Queridos filhos sacerdotes, nesta tarde de sábado, às vésperas de encerrar nosso Ano Sacerdotal, nós nos reunimos para este momento de encontro. Ao pensarmos na figura do sacerdote na história da salvação, somos introduzidos num universo todo particular. No Antigo Testamento, antes da instituição dos sacerdotes, os chefes de família sacrificavam as oblatas a Deus, como é o caso de Jetro, sogro de Moisés, que ofereceu seu sacrifício no Sinai. Com Melquisedec tivemos um sacerdócio diferente do levita, quando ele ofereceu pão e vinho. Depois, os levitas tornam-se uma classe propriamente sacerdotal, responsável por oferecer o culto, o sacríficio dos animais. Entrando no período monárquico, o sacerdócio ganha estruturação e a partir daí o culto no Templo torna-se vigoroso. Um passo importante para o sacerdócio de Judá, ocorrido antes da deportação para a Babilônia, deu-se com a descoberta do livro da aliança no Templo, pelo sumo sacerdote Helcias. Após as palavras da profetisa Holda, o rei Josias promoveu uma reforma geral no culto: renovando a aliança com Deus, ele ordenou a Helcias, aos sacerdotes de segunda ordem e aos porteiros que limpassem o Templo de todos os objetos idolátricos que lá havia; despediu os sacerdotes idólatras e os que adoravam os astros do céu e mandou profanar os lugares que tinham sido objeto de culto idolátrico, unificando, dessa forma, o culto ao Deus verdadeiro no templo de Jerusalém. A reconstrução pós-exílica levou em conta esta declaração de Ezequiel, o que tornou os sadoquitas sacerdotes principais, enquanto à descendência de Arão coube a parte do sacerdócio comum e os genitores levitas ficaram sendo os servos do Templo. Além da restauração e centralização do culto no Templo, a leitura e explicação da lei passou a ter um realce cada vez maior. Agora não só o aspecto sacrifical era preponderante, mas a especialização legalista das Escrituras Sagradas se torna cada vez mais relevante. Essa concepção legalista mais tarde ultrapassa a própria dignidade sacerdotal. À época do Messias, os sacerdotes já estavam categorizados segundo normas anteriores. Para os sacerdotes comuns havia 24 divisões de serviços, os quais poderiam exercer outras funções no tempo vago. Geralmente faziam as leituras e explicações da Torá nas sinagogas e eram encarregados das questões de pureza ritual. A hierarquia estabelecida funcionava de forma hereditária. Portanto, a separação entre os sacerdotes principais e os sacerdotes comuns era bem acentuada. Os levitas dessa época que deveriam viver em cidades levíticas, tinham como funções a de cantores e demais serviços do Templo. No Novo Testamento, os contatos de Jesus com sacerdotes não eram frequentes; ocorriam quando mandava aqueles a quem havia curado mostrarem-se a eles, devido aos conceitos de purificação ritual, os quais declaravam a pessoa isenta de impurezas e apta a frequentar novamente a sociedade. Ao mesmo tempo isto servia para a afirmação da autoridade de Jesus. A parábola do bom samaritano apresenta uma crítica aos sacerdotes que promoviam simplesmente um culto externo. O evangelho de Mateus, com seu paralelo em Marcos e Lucas mostra como o rei Davi comeu os pães da proposição ― que lhes era proibido ― e Mateus aproveita para afirmar o senhorio de Jesus sobre o sábado e o Templo, alegando que os sacerdotes também rompem o sábado para exercer suas funções. Para essa afirmação de Jesus é dado como argumento a própria Sagrada Escritura. Nos Evangelhos sinóticos Jesus nunca atribui a Si mesmo o título de sacerdote, preferindo utilizar a expressão “Filho” ou “Filho do Homem”; desta forma, faz uma distinção clara entre Sua missão e a dos sacerdotes aarônico e levítico. No entanto, Sua missão está envolta de conceitos sacerdotais. Na morte do Senhor, ele próprio a oferece como o sacerdote oferece a vítima; e é por isso que ele dela espera a expiação dos pecados, a instauração da nova Aliança, a salvação de seu povo. Numa palavra, ele é o sacerdote de seu próprio sacrifício. Em João, no capítulo 17, destaca-se a chamada “oração sacerdotal”, em que Jesus pede por Si, pelos discípulos e pela unidade dos futuros cristãos. Esse capítulo não traz o termo “sacerdote”, mas pode ser comparado ao dia da Expiação, pelo fato de Jesus estar se preparando para a morte. É na Carta aos Hebreus que Cristo recebe o título de Sumo Sacerdote, pois o autor tenta aproxima-lo daquilo que era próprio dos judeus. O sacerdócio da lei era a prefiguração do sacerdócio de Cristo, não de maneira adequada à verdade, mas de maneira muito deficiente. Por duas razões: quer porque o sacerdócio da lei não purificava os pecados, quer porque não era eterno, como o sacerdócio de Cristo. A aliança feita por Cristo é mais excelente e perfeita que a antiga. Ela tem como base o próprio sangue de Cristo; “por isso ele é mediador do novo testamento”. A Lei antiga era apenas sombra dos bens que viriam, pois os sacrifícios eram renovados indefinidamente, mas agora uma só oblação ― por meio de Cristo ― realizou a perfeição definitiva. Os Apóstolos compreendem esta dimensão e a realizam. Eles estabelecem por sua vez responsáveis para prolongar sua própria ação. Mas, o Concílio Vaticano II distingue o sacerdócio batismal e o sacerdócio ministerial. Todo cristão é sacerdote, enquanto se oferece como sacrifício, unindo-se ao sacrifício de Cristo. Já o sacerdote ministerial, oferece em nome de Cristo, o sacrifício redentor atualizado no mistério Eucarístico. Como reavivar em nós est dom do sacerdócio? É preciso sempre partir de Cristo. Mas isso supõe têLo encontrado, ter-se deixado por Ele transformar inteiramente, ou seja, terse tornado seu discípulo fiel. De fato, tudo começa ali. Encontrar-se com Cristo e deixar-se por Ele transformar. Na escolha dos doze Apóstolos, o Evangelho de Marcos narra, dizendo: “Jesus subiu à montanha, e chamou a si os que ele queria, e eles foram até ele. E constituiu Doze, para que ficassem com ele, para enviá-los a pregar, e terem autoridade para expulsar os demônios” (Mc 3, 13-15). Temos aqui três momentos que integram a identidade dos Apóstolos: é uma vocação (Jesus chama quem Ele quer), é um discipulado (para que estejam com Ele), e Jesus inclui uma missão (para enviá-los a pregar e a expulsar demônios). De alguma forma são cronologicamente sucessivos, mas também devem permanecer sempre presentes em todo o processo. Cronologicamente eles se sucedem: primeiro, Jesus chama os Doze, depois os forma e, enfim, envia-os. Mas também compõe essencialmente e sempre a identidade do apóstolo: ele vive seu ser apóstolo simultaneamente como alguém chamado, como um discípulo e como missionário. O missionário de Cristo tem consciência de ter sido chamado e dever viver sempre como discípulo, se quiser ser um bom missionário. Ele nunca poderá deixar de renovar em si seu ser discípulo e de se entender como alguém chamado. Ser missionário, ser evangelizador, não é uma autoconstrução, uma autoafirmação ou autoprojeto. Ser missionário é um dom de Deus, que acolhemos livre e responsavelmente, e que devemos preservar e nutrir com a força vivificante que nos vem do Espírito Santo, no seguimento de Jesus, que nos chamou e nos constituiu seus enviados. Para ser um bom missionário de Cristo, é necessário ser seu discípulo. Aquele “estar com Jesus”, de que fala Marcos, no texto citado, é precisamente o discipulado. “Estar com Jesus” para qualificar-se a ser seu anunciador ao mundo. De fato, os sacerdotes são, por ordenação, ministros qualificados de Cristo para continuar a obra do Senhor no mundo, na história, até o fim dos tempos, enviados ao mundo para levar o Evangelho a todas as criaturas. Devem anunciar Jesus Cristo e seu Evangelho aos homens e, assim, conduzi-los a Cristo, para, por sua vez, tornarem-se seus discípulos. Mas para qualificar-se a tão sublime ministério, o sacerdote necessita, antes, ser ele mesmo conduzido a Cristo, e, por Ele, ser transformado em discípulo, pois, como poderia conduzir outros se ele mesmo não tivesse percorrido o caminho? E nós, hoje, como podemos fazer ou renovar este encontro tão decisivo e transformador? Hoje, Jesus não é mais visível entre nós, como no tempo de sua vida terrena. Hoje, sua presença na Igreja e no mundo é de outra natureza. Como encontrá-Lo hoje? Encontrar a Cristo é um dom de Deus e não simples resultado do esforço humano. Devemos pedi-lo e acolhê-lo humildemente. Na verdade, é Deus mesmo quem primeiro nos busca e nos oferece este dom, porque nos ama e não quer perdernos. Ele sabe que só por Cristo chegaremos ao Pai. É necessário encontrar a Cristo. Ele bate à nossa porta. Mas somos nós que devemos abrir e acolhê-lo livremente. Devemos deixar-nos alcançar por Jesus Cristo que nos faz seus sacerdotes. Assim seja! Amém.
sábado, 19 de novembro de 2022
19.11.2022 - Audiência Geral
Do Evangelho segundo Lucas.
Naquele tempo, Jesus foi à cidade de Nazaré, onde se tinha criado. Conforme seu costume, entrou na sinagoga no sábado, e levantou-se para fazer a leitura. Deram-lhe o livro do profeta Isaías. Abrindo o livro, Jesus achou a passagem em que está escrito: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção para anunciar a Boa nova aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos cativos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos e para proclamar um ano da graça do Senhor”. Depois fechou o livro, entregou-o ao ajudante, e sentou-se. Todos os que estavam na sinagoga tinham os olhos fixos nele. Então começou a dizer-lhes: “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir”.
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