Digníssima Irmã Suzana, superiora da Ordem das Clarissas,
Amados irmãos e irmãs,
estamos reunidos para a Santa Ceia, na qual Jesus Cristo, ao entregar-se à morte, deu à sua Igreja
um novo
e eterno sacrifício, como banquete do seu amor. Hoje pela manhã encerramos a
Quaresma
e nesta tarde iniciamos o tríduo Pascal. A Páscoa do Senhor é
celebrada em três dias. O primeiro
dia é a Sexta-Feira, que já entramos,
dia da entrega, a paixão e morte do Senhor. O segundo Sábado
onde Cristo
que permanece na morte. O terceiro dia é o Domingo da Páscoa, onde celebramos
a
vitória de Cristo sobre o pecado e a morte com sua ressurreição, iniciamos sua
celebração na
Noite Santa e, depois, celebramos o Tempo Pascal por 50 dias. Cristo,
hoje, se entrega liturgicamente.
Mas, a tradição de celebrar a liturgia não foi
instituída por Cristo. Por volta de 1313 anos antes de
Cristo, Deus dá a
Moisés e Aarão no Egito uma ordem, uma
sequência litúrgica de como cear a Páscoa.
É isto que nós vemos na primeira
leitura. A Páscoa já era celebrada pelos judeus, que comemoravam
a
sua libertação do Egito. O povo era escravo do Faraó no Egito, mas Deus
tirou seu povo de lá.
Essa Ceia que os judeus até hoje celebram, na
verdade, prefigurava Jesus Cristo. Cristo é esse cordeiro,
sem defeito, sem
mancha, que devia ser imolado. O sangue do cordeiro devia ser passado no
batente
das portas para que o anjo exterminador não matasse os
primogênitos que habitassem naquela
casa. Do mesmo modo o sangue de Cristo
que vai ser derramado na cruz é o que nos poupa da
morte eterna. Por isso,
irmãos, Jesus manda seus discípulos fazerem uma Ceia para eles comemorarem
a Páscoa. Mas, essa comemoração pascal de Jesus se dá um dia antes do dia
que se devia celebrar a
Páscoa. Isso porque chegou o tempo de uma nova Páscoa.
Uma Páscoa que precedia em importância
a primeira Páscoa, era o momento da
passagem do Filho do Homem. Ali, na Ceia com os discípulos,
Jesus instituí
o Sacramento do Amor, o Mandamento do Amor e o Ministério por Amor. O
Sacramento
do Amor, é narrado na segunda leitura. Jesus rasga o pão,
imaginem a cena, como um sinal que ele
próprio vai se rasgar. Ele próprio
vai se partir, vai ter seu lado rasgado, para nos dar de comer.
Lembre-se
que do lado aberto de Cristo jorrou sangue e água, a Eucaristia e o Batismo.
Quando
Jesus rasga o pão ele nos deixa o sinal que une os dois momentos.
Então ele diz aos apóstolos:
Isso é meu corpo, isso é meu sangue, dado por
vós. Pronto, está instituída a Eucaristia. Jesus celebra
liturgicamente sua
paixão. Como um sinal, sim, mas já como
celebração verdadeira. Quando ele faz isso,
ele sabe que não poderia mais
voltar atrás. Já estava feito. Ele já tinha se entregado desde o começo,
a
cada gota de suor derramada nos caminhos, mas, agora, sua entrega tinha se
levado até o extremo.
Ele já se deu na Eucaristia. Jesus quis permanecer
conosco, e por isso Ele deixa seu Corpo e Sangue.
Nós aqui celebramos a
memória deste evento a cada celebração. Mas cremos, que no Santíssimo
Sacramento,
Jesus está realmente presente. Irmãos e irmãs, ele se entregou. Entrega
realizada
ali para que nós celebremos em sua memória. Ali ele instituiu
uma nova e eterna aliança. Que aliança?
Deus ser nosso Deus e nós sermos o
seu povo. Uma aliança agora firmada eternamente. Não mais o
nosso sangue vai
ser usado na aliança. Apenas um sangue vai firmar essa aliança. É o sangue
de Cristo.
Celebramos essa aliança a cada Eucaristia. Para isso,
Jesus instituí o sacerdócio. Ao dizer, façam
isso para celebrar minha
memória, ele deu a ordem aos apóstolos. Jesus os instituía
sacerdotes.
Mas
não sacerdotes por si próprios, sacerdotes ministeriais pelo ministério de
Cristo. E esses
seus sacerdotes exercerão este
ministério pelo amor em seu lugar, para que nós recebamos, também,
essa fonte
salvadora. No Evangelho, Jesus instituí o mandamento do amor. Ao lavar os
pés dos
discípulos, ele deixa a eles o mandamento de amar como ele amou.
Ele diz: Se vos lavei os pés
vós também deveis lavar os pés uns aos
outros. Mas, compreendamos o que é o lavar os pés. Não é
um gesto de
humildade de Jesus, simplesmente. Lavar os pés é se rebaixar abaixo dos
discípulos.
Lavar os pés é ele dizer que vai se derramar pelos amigos, por
aqueles que ama, a humanidade
toda. Por
isso, quando São Pedro diz que o Senhor não o lavaria os pés, Jesus o
repreende. Se Jesus
não se derramasse por Pedro, se Jesus não morresse por
Pedro, por todos nós, não haveria vida
eterna. Ele precisava se derramar
por todos. Para que todos tenham parte com Ele, para que todos
tenham a
vida e vida em plenitude. São João é o único evangelista que não narra a
Ceia como
instituição da Eucaristia, mas sim como Lava-Pés. Cristo que se derrama diante dos apóstolos,
de
outro modo. E, depois, Jesus dá um mandamento novo, o mandamento do amor.
O mandamento
que resume todos os outros, que se sobrepõe sobre todos os
outros. Não devemos mais amar o outro como
nos amamos. Não! Devemos amar
como ele amou. E ele amou dando a vida. Ele amou morrendo.
Devemos nos
amar com capacidade de nos doarmos completamente uns pelos outros, dando a
nossa
própria vida, morrendo por amor. Este é o amor de Cristo. Esta é a
medida do amor. Sim, ele deu a vida
por cada um de nós, e nós queremos nos
santificar por essa entrega, participando de sua Ceia,
participando do seu
amor. Que sejamos em nossa vida, capazes de entender esses mistérios, de
viver
esses mistérios, para chegarmos, no seguimento de Cristo, na
plenitude do amor e da vida. Amém.
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