terça-feira, 22 de junho de 2021

22.06.2021 - Audiência Geral (Deus amou o mundo)

Irmãos, estamos iniciando nosso novo ciclo de catequeses sobre o tema da nossa Salvação. É preciso conhecermos a história da Salvação para encontrarmos a verdade que é Cristo Jesus. Para isso, seguiremos os passos do anúncio que era feito pelos apóstolos nas primeiras épocas. 
O primeiro passo para a nossa reflexão é o amor de Deus. Deus existe e isso é um fato. As vias racionais para provar a sua existência são inúmeras. Então se Deus existe, ele é bom e é amor. Precisamos compreender que Deus não nos deixou nunca, de tal modo que diz o profeta Isaías no capítulo 43, versículos 3 a 5: "... você é precioso para mim, é digno de estima e Eu o amo... Não tenha medo, pois Eu estou com você...". O profeta Jeremias também diz "Amei-te com amor eterno" (Jr 31, 3). Deus nos ama por ser o nosso pai criador. É preciso que compreendamos o que Garcia Rubio nos diz: "A Fé no Deus Salvador é anterior à fé no Deus Criador.". Deus é chamado de EL, que originalmente era o Deus mais importante do panteão cananeu. Quando Deus revela-se, diz que ele é aquele que é, a escritura traz o termo IHWH. Não é Iaweh, é IHWH. É um nome impronunciável, e justamente que não pode ser pronunciado. Com a experiência de Abraão vai surgir o monoteísmo. Outro nome dado a Deus é ELOHIM, ou IHWH-ELOHIM, isto é, Adonai Deus. Com a primeira narrativa da criação, iniciamos com a frase bíblica BERESHIT BARA ELOHIM. No princípio Deus criou. BARA é o verbo criar, que somente é atribuído a Deus. Deus cria tudo "ex nihilo", isto é, do nada, pois se não fosse do nada ele não seria onipotente. Neste caso, Deus seria apenas um organizador, com a matéria preexistente. Deus nos cria por sua vontade livre e amorosa, "por" e "para" a liberdade e o amor. Mas, há uma situação de não criação, anterior, conforme nos recorda Ruiz de la Peña. Nesta situação só havia trevas, informidade e possibilidade de ser. Então, no terceiro versículo do primeiro capítulo do gênesis, Deus utiliza da Palavra criadora. O Papa Eugênio IV, no Concílio de Florença, em 1442, diz que "Deus criou por bondade todas as criaturas espirituais e corporais, boas, é claro, pois são feitas pelo Sumo Bem, mas mutáveis, porque feitos do nada, afirma que não há natureza má em si mesma, porque cada natureza enquanto tal é boa". Então Deus cria o ser humano. Ele usa o verbo no plural: "façamos", se referindo a obra trinitária da criação. O homem é criado a imagem (TZELEM) e semelhança (D´MUT) de Deus. Pela imagem o homem tem capacidade de relação e pela semelhança é capaz de ter bondade. Santo Tomás de Aquino (STh, Q93, a9), diz que imagem é o amor e a semelhança é a virtude. Deus criou ADaM, o gênero humano, que na bíblia do grego dos LXX foi traduzido como anthropón. Neste sentido, somos relacionados, mas não somos iguais a Deus. Deus nos criou macho (ZaCaR) e fêmea (N´QeVah). O segundo relato da criação já nos apresenta a criação do ser humano num primeiro momento. O ADaM, então é criado pela argila (ADaMah). Deus, então soprou o hálito da vida sobre o homem, é o NeFeSh. Passado o tempo da criação, a relação de Deus com o seu povo vai se dar por meio da Aliança (B´RIT). A aliança está expressa no livro do Exôdo, capítulo 6, versículo 7: "Tomar-vos-ei por meu povo e serei o vosso Deus". Há uma relação de pertença e posse que são recíprocas, é uma relação de amorosa e conjugal. A aliança com Deus não é individual, mas, com um povo ou grupo e necessita da fidelidade de ambos os lados. A consciência de ser povo eleito (BaHar) é a mais primitiva que Israel tem. É um pensamento de uma situação privilegiada diante das nações. A eleição é fundada no amor. A eleição não é um privilégio, mas, uma responsabilidade. É um compromisso que exige uma resposta amorosa. Com a aliança firmada com Abraão, um novo vínculo se forma entre Deus e o povo. Ele se torna El SHaDDaI, o Deus todo poderoso, que vai guardar seu povo. A aliança é selada com o se cumprimento até as últimas consequências, o OLah de Isac, isto é, seu sacrifício que queima. E o sinal da aliança é a circuncisão, que significa, também, "cortar". Isto é, corta-se um pacto entre Deus e o seu povo, como foi cortando os animais ao meio que se firmou a aliança com Abraão. A circuncisão é feita no oitavo dia, que representa a continuidade da obra criadora. Se Deus criou por amor e para o amor, é com a aliança que esse amor se torna vínculo que deve ser indissolúvel. Com a história da saída do povo de Israel do egito percebemos um Deus apaixonado, que ama seu povo, que vê sua miséria, ouve (mesmo verbo que usado no SHEMÁ) o clamor do seu povo e se envolve com ele. É um Deus que se comove com seu povo. Deus se revela como Eh´Ieh ASHeR Eh´IeR, isto é, ele é aquele que é. Na bíblia dos LXX ele diz que Ele é o existente, para a Vulgata é o que é, mas pode ser também o que será, o que será aquele que estará, ou aquele que está. Nós percebemos que Deus se revela ao seu povo, mas permanece oculto ao mesmo tempo. Ele vai sendo entendido e conhecido na prática, na sua história de amor com seu povo. Mas, no meio desta história, logo depois da criação de ADaM, haverá um acontecimento que mexerá com toda essa estrutura de amor e que obrigará a própria existência da aliança que falamos hoje: o pecado entrou no mundo; tema da nossa próxima catequese.

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