Eminentíssimos senhores cardeais, lhes convoquei esta noite para juntos refletirmos sobre algumas questões que são cada vez mais essenciais para a vida da Igreja.
Gostaria de iniciar resgatando alguns elementos das discussões ocorridas no Consistório Ordinário do último sábado. Falávamos sobre se a Igreja deve se aproximar mais ou menos de um RPG. Dom Odilo, na ocasião, nos ajudou com a compreensão de quando a Igreja passou a negar-se como RPG. Então, entendia-se que no RPG as pessoas poderiam ficar online e a partir de um dado momento, combinado, entrariam para os quartos do RPG e ali passariam a simulação. Enquanto isso, na Igreja não. Uma vez que entramos no clero, sempre que estamos online no Habbo, somos clérigos. Esta nossa explanação deveu-se a outro comentário, do Cardeal Lavezzo que criticava a quantidade de documentos expedidos nos últimos pontificados, sem uma verdadeira prática. De fato, em sua visão, e assim também o considero, nos aproxima muito dos RPG´s.
E também esta reflexão se deu a partir de outra, de Dom Snaif. Para este, nós estamos numa competição injusta com os hp´s. Lá eles tem paramentos e estruturas e para muito deles aquilo é o suficiente. Eminências, gostaria que pudessemos juntos refletir. O Habbo já não é mais um jogo de crianças ou de adolescentes. Pelo contrário, aqui, a maior parte de nós já somos adultos com as nossas obrigações fora desse jogo virtual. Portanto, como daremos prosseguimento à nossa Igreja? Se, por um lado, vemos em muitos uma boa vontade, por outro, percebemos que isso não é suficiente. Acredito que seja hora de revisitarmos as nossas estruturas e pensarmos, de fato, quais foram as nossas últimas metas.
No pontificado de Gregório IV, foi realizada a reforma de todos os livros litúrgicos por conta da nova tradução do Missal Romano. No pontificado de Bonifácio II, foi promulgado o novo Código de Direito Canônico. No pontificado de Lucas IV, houve a acolhida desse código com algumas reformas do ponto de vista do Colégio Cardinalício, que se fizeram necessárias, e, por outro lado, reformas na formação presbiteral solicitadas pela Congregação Geral dos Cardeais, na Sé Vacante que o precedeu. Mas fui eleito por vossas eminências para que possamos dar outros passos na vida da nossa Igreja. Passos que, como já conversamos, estão para além da produção de documentos. É uma reforma de mentalidade que precisamos assumir.
O Papa Bonifácio II fez, como um experimento, a redução de toda a Igreja ao clero de Roma. Se, por um lado, isso conseguiu aglutinar o clero, por outro, fez com que não houvesse motivação para novos passos a serem dados. Acredito que nossa perspectiva de termos nos tornado uma Igreja pequena, em muitos momentos, trouxe-nos uma dificuldade. Passamos a sonhar baixo. Passamos a esperar pouco. Nosso colégio episcopal se reduziu a quase nada nos últimos tempos. O Colégio Cardinalício, por sua vez, tornou-se cada vez mais preguiçoso. Os presbíteros não tiveram ânimo para sua missão.
Penso que devemos fazer o contrário. Devemos ampliar as estruturas. Penso que transformar dioceses em arquidioceses metropolitanas dará a elas um novo ânimo. Isso nos passa a imagem de que não basta ser uma diocese pequena, mas sim uma estrutura sempre em crescimento. Neste sentido, nossa exigência deve ser alta, nossa medida deve ser alta. Por outro lado, precisamos ser menos exigentes com os clérigos em si. Foi muito bom levarmos mais a sério o nosso ministério. Mas sabemos que nem todos estão dispostos a isso. E, à medida que nós, mais velhos, fomos amadurecendo e envelhecendo, ficamos menos pacientes para lidar com as atitudes infantis de clérigos jovens. Mas sejamos sinceros: não seremos nós a motivar esta Igreja. Isso será função dos clérigos jovens. Serão eles que darão um novo ardor missionário para nossa Igreja. Precisamos acolhê-los, formá-los, educá-los, ajudá-los, mas não conseguiremos fazer deles uma cópia nossa.
A burocratização da nossa Igreja, como falávamos no sábado, teve um grande valor. Mas, muitas vezes, as decisões deixaram de ser pastorais. Entendi, na crítica de Dom Lavezzo, algo que quero trazer aqui. Sempre fui muito crítico a documentos extensos. Fui crítico, inclusive, ao Código de Direito Canônico, dizendo a Bonifácio II que estava muito extenso. Mas acredito que precisamos desenvolver modelos que sejam utilizados em todas as circunstâncias. Modelos simples, nos quais bastará mudar o nome da pessoa ao invés de escrever todo um documento para reabilitar, integrar, demitir, e assim por diante. Dessa forma, o tempo que gastamos escrevendo documentos será reduzido, entendendo que os documentos não são a parte principal da nossa Igreja. Se, por um lado, não vale um site atualizado diariamente enquanto a Igreja permanece parada, por outro, não podemos simplesmente eliminar toda a burocracia, que é essencial para a nossa Igreja. Mas devemos saber administrá-la de modo comedido. Sabemos muito bem que todas as normas podem acabar sendo burladas, mas isso não significa que devemos deixar de tê-las.
Para mim, o principal fator que nos aproxima mais de um RPG é nossa mentalidade. Na verdade, acredito que o problema vai além disso. O problema está quando eu me coloco como o centro da Igreja, quando você se coloca como centro da Igreja. A Igreja não é nossa; a Igreja está para além de nós. Certamente, logo todos nós passaremos, e eu não acredito que esta Igreja passará tão facilmente. Acredito, de fato, que está na hora de muitos de nós largarmos o osso. Penso que precisamos deixar mais a Igreja nas mãos dos mais jovens. Inclusive, partilhava com Dom Snaif que acredito que este será o meu último pontificado. Queira Deus que assim seja. Na verdade, os senhores bem sabem que nem este mesmo eu gostaria. Sendo assim, o que nos cabe pensar é: como fazer a transição da Igreja para as mãos dos mais jovens? Como fazer essa passagem de gerações? Estamos preparados para isso?
Os planos que quero partilhar convosco e que desejo que me ajudem a desenvolver melhor, ou mesmo desistir de alguns deles, são, inicialmente: promover duas arquidioceses metropolitanas; criar uma arquidiocese para os militares; aumentar o colégio episcopal, buscando também que ele tenha qualidade. Penso ser necessário um novo reavivamento de carismas religiosos dentro da Igreja. Acredito que o trabalho realizado nas redes sociais poderá colaborar muito para atrair pessoas para nossa Igreja. Vejo no Dicastério para os Seminários um grande potencial, desde que consiga fazer com que o clero conviva com seminaristas. Acredito muito nessa necessária convivência, algo que já não temos mais tempo para fazer. E isso também desmotiva o clero, pois não se criam mais vínculos como antes. Quando nós entrávamos, conversávamos, batíamos papo, ficávamos online. Hoje, quase não temos mais tempo para isso. Isso faz muito mal para a Igreja.
Quero indicar ainda aos senhores o meu pensamento em promover, em breve, Dom Felipe Sampaio, atual prefeito do Dicastério para os Seminários, a membro deste Colégio Cardinalício, justamente dentro da perspectiva de passar a Igreja para um clero mais jovem. Perdemos excelentes oportunidades no passado que não podemos perder hoje. Acredito que a lista de eméritos do Colégio Cardinalício precisa aumentar, e isso não é um problema.
Além disso, o último aspecto que gostaria de ressaltar em minha fala, que também foi discutido entre nós no consistório do último sábado, é que precisamos cortar ao máximo o nosso diálogo ecumênico. Essa crítica, trazida por Dom Snaif, foi considerada por mim muito válida. Enquanto estamos promovendo um diálogo com verdadeiro esforço de nossa parte, eles estão promovendo um diálogo falso e vindo buscar nossos clérigos. Por isso, quero também delegar alguém de confiança para fazer o processo contrário. Porém, como falamos no início, infelizmente, as Igrejas de lá têm muito mais atrativos do que as nossas. E, por não terem bom senso, acabam atraindo muitos de nossos padres. Acho inclusive, muito difícil, no atual momento, estabelecer Igrejas Particulares lá, embora tenha cogitado isso já. Particularmente, acho injusto buscar alguém de lá para ser bispo aqui, quando temos padres capacitados para isso, o que quase não é o caso desta vez. Ou buscar cardeais de lá para serem cardeais aqui, enquanto temos bons bispos para serem elevados ao cardinalato. Esse tipo de coisa não compensa. E acredito que muitos se afastaram da nossa Igreja justamente por isso: por falta de consideração, por falta de se sentirem valorizados.
Por isso, eminências, aos que trabalham na Cúria Romana e aos nossos bispos diocesanos, gostaria que os senhores tornassem seus presbíteros membros ativos da Igreja. Que sejam inseridos nos ofícios diocesanos: vigário-geral, chanceler, vigários episcopais, mesmo que apenas como títulos. Isso tudo os anima. Além disso, devem assumir ofícios como oficiais na Cúria Romana. Eminências, por fim, acredito que temos passos consideráveis a serem dados, mas precisamos ter coragem para caminhar.
Nenhum comentário:
Postar um comentário