quarta-feira, 17 de abril de 2024

17.04.2024 | Audiência Geral

Amados irmãos e irmãs, finalmente temos a nossa primeira audiência geral deste Pontificado e é com muita alegria que os acolho para iniciarmos as nossas catequeses. Nesta nossa primeira série de catequeses, irei falar sobre a nossa experiência com Deus. De fato, com esta série de catequeses, pretendo preparar o lançamento da minha primeira carta encíclica "Inefabilis Deus". Em nossos tempos, apesar de uma cultura muito líquida, ainda assim nós queremos tocar Deus. Queremos fazer uma experiência de Deus que seja sensível. Queremos tocar, queremos olhar, queremos sentir o cheiro, queremos ouvir, queremos provar. E é diante dessa experiência que nós nos colocamos todas as vezes que vamos pensar numa experiência de Deus. A experiência de Deus é muitas vezes uma experiência mística, uma experiência realmente sentida, contemplada. Mas tantas outras vezes e tantas outras pessoas nunca vão fazer essa experiência. E então, será que Deus não quer se deixar ser conhecido? Será que Deus não quer ser experimentado? Como crer em Deus como experimentar Deus sem que essa experiência passe pelos nossos sentidos? E aí que está em nosso tempo, parece que os sentidos não têm tanto valor, porque não nos apegamos a eles, passamos a uma realidade muito virtual. De fato, essa rede de comunicação que nós criamos e que possibilita a nossa comunicação neste momento é extremamente favorável, mas não pode substituir as relações. Nada substitui o toque de amor. Nada substitui o olhar nos olhos da pessoa. E neste mundo onde estamos substituindo tudo isso, nós queremos ter essa relação com Deus. E aí nós cobramos Deus porque tantas vezes ele não se dá conhecer desse modo. De fato, Deus se deu a conhecer, foi experimentado de um modo muito especial pelos discípulos, por aqueles que viram o Jesus histórico, por aqueles que caminharam com ele, por aqueles que foram tocados por ele. Esse modo tão singular de conhecimento, porém, é limitado àqueles que por pouco mais de 30 anos conviveram ou se encontraram com Jesus Cristo neste mundo. Nós somos convidados a fazer uma experiência diferente que é a experiência com Jesus ressuscitado. A experiência com Jesus ressuscitado é uma experiência, sem dúvidas, transformadora. Mas, ao mesmo tempo, é uma experiência um pouco diferente. Pois a experiência com Deus através da ressurreição de Jesus é uma experiência na graça. No Antigo Testamento, nós já temos muitos relatos dos patriarcas e dos profetas fazendo experiências pessoais com Deus. Deus se dá a conhecer, em primeiro lugar, a Adão e Eva, nossos primeiros pais. Deus se dá a conhecer a Noé quando lhe ordena construir a arca para que haja a purificação da Terra. Deus se dá a conhecer a Abraão, ao qual faz a sua Aliança. É Abraão quem estava embaixo do Carvalho de Mambré, quando se aproximam os 3 homens, representação já da Santíssima Trindade, e param para ficar ali. E é quando há a promessa de uma terra e uma descendência para Abraão. É assim que Abraão sai de Ur da Caldeia e vai até Canaã. É também aí que tem o primeiro filho com a escrava Hagar, o filho Ismael, e depois consegue finalmente ter o filho com Sara, o filho da promessa Isaac. E é de Isaac que nasce Jacó, do qual nasce José. E José é aquele que desce para o Egito num tempo onde Canaã passa por uma experiência de grande pobreza. E no Egito, Deus é experimentado por Moisés. E então o povo de Deus passa a viver uma experiência totalmente nova com esse seu Deus. Deus é o libertador. Deus é aquele que os tirou do Egito das mãos do faraó, que os fez passar pelo mar, que os alimentou no deserto e que lhes deu a lei. A Moisés, Deus se revela como "Eu sou". "Eu sou", quer dizer, eu sou aquele que é, que era e que serei. Eu sou. Quer dizer, eu estarei ao seu lado para aquilo que precisares, eu sou. É a presença de Deus no meio do seu povo. É um Deus que caminha com o seu povo. É um Deus que se faz presente na história do seu povo. É esta experiência de Deus que faz Israel no Santo dos Santos, na Arca da Aliança, na tenda da reunião e depois no templo no período da monarquia. Mas o povo de Israel também faz a experiência da ausência de Deus. Esta experiência é muito clara no exílio. É no exílio da Babilônia, que o povo sente a ausência de Deus. É na Babilônia que sentem-se as consequências do pecado, a consequência da infidelidade, a consequência da idolatria que tinha Israel. Porque a idolatria? Pois o ídolo não tem valor em si mesmo, o ídolo é aquele ao qual o fiel concede um valor, concede um poder que o próprio ídolo não tem. Aqueles que praticam a idolatria abandonam a Deus, e é por isso que Deus diz por meio do profeta Amós que o povo irá perder tudo aquilo que lhe foi dado pelos ídolos e que Deus lhe restituirá alguma coisa maior, mas para isso, a experiência necessária do povo de Deus é a experiência do exílio. Mas essa experiência do exílio também passa a ser uma experiência de amor. Quando o povo volta para a Terra e lá restabelece o templo, lá sente-se novamente amado por Deus. Lá faz a experiência com a palavra de Deus. Experiência de Deus de modo singular, fez Jesus Cristo. Ele, que era Deus, relaciona-se intimamente com o Pai. É ele quem nos ensina a fazer a experiência de Deus, um Deus amoroso, um Deus misericordioso, um Deus que se dá a conhecer. Um Deus que se entrega. Um Deus que ama. Ama, é misericordioso, se entrega, justamente porque isso é parte da sua própria natureza. É este Deus que Jesus Cristo nos ensina a chamar Pai. A experiência com Deus, portanto, por meio de Jesus Cristo, é renovada e nos permite uma experiência que é muito mais profunda. Mas falar de experiência de Deus também é falar da experiência da ausência de Deus. Ausência de Deus que nós sentimos em muitos momentos. E, às vezes, ausência de Deus é ausência da experiência de Deus. Deus parecia ausente aos mártires, mas a sua fé os fez permanecer fiéis a Deus, a experiência de Deus que tinham feito. Deus parecia ausente em Auschwitz. E a grande pergunta do século 20 foi, onde estava Deus em Auschwitz? E nós respondemos, Deus estava morrendo nas câmaras de gás. Este é o nosso Deus, é um Deus que sente conosco. As nossas dores, as nossas angústias, as nossas misérias, mesmo aquelas que são menores, mesmo aquelas que parecem mais bobas. São sentidas por Deus. Deus sente conosco. E se de fato fazemos a experiência de Deus em sua aparente ausência, muito mais fazemos a experiência de Deus quando o percebemos, quando o conhecemos. Reparem que no hebraico, conhecer tem uma conotação amorosa, sexual. Pois no conhecimento sexual, nós sentimos a outra pessoa por completa, uma pessoa se entrega totalmente a outra. Por isso que Maria diz que ainda não conhece homem algum. Conhecer é entrar na intimidade. E o que há de mais profundo em nós é apenas conhecido por Deus. Nem nós mesmos nos conhecemos profundamente, o que dá base a várias teorias psicológicas, como a de Freud. Mas Deus nos conhece. E ele quer ser conhecido por nós. Fazer a experiência de Deus é também conhecê-lo. Conhecemos a Deus por meio dos estudos. Mas este ainda não é o conhecimento em seu sentido mais estrito. Conhecimento de Deus aqui é uma experiência. Experiência não sensível. Experiência que acontece por meio da graça. Experiência de revelação. Experiência de percepção da ação e da presença de Deus em nossa vida, em nossa sociedade, em nosso mundo. E onde experimentamos a Deus, já que ele nem sempre é tangível aos nossos sentidos, nem sempre é sentido nas nossas emoções e a intelectualidade não é suficiente? Gostaria eu de ter uma resposta pronta para dar a vocês. Porque cada um de nós faz uma experiência diferente deste mesmo Deus. Isso não cai no relativismo, antes, nos mostra que Deus se revela de modos diferentes na experiência, não enquanto verdades, enquanto dados de fé. E, nesse sentido, não há experiência maior ou menor, mais ou menos importante. Há apenas Deus e nós e uma pequenininha experiência que pode mudar tudo.

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