terça-feira, 27 de abril de 2021

27.04.2021 - Audiência Geral

“O que está acontecendo hoje?”

Este questionamento de um autor desconhecido, de uma homilia no grande sábado santo, leva a uma profunda reflexão sobre a descida de Cristo à mansão dos mortos. O amor de Cristo não se encerra quando todo seu sangue se esgota. Seu serviço e entrega permanecem até enquanto morto.

Na véspera da sexta-feira Jesus se reuniu com os discípulos para a ceia. Nela, o Mestre realiza o lava-pés e a fração do pão, manifestando sua entrega. O primeiro não é um ato de simples humildade, mas, representação da sua morte. A morte seria o ato maior de serviço do Messias pela humanidade. Vemos Jesus dizendo a Pedro que se Ele não morresse por Pedro, se não entregasse sua vida, homem algum tomaria parte na vida de Cristo. O segundo momento é sua entrega litúrgica, quando os alimenta com seu próprio corpo e sangue. Mais tarde naquela sexta-feira, com o sol já estando no céu, Jesus se entrega historicamente. Ao mesmo tempo que os cordeiros dos judeus eram sacrificados, no altar da cruz, o Cordeiro de Deus se dava em sacrifício. Não mais o sangue dos cordeiros precisaria ser passado no batente das portas. Pois, a própria cruz, na qual estava crucificado o Filho de Deus, estava encharcada do sangue do verdadeiro Cordeiro. No alto da cruz vemos o “Deus santo, Deus forte, Deus imortal”. O Deus santo foi crucificado como malfeitor. O Deus forte em fraqueza. O Deus imortal dilacerado pela morte.

Naquela tarde, o Filho entrega seu Espírito ao Pai. Entrega ao Pai aquilo que era entre eles o vínculo de amor. Jesus já havia se esvaziado do ser igual a Deus, embora não o houvesse deixado de ser. Mas foi preciso que Deus experimentasse a morte na pessoa do Filho, superando e abraçando todas as pessoas humanas, tornando possível o sacrifício redentor por todos (cf. CIC 616). O Evangelista São João narra a entrega do Espírito quando Jesus inclina a cabeça, prenunciando, assim, o envio do Espírito Santo sobre a sua Igreja. Ele entrega tudo aquilo que ainda tinha e experimenta com toda a humanidade, que estava sem o Espírito de Deus, a morte. O Pai sente a morte do Filho e o Filho, o distanciamento do Pai. Há uma dor no coração da Santíssima Trindade.

Deus Filho também não impediu a morte de separar a alma do corpo segundo a ordem necessária à natureza. Porém, a única pessoa de Cristo não foi dividida em duas pessoas. O corpo e a alma de Cristo existiram da mesma forma desde o início e ficaram cada um com a mesma e única pessoa do Verbo. A morte de Cristo foi verdadeira enquanto colocar fim à sua existência humana terrestre. Contudo, “não era possível que a morte o retivesse em seu poder” (At 2,24).

Pouco ou quase nada se fala nas escrituras sobre a descida de Cristo aos infernos. Mas, professamos no símbolo da fé que Ele, morto, desceu à mansão dos mortos. Neste contexto os infernos, a mansão dos mortos, o sheol, o hades, são a mesma coisa. É o lugar onde os mortos, bons ou maus, aguardavam a vinda do Cristo Salvador. Cristo desce ao sheol para proclamar o Evangelho aos que ali eram prisioneiros. Dali, daquele lugar de ausência de Deus, Ele vai resgatar os justos que o haviam precedido (cf. CIC 633). Ali, Cristo vence o Diabo, libertando os justos e anunciando o Evangelho. Ele passa a deter a chave do hades (Ap 1,18) e até ali, diante do seu nome, todos os joelhos se dobrarão (cf. Fl 2,10), pois, até ali, sua salvação chegou.

Retornamos à antiga homilia do grande sábado santo, do século IV, que tão bem narra o evento da descida de Cristo à mansão dos mortos. No texto, Cristo vai primeiramente em busca de Adão e Eva, Ele entra ao encontro deles levando a arma da cruz vitoriosa. Num belíssimo discurso, diz:

“Acorda, tu que dormes, levanta dentre os mortos, e Cristo te iluminará. Eu sou o teu Deus, que por tua causa me tornei teu filho [...] Eu te ordeno: Acorda, tu que dormes, porque não te criei para permaneceres na mansão dos mortos. Levanta-te, obra de minhas mãos; eu sou a vida dos mortos.  [...] Por ti, eu, o teu Deus, me tornei teu filho; por ti, eu, o Senhor, tomei tua condição de escravo. Por ti, eu, que habito no mais alto dos céus, desci à Terra, e fui mesmo sepultado abaixo da terra; por ti, feito homem, tornei-me como alguém sem apoio, abandonado entre os mortos. Meu sono vai arrancar-te do sono da morte. Minha lança deteve a lança que estava voltada contra ti. Levanta-te, vamos daqui. [...] Está preparado o trono dos querubins, prontos e a postos os mensageiros, constituído o leito nupcial, preparado o banquete, as mansões e os tabernáculos eternos adornados, abertos os tesouros de todos os bens e o reino dos céus preparado para ti desde toda a eternidade”.

Nestes trechos, de modo especial, vemos a explicação da própria descida de Jesus aos infernos. Por amor a todos os que o precederam e a toda humanidade, que Jesus desceu à mansão dos mortos. Naquele dia de silêncio, onde tudo parecia trevas no mundo dos vivos, na verdade, o Cristo estava debaixo da terra, para ali também realizar sua ação de salvação. É o momento de todos participarem do Banquete do Cordeiro na vida eterna. A humanidade não foi criada para a morte. É claro que morreríamos de qualquer modo, mas essa morte como a incerteza que conhecemos não era dos planos de Deus. Cristo se abandona entre os mortos para dar a todos os que seguem os seus caminhos, a certeza da ressurreição.

Tendo chegado a kenosis de Jesus até a mansão dos mortos, e ali tendo vencido, na madrugada do primeiro dia da semana, rompe a morte e dos infernos ressuscita vitorioso. Ele passa o mar da morte e sai do outro lado. A vida tem a palavra final.

O amor de Jesus pela humanidade foi tão grande que devia recair sobre todos os tempos. Por isso na ceia ele institui a Eucaristia para os tempos futuros e agora desce para salvar os que viveram no passado. A graça transbordante e inesgotável do Cristo chega a toda criatura. Se Cristo rompeu todas as barreiras por amor, quem nos separará do amor de Deus?

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