quinta-feira, 8 de julho de 2021

08.07.2021 - Audiência Geral (Deus salvou o mundo)

Irmãos e irmãs, nós falamos em Roma nas semanas passadas que Deus criou o mundo e amou. Depois, nós vimos como o pecado entrou no mundo e corrompeu a humanidade, quebrando nosso elo com Deus. Era preciso, então, que nossa ligação com Deus fosse reestabelecida. Já no Antigo Testamento, no primeiro livro da bíblia, o gênesis, aparece um conceito muito importante para entendermos a salvação: GoEL. Deus é apresentado como GoEL. Mas, o que é GoEL? Vem do verbo GaAL, que é resgatar, redimir e libertar. Assim, o GoEL é aquele que resgata, o redentor, o vingador de sangue. Na tradição do povo de Israel, é o parente mais próximo de alguma vítima, que tem como obrigação vingar, resgatar os bens e as pessoas que caíram em mãos alheias. É uma solidariedade do próprio sangue. Lembremo-nos que a lei de Talião, em Lv 24, 19-20, diz que deve ser olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé e vida por vida. Ora, se alguém me tirasse algo que por mim mesmo não posso recuperar, como a vida, que se vinga por mim é o GoEL. E Deus é esse que faz justiça em favor do seu povo. No Êxodo do povo de Israel do Egito, o grande paradigma da salvação da parte de Deus é apresentada para nós. A história do Êxodo é a história de um Deus salvador e libertador. No relato bíblico do Gênesis, o Faraó e os egípcios são o mundo que não entendem a ação de Deus. E não basta que Deus salva, ele precisa mostrar sua grandeza e sua força. Parece que o próprio Deus endurece o coração do Faraó, quando este não permite que o povo saia do Egito, justamente para manifestar ainda mais sua glória. Então, Deus liberta seu povo que havia sido feito escravo e causa aos egípcios tanto mal quanto foi causado ao povo de Israel. E, ali, na saída do Egito, cruzando o Mar Vermelho e indo para a Terra Prometida, o povo de Deus experimenta o que é ser GOI QaSA, isto é, um povo separado, nação de sacerdotes e povo santo, elevado acima dos outros povos. Então, passados muitos séculos, chegou a plenitude dos tempos. O tempo se cumpriu e Cristo entrou na história humana. O logos, o verbo, a Palavra de Deus entrou no mundo. Ele é o nexo de todas as coisas criadas e os seres somente tem a vida unidos a ele. Ele veio com o objetivo de reatar os laços entre Deus e os homens. Ele é o homem perfeito, que está em relação equilibrada com a natureza, com os homens e com Deus, como nos revela o seu batismo, em Mt 3, 13-17. No sermão da montanha, Jesus nos mostra como a nova justiça é superior a antiga justiça. Ele é novo Moisés que sobe à montanha e ensina a nova lei que será plenamente demonstrada pelo mandamento do amor, onde devemos amar como Ele nos amou. Jesus nos concede a nova e verdadeira oração, que é o Pai nosso. São João, em seu Evangelho, apresenta os sete sinais de Jesus Cristo, como antecipações da hora de Jesus. São João fala muito sobre a hora. Logo no primeiro sinal, em Jo 2, 1-11, as Bodas de Caná, nós vemos um casamento significando a Aliança. Jesus Cristo traz o vinho novo, mostrando que o vinho da aliança antiga acabou e o vinho novo chega e é superior ao antigo. O segundo sinal é a cura do filho do funcionário real, em Jo 4, 46-56. Em Jo 5, 1-18, Jesus antecipa a hora do movimento da água da piscina e cura o paralítico. Na verdade, ele antecipava a sua hora. E volta a antecipar a sua hora no milagre dos pães e dos peixes, em Jo 6, 1-14. E antecipa a hora quando, com o mar representando o perigo e a morte, em Jo 6,16-21, Jesus caminha sobre as águas. O sexto sinal de Jesus é curar o cego de nascença em Jo 9,1-41, e a plena demonstração da antecipação de sua hora é ressuscitar Lázaro em Jo 11, 1-43 como seu sétimo sinal. A consequência dos sinais porém, como vemos em Jo 11, 45-54, não é paz. Pelo contrário, realizar os sinais conduz Jesus Cristo à morte. 

E, como explicarmos quão grande mistério que é a nossa Salvação, senão por um exemplo mais palpável para nós? Penso que todos já assistiram "As crônicas de Nárnia: O leão, a feiticeira e o Guarda Roupa". Vasculhemos então nossa memória e vamos para a história. Todos estão em trevas, não tem natal, pois não tem Jesus. Vive-se um eterno inverno, onde parece que tudo está morto, mas há uma esperança que é aquela luz que fica acesa no lampião na entrada de Nárnia. Nós percebemos que o personagem Edimundo se retira da refeição para ir entregar os seus, como Judas Iscariotes fez para ir entregar Jesus. Aslam, o grande leão, se retira logo após a rainha ter roubado o fruto, para voltar depois. Nós percebemos, no filme, que todo traidor pertence a rainha branca, como todo traidor pertence ao diabo. A consequência do pecado é a morte. No filme, Aslam morre no lugar dos outros. Como leão, lhe foi tirado o pelo, despido as vestes e humilhado. A mesa de pedra da rainha branca servia para matar os pecadores, como a cruz servia para matar os malfeitores. No altar de pedra, Aslam é imolado, como Cristo é imolado na cruz. Então, o altar de pedra se quebra, lembram? Sim, o altar de pedra se pedra, deixa de existir como altar, pois cessaram os sacrifícios. Um sacrifício foi oferecido no lugar de todos.  Exatamente assim foi com Cristo. 

São João nos recorda em Jo 13, que Jesus amou os seus que estavam no mundo e amou-os até o fim. Ele sofre um sacrifício vicário, isto é, em nosso lugar. Outrora os animais eram sacrificados em nosso lugar, mas estes não eram plenos. Cristo, então, se oferece uma vez por todas na cruz. Uma única gota de seu sangue salvaria a humanidade. Mas, Ele escolhe se entregar inteiramente por amor a nós. Ele precisava dar uma prova de seu amor, que é a doação da própria vida para que nós tivéssemos a remissão dos pecados. Seu sangue esgotado na cruz, pagou o preço do nosso sangue. De tal modo que hoje, se escolhemos pecar, nós tornamos o preço que foi pago pelo nosso sangue, inútil. Jesus desceu a mansão dos mortos e resgatou Adão e Eva cativos. E, vencendo a morte, ressuscitou em corpo glorioso, manifestando a vida que teremos com Ele. São Paulo, no Hino à Kenosis, em Fl 2, 6-11, nos canta maravilhosamente como Cristo elevou tudo para cima. Ele, se rebaixando a nossa humanidade nos elevou. Jesus, após pagar nossa dívida como nosso GoEL por sua morte, ressuscitar para nos dar a vida e viver com os discípulos por quarenta dias, subiu aos céus para garantir nossa salvação, garantir que nós também tenhamos parte com Deus. Jesus Cristo inaugura o céu para nós. Por isso, ao nome de Jesus todo joelho se dobra nos céus, na terra e nos infernos, e toda língua reconhece confessando, para a glória de Deus Pai e seu louvor, na verdade Jesus Cristo é Senhor. E Jesus voltará na segunda vinda gloriosa, para a qual caminhamos pressurosos nesta vida. Irmãos e irmãs, sermos salvos, entrarmos em comunhão com Deus tem suas consequências e é sobre isso que vamos falar na próxima semana. 

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