Irmãos, vamos iniciar hoje uma série de duas catequeses sobre a obra "Introdução ao Espírito da Liturgia" do Papa Emérito Bento XVI.
Vamos a um breve histórico de nosso autor: O Cardeal Joseph Ratzinger, Papa Bento XVI, nasceu em Marktl am Inn (Alemanha) no dia 16 de Abril de 1927 (Sábado Santo), e foi batizado no mesmo dia. Recebeu a Ordenação Sacerdotal em 29 de Junho de 1951. No ano de 1953, doutorou-se em teologia. De 1962 a 1965, foi perito no Concílio Vaticano II. Em 25 de Março de 1977, o Papa Paulo VI nomeou-o Arcebispo de München e Freising. Paulo VI criou-o Cardeal em 27 de Junho do mesmo ano. Foi Presidente da Comissão encarregada da preparação do Catecismo da Igreja Católica. João Paulo II nomeou-o Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e Presidente da Pontifícia Comissão Bíblica e da Comissão Teológica Internacional. Em 19 de Abril de 2005 foi eleito papa, adotando o nome de Bento XVI. Desde 28 de Fevereiro de 2013 é Bispo Emérito de Roma.
No ano 2000, o Cardeal Ratzinger publica a obra que será o nosso objeto de exposição. Logo no inicio do texto, o autor explica a sua motivação ao escrever a obra: que seja uma contribuição para a renovada compreensão da Liturgia, que talvez pudesse servir de estímulo para um novo movimento litúrgico. Na primeira parte trata-se sobre a essência da liturgia. Ela é uma forma completamente diferente das demais de oração, pois é uma antecipação da liturgia celeste - este ponto será reafirmado diversas vezes ao decorrer do livro – e ela não existe por si própria. Já no antigo testamento, o Senhor sela com Moisés a aliança que se concretiza numa forma de culto minuciosamente regulamentado. A verdadeira liturgia pressupõe que Deus responda e mostre de que modo devemos adorá-lo, enquanto a história do bezerro de ouro é uma advertência contra um culto realizado segundo o molde pessoal e a busca de si mesmo. A liturgia demonstra a história de amor entre Deus e o homem. Ratzinger trabalha o aspecto do sacrifício, que em todas as religiões o núcleo fundamental parece ser o sacrifício. Mas, que satisfação teria Deus com a destruição? Na verdade, ela esconde um ato de reconhecimento da soberania de Deus sobre todas as coisas, e demonstra que a humanidade entrega tudo a Deus. Tem também, na liturgia, uma dimensão cosmológica, pois no culto se olha para o que existe acima de todo o ser, e é movimento de retorno e redenção. Esta última é entendida como libertação do peso da finitude. O sacrifício assume a forma da cruz de Cristo, do amor que se doa, a qual realiza uma nova criação, e continua a realizando esse mesmo ato em cada vez que se celebra a liturgia. Desde o sacrifício de Isaac, todos os costumes no que se refere ao sacrífico se mostraram provisórios. Eles indicam ao Justo que morre na cruz. Com a ressurreição do Cristo inicia-se uma nova visão do sacrífico e um novo templo para o sacrifício. Jesus Cristo que estará na presença de Deus será o lugar de todo culto. Quando os evangelistas narram que na hora da morte de Jesus o véu do templo se rasgou, querem dizer a função do templo antigo foi destruída. O culto antigo acabou. Agora é a hora do verdadeiro cordeiro.
A segunda parte trata sobre o
tempo e lugar na liturgia. Ali o cardeal expõe que o ato interior da paixão do
Senhor não teria consistência sem a crucificação, que supera o tempo. Assim o
passado e o presente se interpenetram, o evento transmite toda a sua força aos
presentes. Até o final dura o hoje de Cristo. O culto é celebrado pelo
próprio Cristo diante do Pai, mas desde as origens os cristãos utilizam-se das
casas de oração que tem uma íntima ligação com a sinagoga, sua estrutura e suas
formas de culto. Os cristãos costumavam rezar voltados para o Oriente, para o
sol que nasce. Não se trata de um culto solar, mas é o cosmos que fala de
Cristo. Ele é representado pelo sol, ele é o lugar da Shekinah, verdadeiro
trono de Deus, em várias partes da cristandade a direção do oriente é apontada
pela cruz. Diante disso, Ratzinger trabalha que em
nenhuma refeição da era cristã o presidente de uma assembleia de comensais
ficava de frente para os participantes, todos eles ficavam do mesmo lado da
mesa. Na verdade, isso dá ideia de um todo fechado em si mesmo. Mas há um ponto
problemático nessa questão, pois muitos reconhecem o antigo como único critério
de original, mas descartam tudo que houve na Idade Média e após Trento como
lixo. Assim, dadas diversas objeções, demonstrou-se que não é necessário olhar para
o oriente, mas sim para a cruz, que é o Oriente interior da fé. Ela deve estar
situada no centro do altar, como ponto para onde converge tanto o olhar do
sacerdote quanto da comunidade. Por fim, sobre este assunto, o Cardeal conclui
falando sobre os que vêm um incomodo na cruz no centro do altar, questionando
se o sacerdote é mais importante que o Senhor. Falando sobre a custódia do
Santíssimo Sacramento, o autor trabalha que o tabernáculo só foi desenvolvido
no segundo milênio para guardar o pão Eucarístico. Na Igreja Antiga sempre
houve a consciência de que a transubstanciação uma vez realizada é permanente.
E aos poucos, também graças ao movimento Franciscano, o tabernáculo toma sua
forma, e realiza plenamente o objetivo pelo qual existia a arca da Aliança. E
sobre o aspecto da transubstanciação, Ratzinger se alonga, dizendo que
alimentar-se da Eucaristia também é adorá-la, por isso não se deve dizer que a
Eucaristia é para ser comida e não adorada. Ao abordar a dimensão do
tempo, o Cardeal expõe que o domingo adotou o sentido que outrora pertencia ao
sábado. Cristo superou o tempo. Cristo ressuscita no oitavo dia (o dia seguinte
ao sétimo), também por isso construíram-se batistérios de forma octogonal. O
oitavo dia abre um novo tempo. A data anual da Páscoa une os calendários solar
e lunar, ao colocar a Páscoa Cristã no domingo após o primeiro plenilúnio de
primavera. O autor trabalha se estende ainda sobre a celebração do Natal,
comprovando que a o 25 de dezembro não está ligado a festa pagã do nascimento
de uma divindade mítica, mas está ligada a antigas tradições que estabeleciam o
inicio da criação a 25 de março, por isso esse dia também está ligado a
encarnação do Verbo e a Páscoa (que fora celebrada, outrora, nesse dia em
alguns lugares).
Na próxima semana falaremos sobre a terceira e a quarta parte da obra, concluindo este tema da reflexão de Bento XVI na Introdução ao Espírito da Liturgia.
Nenhum comentário:
Postar um comentário