terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

08.02.2023 - Discurso aos Cardeais no Consistório Extraordinário

Meus amados irmãos, querido colégio cardinalício, vamos, por fim, ao principal motivo para tê-los convocado nesta tarde: agradecer-vos. Mas, permitam-me, antes disso, falar um pouco de mim e dizer-vos algumas palavras do coração. Amanhã eu encerro este meu pontificado: o meu mais longo, o segundo mais longo da história da Igreja, concluindo sete meses. Não foi fácil. Unindo todos os meus oito pontificados eu pontifiquei durante 28 meses da minha vida: 2 anos e 4 meses. Não digo isso para me engrandecer, de modo algum, mas digo para ressaltar que sinto como Deus é misericordioso para comigo. Como eu disse naquele 09 de julho do ano passado, na sacada das bênçãos: "É belo como Deus nos escolhe apesar de nossas fraquezas e limitações.". Vocês que me conhecem, sabem o quanto levo a sério este ministério, o quanto levo a sério a missão desta Igreja. Sim, temos uma missão, que não podemos perder de vista: fazer com que Jesus Cristo seja conhecido e amado. Todo o restante deve ser consequência disto, tanto o fortalecimento e surgimento de vocações, como o grandioso vínculo das amizades. Ah, meus irmãos, e como eu sou grato a Igreja do Habbo por isso. Se hoje sou o que sou na realidade, é graças ao Habbo. Conversando com minha mãe, esses tempos atrás, eu dizia pra ela que as vezes sinto um certo arrependimento por ter gastado tanto tempo e tanto dinheiro aqui. Ela, então, me recordou a minha alegria em fazer parte desta Igreja, o quanto isso vai satisfazendo, mesmo que as misérias, o meu gosto pela Igreja. E, de fato, tudo que aprendi e que aplico na Igreja da realidade, devo muito ao Habbo, especialmente em matéria de liturgia, a qual dediquei todos estes meus anos aqui e que é minha grande paixão. Não sei se chegarei ao presbiterado na realidade, mas sei que a Igreja do Habbo me trouxe ensinamentos não só dentro da Igreja, mas, também, como pessoa. Aqui eu aprendi a lidar com as diferenças, com o não ser gostado, com a conciliação, com a liderança, enfim, com micro-situações que estão presentes no macro do nosso cotidiano real. E isso é maravilhoso! Além disso, há os amigos. Amizades que sei que levarei para a vida toda. Pode ser que eu não fale com essas pessoas para sempre, mas sei que elas estarão para sempre impregnadas no meu ser, sempre guardas no meu coração. Faço esse discurso não como uma despedida, pois não estou me despedindo, ainda. Devo aparecer bastante, mas penso em não fazê-lo mais com tanta frequência. Digo-vos isso tudo, a fim de animar-vos e para que animados, vós também possais animar os mais jovens. Foi tão triste, em alguns momentos, ver este colégio desanimado. Tudo o que foi, simbolizou e tudo o que significará Bento VI para a história da Igreja, seja postivo ou negativo, tem parte de todos os senhores. Por isso, não só comigo, mas com todos os que pontificarem, lembrem-se dessa corresponsabilidade tão necessária. Infelizmente alguns projetos não foram concluídos, sobretudo os sinodais. Peço, desde já, com humildade, ao meu sucessor, que coloque esses projetos para sairem do papel. Eu tenho um defeito muito grande: não gosto de cobrar as coisas e não gosto de punir. Não gosto de cobrar pois não sou babá e não gosto de punir porque não faz parte do meu feitio. Mas, ao meu sucessor, eu recomendo que seja mais firme com certas questões. O que ficou feito pela metade, agora já ficou, e eu espero que seja concluído, não por minha causa, mas por causa da Igreja. Eu penso que o futuro da Igreja é este: lidar com naturalidade com os momentos de alta e de baixa de clérigos, sem querer ficar inventando crise em tudo, num caminho de comunhão, de reconciliação e de missão. Este caminho é o caminho de uma Igreja que sabe quem é, sabe para onde quer ir, e tem os meios de fazê-lo, basta um passo depois do outro. Passos iniciais foram dados, agora é hora de prosseguir com a caminhada. Ao que nos guiará neste prosseguimento de caminhada, ao meu sucessor, o futuro Sucessor de Pedro, que provavelmente está entre vós, eu prometo desde já minha filial reverência, respeito e obediência. Contudo, se vossas eminências tem culpa no que não deu certo, também tendes culpa em todas as coisas boas que puderam ser feitas, pois foram feitas pelas vossas mãos. Eu busquei um ritmo mais constante, uma Igreja que soubesse lidar com a normalidade. E isso em muitos momentos foi bem possível e proveitoso, mas em outros momentos, algumas ações foram realidas. Pois bem, quero colegialmente lamentar convosco o que não concluímos e agradecer-vos por todos os vossos trabalhos, pelo vosso empenho, pelo vosso esforço, em estarem comigo na condução desta Igreja nos diversos organismos curiais, nos trabalhos administrativos e pastorais, por tudo que os senhores fizeram pela nossa Igreja ao longo destes sete meses. Muito, muito, muito obrigado, eminências.

Permitam-me encerrar com um agradecimento nominal:

Dom Joseph Cardeal Ravassi, obrigado pelas tuas correções, por ser um contra-peso a mim e me ajudar a ver as coisas de outro ângulo.

Dom Odilo Pedro Cardeal Scherer, obrigado pelo teu trabalho com os seminaristas e os presbíteros, tão necessário e tão querido.

Dom Vito Alberti Cardeal Lavezzo, o senhor não queria que eu fosse eleito porque tinha medo dados nossos problemas passados, obrigado por aceitar retornar como ativo, pela tua proximidade e ajuda, sempre sendo o "policial ruim", como o senhor diz, quando eu não consigo.

Dom Raul Cardeal Gabriel, obrigado pelo teu trabalho sempre cheio de esmero com os Bispos, que os faz hoje entenderem melhor seu ministério.

Dom Giuseppe Maria Médici Cardeal Betori, obrigado por todo teu empenho canônico para conosco.

Dom Raul Alberti Cardeal Damasceno, obrigado pela tua doação alegre e generosa, na medida da sua possibilidade.

Dom Wesley Oliveira Médici Cardeal Ravassi, obrigado pelo teu esforço.

Dom Darllan Médici Cardeal Messias, obrigado pelo teu cuidado com as ordens, com os franciscanos, e recentemente com a unidade dos cristãos, possibilitando que a Igreja vislumbrasse um caminho distinto do habitual.

Dom Nadson Paixão Cardeal Médici, meu filho querido no episcopado, que vi crescer e amadurecer ao longo destes anos, obrigado por ter dado fruto onde quer que eu tenha te plantado, obrigado pelo teu carinho, pelas palavras de ânimo. Se fossem vocês os apóstolos, o senhor seria o meu João.

Dom Cristiano Cardeal Baptista, que tive a graça de elevá-lo ao cardinalato depois de tanto tempo, obrigado pelo teu trabalho em Aparecida, pelo tempo que foi meu Mestre das Celebrações, pelo teu trabalho sempre muito vivo.

Dom Francisco Cardeal Reis, meu diácono! Obrigado, eminência, porque quase nunca o senhor me deixou oferecer o sacrifício sem tua tão zelosa colaboração. O senhor vinha meio que vai e volta, mas, também, foram cinco anos só como diácono. Teu trabalho na nunciatura vem nos mostrado a profundidade do que é ser servo. Obrigado.

Por fim, quero agradecer a Dom Jorge Snaif Cardeal Médici, meu decano. Obrigado por ser meu amigo, conselheiro e irmão. É difícil achar as palavras para descrevê-lo. Obrigado pelas noites onde ficamos até tarde conversando sobre situações da Igreja. Obrigado pelo teu sigilo, o que sei que é bem difícil. Obrigado por nunca ter me deixado desamparado. Obrigado por ter ido onde eu não queria ou não podia estar. Sem todos os irmãos, esse pontificado não teria sido o que foi. Mas, sem o senhor, eminência, este pontificado nem existiria há muitos meses. Obrigado pelo ânimo. Obrigado por ser meu irmão!

A todos os senhores, eminências, meu paternal e fraternal afeto, meu carinho, minha gratidão. Deus vos abençoe. E vamos pedir a bênção Dele.

Dominus vobiscum.

Sit nomen Domini benedictum.

Adiutórium nostrum in nomine Domini.

Benedícat vos omnípotens Deus, Pater +, et Fílius +, et Spíritus + Sanctus.

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