quarta-feira, 30 de junho de 2021

30.06.2021 - Audiencia Geral (O pecado entrou no mundo)

Irmãos, semana passada falávamos de como Deus criou o mundo e o amou, como esse amou trouxe a aliança entre o povo e Deus. Mas, nessa história de amor, que tinha tudo para ser permanente, aconteceu um evento que a modificou: o pecado entrou no mundo. O relato do livro do Gênesis, capítulo 3 e versículos de 1 a 13 nos apresenta o paradigma do pecado original. O Catecismo da Igreja Católica nos coloca esse pecado como a desobediência. Embora muitos digam que o pecado tem um outro cunho, não é verdade. O pecado da humanidade é a desobediência. O pecado é não se subordinar a Deus, ser como deuses, que conhecem e determinam o bem e o mal. Assim, o homem ofende a solidariedade humana e torna os outros seres submissos a Ele. Na linguagem da Verbum Domine, n.26, o pecado é a "não escuta da palavra de Deus". O relato do gênesis nos mostra como não há um reconhecimento da culpa. Adão joga a culpa para Eva e Eva joga para a serpente. Na história de Caim e Abel nós encontramos um protótipo da humanidade manchada pelo pecado e da própria ambiguidade humana, tendo em vista que, em cada pessoa humana há um pouco de Abel e um pouco de Caim. Indo para o relato bíblico do Gênesis, no capítulo 4, versículo 1 a 16, vemos essa narrativa. Caim é CaIn, uma palavra que tem afinidade com o verbo "adquirir" e uma possível relação com "estável" e "permanente", menos flexível, menos dócil. Abel é haVEL, que tem afinidade com hevel, que é o verbo que quer dizer sopro, vapor, capaz de molde, flexível. Então em Caim vs Abel nós temos rigidez vs liberdade. E qual vai ser a consequência disto? Por que Deus acolheu a oferenda de Abel e não acolheu a de Caim? Ora, a resposta para a essa pergunta é aberta. Mas, quando Caim mata Abel nós percebemos nele a abertura para o pecado. Há um crescimento da mágoa e domínio do ódio em Caim. Caim deixa aquela liberdade que é o auto domínio, o poder escolher entre as possibilidades. O pecado condiciona, cega uma pessoa e o amor, o perdão, liberta. O pecado nos faz não nos preocuparmos com os outros, por isso quando o Senhor procura Caim e pergunta sobre Abel ele diz que não é guarda de seu irmão. Mas, o sangue do inocente Abel "grita/clama", representando o "grito", o clamor de todos os inocentes. Caim, é, então expulso da ADaMah. E aqui precisamos entender como expulsão da própria humanidade, pois o pecado não é próprio da humanidade. Mas, Deus não abandona mesmo o maior pecador, ele marca Caim. A marca tem um nome, OT, e tem um valor positivo e negativo. A marca protege, mas também marca como pecador. Isso nos recorda que o pecado sempre, sempre, deixa uma marca em nós. O pecado, então, marcara a história humana. Gênesis 6 nos mostra como houve uma corrupção quase total da humanidade, onde a maldade se multiplicou. O texto bíblico então traz um verbo, dizendo que Deus se arrependeu. Mas, também podemos traduzir como "Deus sentiu compaixão", isto é, "Dor de entranhas". Deus sente a dor por ver sua criatura corrompida. Deus, então, salva a Noé e sua família, pois ele era íntegro, um autêntico ADaMah, um homem não afetado pelo pecado. E por quarenta dias e quarenta noites cai a chuva. Quarenta é o tempo de purificação, o espaço privilegiado da ação de Deus. A água, nessa história, não é sinal de destruição, mas de nova criação, e no céu surge o Arco-íris, sinal da aliança, da B´RIT. Mas, ainda sim, os homens continuam no pecado. Em Babel o ser humano quer igualar-se a Deus e subir aos céus por conta própria. Ao contrário disso, o homem experimenta a divisão e destruída a comunicação com Deus. Só Deus poderá restabelecer a relação com a humanidade. Na História dos próprios patriarcas haverá a presença do pecado. Isaac, filho de Abraão, teve dois filhos: Esaú e Jacó. Jacó era o mais novo e ainda sim compra a primogenitura, como se o irmão mais novo tivesse morrido e Rebeca, envolvida na história, recebe quase toda a responsabilidade pelo "roubo" de Jacó. Com José, um dos filhos de Jacó, o povo de Deus vai trabalhar no Egito. E lá, a maldade humana torna o povo de Deus escravo dos egípcios. E mesmo quando sai do Egito e está em caminho da terra prometida o povo continua infiel. Moisés recebe as tábuas da lei, escrita dos dois lados como "lei plena", como Palavra de Deus gravada na pedra. Se só falada a lei já é eficaz, gravada na pedra ela é o próprio Deus presente. Mas, então, descendo das montanha, Moisés encontra a idolatria, como nos mostra o livro do Êxodo, no capítulo 32, versículos de 15 a 20. O que é um ídolo? É algo criado pelo idólatra, que não tem vida por si mesmo e que não dá vida. Quando Moisés vê que o povo tinha ídolos, ele quebra as tábuas, pois há outros deuses em Israel e o faz no pé da montanha, pois o povo está longe de Deus. O ser humano quer um Deus ao seu modo, e não como Ele é. Quando no tempo dos juízes, o povo não reconhece o reinado de Deus e vão ficar pedindo que Deus troque de reis. Até mesmo o rei Davi encontra-se com o pecado. O segundo livro de Samuel, no capítulo 11, nós vemos que Davi cobiça Betsabeia, mulher de Urias e trama para tomá-la. Mata-se Urias e Davi se torna pecador. Mesmo assim, no capítulo seguinte, Davi é o que escuta a Palavra de Deus e é perdoado. O problema de Deus não é com o pecador, mas, com a não-conversão, com não respondermos a palavra ouvida. Por isso, Davi morre com a dignidade de rei de Israel e como prova do perdão, dele nasce Salomão. Salomão também vai se desviar, pelas riquezas, casamentos e idolatria. E nós observaremos o exílio que o povo de Deus sofre quando vai para a Babilônia, pois o rei Jeoquim faz alianças com outros povos e vê Jerusalém sitiada, no ano de 597 a.C. E no exílio o povo vai sentir a saudade de Deus, pois como nos revela o Salmo 137 e o livro das Lamentações, o povo se sente abandonado por Deus e sem motivo para alegrias. Como consequência do pecado, o povo sente-se não-amigo de Deus, fora da relação com Ele. Não há mais profetas, nem Lei, nem palavra. O povo sente a consequência de seu pecado. Ali, há a saudade de Deus. O salmista do salmo 137 nos mostra que eles não querem cantar, pois cantar era alegria e que o povo pendurou suas harpas no salgueiro. O salgueiro são árvores sem frutos, como era sem fruto a vida espiritual dos exilados. Em toda a confusão desta história, nós vemos a presença do pecado. Mas, nesse ir e vir do pecado na história humana, chegará um momento que o homem precisará se reconciliar plenamente com Deus. Por isso, Jesus veio ao mundo para salvar a humanidade: tema da próxima semana.

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