Saúdo Dom Joseph Cardeal Ravassi, decano do Colégio de Cardeais, e em seu nome saúdo a cada cardeal presente. Saúdo os demais irmãos que celebram conosco esta Eucaristia em honra de Jesus Cristo, nosso Senhor, pedindo por toda a Igreja. Irmãos caríssimos, hoje somos inseridos na dinâmica do sentido da lei. No livro do Deuteronômio, Moisés convida o povo ao seguimento daquelas leis do decálogo. Moisés exortou o povo a seguir os mandamentos do Senhor, pois eles não são impossíveis. Pelo contrário, é possível cumprir os mandamentos, as leis do Senhor. Mas, só consegue seguir os caminhos do Senhor aqueles que permanecem dóceis a sua Palavra, aqueles que reconhecem que não é pela sua força, mas pela força de Deus. Mas, desde que o pecado entrou na história da humanidade, nós tendemos para ele. É Deus que pode nos fortalecer no caminho oposto, no caminho para a vida eterna, pelos méritos de Jesus Cristo que nos reconciliou com o Pai por sua cruz, conforme explica São Paulo na Carta aos Colossenses. Contudo, antes da Salvação em Jesus Cristo, o povo experimentou a própria fraqueza, assim como nós também experimentamos quando nos afastamos de Deus para seguir a vida do pecado. De fato, o povo de Israel viveu duas grandes experiências como decorrência de seu pecado: a escravidão no Egito e o exílio na Babilônia. A experiência de ser retirado de sua terra, de seu lugar de pertença, por decorrência de seu pecado, como punição pelo seu pecado, fez com que o povo de Israel se lembrasse da importância de Deus em suas vidas. E o povo de Deus cada vez mais se apegou a Lei de Deus. Os dez mandamentos se tornaram 613 prescrições que deveriam ser seguidas pelos judeus. Mas, a Lei, em si, esvaziou-se. Tornou-se cumprimento vazio de um dever. Tanto que, nós percebemos na pergunta do mestre da lei a Jesus: "o que devo fazer?". O mestre da lei quer fazer o mínimo. De fato, quando ele pergunta a Jesus quem é o seu próximo, ele está pensando no mínimo. O próximo para o judeu era apenas outro judeu. Não eram próximos os pecadores, os estrangeiros, os leprosos, os samaritanos. E vejam que, na parábola do Bom Samaritano, contada por Jesus, o próximo do homem que estava ferido foi o samaritano. E, aqui, um puxão de orelha para nós, como Igreja: o sacerdote e o levita olham para o homem caído, mas continuam seu caminho. A IGREJA NÃO PODE OLHAR PARA OS CAÍDOS, PARA OS SOFREDORES DE NOSSO TEMPO E DE NOSSA REALIDADE E FICAR ALHEIA. NÓS, HOMENS DA IGREJA, NÃO PODEMOS FICAR ALHEIOS AS DIFICULDADES DOS NOSSOS IRMÃOS! E quais são as dificuldades de nossos irmãos? Depressão, ansiedade, outros tipos de sofrimentos. São as periferias existenciais que nossa realidade virtual nos permite alcançar, mas que só alcançaremos quando formos capazes de olhar para os nossos irmãos e tocarmos nas suas feridas. Saíamos por esse hotel e vamos ao encontro dos que estão feridos: eles sempre se revelarão para nós. Vamos nos sujar com os nossos irmãos machucados e vamos permitir que o seu sangue se impregne a nossa pele, como Cristo impregnou com o seu sangue o madeiro da Cruz. Sim, irmãos, pois também nós somos pecadores, nós também somos os machucados. O pecado nos assaltou e nos deixou lá jogados, caídos, condenados a morte eterna. Mas Cristo vem, nos toma em seus ombros e nos cura. Suas chagas nos curaram. O Senhor não nos leva mais a uma hospedaria, mas para a Casa do Pai, para a Ceia da Comunhão eterna, a qual já experimentamos aqui e agora sob o véu do sacramento.
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