domingo, 3 de maio de 2020

03.05.2020 - IV Domingo da Páscoa na Basílica de São Pedro

Eminentíssimo Dom Pedro Cardeal Melchior, nosso arcebispo eleito de São Salvador da Bahia,
que hoje aqui em Roma professa sua fidelidade e recebe o seu pálio Pastoral, para depois ir ao 
Brasil onde tomará posse de sua arquidiocese na quarta-feira, e em seu nome saúdo a cada irmão
que concelebra esta Eucaristia bem como todos aqueles que dela tomam parte como assembléia.
Neste Quarto Domingo da Páscoa a liturgia gira em torno do Bom Pastor. Em cada um dos anos
litúrgicos lemos um trecho do capítulo dez de São João, e, nesse ano A, lemos os primeiros versículos
deste capítulo. A centralidade deste trecho não é, em si, a figura do Bom Pastor, mas do rebanho.
Cristo se apresenta como a porta do rebanho. A porta dá a segurança ao rebanho. Quando Jesus
diz que Ele é a porta, ele diz que Ele é aquele que dá segurança as ovelhas. Em outra passagem
Ele vai dizer que Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida. Mas, aqui, Ele é algo a mais que tudo isso,
Ele é a porta. A porta é o que liga dois ambientes. Cristo é a nossa ligação com o Pai. Cristo é aquele
que faz a nossa comunhão com o Pai. Por isso, apenas por essa porta nós podemos chegar ao Pai.
Apenas pelo Cristo, Senhor, o rebanho encontra a verde pastagem. E aqui, essa verde pastagem
pode ser os sacramentos, mas pode ser também o local da felicidade das ovelhas. E o qual é o 
local da nossa felicidade, o local onde nos sentimos plenamente realizados, se não for junto de
Deus? Então, deste modo, as verdes pastagens são justamente os Céus. Aquele lugar reservado
para nós desde toda a eternidade. E, na primeira leitura dos Atos dos Apóstolos nós vemos que 
a promessa da felicidade eterna, desta salvação, é o que leva a que todos venham fazer uma opção
por serem membros do rebanho do Senhor. Deste modo, após o discurso de São Pedro sobre 
a salvação, elevou-se mais ou menos três mil no número dos cristãos. Irmãos e irmãs, essa esperança
no Deus Salvador é bem mais antiga do que a crença no Deus Criador. No Antigo Testamento
Deus sempre aparece como o Goel do seu povo. E, o que isso quer dizer? Que Deus sempre aparece
como forte guerreiro que venceria em favor do seu povo, que libertaria o seu povo. Por isso, para
os judeus, essa dinâmica de serem salvos era extremamente forte e importante. E veio o Bom 
Pastor, Cristo Jesus. Ele veio trazer uma libertação mas eles não acreditaram. Pois, a libertação
que Jesus veio trazer é uma libertação do homem na sua essência mais profunda, mas eles esperavam
uma libertação social e política. Por isso, São Pedro, na segunda leitura, recorda que o Cristo foi
ultrajado e maltratado, e Ele não abriu a boca. Parafraseando Isaías 53, Pedro recorda que o Cristo
sofreu por não saberem interpretar a libertação que Ele veio trazer. E embora mal compreendido,
embora morto como malfeitor, nós eramos curados por esse cordeiro de Deus. Por isso, Cristo
é ao mesmo tempo sacerdote, altar e cordeiro. Como cordeiro ele se oferece a morte. Como altar
é ele o lugar do seu sacrifício. E como sacerdote ele se oferece livremente. Mas, Ressuscitou o Bom
pastor que quis morrer pelo rebanho e dar a vida pelas ovelhas. Sendo sacerdote, Cristo assume
a imagem do Bom Pastor. Ele deu a vida e ofereceu-se pelas ovelhas. O Bom Pastor, como o próprio
Cristo disse, dá a vida pelas ovelhas. Se todos nós estávamos desgarrados e distantes do rebanho
pelo pecado, Cristo pagou o preço do nosso retorno ao rebanho e mereceu, a todos nós, a vida
em abundância, a vida em plenitude, que ele próprio disse que teria quem entrasse e saísse por
Ele. Isto quer dizer que, quem faz parte de Cristo, do seu corpo místico, da Igreja, em verdadeira
comunhão com Ele, como membro do seu rebanho, tem a vida em abundância. Mas, só pode ser
verdadeira ovelha do rebanho quem vive em Cristo. E, quem vive em Cristo, vive afastado do 
pecado. Pois quem é de Cristo não pode ser do Bom Pastor. Nós somos colocados aqui diante 
de uma escolha: Sermos do rebanho ou sermos ladrões. Se formos do rebanho o Bom Pastor irá
nos buscar quando nos perdermos. Se formos ladrões das ovelhas, iremos ser causa de perdição
para muitos e muitas. Ninguém se perde sozinho. Somos levados para o inferno e sempre levamos
muitos outros conosco, sendo responsáveis pelo pecado de muitos. E, mesmo que façamos sozinhos,
somos ladrões de nós mesmos para Deus. Nós temos o livre arbítrio, mas, ao mesmo tempo, o 
Bom Pastor já deu o seu sangue para que nós façamos parte desse rebanho. Pecarmos é desvalorizar
o sangue do Bom Pastor, que quis morrer pelo rebanho, mas que venceu por todo o Rebanho.
Nessa dinâmica pascal que vivemos, somos convidados a, pelo Batismo, fazermos parte deste
rebanho do Bom Pastor, lavados e purificados de nossas culpas, vivermos em comunhão com 
o Ressuscitado que vive entre nós e que não cessa de nos chamar a alegria da comunhão com Ele.
Mas, além de ser de Cristo, precisamos nos configurar a Ele. Esta configuração que, neste dia, todos 
nós, sacerdotes, somos convidados a fazer. Configurar-se ao Bom Pastor, irmãos caríssimos, é
reconhecermos que precisamos nos dar pelo rebanho do Senhor. Somos parte desse rebanho,
mas, ao mesmo tempo, precisamos ser pastores. Precisamos doar e desgastar a nossa vida pelo
bem do rebanho, para que o rebanho não se perca, para que o rebanho encontre em nós a docilidade,
a ternura, e a paternidade do Cristo. Se assim o fizermos, no final de nossa vida, o Bom Pastor 
nos convidará a nos unirmos a Ele, pois continuamos a sua missão. E a todos e todas reunidos 
nessa noite, eu pergunto, e vos convido a reflexão: Valorizar em vossa vida o Bom Pastor 
derramou 
por nós? Estais dispostos a viver como rebanho do Bom Pastor ou preferis ser ladrões do rebanho?

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