Excelentíssimos senhores bispos, reverendíssimos presbíteros, meus queridos filhos. Nesta noite, muito antes de querer fazer convosco uma exposição muito prolongada, em positiva daquilo que penso, quero dialogar convosco. Por isso, iniciarei sim com a minha colocação, mas depois. Quero provocá-los a perguntar, a conversarmos sobre o melhor caminho para a nossa igreja. Quando o Papa João Paulo VIII me convidou para pregar o retiro para a Cúria Romana e para toda a igreja, falei muito sobre a sinodalidade. E penso que este momento deve ser um momento sinodal. Penso sim, em comunhão com o Papa Francisco, que precisamos converter as estruturas da igreja numa estrutura sinodal e isso deve refletir também para a nossa igreja no Habbo Hotel. Talvez um dos nossos grandes problemas hoje seja justamente esperarmos uma grande seriedade no ser igreja. Os senhores sabem que em muitos momentos da história da igreja houve controvérsia sobre se deveria ou não haver uma igreja católica no Habbo Hotel. Tanto que no pontificado de Silvestre I, a igreja foi reduzida a um Ministério da Palavra. Nós sabemos bem o quanto alguns não entendem aquilo que nós fazemos, que não entendem a nossa missão, que acham que nós estamos simplesmente zuando. Quando eu cheguei na igreja, havia um clima muito mais descontraído do que o que nós possuímos hoje. Mas foi crescendo em nós a consciência de que, ao mesmo tempo que nós estamos aqui para satisfazer os nossos desejos pessoais, é a nossa realização de celebrar a Eucaristia e a nossa vivência fraterna. Existe também a dimensão eclesial que deve ser vivida com seriedade. Não podemos zombar das coisas de Deus. Não podemos simplesmente usar as coisas de Deus. Por isso, a nossa missão aqui deve ser uma missão séria. Devemos sempre levar em consideração que aquilo que nós fazemos é também um modo de evangelizar. E talvez a única crise existente na igreja, mesmo que muitos queiram, de vez em quando falar de alguma crise, a única crise existente é a crise de identidade. Crise essa que não deveria existir, uma vez que o Concílio de Jerusalém, já com muita clareza, definiu para nós o que é o ser da igreja. Em continuidade com o Concílio Vaticano Segundo, onde se fala da igreja como reflexo da realidade. O Concílio de Jerusalém também falou sobre a necessidade de ser igreja. Por que somos igreja? Por que celebramos os sacramentos? E foi tendo em vista essa seriedade também que nós pudemos recentemente, por meio da Constituição Apostólica Sacrossancta Liturgia, retornar as palavras próprias da narrativa da instituição, que são tão significativas, mas que haviam se perdido justamente pelo medo de simular sacramentos, mas que, na verdade, mostram como nós não entendíamos ainda o suficiente sobre a liturgia, sobre teologia. E nem mesmo sobre nós mesmos. Um tema que venho retomando com bastante persistência desde o dia do retiro do clero é o do autoconhecimento. Autoconhecimento nosso como igreja, mas também autoconhecimento nosso como pessoas. Não dá para fugirmos. Não dá para fugir de nós mesmos. A dificuldade é que quando nós não nos conhecemos, nós não conhecemos os nossos limites, acabamos por assumir coisas demais que não damos conta. Ou corremos o risco de nos menosprezarmos, de podermos dar muito mais de nós mesmos, mas não estarmos dispostos. Ainda assusta a quantidade de cardeais, bispos e padres que não estão dispostos ao que assumiram. Não basta dizer que a porta da rua é serventia da casa. Às vezes as pessoas não estão dispostas a sair, às vezes queremos dar o melhor de nós mesmos, mas não conseguimos. E aí falta a humildade de pedir ajuda. Ou então, estão tão habituados a essa situação que não se mexem para sair dela. Nesta visita apostólica, eu disse que queria priorizar a dinâmica do encontro. Penso que já falei o suficiente sobre isso logo no discurso de abertura. Mas, permitam-me ressaltar aqui convosco como sinto falta do encontro entre vós. Alguns não têm nem encontro comigo. Alguns padres nunca participam das minhas celebrações, nem das celebrações de outros, assim como bispos e cardeais. O que sinceramente me preocupa, porque se não estão nas celebrações do Romano Pontífice, penso que muitas vezes também não estão nas celebrações, nas arquidioceses. Penso que também não celebram. Não estão presentes na vida da igreja. Mas vocês também não têm encontro entre vocês. O grupo da igreja às vezes é movimentadíssimo. O grupo dos cardeais costuma ser movimentado. O grupo dos bispos conversa muito de vez em quando. O grupo dos presbíteros e dos diáconos só existe para aviso. Não sei como é o grupo das arquidioceses, mas espero que seja melhor. Porque isso mostra que falta-nos uma colegialidade. Falta-nos um sentimento de pertença, um sentimento de comunhão. E sem essa pertença, sem essa comunhão, não dá para sermos uma autêntica igreja. Eu sei e entendo que muitas vezes nós temos muitos afazeres na nossa vida real. Graças a Deus. Eu também tenho. Mas se nós não podemos nos dedicar à igreja do nosso Habbo Hotel, nós precisamos infelizmente deixá-la. Eu sei que sou abençoado por uma rotina um pouco mais tranquila, que me permite um pouco mais de atividades e, muitas vezes, um tempo livre para preparar homilias, discursos, nomeações. Mas que não me dá tempo livre o suficiente para estar aqui convivendo convosco o tempo todo. O Colégio Cardinalício sabia disso quando me elegeu. Agora, será que nunca tenho tempo livre? E se não há esse tempo livre, por que estamos insistindo em permanecer? Ou será que o problema é outro? Será que eu não me sinto pertencente à igreja? Será que aconteceu alguma coisa que me faça não me sentir pertencente? Será que eu não estava fazendo as coisas esperando uma promoção que não veio e então eu me desanimei? Sim. Todo padre é um bispo em potencial. Todo bispo é um cardeal em potencial. Todo cardeal é um papa em potencial. Mas nem toda potência vai virar ato. Nem todo padre vai ser bispo, nem todo bispo vai ser cardeal, nem todo cardeal vai ser papa. Às vezes nós só temos que fazer aquilo que temos que fazer onde estamos. A gente sabe muito bem quem é ganancioso. Não que a ganância ou a carreira seja um problema em si. Mas causam situações problemáticas. Porque às vezes, a pessoa nem por isso se esforça. A nossa motivação deve ser o amor por Jesus Cristo, deve ser o amor pela nossa igreja. Houve uma vez que fui exonerado do Colégio Cardinalício pelo Papa Bento Terceiro como condição para sair da emerititude, a fim de voltar a ser ativo. Não hesitei em abrir mão do cardinalato. Não me ponho como modelo para vocês. Mas vos digo que às vezes precisamos entender que temos algo a mais. Que o mais importante não é nos apegarmos aos títulos, mas nos apegarmos à igreja. Então, o que eu digo a vocês é isso. Unam-se mais como colégios ou não se mais como arquidioceses. Partilhem mais as coisas, vivam esse encontro entre vocês. Saibam que o Papa também está sempre disposto a encontrá-los. Foquem na formação presbiteral de acordo com a Ratio, e sejam vocês divulgadores da nossa igreja. Entendam que a igreja é de vocês. Ou melhor, que vocês são a Igreja. Como eu disse na abertura da nossa visita apostólica, é aqui no Brasil que está o que há de principal na igreja, que é a pastoralidade. E a pastoral deve estar em vocês. Vocês, padres e bispos, são imagens de Jesus Cristo, o Bom Pastor, e por isso devem ser pastores. Não são apenas ovelhas, são pastores. São protagonistas. São corresponsáveis. Assumamos, pois, todos nós este protagonismo ou admitamos a nossa limitação e permitamos que a igreja continue sem nós. O que mais importa não é a quantidade, é a qualidade. Esta percepção que vem crescendo dentro da igreja corre o risco de nos reduzir. Mas de que adianta muitos padres, muitos bispos, muitos cardeais e nomeações se na prática nós não temos essas pessoas? Sejamos protagonistas. Agora abro para as perguntas de vocês, os questionamentos não apenas sobre este tema, mas sobre tudo aquilo que envolve a vida da igreja, aquilo que vocês querem saber, aquilo que vocês enxergam como dificuldades que querem e que precisam de ajuda, enfim, é nosso momento de diálogo.
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