‘Senhor, deixa a figueira ainda este ano. Vou cavar em volta dela e colocar adubo. Pode ser que venha a dar fruto. Se não der, então tu a cortarás’. Amados irmãos e irmãs, neste III Domingo da Quaresma celebro esta Eucaristia na Basílica Lateranense e quero saudar a todos na pessoa de Dom Everton Andrade Cardeal de Moura, meu Vigário Geral para a Diocese de Roma. A liturgia da Palavra de hoje, dando sequência as leituras sobre a origem da Aliança, ressalta a Aliaça firmada com Moisés. Moisés que no monte Horeb, também chamado de Sinai, faz sua experiência com Deus. A narrativa do livro do Êxodo coloca para nós o grandioso mistério de Deus. Só que, Deus não se manifesta plenamente a Moisés, pois este não seria capaz de apreender. D diante do mistério, Moisés nada pode fazer senão tirar as sandálias dos pés. Amados irmãos e irmãs, as sandálias, segundo os padres do deserto, são as nossas paixões. Tirar as sandálias é deixar para trás toda poeira da vida antiga para poder se colocar na presença do Senhor. Deus não deixa de falar com o ser humano. Pelo contrário, Deus revela que viu a aflição do seu povo, ouviu seu clamor, conhece seus sofrimentos, desceu para libertá-lo e fazê-lo sair para uma terra onde corre leite e mel. Este Deus inatingível, faz-se próximo. Ainda assim, diante de Moisés que lhe pergunta o nome, Deus responde "Eu Sou aquele que sou", ou, numa outra tradução, "Eu Sou aquele que será". O nome de Deus nunca nos foi relevado, e mesmo no tetagrama fomos nós que adicionamos as vogais para poder pronunciar. O nome de Deus porém é impronunciável. Sempre, caríssimos irmãos e irmãs, Deus se faz próximo de nós, mas nos revela que nunca iremos compreender completamente a grandeza de seu mistério até que sejamos nele. São Paulo, na segunda leitura, evoca a figura de Moisés, mas já num momento posterior, depois da passagem pelo mar vermelho para falar da realidade do deserto. O apóstolo está nos falando de todos àqueles que não chegaram a terra prometida por sua infidelidade. Mas, não achemos que isso é castigo de Deus. É consequência da própria escolha humana. É disso que Jesus está nos falando no Evangelho que ouvimos. Quando vão lhe contar sobre os galileus que Pilatos mandou matar, ou quando Jesus fala sobre a torre de Siloé, ou seja, sobre situações de morte, Jesus nos revela um Deus que não castiga. Muitos ainda tem uma percepção errônea que a doença, a miséria, os males que nos acontecem, são castigos de Deus. As catástrofes que nos acontecem na sociedade ou na vida não são castigos de Deus, mas, consequência das nossas decisões. Jesus nos convida, portanto, à conversão. E a Campanha da Fraternidade deste ano nos fala que não basta convertermos apenas uma dimensão nossa. A conversão é integral. Do mesmo modo que sabemos que não podemos confessar alguns pecados e outros esconder na confissão, não dá pra se converter pela metade. Ou convertemos nosso ser por inteiro, ou não é o suficiente para Deus. Por fim, amados irmãos e irmãs, a parábola da figueira fala da nossa relação com Deus. Mesmo diante de um Deus que firmou a aliança conosco, que nos chama a uma conversão integral, tantas vezes nós fechamos o nosso coração e não damos frutos. O Pai é esse dono da vinha que vem procurar frutos em nós. Jesus é o vinhateiro, que assume a nossa culpa, a nossa falta de frutos e pede para que nós nos mantenhamos mais um ano. Amados irmãos e irmãs, logo será a Páscoa. Será que este ano a Páscoa do Senhor dará frutos em nós e seremos homens e mulheres novos? Ou, será que não daremos frutos agora e até ano que vem Deus já terá nos cortado mesmo sem que frutifiquemos nada? A salvação é graça de Deus, de fato, mas, acolher a salvação e fazer com que ela seja efetiva na nossa vida, isto é, dê frutos, depende de nós. O Senhor deixou a figueira ainda este ano, seremos capazes de dar frutos?
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