas pregações, discursos, sempre devem ser cristocêntricas e cristológicas, mesmo quando abordamos a vida dos santos e santas e mesmo quando falamos de Maria, nossa Mãe, aquela que viveu toda para o Cristo. Para isso, sempre devemos estar pautados na Sagrada Escritura, e inspirados, claro, pelo magistério e pela Tradição (a verdadeira Tradição, e não aquela de tradicionalismos que nos metem nojo). É assim, pregando o amor de Deus, a misericordia de Deus, anunciando Jesus Cristo, convidando todos ao amor, que nos prepararemos bem e prepararemos aos outros para o encontro definitivo com Cristo, Senhor do tempo e da história, no dia sem fim da eternidade, quando Ele será tudo em todos. Assim seja! Amém.
domingo, 20 de novembro de 2022
20.11.2022 - Solenidade de Cristo Rei
Amados filhos e filhas, neste último domingo do Ano Litúrgico, celebramos a Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo. Neste dia, encerramos o Ano Sacerdotal, convocado e iniciado pelo meu antecessor João III, de venerável memória. Na primeira leitura nós ouvimos a unção do rei Davi. Davi é o grande paradigma de rei do povo de Israel. O rei Davi foi um rei justo, bom, apesar de seu pecado. Mas, foi um rei segundo os moldes de reinado deste mundo. De sua descendência, nasceu Jesus. Jesus é um rei diferente. Seu reinado não é deste mundo. Jesus revelou para nós que o poder não é autoridade, mas é serviço; ele não nasceu num grande palácio, mas numa manjedoura; na sua missão, não era só aplaudido, mas perseguido; entra em Jerusalém num burrinho, não num cavalo branco; na Ceia, lava os pés dos servos; na Cruz, serve sua própria vida ao Pai, na obediência e no amor. Que rei é este? Que rei diferente! Sim, o rei Jesus subverte as nossas noções e os nossos ideais de poder, de majestade. O trono de Jesus foi a sua cruz, seu cetro foi a lança que abriu o seu lado e fez correr sangue e água, sua coroa foi de espinhos. Não há outro rei como este em todo o universo. E diante desse rei nós temos duas posições: podemos ficar parados ou podemos entrar na dinâmica de seu reino. No Evangelho que ouvimos, duas figuras se destacaram, além do próprio Jesus: o bom e o mau ladrão. O mau ladrão permanece parado diante de Jesus, não consegue fazer o movimento interior de ir ao encontro do Senhor e zomba de Jesus. Zomba de Jesus como os outros zombavam, como Pilatos zombou ao colocar a placa chamando Jesus de rei dos judeus. O bom ladrão, porém, chamado de Dimas pela tradição, mesmo preso pela crucificação, faz o movimento de sair de si e entrar no dinamismo do reinado de Jesus. Qual é o reinado de Jesus? É o reinado do amor, da misericórdia. Dimas pede pra entrar no reinado de Jesus e encontra a misericórdia do Senhor. Jesus, com seu olhar amoroso, mesmo na cruz, encontra com o olhar de Dimas. O assassino foi perdoado. Deus não cansa de nos amar. Por isso, no tempo, o reinado de Cristo é o reinado do amor. Na eternidade, onde ele é o juiz da história, nos julgará pelo amor. Entremos, pois, nesta dinâmica do amor do reino de Jesus Cristo e sejamos capazes de mover os nossos corações ao encontro dos outros, principalmente dos que sofrem. Jesus Cristo crucificado é também o modelo de Sumo e Eterno Sacerdote. Jesus se oferece uma vez por todas ao Pai, e nos ensina a também nós, sacerdotes pelo batismo, oferecermo-nos em sacrifício de louvor. A Jesus Cristo, Rei do Universo, Sumo e Eterno Sacerdote, Senhor do tempo e da história, louvor e glória pelos séculos dos séculos. Amém.
sábado, 19 de novembro de 2022
19.11.2022 - Audiência Geral
Queridos filhos sacerdotes, nesta tarde de sábado, às vésperas de encerrar nosso Ano Sacerdotal, nós nos reunimos para este momento de encontro. Ao pensarmos na figura do sacerdote na história da salvação, somos introduzidos num universo todo particular. No Antigo Testamento, antes da instituição dos sacerdotes, os chefes de família sacrificavam as oblatas a Deus, como é o caso de Jetro, sogro de Moisés, que ofereceu seu sacrifício no Sinai. Com Melquisedec tivemos um sacerdócio diferente do levita, quando ele ofereceu pão e vinho. Depois, os levitas tornam-se uma classe propriamente sacerdotal, responsável por oferecer o culto, o sacríficio dos animais. Entrando no período monárquico, o sacerdócio ganha estruturação e a partir daí o culto no Templo torna-se vigoroso. Um passo importante para o sacerdócio de Judá, ocorrido antes da deportação para a Babilônia, deu-se com a descoberta do livro da aliança no Templo, pelo sumo sacerdote Helcias. Após as palavras da profetisa Holda, o rei Josias promoveu uma reforma geral no culto: renovando a aliança com Deus, ele ordenou a Helcias, aos sacerdotes de segunda ordem e aos porteiros que limpassem o Templo de todos os objetos idolátricos que lá havia; despediu os sacerdotes idólatras e os que adoravam os astros do céu e mandou profanar os lugares que tinham sido objeto de culto idolátrico, unificando, dessa forma, o culto ao Deus verdadeiro no templo de Jerusalém. A reconstrução pós-exílica levou em conta esta declaração de Ezequiel, o que tornou os sadoquitas sacerdotes principais, enquanto à descendência de Arão coube a parte do sacerdócio comum e os genitores levitas ficaram sendo os servos do Templo. Além da restauração e centralização do culto no Templo, a leitura e explicação da lei passou a ter um realce cada vez maior. Agora não só o aspecto sacrifical era preponderante, mas a especialização legalista das Escrituras Sagradas se torna cada vez mais relevante. Essa concepção legalista mais tarde ultrapassa a própria dignidade sacerdotal. À época do Messias, os sacerdotes já estavam categorizados segundo normas anteriores. Para os sacerdotes comuns havia 24 divisões de serviços, os quais poderiam exercer outras funções no tempo vago. Geralmente faziam as leituras e explicações da Torá nas sinagogas e eram encarregados das questões de pureza ritual. A hierarquia estabelecida funcionava de forma hereditária. Portanto, a separação entre os sacerdotes principais e os sacerdotes comuns era bem acentuada. Os levitas dessa época que deveriam viver em cidades levíticas, tinham como funções a de cantores e demais serviços do Templo. No Novo Testamento, os contatos de Jesus com sacerdotes não eram frequentes; ocorriam quando mandava aqueles a quem havia curado mostrarem-se a eles, devido aos conceitos de purificação ritual, os quais declaravam a pessoa isenta de impurezas e apta a frequentar novamente a sociedade. Ao mesmo tempo isto servia para a afirmação da autoridade de Jesus. A parábola do bom samaritano apresenta uma crítica aos sacerdotes que promoviam simplesmente um culto externo. O evangelho de Mateus, com seu paralelo em Marcos e Lucas mostra como o rei Davi comeu os pães da proposição ― que lhes era proibido ― e Mateus aproveita para afirmar o senhorio de Jesus sobre o sábado e o Templo, alegando que os sacerdotes também rompem o sábado para exercer suas funções. Para essa afirmação de Jesus é dado como argumento a própria Sagrada Escritura. Nos Evangelhos sinóticos Jesus nunca atribui a Si mesmo o título de sacerdote, preferindo utilizar a expressão “Filho” ou “Filho do Homem”; desta forma, faz uma distinção clara entre Sua missão e a dos sacerdotes aarônico e levítico. No entanto, Sua missão está envolta de conceitos sacerdotais. Na morte do Senhor, ele próprio a oferece como o sacerdote oferece a vítima; e é por isso que ele dela espera a expiação dos pecados, a instauração da nova Aliança, a salvação de seu povo. Numa palavra, ele é o sacerdote de seu próprio sacrifício. Em João, no capítulo 17, destaca-se a chamada “oração sacerdotal”, em que Jesus pede por Si, pelos discípulos e pela unidade dos futuros cristãos. Esse capítulo não traz o termo “sacerdote”, mas pode ser comparado ao dia da Expiação, pelo fato de Jesus estar se preparando para a morte. É na Carta aos Hebreus que Cristo recebe o título de Sumo Sacerdote, pois o autor tenta aproxima-lo daquilo que era próprio dos judeus. O sacerdócio da lei era a prefiguração do sacerdócio de Cristo, não de maneira adequada à verdade, mas de maneira muito deficiente. Por duas razões: quer porque o sacerdócio da lei não purificava os pecados, quer porque não era eterno, como o sacerdócio de Cristo. A aliança feita por Cristo é mais excelente e perfeita que a antiga. Ela tem como base o próprio sangue de Cristo; “por isso ele é mediador do novo testamento”. A Lei antiga era apenas sombra dos bens que viriam, pois os sacrifícios eram renovados indefinidamente, mas agora uma só oblação ― por meio de Cristo ― realizou a perfeição definitiva. Os Apóstolos compreendem esta dimensão e a realizam. Eles estabelecem por sua vez responsáveis para prolongar sua própria ação. Mas, o Concílio Vaticano II distingue o sacerdócio batismal e o sacerdócio ministerial. Todo cristão é sacerdote, enquanto se oferece como sacrifício, unindo-se ao sacrifício de Cristo. Já o sacerdote ministerial, oferece em nome de Cristo, o sacrifício redentor atualizado no mistério Eucarístico. Como reavivar em nós est dom do sacerdócio? É preciso sempre partir de Cristo. Mas isso supõe têLo encontrado, ter-se deixado por Ele transformar inteiramente, ou seja, terse tornado seu discípulo fiel. De fato, tudo começa ali. Encontrar-se com Cristo e deixar-se por Ele transformar. Na escolha dos doze Apóstolos, o Evangelho de Marcos narra, dizendo: “Jesus subiu à montanha, e chamou a si os que ele queria, e eles foram até ele. E constituiu Doze, para que ficassem com ele, para enviá-los a pregar, e terem autoridade para expulsar os demônios” (Mc 3, 13-15). Temos aqui três momentos que integram a identidade dos Apóstolos: é uma vocação (Jesus chama quem Ele quer), é um discipulado (para que estejam com Ele), e Jesus inclui uma missão (para enviá-los a pregar e a expulsar demônios). De alguma forma são cronologicamente sucessivos, mas também devem permanecer sempre presentes em todo o processo. Cronologicamente eles se sucedem: primeiro, Jesus chama os Doze, depois os forma e, enfim, envia-os. Mas também compõe essencialmente e sempre a identidade do apóstolo: ele vive seu ser apóstolo simultaneamente como alguém chamado, como um discípulo e como missionário. O missionário de Cristo tem consciência de ter sido chamado e dever viver sempre como discípulo, se quiser ser um bom missionário. Ele nunca poderá deixar de renovar em si seu ser discípulo e de se entender como alguém chamado. Ser missionário, ser evangelizador, não é uma autoconstrução, uma autoafirmação ou autoprojeto. Ser missionário é um dom de Deus, que acolhemos livre e responsavelmente, e que devemos preservar e nutrir com a força vivificante que nos vem do Espírito Santo, no seguimento de Jesus, que nos chamou e nos constituiu seus enviados. Para ser um bom missionário de Cristo, é necessário ser seu discípulo. Aquele “estar com Jesus”, de que fala Marcos, no texto citado, é precisamente o discipulado. “Estar com Jesus” para qualificar-se a ser seu anunciador ao mundo. De fato, os sacerdotes são, por ordenação, ministros qualificados de Cristo para continuar a obra do Senhor no mundo, na história, até o fim dos tempos, enviados ao mundo para levar o Evangelho a todas as criaturas. Devem anunciar Jesus Cristo e seu Evangelho aos homens e, assim, conduzi-los a Cristo, para, por sua vez, tornarem-se seus discípulos. Mas para qualificar-se a tão sublime ministério, o sacerdote necessita, antes, ser ele mesmo conduzido a Cristo, e, por Ele, ser transformado em discípulo, pois, como poderia conduzir outros se ele mesmo não tivesse percorrido o caminho? E nós, hoje, como podemos fazer ou renovar este encontro tão decisivo e transformador? Hoje, Jesus não é mais visível entre nós, como no tempo de sua vida terrena. Hoje, sua presença na Igreja e no mundo é de outra natureza. Como encontrá-Lo hoje? Encontrar a Cristo é um dom de Deus e não simples resultado do esforço humano. Devemos pedi-lo e acolhê-lo humildemente. Na verdade, é Deus mesmo quem primeiro nos busca e nos oferece este dom, porque nos ama e não quer perdernos. Ele sabe que só por Cristo chegaremos ao Pai. É necessário encontrar a Cristo. Ele bate à nossa porta. Mas somos nós que devemos abrir e acolhê-lo livremente. Devemos deixar-nos alcançar por Jesus Cristo que nos faz seus sacerdotes. Assim seja! Amém.
terça-feira, 15 de novembro de 2022
15.11.2022 - Missa com os Bispos
Dom Cristiano Tavares, Arcebispo Eleito de Aparecida, amados filhos e filhas: dentre os diversos aspectos da leitura do livro do Apocalipse que acabamos de ouvir, um aspecto merece ser ressaltado, que é o olhar. O Senhor, por meio de São João, exorta não sermos cegos, mas a enxergarmos bem. Zaqueu, no Evangelho, também queria ver o Senhor, mas sua baixeza não permitia. Vejam, filhos e filhas, muitas vezes nós não conseguimos enxergar bem o Senhor ou o seu projeto para nós, e mesmo que fisicamente vejamos, permanecemos cegos ao Senhor. Somos questionados: o que será que nossa cegueira está nos impedindo de ver? Em primeiro lugar, a cegueira nos impede de ver a nós mesmos e esse é o primeiro grande problema. Quando deixamos de ver a nós mesmos, passamos a nos ter com grande estima. Essa imagem que criamos de nós mesmos tantas e tantas vezes é falsa. Achamos que somos melhores que os outros, que somos bons, ou até mesmo que o que somos basta, é o suficiente. Este auto-conceito de nós mesmo impede a ação de Deus, impede o crescimento da Igreja, impede uma ação pastoral que seja eficaz. É um tipo de cegueira grave, pois nos torna individualistas e egoístas. A cegueira, então, nos impede de ver os outros, de ver o bem da Igreja, e de ver a Deus. Somos chamados a abrirmos os nossos olhos para estas realidades e interpelador a passarmos a olhar para as coisas de um jeito diferente. Não basta vermos, é preciso olharmos de um modo novo: com atenção, perspicácia, esperança. É tão triste quando olhamos para as situações como se fosse um caso perdido, ou com algum tipo de estranheza. Há dentro de nossa Igreja algumas situações que precisamos reaprender a olhar. E como devemos olhar? Não de fora, mas, de dentro. O problema na Igreja é que muitas vezes tem gente que fica sentada de fora, fazendo análise de conjuntura, mas não consegue se por dentro, arregaçar as mangas e olhar para as realidades com compromisso e esperança, olhar de baixo, olhar de dentro. Nosso olhar nunca pode ser alheio, mas deve sempre estar introduzido na realidade, para podermos transforma-la. Deixemos de lado todo tipo de cegueira que nos exalta, que nos faz ver de fora os problemas e que não nos evoca a um verdadeiro compromisso com Cristo e sua Igreja. Assim seja! Amém.
domingo, 13 de novembro de 2022
13.11.2022 - XXXIII Domingo do Tempo Comum
Amados filhos e filhas, estamos celebrando o trigésimo terceiro Domingo do Tempo Comum. A liturgia deste dia nos atenta: chegará o dia do julgamento. E quando chegar este momento, como estaremos? Estaremos preparados para o nosso encontro com o Senhor, ou seremos queimados como a palha? O Senhor, justo juiz, olhará misericordiosamente para nós, por termos praticado a misericórdia, ou nos repreenderá pelas nossas misérias? Já paramos para pensar como será o momento em que fecharmos os olhos para este mundo e acordarmos para a eternidade? Já percebemos que isso pode acontecer a qualquer momento? Jesus fala, sim, de sua segunda vinda no fim dos tempos. Mas, alerta para tomarmos cuidado com alguns que ficam profetizando o final dos tempos a todo momento. Há alguns exotéricos com esse discurso constante. Mas, nem o Filho, apenas o Pai sabe quando será a hora que isso acontecer. Todos os sinais que Jesus coloca, são sinais quase que normais, que existem em todo momento da história da humanidade. Mas, ele fala das guerras, da fome, das pestes, dos sinais, Jesus está falando do acontecimento do homem velho, do homem que ainda não conheceu o Senhor, pois quando Ele vier em sua glória, tudo isso cessará e tudo será plenamente renovado para o Reino na vida eterna. Nós, porém, não podemos, por isso, nos acomodar e ficar apenas olhando para cima, esperando que Jesus volte. Devemos trabalhar para construir o Reino de Deus no já de nossa história. O Reino está no já, mas está no ainda não. O Reino de Deus não será plenamente construído já, mas existe em plenitude na vida eterna e um dia será totalmente instaurado por Cristo. Embora não seja plenamente construído agora, não estamos isentos de construí-lo o máximo que for possível. São Paulo olha para a comunidade tessalônica, que havia simplesmente desistido de trabalhar e fazer as coisas neste mundo. É o risco de cristãos que só se preocupam em olhar para cima e vivem alienados. O cristão olha para cima, mas tem os pés bem firmes no chão. Aqui já deve começar a acontecer o Reino e por isso São Paulo diz que se deve trabalhar, se deve viver uma vida normal, buscando construir o Reino e não só na espera daquilo que há de vir. Quando nós somos construtores do Reino de Deus, somos também perseguidos, entregues, odiados e mortos. Mas, não devemos nos preocupar. Para Cristo, a consequência do anúncio do Reino foi sua morte redentora, e nós devemos estar dispostos a permanecer firmes, mesmo que tenhamos que dar a nossa vida pela construção do Reino de Deus, pois aí, um dia ganharemos a vida. Olhemos para o alto, vejamos o Senhor vindo ao nosso encontro e digamos: venha a nós o vosso Reino e nos empenhemos na construção deste Reino, até o dia que entrarmos na vida futura e Cristo for tudo em todos. Assim seja! Amém.
quarta-feira, 9 de novembro de 2022
09.11.2022 - Festa da Dedicação da Basílica do Latrão
Amados filhos e filhas, por antiguissima tradição, hoje celebramos a Festa da Dedicação da Basílica do Latrão. Esta Basílica, formalmente chamada de Arquibasílica do Santíssimo Salvador e dos Santos João Batista e João Evangelista no Latrão é a Catedral da Diocese de Roma, é onde está a cátedra do papa. A arquibasílica começou sua história com a doação do Palácio do Latrão, da família do imperador, ao papa. Ali, junto do palácio, constriu-se a Basílica dedicada ao Santíssimo Salvador, isto é, a Jesus Cristo. A Catedral de todo o mundo tem como patrono o próprio Senhor e é dedicada toda a ele. Isto simboliza que toda igreja é, primeiramente dedicada a Cristo e representa o próprio Cristo. Mas, a Basílica foi também dedicada a São João Batista, por conta do seu batistério, e a São João Evangelista. Duas visões devemos ter desta Festa que hoje celebramos. Em primeiro lugar, devemos ter em mente que toda igreja física simboliza Jesus Cristo. O próprio Jesus ressalta a importância do Templo, pois ele próprio se faz templo, se faz morada de Deus. É Ele o templo destruído e reconstruído em três dias na Páscoa, é Ele o altar donde jorra para nós a água que leva a vida a todos. E é partindo desta água, que percebemos o segundo aspecto, que é um aspecto da Igreja. A água que jorra do Cristo para nós é a água batismal que nos forma como Igreja. Igreja, esta, constituída sobre o fundamento dos apóstolos, sobre a pedra que é São Pedro. Por isso, esta Festa da Dedicação da Basílica do Latrão é uma festa de toda a Igreja, pois celebramos o sinal visível da unidade de todas as Igrejas que é a Catedral de Roma, que preside todas as Igrejas na unidade e na caridade. Igreja que não é e nem deve ser só hierarquia, nem só templos físicos, mas, Igreja que é o povo de Deus. A Igreja, sim, muitas vezes sofre, chora, passa por momentos difíceis, de escândalos, de baixas, com inúmeros problemas. Mas, não podemos desistir da Igreja. Mesmo a nossa Igreja aqui no Habbo, não podemos desistir dela. Pelo contrário, devemos nós mesmos assumirmos o ser Igreja e fazermos com que a Igreja resplandeça como povo de Deus a caminho, no caminho de Cristo, como a própria presença do Senhor Ressuscitado. Assim seja! Amém.
domingo, 6 de novembro de 2022
06.11.2022 - XXXII Domingo do Tempo Comum
Amados filhos e filhas, saúdo de modo especial a Dom Vito Cardeal Lavezzo, nosso eminentíssimo Secretário de Estado. Estamos celebrando o trigésimo segundo Domingo do Tempo Comum e hoje somos inseridos na dinâmica da Ressurreição. Sabemos que a crença na ressurreição dos mortos não existiu desde sempre na história do povo de Israel, mas, foi sendo inserida na religiosidade do povo com o passar do tempo. Deste modo, a vivência da fé no Deus único ultrapassa uma obrigação a leis morais, para que Deus seja o protetor do povo neste mundo. Esta realidade é transcendida, quando, no tempo dos Macabeus, a fé na ressurreição passa a ser disseminada entre os judeus, como nós ouvimos na primeira leitura. Os Macabeus já tinham uma fé firme na ressurreição, na vida após a morte. Mas, é com Jesus Cristo que a ressurreição é confirmada como verdade, justamente por causa da sua Ressurreição. Por isso, é válido dizermos que o próprio judaísmo foi sendo preparando para o mistério salvífico do Cristo Senhor e que Ele veio quando se deu a plenitude dos tempos. Jesus confirma, primeiro com palavras como ouvimos no Evangelho e depois com a própria Ressurreição, a crença de que após a morte primeira virá a vida eterna. Não fomos, filhos e filhas, feitos para este mundo tão mortal, tão destrutível. Fomos criados para o céu. Fomos feitos para a eternidade com Deus. Deus nos fez para a vida e vida eterna. Este mundo é tão fulgaz, tão passageiro, quase como uma nuvem de fumaça, um mundo, muitas vezes, tão líquido. Não podemos nos esquecer que após esta vida, virá a ressurreição, virá a vida eterna. E como viveremos esta vida eterna dependerá de como vivermos esta vida mortal. Vivamos, pois, abraçando as coisas do alto. Não que as coisas deste mundo sejam ruins, ou que a matéria, ou este mundo seja mal. Pelo contrário, criados por Deus, todas as coisas são boas. O problema é que nós podemos usar das coisas deste mundo de um modo mal. Um dia, enfim, fecharemos nossos olhos para este mundo e acordaremos com Deus. Vivamos, então, no amor, na fé e na esperança, firmes na certeza de que após esta vida, seremos abraçados pelo Pai amoroso o contemplaremos na eternidade. Lá, onde o tempo não tem fim, onde não há espaço, os que nesta vida buscaram a Deus de todo o coração e amaram de todo o coração, entrarão na visão daquilo que nem os olhos viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou: assim é o que Deus tem preparado para àqueles que o amam. Assim seja! Amém.
quarta-feira, 2 de novembro de 2022
02.11.2022 - Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos
Amados filhos e filhas, celebramos a Comemoração de Todos os fiéis defuntos. Esta comemoração nos recorda a breviedade da vida humana neste mundo. Hoje é o dia em que a Igreja Militante, após celebrar no dia de ontem a Igreja Triunfante, se une a ela para rezar pela Igreja Padecente. Estes nossos irmãos e irmãs que estão no purgatório e que não conseguem rezar por nós, precisam muito das nossas orações. Sim, pois após a morte vem o julgamento particular. E diante do justo juiz, àqueles que não amaram como deveriam neste mundo, que não serviram com amor aos com fome, ou com sede, estrangeiros, ou nus, doentes, presos, enfim, os que estão nas periferias sociais ou existenciais, estes próprios reconhecerão a necessidade do purgatório. Filhos e filhas, nós seremos medidos e julgados, nos mediremos e nos julgaremos, pelo amor! E quando reconhecemos que por mais que não mereçamos o inferno, ainda assim ainda não somos dignos de entrar junto de Deus, pois nossas vestes estão sujas, a misericórdia de Deus nos permitirá o purgatório. O purgatório é o estado da alma que se purifica, não no fogo, mas no serviço, purificando-se naquilo que não amou, que não abraçou como projeto de Deus para a sua vida. Felizes e benditos são àqueles que estão no purgatório, pois tem a certeza que apóss estes tão difíceis momentos, entrarão no Reino Celeste. Nós precisamos, sim, rezar por estes nossos irmãos e irmãs, e principalmente oferecer missas por suas intenções, para que Deus abrevie seu tempo no purgatório, para que logo eles possam ser nossos intercessores no Céu. E quantos dos nossos irmãos e irmãs no purgatório não estão esquecidos? É principalmente para eles que se dirige nossa comemoração de hoje, àqueles que estão esquecidos, pelos quais ninguém mais reza, mas que ainda precisam muito de nossas orações. Hoje, esse sentimento de luto que sentimos, deve estar repleto de esperança na Ressurreição, pois nossos pecados são vencidos e derrotados na força da Ressurreição do Senhor, que abriu para nós o Paraíso, que nos deu o perdão. Por fim, quero chamar a atenção a essa palavra: "luto". Diante do atual cenário político que estamos inseridos, alguns postaram que estão de "luto" pelo Brasil. Que pessoas malditas, que brincam ou diminuem o sentimento de luto de tantos irmãos e irmãs que sofrem, verdadeiramente, profundamente, com a morte de seus entes queridos. A pátria não morreu, continua viva, mesmo que o candidato de alguns não tenha sido eleito: não é a morte de nada. Não podemos brincar com o luto, pois este é um sentimento forte. Muitas pessoas, hoje, são desrespeitadas em seus sentimentos por colocações mal pensadas. Luto, devemos ter, pelos 700 mil mortos da pandemia da COVID-19 no Brasil, que não receberam um luto oficial. Que voltemos nossas orações, neste dia, aos nossos irmãos e irmãs falecidos, e na alegre esperança da Ressurreição os confiemos a Deus, na expectativa de que um dia rezem os vivos, também por nós. Que nossos irmãos e irmãs falecidos, pela misericórdia de Deus, descansem em paz. Amém.
terça-feira, 1 de novembro de 2022
01.11.2022 - Solenidade de Todos os Santos
Amados filhos e filhas, estamos reunidos celebrando a Solenidade de Todos os Santos e Santas de Deus. Hoje, somos interpelados pela Liturgia a agirmos como filhos e filhas de Deus - como diz São Paulo na segunda leitura - praticando as bem-aventuranças - como propõe Jesus no Evangelho - para um dia nos unirmos àquela multidão dos santos e santas - que São João vê no Apocalipse. Ser filhos e filhas de Deus, na prática das bem-aventuranças, é sim o modo de entrarmos no Reino de Deus e nos unirmos ao coro dos santos. Santos e santas, estes, que muitos foram canonizados pela Igreja, mas, tantos outros que já estão no Reino Celeste, como Igreja Triunfante, e que hoje celebramos. Celebramos os santos e santas que não sabemos o nome, que podem ser de nossa família, que podem nem ter sido católicos ou cristãos nesta vida. Santo e santa é aquele que já se encontra junto de Deus na Igreja Triunfante, onde nós também queremos estar um dia. Um detalhe importante sobre essa multidão dos santos e santas, é que eles trazem as vestes brancas. Sim, as vestes batismais, que todos nós recebemos, pois todo cristão e toda cristã é chamado a santidade. Essa vocação universal a santidade que tanto ressalta o Concílio Vaticano II, é intrínseca ao ser cristão. E as vestes destes santos e santas foram lavadas e alvejadas no Sangue do Cordeiro, pois o Sangue de Jesus nos purifica. Isto revela para nós, que os santos e santas de Deus não foram seres humanos estritamente perfeitos, mas que nesta vida, se uniram com seus sofrimentos, suas dificuldades, suas lutas, aos sofrimentos de Cristo Jesus. O caminho da santidade não é, filhos e filhas, um caminho de facilidades, um caminho suave, um mar de rosas. É sim um caminho de muitos sofrimentos, de dores e de lutas, um caminho de grande tribulação, pois é necessária muita força para cumprirmos as bem-aventuranças que Jesus nos propõe. Se não as conseguimos cumprir ainda todas de uma vez, não tem problema. Vamos caindo e levantando, de esperança em esperança, de luta em luta, de queda em queda, de levantar-se em levantar-se, até o dia que Deus for tudo em nós: este é o caminho da santidade, este é o caminho que devemos percorrer, com a graça de Deus. Assim seja! Amém.