Amados filhos e filhas, estamos iniciando esta nossa nova série de catequeses, inspiradas nas obras "Jesus de Nazaré", de Bento XVI. Filhos e filhas, quem é Jesus? No decurso do interrogatório de Jesus, de improviso Pilatos põe ao acusado esta pergunta: “De onde és Tu?”. Os acusadores dramatizaram o seu clamor pela condenação à morte de Jesus, declarando que Ele Se teria feito Filho de Deus; delito este para o qual a Lei previa a pena de morte. O juiz romano racionalista, que antes manifestara o seu ceticismo diante da questão a respeito da verdade, poderia avaliar como ridícula essa pretensão do acusado. Mas não! Ficou assustado. Anteriormente, o acusado declarara que era um rei, mas especificando que o seu reino não era “deste mundo”. Depois aludira a um misterioso “de onde” e “para quê”, ao dizer: “Para isso nasci e para isto vim ao mundo: para dar testemunho da Verdade”. Para o juiz romano, tudo aquilo devia parecer um desvario; e todavia não conseguia subtrair-se à misteriosa impressão deixada por aquele homem, diferente dos outros que ele conhecia e que combatiam contra a dominação romana e pela restauração do reino de Israel. O juiz romano interroga sobre a origem de Jesus, para compreender quem era Ele verdadeiramente e o que queria. A pergunta sobre o “de onde” é Jesus, como questão sobre a sua origem íntima e, consequentemente, sobre a sua verdadeira natureza, surge também em outros pontos decisivos do Evangelho de João e é importante também nos evangelhos sinóticos. Tanto em João como nos sinóticos, a questão aparece envolvida em um estranho paradoxo. Por um lado, contra Jesus e a sua alegada missão, está a informação precisa de que dispõem sobre a sua origem: não vem de modo algum do céu, do “Pai”, de “lá de cima”, como Ele sustenta. Não! Porventura não é Ele “cujo pai e a mãe conhecemos? Como diz agora: ‘Eu desci do céu’? Os sinóticos narram uma discussão muito semelhante na sinagoga de Nazaré, a terra de Jesus. Ele interpretara as palavras da Sagrada Escritura não na forma habitual, mas com uma autoridade que ultrapassava os limites de toda interpretação; tinha-as referido a Si mesmo e à sua missão. Compreensivelmente, os ouvintes ficam alvoroçados com essa relação com a Escritura, com a pretensão de ser Ele próprio o ponto intrínseco de referência e a chave de interpretação das palavras sagradas. E o alvoroço transforma-se em protesto: “Não é este o carpinteiro, o filho de Maria, irmão de Tiago, Jose, Judas e Simão? E as suas irmãs não estão aqui entre nós? E isto parecia-lhes escandaloso”. De fato, eles sabem muito bem quem é Jesus e de onde vem: é um entre outros; é um como nós. A sua pretensão não pode ser senão presunção. A isso vem juntar-se o fato de que Nazaré não era um lugar indicado para a realização de tal promessa. João conta que Filipe disse a Natanael: “Encontramos aquele de quem escreveram Moisés, na Lei, e os Profetas: Jesus, filho de José, de Nazaré”. A resposta de Natanael é bem conhecida: “De Nazaré pode vir algo de bom?”. A vida normal de Jesus, o operário provinciano, não parece esconder qualquer mistério; a sua proveniência revela-O como um igual a todos os outros. Mas contra a autoridade de Jesus há também o argumento oposto, referido concretamente na discussão em torno da cura do “cego de nascença”, que adquiriu a vista: “Sabemos que Deus falou a Moisés; mas esse Jesus não sabemos de onde é!”. Algo de muito semelhante disseram também os habitantes de Nazaré depois da pregação de Jesus na sinagoga e antes de O desqualificarem como bem conhecido e igual a eles: “De onde lhe vem tudo isto? E que sabedoria é esta que lhe foi dada? E como se fazem tais milagres por suas mãos?”. Também aqui a pergunta é “de onde…?”, embora depois a eliminem invocando a parentela d’Ele. A origem de Jesus é simultaneamente conhecida e desconhecida: aparentemente fácil de explicar e, todavia, não possui uma explicação exaustiva. Em Cesareia de Filipe, Jesus interrogará os seus discípulos nestes termos: “Quem dizem os homens que Eu sou? (...) E vós, quem dizeis que Eu sou?”. Quem é Jesus e de onde vem: as duas perguntas estão inseparavelmente unidas. O objetivo dos quatro Evangelhos é responder a essas perguntas; foram escritos precisamente para lhes dar resposta. Ao abrir o seu Evangelho com
a genealogia de Jesus, Mateus quer, logo de início, colocar na justa perspectiva a questão sobre a origem de Jesus; a genealogia é como uma espécie de título para o Evangelho inteiro. Diversamente, Lucas colocou a genealogia de Jesus no início da sua vida pública, quase como uma apresentação pública de Jesus, para dar resposta – embora com ênfase diferente – à mesma pergunta, antecipando aquilo que depois o Evangelho inteiro desenvolverá. Procuremos agora entender melhor a intenção essencial das duas genealogias. Em Mateus, há dois nomes que são determinantes para compreender “de onde” é Jesus: Abraão e Davi. Depois da dispersão da humanidade na sequência da construção da Torre de Babel, é com Abraão que começa a história da promessa. Abraão alude, antecipadamente, àquilo que deve vir; ele é peregrino não só saindo do país das suas origens para a terra prometida, mas também enquanto sai do presente para se encaminhar rumo ao futuro. Toda a sua vida aponta para a frente, possui uma dinâmica que o faz caminhar pela estrada do que deve acontecer. Por isso, justamente a Carta aos Hebreus o apresenta como peregrino da fé apoiada na promessa: ele “esperava a cidade que tem fundamentos, cujo arquiteto e construtor é o próprio Deus”. Para Abraão, a promessa refere-se primariamente ao seu descendente, mas
vai mais longe: “Por ele serão benditas todas as nações da terra”. Assim, em toda a história que começa com Abraão e se dirige para Jesus, o olhar fixa-se no conjunto: através de Abraão, deve vir uma bênção para todos. Por isso, já desde o início da genealogia, o olhar volta-se para a conclusão do Evangelho, onde o Ressuscitado diz aos discípulos: “Fazei que todas as nações se tornem discípulos”. Em todo caso, na história particular apresentada pela genealogia, está presente, desde o início, a tensão para a totalidade; a universalidade da missão de Jesus está incluída neste “de onde” é Ele. Mas a estrutura da genealogia e da história por ela narrada está
determinada totalmente pela figura de Davi, do rei a quem fora feita a promessa de um reino eterno: “O teu trono se estabelecerá para sempre”. A genealogia, que Mateus apresenta, está modelada com base nessa promessa. Está estruturada em três grupos de 14 gerações: primeiro
subindo de Abraão até Davi, depois descendo de Salomão até o exílio da Babilônia, para em seguida subir de novo até Jesus, em quem a promessa alcança a sua realização. Aparece o rei que permanecerá para sempre, mas completamente diferente daquilo que se poderia imaginar com base no modelo de Davi. Essa estruturação torna-se ainda mais clara se tivermos em mente que as letras hebraicas do nome de Davi totalizam o valor numérico de 14, e assim, a partir do simbolismo dos números, Davi, o seu nome e a sua promessa caracterizam o caminho de Abraão até Jesus. Com base nisso, poder-se-ia dizer que a genealogia com os seus três grupos de 14 gerações é um verdadeiro Evangelho de Cristo Rei: a história inteira aponta para Ele, cujo trono estará firme para sempre. A genealogia, em Mateus, é uma genealogia de homens; nela, porém, antes de Maria – com quem termina a genealogia – mencionam-se quatro mulheres: Tamar, Raab, Rute e “a mulher de Urias”. Por que motivo aparecem essas mulheres na genealogia? Com qual critério foram escolhidas? Porque – foi dito – as quatro mulheres teriam sido pecadoras. Assim, com a sua menção, estaria subjacente a indicação de que Jesus teria tomado sobre Si os pecados e, com estes, o pecado do mundo, e que a sua missão haveria de ser a justificação dos pecadores. Mas isso não pode ter sido o aspecto determinante na escolha, sobretudo porque não se aplica às quatro mulheres. Mais importante é o fato de nenhuma das quatro ser judia; assim, por intermédio delas, entra na genealogia de Jesus o mundo dos gentios: torna-se visível que a sua missão se destina a judeus e pagãos. Mas, acima de tudo, a genealogia termina com uma mulher – Maria – que, na realidade, constitui um novo início e relativiza a genealogia inteira. Através de todas as gerações, tal genealogia avançara seguindo o esquema: “Abraão gerou Isaac...”; no final, porém, aparece uma coisa muito diversa. Relativamente a Jesus, já não se fala de geração, mas afirma-se: “Jacó gerou José, o esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, chamado Cristo”. Na narrativa seguinte do nascimento de Jesus, Mateus nos diz que José não era o pai de Jesus, tendo ele a intenção de repudiar Maria em segredo por causa do suposto adultério; e então lhe foi dito: “O que nela foi gerado vem do Espírito Santo”. Assim, a última frase dá uma nova orientação para toda a genealogia. Maria é um novo início; o seu filho não provém de um homem, mas é uma nova criação: foi concebido por obra do Espírito Santo. A genealogia mantém a sua importância: José é juridicamente o pai de Jesus. Por meio dele, Jesus pertence segundo a Lei, “legalmente”, à tribo de Davi. E, todavia, vem de outro lugar, “do alto”: do próprio Deus. O mistério sobre “de onde” Ele é, da sua origem dupla, nos é colocado de forma muito concreta: a sua origem é determinável e, todavia, permanece um mistério. Só Deus é o seu “Pai” em sentido próprio. A genealogia dos homens tem a sua importância no que diz respeito à história do mundo. E, apesar disso, no fim das contas é em Maria, a Virgem humilde de Nazaré, que acontece um novo início: recomeça de modo novo o ser humano.
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