“O que está acontecendo hoje?”
Este questionamento de um
autor desconhecido, de uma homilia no grande sábado santo, leva a uma profunda
reflexão sobre a descida de Cristo à mansão dos mortos. O amor de Cristo não se
encerra quando todo seu sangue se esgota. Seu serviço e entrega permanecem até
enquanto morto.
Na véspera da sexta-feira
Jesus se reuniu com os discípulos para a ceia. Nela, o Mestre realiza o lava-pés
e a fração do pão, manifestando sua entrega. O primeiro não é um ato de simples
humildade, mas, representação da sua morte. A morte seria o ato maior de serviço
do Messias pela humanidade. Vemos Jesus dizendo a Pedro que se Ele não morresse
por Pedro, se não entregasse sua vida, homem algum tomaria parte na vida de
Cristo. O segundo momento é sua entrega litúrgica, quando os alimenta com seu
próprio corpo e sangue. Mais tarde naquela sexta-feira, com o sol já estando no
céu, Jesus se entrega historicamente. Ao mesmo tempo que os cordeiros dos
judeus eram sacrificados, no altar da cruz, o Cordeiro de Deus se dava em
sacrifício. Não mais o sangue dos cordeiros precisaria ser passado no batente
das portas. Pois, a própria cruz, na qual estava crucificado o Filho de Deus,
estava encharcada do sangue do verdadeiro Cordeiro. No alto da cruz vemos o
“Deus santo, Deus forte, Deus imortal”. O Deus santo foi crucificado como
malfeitor. O Deus forte em fraqueza. O Deus imortal dilacerado pela morte.
Naquela tarde, o Filho entrega
seu Espírito ao Pai. Entrega ao Pai aquilo que era entre eles o vínculo de
amor. Jesus já havia se esvaziado do ser igual a Deus, embora não o houvesse
deixado de ser. Mas foi preciso que Deus experimentasse a morte na pessoa do
Filho, superando e abraçando todas as pessoas humanas, tornando possível o
sacrifício redentor por todos (cf. CIC 616). O Evangelista São João narra a
entrega do Espírito quando Jesus inclina a cabeça, prenunciando, assim, o envio
do Espírito Santo sobre a sua Igreja. Ele entrega tudo aquilo que ainda tinha e
experimenta com toda a humanidade, que estava sem o Espírito de Deus, a morte. O
Pai sente a morte do Filho e o Filho, o distanciamento do Pai. Há uma dor no
coração da Santíssima Trindade.
Deus Filho também não impediu
a morte de separar a alma do corpo segundo a ordem necessária à natureza. Porém,
a única pessoa de Cristo não foi dividida em duas pessoas. O corpo e a alma de
Cristo existiram da mesma forma desde o início e ficaram cada um com a mesma e
única pessoa do Verbo. A morte de Cristo foi verdadeira enquanto colocar fim à
sua existência humana terrestre. Contudo, “não era possível que a morte o
retivesse em seu poder” (At 2,24).
Pouco ou quase nada se fala
nas escrituras sobre a descida de Cristo aos infernos. Mas, professamos no
símbolo da fé que Ele, morto, desceu à mansão dos mortos. Neste contexto os
infernos, a mansão dos mortos, o sheol, o hades, são a mesma coisa. É o lugar
onde os mortos, bons ou maus, aguardavam a vinda do Cristo Salvador. Cristo
desce ao sheol para proclamar o Evangelho aos que ali eram prisioneiros. Dali,
daquele lugar de ausência de Deus, Ele vai resgatar os justos que o haviam
precedido (cf. CIC 633). Ali, Cristo vence o Diabo, libertando os justos e
anunciando o Evangelho. Ele passa a deter a chave do hades (Ap 1,18) e até ali,
diante do seu nome, todos os joelhos se dobrarão (cf. Fl 2,10), pois, até ali,
sua salvação chegou.
Retornamos à antiga homilia do
grande sábado santo, do século IV, que tão bem narra o evento da descida de
Cristo à mansão dos mortos. No texto, Cristo vai primeiramente em busca de Adão
e Eva, Ele entra ao encontro deles levando a arma da cruz vitoriosa. Num
belíssimo discurso, diz:
“Acorda,
tu que dormes, levanta dentre os mortos, e Cristo te iluminará. Eu sou o teu
Deus, que por tua causa me tornei teu filho [...] Eu te ordeno: Acorda, tu que
dormes, porque não te criei para permaneceres na mansão dos mortos. Levanta-te,
obra de minhas mãos; eu sou a vida dos mortos. [...] Por ti, eu, o teu Deus, me tornei teu
filho; por ti, eu, o Senhor, tomei tua condição de escravo. Por ti, eu, que
habito no mais alto dos céus, desci à Terra, e fui mesmo sepultado abaixo da
terra; por ti, feito homem, tornei-me como alguém sem apoio, abandonado entre
os mortos. Meu sono vai arrancar-te do sono da morte. Minha lança deteve a
lança que estava voltada contra ti. Levanta-te, vamos daqui. [...] Está
preparado o trono dos querubins, prontos e a postos os mensageiros, constituído
o leito nupcial, preparado o banquete, as mansões e os tabernáculos eternos
adornados, abertos os tesouros de todos os bens e o reino dos céus preparado
para ti desde toda a eternidade”.
Nestes trechos, de modo
especial, vemos a explicação da própria descida de Jesus aos infernos. Por amor
a todos os que o precederam e a toda humanidade, que Jesus desceu à mansão dos
mortos. Naquele dia de silêncio, onde tudo parecia trevas no mundo dos vivos,
na verdade, o Cristo estava debaixo da terra, para ali também realizar sua ação
de salvação. É o momento de todos participarem do Banquete do Cordeiro na vida
eterna. A humanidade não foi criada para a morte. É claro que morreríamos de
qualquer modo, mas essa morte como a incerteza que conhecemos não era dos
planos de Deus. Cristo se abandona entre os mortos para dar a todos os que
seguem os seus caminhos, a certeza da ressurreição.
Tendo chegado a kenosis de
Jesus até a mansão dos mortos, e ali tendo vencido, na madrugada do primeiro
dia da semana, rompe a morte e dos infernos ressuscita vitorioso. Ele passa o
mar da morte e sai do outro lado. A vida tem a palavra final.
O amor de Jesus pela
humanidade foi tão grande que devia recair sobre todos os tempos. Por isso na
ceia ele institui a Eucaristia para os tempos futuros e agora desce para salvar
os que viveram no passado. A graça transbordante e inesgotável do Cristo chega
a toda criatura. Se Cristo rompeu todas as barreiras por amor, quem nos
separará do amor de Deus?
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