segunda-feira, 22 de março de 2021

22.03.2021 - Visita a São Paulo

DISCURSO NA CHEGADA AO BRASIL

Digníssimo Dom Pedro, núncio Apostólico, em nome do qual saúdo todos os bispos e clérigos aqui presentes, e amados irmãos e irmãs em Cristo.

Que momento de alegria para mim, como Bispo de Roma, pontífice da Igreja Universal, chegar ao Brasil para esta nossa primeira visita apostólica. Que momento sublime podermos nos encontrar aqui como irmãos na fé. O Brasil é país de um povo muito católico, de profunda influência religiosa, embora nos últimos tempos venha assistido, tristemente, a perca da fé em seu povo e enfrentado as dificuldades do homem hodierno. Desejo do mais profundo do meu coração que essa nossa visita apostólica seja um momento de encontro entre irmãos. Encontro entre pessoas que partilham a fé no mesmo Cristo. Seja um momento de fortalecimento para a vossa missão, enquanto estamos as portas da Semana Maior, cume do ano litúrgico e da nossa vivência eclesial. É entorno da Árvore da Cruz que nós brotamos como anunciadores deste Jesus de Nazaré, Deus que tanto nos amou. Por isso, irmãos, espero do fundo do meu coração que o fruto da nossa visita a vocês seja o conhecimento mútuo, o aprofundamento da relação de pastor e rebanho, e o fortalecimento mútuo, de mim para com vocês e de vocês para comigo, para que nos inflamemos do amor por nosso Senhor e possamos continuar a missão a cada um de nós confiada. Que esse momento de encontro fraterno nos faça perseverar no anúncio de Jesus Cristo, nosso Senhor. Sou muito feliz por estar no Brasil. Bendito seja Deus!

HOMILIA PARA A MISSA

Irmãos, a Liturgia da Palavra de hoje tem uma profunda interligação entre os dois textos que ouvimos. Na primeira leitura, Susana está sendo condenada a morte sem o devido julgamento de seu caso. Uma figura feminina que estava sendo acusada de adultério por homens que tinham uma palavra considerada mais válida que a dela. Daniel, por outro lado, era justo, e quis julgar o caso. Encontrou, então, um erro no discurso dos acusadores: cada um dizia ter visto Susana sob uma árvore diferente daquela que o outro disse. Daniel vê a mentira e liberta a inocente Susana. De fato, esta Susana que a escritura nos fala era uma mulher temente a Deus e inocente. Ela só foi libertada por ser inocente. A inocência de Susana estava ligada ao fato de ser temente. E, normalmente, as mulheres são mais tementes a Deus. Mas, nem sempre é o caso. Não podemos colocar isso como regra. Hoje, irmãos, corre na nossa sociedade uma perigosa corrente que sempre inocenta as mulheres. Mas, se esquece que mulher também erra, mulher também assassina, também trai. Em tempos que se fala tanto de relacionamento abusivo se esquece que há mulheres abusivas. Essas causam grande sofrimento aos parceiros, pois sendo vista como inocentes podem criar má fama a eles. Embora, verdade seja dita, a maioria dos casos de abuso parte dos homens. Aí sim precisamos ser verdadeiros defensores dos direitos das mulheres, daqueles que elas de fato devem possuir como qualquer homem. Mas, eu digo tudo isso para que possamos perceber a incongruência existida em ambos os lados. Nós precisamos antes de criar conceitos estereotipados, julgar verdadeiramente a situação, analisar provas, não ir pelo disse ou não disse do homem ou da mulher. Infelizmente há muitos homens bons e muitas mulheres boas que são injustamente acusados pela nossa sociedade e nós não nos importamos. Cancelamos as pessoas sem nos preocupar onde está a verdade. Isso é uma realidade muito forte em nossa sociedade e vem se tornado um hábito. Um hábito, porém, que precisamos deixar de lado. É preciso julgar corretamente cada caso e não deixar ninguém impune. Ou homem ou mulher que bate em seu parceiro ou parceira merece sim ser punido legalmente por suas atitudes. Nós, como cristãos, não podemos permitir que as vítimas continuem a sofrer com os abusos psicológicos e físicos. Precisamos acolher essas pessoas, dá-las nova esperança! Precisamos ir as periferias, diz Papa Francisco, não apenas físicas, mas, sobretudo existenciais. Quantas pessoas sofrem ao nosso lado e não nos preocupamos, não nos importamos, não damos valor ao seu sofrimento. Talvez essa pessoa tenha, como costumamos dizer, culpa no cartório, mas e daí? Não podemos ajudar? Nosso Senhor, no Evangelho, acolheu a mulher adúltera. Nós, nesse momento, precisamos olhar para as nossas misérias para sermos misericordiosos. Há quem diga que, no chão, Jesus escrevia os pecados daqueles que traziam pedras nas mãos. Só quem olha para dentro de si mesmo e seus erros, suas falhas, é capaz de compreender as falhas dos outros. Jesus embora não tivesse erro, tornou-se pecado por nós e por isso se compadece da adúltera. Ele não a condena, mas a salva. Salvemos, irmãos os inocentes que sofrem, as vítimas. Sim, mas salvemos também os pecadores. Retiremos da miséria os nossos irmãos errantes e tentemos ajudá-los. Não sejamos coniventes com os erros dos nossos irmãos quando os vemos atentar contra a natureza humana, contra a dignidade do outro, contra Deus. Mas não coloquemos pedras em nossas mãos para apedrejá-los. Os ajudemos. Nos coloquemos no lugar de todos os outros. Lembremos que a justiça civil deve punir os errantes, mas, nós, cristãos, devemos ir a miséria deles e salvá-los. Só assim seremos de verdade outros Cristos, pois foi Ele mesmo, que se fez pecado por nós, desceu a nossa miséria e nos resgatou por sua misericórdia.

Nós vos adoramos Senhor Jesus Cristo e vos bendizemos!


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